[user_registration_my_account]
Capítulo 114 de 150
Primaveras da Amplidão
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
BRUNO Henrique de Almeida SEABRA
Escuta, amigo, o meu canto Enamorado do encanto De um rincão que me seduz.
Brilham paramos de sonho Além, no espaço risonho, Vestidos de paz e luz!...
Lá, seres alvinitentes São como vivas nascentes De indefinível fulgor. Jorram bênçãos, lado a lado, Quais estrelas no relvado Florindo bondade e amor.
Em toda a parte fulgura Clarão de doce ternura Nas almas que vão e vêm. Há canções e melodias Por mensagens e alegrias Nas vozes do eterno Bem.
E por mais o homem na Terra Pense e sonhe, não descerra Os amplos e espessos véus Que envolvem as maravilhas 23 Desses ninhos, dessas ilhas, No azul imenso dos céus.
Há perenes primaveras Pelos edens sem quimeras, Refulgentes na amplidão. Formosos e ternos lares Guardam anjos tutelares Dos perdidos na aflição.
Lábios puros,cristalinos, Dizem preces, cantam hinos, Bendizendo Nosso Pai. A musa que enleva e chora, 35 Em louvores vibra e ora, E exclama: − “Regozijai!...”
Quem andeja pelo mundo Repartindo o bem fecundo Por ali vai residir, Esperando vidas novas De prazeres e de provas, Ao sol do Grande Porvir.
Escuta, amigo, o meu canto Enamorado do encanto De um rincão que me seduz. Brilham paramos de sonho Além, no espaço risonho, 48 Vestidos de paz e luz!
(*) Poeta lírico por excelência, “gostava de escrever sobre assuntos pátrios e foi exímio pintor de canas, costumes e tipos nacionais”, notabilizando-se também como romancista, comediógrafo e folhetinista. Exerceu o cargo de secretário da Presidência das
antigas Províncias do Paraná, Alagoas e Bahia. Membro de várias Sociedades cultas do Rio, da Bahia e de Lisboa. J. Eustachio de Azevedo chamou-lhe “ o João de Deus paranaense”, “o poeta do coração”, acrescentando: “O sentimento que as suas poesias exprimem é espontâneo, pelos simples motivo de ser a linguagem pura do coração.” (Pará, a bordo de um barco ancorado nas proximidades da ilha Tatuoca, 6 de outubro de 1837 − Salvador, Bahia, 8 de abril de 1876.)
BILBIOGRAFIA: Tipos Burlescos; Flores e Frutos, etc.
23. Cf. nota nº 13, pág. 40. 35. Ler com hiato: vibra e/ ora. Atente-se, ainda, no polissíndeto: “e ora,/ E exclama”. 48. “Primaveras da Amplidão” responde definitivamente às dúvidas do próprio autor, por ele externadas, quando no plano físico, na sua poesia − ? , cujo fim transcrevemos:
“Sondar procuro este mistério − A morte − É mera transição da incerta vida Para a segura e eterna ou a passagem De incerta vida para o nada eterno?” (Apud Biocrítica, de C. Chiacchio, pág. 32) FAÍSCA DE AURORA
Francisco QUIRINO DOS SANTOS
Nas furnas mais hostis da mais hedionda terra, Rugem forças da sombra em ódio abrasador; 2 São seres a renhir na encarniçada guerra
Do remorso e do crime, em tremendo furor...
Acende a prece, em luz, que a bondade descerra, 6 Por faísca de aurora, inflamada em favor Do espírito infeliz que às tênebras se aferra A sufocar no peito as expansões de amor.
Quando a morte apunhala o coração da vida, A alma que errou, no mundo, exora compaixão, E um sudário de dor crepeia-lhe a partida...
Eleva o pensamento em santa vibração E socorre a loucura e a mágoa desabrida De quem não quer mais crer na bênção da oração!...
(*) Desde cedo se dedicou à leitura de poetas brasileiros e portugueses, e aos 12 anos estreou nas letras com uma sátira. Depois de formar-se, em 1863, pela Faculdade de Direito de S. Paulo, o poeta de “A Vida” tornou-se redator do Correio Paulistano, promotor público em Santos. Fundou, em 1869, a Gazeta de Campinas, órgão abolicionista e republicano. Membro correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa e sócio de quase todas as instituições culturais de S. Paulo. Foi ainda teatrólogo, crítico e romancista. Leopoldo Amaral apontou-o como “grande poeta, elegante jornalista, habilíssimo advogado”, um verdadeiro “meteoro vivo”, segundo a expressão de Francisco Glicério (apud L. Correia Melo,Dic. Aut. Paulistas, pág. 558). Era deputado provincial quando desencarnou. (Campinas, Est. De S. Paulo, 14 de julho de 1841 − S. Paulo, Est. De S. Paulo, 6 de maio de 1886.)
BIBLIOGRAFIA: Estrelas Errantes; A Nova Louzã, romance; etc.
2. Aliteração em rr. PAINEL DO UMBRAL
Antonio FÉLIX DE BULHÕES Jardim *
Minha alma ardendo em febre ante o espaço sombrio, Sob espessa ilusão torna-se idiota. Qual duende do horror, contornando o vazio,
3 Ia e vinha a penar sem luz, sem paz, sem rota...
O ponteiro do tempo errava em desvario... 6 E eis que horrendo tremor lambe a terra ignota... Na tortura do assombro, agoniado, espio A tormenta abismal na vastidão remota...
Fogaréu a verter de sinistras montanhas... O fumo a espiralar mil sensações estranhas... 1 Lagos de lodo e fel em lava incandescente...
Agora, mais feliz, sem que o verbo me exprima, 13 Sei que o Umbral de angústia aos Paramos de Cima, 14 Ninguém padece, dorme ou sonha eternamente!...
(*) Tendo concluído, com 20 anos, o curso de Direito na Faculdade do Estado de São Paulo, Félix de Bulhões ocupou diversos cargos na magistratura goiana, chegando a desembargador. Poeta, jornalista e político, fundou várias publicações, dentre outras, Goiaz, Província de Goiaz e Tribuna Livre, onde expunha as idéias de liberal e autêntico antiescravagista. “Muitas vezes” − di-lo o Dr. Jerônimo de Morais, Discurso..., pág. 7 − “os seus períodos eram cortantes como o bisturi dos cirurgiões, quando esvurmava as chagas sociais, ou se convertiam em látegos cruéis com que fustigava os adversários desleais...” (Goiás, 28 de Agosto de 1845 − Goiás, est. Do Goiás, 29 de Março de 1887.)
BIBLIOGRAFIA: Poesias
4. Cf. Nota nº2, pág. 36. 6. Suarabácti: “i-g-no-ta”. Cf. nota 1, pa´g. 47. 11. Aliteração em l. 13. Antítese: Umbral − Paramos de Cima. 14. Descrição magistral das paisagens umbralinas, que, segundo as instruções de Amigos Espirituais, começam na crosta terrena.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.