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Capítulo 106 de 150
Teatro
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
Lulu Parola (Aloísio Lopes Pereira de Carvalho) *
Quanto caboclo iludido No esforço de ovacionar! Quanto tempo, em vão perdido! Mas, amanhã, sem ruído, Dona Morte vai chegar!...
Vejam vocês, minha gente, Que teatro original! Dentro dele quem não sente O poder da nossa mente, Nossa cultura ideal?
Quanta buzina que soa! Quantos carros em ação! Vejam só quanta pessoa, Gente rica e gente atoa... Hoje é dia de função!
Que moderna arquitetura! Colunatas no jardim, Decoração, escultura, E paredes com pintura De uma beleza sem fim!
Brilha a riqueza excessiva! Luz solar em profusão. Muita música festiva, E criança que se esquiva Circulando no saguão.
Mas em meio ao vozerio, Rápido, surge um senhor Em pleno palco vazio. Silêncio quase sombrio No recinto encantador.
A exibição que se espera Afinal vai começar! O povo que se aglomera Olha o ator de cara austera, Ele agora vai falar!
Surgirão flores e cenas? Arte e ciência também? Montagens grandes, pequenas?
Bons episódios que apenas Falem da força do bem?
Nada disso! Ai nossos calos! Escutem! Todos vão ver! Nem gritos e nem abalos! E’ a grande briga de galos, De matar ou de morrer!...
Quanto caboclo iludido No esforço de ovacionar! Quanto tempo, em vão, perdido! Mas, amanhã, sem ruído, Dona Morte vai chegar!...
(*) Devotado jornalista, e poeta de humor fino e original. Manteve, de 1891 a 1919, uma seção diária de versos humorísticos no Jornal de Notícias, de Salvador, intitulada «Cantando e Rindo»,assinando-a Lulu Parola, pseudônimo literário com que se popularizou. Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira n 2. Deputado estadual. Redator de A Tarde, de 1925 até o dia de sua desencarnação. Florêncio Santos, no seu artigo – Reminiscências da «A Tarde» – estampado no Jornal do Commercio de 28 de Outubro de 1962, assim se referiu a ele: «Homem bom e amigo leal, era Aloísio um chefe de família exemplar. Desprovido de bens materiais, foi um nababo da inteligência e do idealismo.» (Salvador, Bahia, 27 de Março de 1S66 – Salvador, 2 de Fevereiro de 1942.)
BIBLIOGRAFIA: Cantando e Rindo, 14 Série; Cantando e Rindo, 2’ Série; etc TEMPO E MORTE Juvêncio de Araújo Figueredo*
Sim!... Minha alma partira e os Espaços buscara, Lá onde esplende a Luz em perenal transporte, E viu que Alguém pintou na imensa tela clara, Sem pincel e sem tinta, o Amor de norte a norte.
Hoje sei que, na Terra, a quem não se prepara Na oficina do Bem que instrua e reconforte, Abre-se a escarpa hostil de nova senda ignara Em que a Vida ressurge atormentando a Morte.
Foge o Tempo, a sumir sorrateiro e calado... No ergástulo de carne o Espírito enlanguesce Entre o sol do Porvir e as brumas do Passado.
A idear no Infinito amplas visões sonoras, Quisera, transfundindo o coração em prece, Exaltar para o Mundo a grandeza das horas!...
(*) Grande amigo e discípulo de Cruz e Souza. Membro da Academia Catarinense de Letras e do Centro Catarinense de Letras. A. Muricy (Pan. Mov. Simb. Bras., I, pág. 209) diz que AF foi considerado «príncipe dos poetas catarinenses». Redigiu vários periódicos do seu Estado natal, tendo colaborado no Diário de Noticias, na Cidade do Rio e em outros órgãos do Rio de Janeiro. Conta Osvaldo F. de Melo. (Int. Hist. Lit. Cat., pág. 119) que Araújo Figueredo, na última década de sua vida, encontrou na filosofia espírita <:um porto para seus anseias místicos e um céu para seus vôos metafísicos». «Então» – prossegue Osvaldo Melo – «já não se notava o místico torturado de Sombras Amigas, mas um poeta cheio de paz, num retorno a emoções naturais, mais extrovertido, como a sepultar, no calor e na luz de seus versos, uma longa fase de angústia filosófica que ele julgava superada.» (Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina, 27 de Setembro de 1864 – Florianópolis, 6 de Abril de 1927.)
BIBLIOGRAFIA: Madrigais; Ascetério; deixou alguns livros inéditos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.