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Capítulo 115 de 150
Deus e a Humanidade
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
TOBIAS BARRETO de Menezes *
− Pára! − repete a voz − Espera! Aguça o ouvido!... − O homem prossegue, entanto, a passo turbulento... − Pára! Não sigas mais! Ouve! Sê comedido!... − Ele teima, rebelde, e vara a sombra e o vento...
− Pára! Detém-te, agora! Escuta, precavido!... − Desce a noite profunda e invade o firmamento... − Pára! Que já retumba o funesto alarido!... − 7 E rosna o temporal pelo bulcão violento...
8 − Pára! Atende afinal! Busca a bênção da prece!.... − Mas o surdo viajor ri-se e desobedece, Satiriza, gargalha e afronta o céu vulcâneo....
Como quem foge à voz do socorro divino, Avança para a dor do seu próprio destino... 14 E mais além um raio espedaça-lhe o crânio...
(*) Chefe da chamada “Escola do Recife”, o poeta sondoreiro de Dias e Noites deixou uma obra vasta e imponente. Para Exupero Monteiro, da Academia Sergipana de Letras “Tobias foi um poeta de grandezas e ternuras”, salientando que “ a dúvida religiosa foi uma das constantes da sua amargurada existência” (T. Barreto, pág. 30). Cultura polimórfica e profunda, escreveu sobre Filosofia, Direito, Literatura, Música, “abrindo novos caminhos à vida espiritual do país”, no dizer de Edgard Cavalheiro. Figura de destaque na Faculdade de Direito de Recife. Lente da Universidade Livre, de Francfort, em 1881. Patrono da cadeira nº38, na Academia Brasileira de Letras, pertenceu, ainda, ao Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano. Esforçado paladino da imprensa, colaborou em vários peródicos em Recife, tendo fundado e redigido muitos outros. Orador ,crítico, polemista e perfeito conhecedor de meia dúzia de línguas, Armindo Guaraná considerou-o “o maior dos sergipanos pelo talento e pela erudição”. (Campos, atual Tobias Barreto, Est. De Sergipe, 7 de junho de 1839 − Recife, Est. De Pernambuco, 26 de junho de 1889.)
BIBLIOGRAFIA: Dias e Noites; Estudos Alemães; Discursos; etc.
8. Feliz emprego do verbo rosnar, depois de retumbar o funesto alarido. 9. Anáfora: “Pára!” − no começo de 5 versos. 14. Excelente estudo do livre arbítrio humano e do determinismo das Leis Divinas, realçado pela conhecida tendência filosófica do Autor. A LÂMPADA E A CHAMA
ANTERO Tarquínio DE QUENTAL *
A alma clamou cansada ao corpo, um dia: − “Por que me prendes, barro vil e escuro? Quem te sustenta por lodoso muro, Acalentando a noite que me espia?
Quem te mandou, algema de agonia, Escravizar-me o sonho vivo e puro? Quem te criou, cadeia de monturo, Excitando-me a dor e a rebeldia?”
E o corpo respondeu, calmo e sublime: − “ Eu sou, na Terra, a cruz que te redime, Não me interpretes por sinistra grade...
12 Deus modelou-me lâmpada de lodo Na qual és chama do Divino Todo 14 Para fugir além, na Eternidade...”
(*) Grande poeta português, AQ teve especial predileção pelo soneto. Segundo Eça de Queirós, era ele “ um Gênio e era um Santo”. “É um poeta que sente,” − di-lo Oliveira Martins − “mas é um reciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.” Vítima de terrível hipocondria, suicidou-se. Sobre a vida de Antero, publicou-se em 1948 uma das mais completas obras: Antero de Quental, subsídios para a sua biografia, por José Bruno Carreiro, em dois grandes volumes, edição do Instituto Cultural de Ponta- Delgada, Lisboa. (Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, arquipélago dos Açores, 18 de Abril de 1842 − Aí desencarnou em 11 de Setembro de 1891.)
BIBLIOGRAFIA: Sonetos de Antero; Odes Modernas; Primaveras Românticas; Os Sonetos de Antero de Quental; etc.
12. Aliteração em l. 14. Para que possamos observar o seu modo peculiar de compor sonetos − servindo-se do diálogo − , vamos transcrever-lhe os dois tercetos do famosíssimo “Solemia Verba” ( apud Rot. I, pág.221): “Porém o coração, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do penar tornado crente,
Respondeu: Desta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se é isto a vida, Nem foi de mais o desengano e a dor.”
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.