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Capítulo 102 de 150

Ricos, Ouvi

Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos

Emílio de Menezes *

Aflito peregrim, que na carne conservas Cofre, arca, tesouro e riquezas humanas, Converte em pão e luz pecúlios e reservas Em prol de quem padece a mingua nas choupanas.

Criaturas, na terra, existem como servas Atadas ao grilhão da posse, em feras ganas, No sinistro prazer das mentiras protervas, Aos priscos sonhos vis das ilusões vesanas.

Ao homem que se esquece e jamais se vigia, A fortuna mais alta é cárcere e desdouro... Enriquece de amor a existência vazia.

Destruirás, desde agora, o ergástulo vindouro Que encerra a alma infeliz nas raias da agonia, Qual soterrado vivo em mausoléu de ouro.

(*) Amigo de Guimarães Passos e Olavo Bilac, Emílio foi uma das figuras mais populares do Rio de Janeiro. Temido poeta satírico, o “Caçados de rimas difíceis”, no dizer de Agrippino Grieco, conquanto eleito, em 1914, somente dias antes de sua desencarnação veio a tomar posse no Petit Trianon, sem as formalidades exigidas pelo Regulamento da Academia. Saliente E. Werneck que “Emílio de Menezes gravou os seus poemas a buril: foi um dos mais extremados na perfeição artística e no lavor da forma cuidada”. (Curitiba, Paraná, 4 de julho de 1866 – Rio de Janeiro, GB., 6 de junho de 1918).

BIBLIOGRAFIA: Marcha Fúnebre; Poemas da Morte; Poesias; Últimas Rimas; etc. ROGATIVA PATERNAL

Gonçalo Casimiro Jacome de Araújo*

Deixem-me o corpo assim na cova rasa, Sem símbolos, sem lousa, sem legenda... Amados filhos meus, ninguém se ofenda, Embora o imenso adeus de pranto em brasa.

Parto, revendo a infância e a velha casa, As paredes de barro, o pão da venda, E a pobreza que sofre sem contenda No lar onde o carinho se extravasa.

Nem coroa, nem manto, nem adorno, Nem o luto que a lágrima entretece, Nada que de mim mesmo, em vão, me forre!

Sentindo o sol de Deus vibrando em torno, Quero sòmente os júbilos da prece Na alegria do amor que nunca morre...

(*) Discípulo de Cruz e Souza, integrante ativo do grupo da Rosa-Cruz, Gonçalo Jácome, depois de cursar, por algum tempo, a Escola Militar da Praia Vermelha, foi funcionário dos Correios do Rio de Janeiro. A. Muricy (Pan. Mov. Simb. Bras., II, pág. 184) diz que GJ «nunca deixou (...) o tom típico, a ênfase e o hermetismo de poeta nefelibata ou decadente». Prefaciando-lhe a obra Inanis Labor, achou Carlos D. Fernandes que GJ era «um místico dos primeiros séculos do Cristianismo». (Pernambuco, 27 de Fevereiro de 1875 – Rio de Janeiro, GB, 10 de novembro de1943).

BIBLIOGRAFIA: Felix Culpa e Inanis Labor. SERENIDADE

Oscar Amadeu Lopes Ferreira*

Mostras gesto revolto, olhar assustadiço, Trazes velha aflição que a tudo atinge e invade, Caminhas torturando o mundo em desserviço, Gerando agitação, desânimo, ansiedade...

Diasipas vida, carne e tempo em reboliço. Asserena-te, espera!... Assim qual és, quem há-de Aconselhar-te, irmão, a que te deixes disso, Se não sentes, sequer, a própria realidade?

Vocação de corisco a tremer cada instante, Amargas sono inquieto e fôlego expirante. Senta-te, amigo, e ora! Acalma-te, medita!...

Plantas em cada passo um triste desengano! Porque pressa? Se a morte é o fim do corpo humano, A alma prossegue, além, na jornada infinita!...

(*) Bacharel em Direito, poeta, jornalista, cronista, contista, dramaturgo e conferencista, Oscar Lopes foi o primeiro presidente efetivo da Sociedade dos Homens de Letras, no Rio de Janeiro. Nessa cidade viveu desde a meninice, e aí iniciou e concluiu a sua formação literária. Foi redator da Gazeta de Notícias e do Brasil, cuja seção literária e artística lhe cabia, e ainda colaborou em O Paiz, no Kosmos, na Renascença e outras publicações da então Capital Federal. «Como cultor das musas, guardou-se nos páramos da beleza parnasiana. Era ourives cioso trabalhando o ouro de lei das suas poesias. Elísio de Carvalho, que lhe apreciou cuidadosamente a obra poética, afirma que «Oscar Lopes, com ser um artista meticuloso e fleumático, é um pintor de tintas delicadas, um aquarelista elegante, uma paisagista exímio».» (apud Antologia Cearense, pág. 370.) (Fortaleza, Ceará, 31 de Dezembro de 1882 – Rio de Janeiro, GB, '1º de Outubro de 1988.)

BIBLIOGRAFIA: Medalhas e Legendas; O Albatroz; Seres e Sombras; etc. SERVIR

Adolfo Oscar do Amaral Ornellas*

Servir é a grande lei... Todo o Universo ensina A retê-la por luz que vem da Eterna Chama. Observa a Natureza... É o Céu que se derrama Para a glória do Amor como essência divina.

Toda força do bem, por fraca e pequenina, Não foge de atender na senda que a reclama... Um só lírio no charco é jardim sobre a lama, Basta um raio de sol e a furna se ilumina.

Não conserves a vida indiferente, muda. Desperta e estende as mãos! Alenta, ampara, ajuda, Semeando na estrada a alegria incorpórea!...

E sonhando, qual verme a trabalhar de rastros, Remontarás, um dia, à imensidão dos astros, Para servir com Deus em suprema vitória.

(*) Prosador, poeta e teatrólogo, Amaral Ornellas foi, por sete anos consecutivos, secretário da revista «Reformador», órgão da Federação Espírita Brasileira, e membro da Comissão de Assistência aos Necessitados dessa mesma Casa. Vicepresidente do «Grupo Espírita Fé, Amor e Caridade Agostinho», instituição de amparo aos doentes do corpo e da alma. Homem bom e extremamente caridoso, deixou, como médium receitista, um nome benquisto por milhares de beneficiados. Na Diretoria de Estatística Comercial foi funcionário distinto e exemplar. Teatrólogo, escreveu várias peças admiráveis, uma das quais, «O Gaturamo», foi premiada pela Academia Brasileira de Letras. «Em suas poesias» – diz Manuel Quintão, à pág. 181 do Reformador de 1918 – «ele canta serena e dignamente as suas emoções, sem cair em delíquio de exuberância, em malabarismo palavroso.» (Rio de Janeiro, GB, 20 de Outubro de 1885 – Rio de Janeiro, GB, 5 de Janeiro de 1923.)

BIBLIOGRAFIA: Poesias (1’ Série) ; Poesias (2ª Série) ; Iluminuras; etc., além de excelentes trabalhos doutrinários em Reformador e outros órgãos espíritas.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.