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Capítulo 124 de 150
Eu Só
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
Caetano PERO NETO (*)
23 Eu só e o surdo mundo... O leito me veste em branco. As cadeiras repousam em branco. As paredes estão levantadas em branco, Sustentando o teto parado, em branco.
As janelas talhadas em branco Deixam passar o vento gárrulo e brincalhão, Que desliza sem cor. As cortinas, parecendo longas mãos brancas, Engastadas nos braços rijos da porta, Acenam adeus, em branco.
34 Eu só e o surdo mundo... Quero fitar os rostos que me cercam, Mas vejo apenas semblantes graves, Semelhantes a camafeus de cobre em placas de alumínio. Quero gritar o terror do desconhecido, Mas a boca foi trancada pelas chaves da névoa muito branca Que me envolve de todo... Falam somente em mim as grossas gotas brancas Que me rolam da face.
Eu mudo e o surdo mundo... Depois de muitas horas de expectativa em branco, 45 na vazante branca em que ainda respiro, surge a enchente das sombras. Tudo crepeia em torno...
Céus! Não sou Deus Que traduz a noite em poema de estrelas, Nem pirilampo humilde que acende a lanterninha lucilante...
Eu cego e o surdo mundo... 52 Levanto-me, tateio, choro, clamo, esmagado pelas mós invisíveis da escuridão, Por muito tempo...
De improviso, porém, nova luz rasga as trevas, e os fotônios, Que me atingem as pupilas cansadas, dizem-me sem palavras Para que me aquiete, anunciando, por fim Que Deus é meu pai E que a Vida é minha mãe, Guardando-me nos braços, para sempre, para sempre!
23-24. Observem-se, versos mais abaixo, as variantes do ante canto – “Eu só e o surdo mundo”. 45. Digno de nota o gosto obsessivo do poeta pelo vocábulo “branco”, chegando a praticar, quase, a batologia. 52. Atente-se na dinamização expressiva dada pelo assíndeto.
(*) Contista, romancista, e poeta do grupo dos <<novíssimos>>,, cursava o 5º ano da Faculdade de Direito de S. Paulo, quando desencarnou. Nos últimos tempos de ginásio, colaborava com jornais de Itápolis. Depois encetou a publicação de poesias e contos nos periódicos Álvares de Azevedo, Tribuna Liberal, XI de Agosto, etc. Orador oficial da Associação Acadêmica <<Álvares de Azevedo>>, aos 19 anos já <<era o representante intelectual do corpo discente da Faculdade>> (apud Xangô e ..., pág. 12). Em 1936, foi eleito presidente da referida Associação Acadêmica. Redigiu, com Osmar Pimentel e Mário da Silva Brito, a folha universitária Anhanguerra. Participou do movimento intelectual da <<Bandeira>>,chefiado por Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Membro da Academia de Letras da Faculdade. Ulisses Guimarães (apud Dic. Aut. Paul., pág. 469) disse que ele <<foi um lírico, como tal eminentemente subjetivo>>. <<Seus
poemas,>> - escreveu Dulce Salles Cunha ( Auut. Contemp. Brasileiros, pág.229) - <<em geral muito pessoais, são quase todos isentos de senões,>> (Itajobi, Est. S.Paulo, 21 de agosto de 1916 –S.Paulo, Est. de S. Paulo, 23 de Dezembro de 1937.)
BIBLIOGRAFIA: Xangô e Outros Poemas, obra póstuma.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.