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Capítulo 141 de 150
Emílio de Menezes *
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
A você, meu irmão, antes que parta 2. Para o jardim que a escória humana aduba No cultivo da terra fria e farta, Falo como quem sopra velha tuba.
Andei fazendo prosa, verso e carta, Esvaziando prato, copo e cuba, Mas a morte triunfal tudo coarta No tiro certo com que nos derruba.
De olhar em outro rumo, inda poeto Atendendo a alegria do improviso De coração feliz conquanto inquieto.
No incenso a Baco já não me agonizo, Prossigo além, exótico e discreto, 14. Mangando embora, mas com regra e siso...
(*) Amigo de Guimarães Passos e Olavo Bilac, Emílio foi uma das figuras mais populares do Rio de Janeiro. Temido poeta satírico, o “Caçados de rimas difíceis”, no dizer de Agrippino Grieco, conquanto eleito, em 1914, somente dias antes de sua desencarnação veio a tomar posse no Petit Trianon, sem as formalidades exigidas pelo Regulamento da Academia. Saliente E. Werneck que “Emílio de Menezes gravou os seus poemas a buril: foi um dos mais extremados na perfeição artística e no lavor da forma cuidada”. (Curitiba, Paraná, 4 de julho de 1866 – Rio de Janeiro, Gb., 6 de junho de 1918).
BIBLIOGRAFIA: Marcha Fúnebre; Poemas da Morte; Poesias; Últimas Rimas; etc.
2. Observe-se a imagem que constitui, aliás, expressivo eufemismo. 14. Neste soneto, o poeta demonstra sua preferência pelas rimas raras e cruzadas, nos quartetos, com disposição característica nos tercetos (cdc, dcd), como o fizera em “Numa Lápide” (apud Os Mais..., pág. 99), “Envelhecendo” (apud E. de M., o ùltimo Boêmio, pág. 181), etc. Importante também é que encontramos neste “Recado” cinco martelos, o que corresponde à estatística de M. Cavalcanti Proença (Ritmo e Poesia, págs. 87-88), que, em 840 versos do grande satírico, encontrou 307 martelos. Isto vem demonstrar que, embora mais sério, o vate ainda não se libertou do ritmo comum aos mestres da sátira. SOMBRA E LUZ
PAULO Silva ARAUJO *
Surde a aurora sublime – angélica pintura... 2. Em breve, murcha a luz qual bela flor sem vaso... Débil raio de sol passeia pelo ocaso, 4. E cai, bruxuleante... E morre em fímbria escura...
Vai o vento brejeiro, ao calor que o tortura, 6. A brincar de espremer mil cachos, ao acaso, De nuvens colossais do firmamento raso... Vem a chuva que esparze o olor da terra pura...
Nosso espírito, assim como o dia triunfante, É vida e resplendor em trânsitos nervosos, Insaciáveis quanto o fogo crepitante...
Alma! Doma o querer! Vence o passo erradio! Falena – subirás em vôos prodigiosos, Nume estelar transpondo o báratro sombrio!
(*) Poeta simbolista, médico, farmacêutico e cientista. Foi membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Patrono, na Academia Fluminense de Letras, da cadeira nº 31. Castro Menezes, seu dileto amigo de ginásio, sentenciou acerca da personalidade de PA: “coração de Poeta, alma de Sábio, caráter de Apóstolo”. Aliás, todos quantos privaram da amizade de Paulo Araújo, como João do Rio, Pereira da Silva, Humberto de Campos, reafirmaram-lhe as superiores qualidades de poeta, sábio e santo. Depois que se tornou “fervoroso espiritista”, na última década de sua existência, ele proclamava com desassombro as suas novas convicções (apud Carlos da S. Araújo, Paulo
Silva Araújo, págs. 30-31). Niterói, Estado do Rio, 25 de julho de 1883 – Rio de Janeiro, Gb, 22 de outubro de 1918).,
BIBLIOGRAFIA: Alto Mar, versos; etc. Deixou inédita vasta bagagem literária e científica.
Poderosa comparação: “murcha a luz qual bela flor sem vaso...” 4. Observe-se a expressividade da diérese em bru-xu-le-an-te e do polissíndeto que dão, com efeito, idéia de que o débil raio de sol que passeia pelo ocaso, cai... 6. O rípio “ao acaso” corresponde ao “modesta” de “Hipodermia” (apud os Mais..., pág. 207) – 7º verso:
“E quantos sonhos ideais, modesta,/ Ela conduz quando contém morfina...” AO TOQUE DO AMOR
PEDRO de Castro VELHO *
Rompendo a bruma, em louca arremetida, avança No incrível desvario em que se deblatera, Onde a sombra abismal domina, esfera a esfera. O triste obsessor, faminto de esperança.
Preso ao mal que atormenta e à dor que não descansa, O que mais o acabrunha e o que mais o exaspera É sua estranha volta aos instintos da fera, Na loucura feroz que o propele à vingança.
Espírito infeliz, padece no braseiro De flagelo mental, gargalhantes e escarninho, - Mil remorsos bramindo em torvo cativeiro... Mas ao toque do amor, sem que a treva o degrade, Arrepende-se e clama, ante o novo caminho, 14. Para nova missão na glória da humildade.
(*) Patrono, na Academia Sul-Riograndense de Letras, da cadeira nº 32, e colaborador de diversos jornais e periódicos de sua terra natal, dentre outros, O Diário, O Pampa, A Revista do Sul. A princípio, foi Pedro Velho grande poeta romântico, “intérprete espontâneo da desesperança e da piedade”, segundo a expressão de João Pinto da Silva (Hist. Lit. R.G.S., págs. 120 e 124): depois, transformou-se “num profissional do humorismo, muito embora continuasse, no íntimo, a alimentar-se do mesmo pessimismo e da mesma angústia (idem, pág. 126). (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 29 de junho de 1882 – Porto Alegre, 7 de setembro de 1919).
BIBLIOGRAFIA: Ocasos.
Sobre o esquema rimático dos tercetos, cf. o soneto “Primavera! (apud Col. Poetas Sul-Riogr., pág. 196), uma de suas produções isentas de imagens negativas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.