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Capítulo 132 de 150

Fatias

Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos

Casimiro cunha *

Vigia teu próprio exemplo Na obra cristã de fato. Toda fonte de água pura Faz lobo sair do mato.

Guarda humildade e modéstia Sem blasonar poderio. Alta cabeça orgulhosa – - Coração triste e vazio.

Foge a todo pessimismo Sorrindo ao pior encargo. Para o gosto corrompido, O próprio mel surge amargo.

Quanto possível evita Cair nas teias do engano. Pela amostra apresentada Reconhecemos o pano.

Observa o prato cheio, A refeição tem limite. Onde governa a razão Há metragem no apetite.

Não menosprezes ninguém, Sê liberal na atenção. Leve fósforo inflamado Faz arder o quarteirão.

Atende cada problema De espírito vigilante. Ninguém consegue assoprar E sorver no mesmo instante.

Quem critica e fala muito, De amor e paz morre Conserva, na própria boca, A prisão da própria língua.

(*) Órfão de pai aos sete anos, tendo cursado apenas as primeiras letras em escolas primárias, Casimiro Cunha, depois de haver uma vista aos 14 anos por acidente, cegou da outra aos 16. Adolescente, ainda, colaborou na impressa vassourense. Desde que se tornou espírita confesso, estendeu aos periódicos espiritistas, principalmente ao Reformador, a sua produção poética. Foi um dos fundadores do Centro Espírita “Bezerra Menezes”, de Vassouras. Mário Cis era o pseudônimo que ele comumente usava. Prefaciando o primeiro livro do poeta – Singelos -, M. Quintão chegou a afirmar que ele “fechara os olhos às misérias da Terra, para melhor entrever as belezas do Céu”. Jamais se lhe ouviu dos lábios um queixume, uma palavra de revolta. Era a resignação em pessoa. “Alma feita de luz,” – afirmou-o Armando Gonçalves (Colar de Pérolas, pág. CXXVI) – “é um dos mais vigorosos literatos que enchem de orgulho o torrão fluminense.” (Vassouras, Estado do Rio, 14 de Abril de 1880 – Vassouras, 7 de novembro de 1914.) BIBLIOGRAFIA: a) do homem terreno: Singelos; Efêmeros; aves Implumes; Pétalas; Perispíritos; Álbum de Delba, póstumas. b) do poeta desencarnado: Cartas do Evangelho; cartilha da Natureza; História de Maricota; Gotas de Luz – todas pelo médium Francisco Cândido Xavier; Juca Lambisca e Timbolão – pelos medianeiros desta Antologia.

13. Leia-se in-com-preen-sões,com sinérese. 18. Ler no/ ar, em duas sílabas. 83. Cf. a nota nº. 13 deste capítulo.

114. Note-se a mestria com que o poeta se serviu do bordão: “Simplifica, simplifica.” 162. Leia-se com as, em uma sílaba (Ectlipse). FILOSOFANDO Casimiro cunha *

A quem saiba agradecer, Cumprindo voto e promessa, A vida entrega recursos Muito acima do que peça.

Resguarda a ponderação Por bênção de cada dia. E’ no riso e na conversa Que a loucura principia.

Foge ao luxo de sentir Preguiça, fastio e tédio. Quem desiste do trabalho E’ doente sem remédio.

Elogia sóbriamente Na palavra que desdobras. Se o fogo sai dos limites, 162 Arrasa com as boas obras.

Muitos alcançam no mundo Dinheiro, glória e ciência, Mas pouca gente consegue A força da paciência.

Estuda, ampara, semeia, Constrói, auxilia e emenda. Enquanto estás no serviço, Ninguém te vê na contenda.

Ora e vigia. O perigo E’ maior no coração Da pessoa que se sente Distante da tentação.

Abraça, na tolerância, Estrada, clima e dever. Jamais exijas dos outros O que não possas fazer.

(*) Órfão de pai aos sete anos, tendo cursado apenas as primeiras letras em escolas primárias, Casimiro Cunha, depois de haver uma vista aos 14 anos por acidente, cegou da outra aos 16. Adolescente, ainda, colaborou na impressa vassourense. Desde que se tornou espírita confesso, estendeu aos periódicos espiritistas, principalmente ao Reformador, a sua produção poética. Foi um dos fundadores do Centro Espírita “Bezerra Menezes”, de Vassouras. Mário Cis era o pseudônimo que ele comumente usava. Prefaciando o primeiro livro do poeta – Singelos -, M. Quintão chegou a afirmar que ele “fechara os olhos às misérias da Terra, para melhor entrever as belezas do Céu”. Jamais se lhe ouviu dos lábios um queixume, uma palavra de revolta. Era a resignação em pessoa. “Alma feita de luz,” – afirmou-o Armando Gonçalves (Colar de Pérolas, pág. CXXVI) – “é um dos mais vigorosos literatos que enchem de orgulho o torrão fluminense.” (Vassouras, Estado do Rio, 14 de Abril de 1880 – Vassouras, 7 de novembro de 1914.) BIBLIOGRAFIA: a) do homem terreno: Singelos; Efêmeros; aves Implumes; Pétalas; Perispíritos; Álbum de Delba, póstumas. b) do poeta desencarnado: Cartas do Evangelho; cartilha da Natureza; História de Maricota; Gotas de Luz – todas pelo médium Francisco Cândido Xavier; Juca Lambisca e Timbolão – pelos medianeiros desta Antologia.

13. Leia-se in-com-preen-sões,com sinérese. 18. Ler no/ ar, em duas sílabas.

83. Cf. a nota nº. 13 deste capítulo. 114. Note-se a mestria com que o poeta se serviu do bordão: “Simplifica, simplifica.” 162. Leia-se com as, em uma sílaba (Ectlipse). AH! SE EU PUDESSE JORGE Mateus DE LIMA*

Que tem este meu corpo, 2 este meu corpo transparente? Penso habitando um vaso de cristal. Para onde foram as minhas rugas?! 5 Esconderam-se as rugas Em mocidade nova... 7 Aonde ficou a minha opacidade? 8 Onde estão os quilos de meu corpo? Sou agora tão diferente, Qual pluma leve e multicor... O que há? O que há? Se a minha fome se modificou! Hoje aspiro a essência dos deuses! E esta luz, 15 esta luz que surge em mim! Há uma tocha escondida no meu peito.

Se não estivesse tão calmo, teria medo, 18 muito medo...

E a vontade? Minha vontade esta valendo mais. 21 Nunca mais invejarei os passarinhos...

Mas, a memória! ? 23 Oh! Memória, Não venha mais aqui!... Toda vez que volto atrás sofro até chorar...

Ah! Se eu pudesse fazer o mundo Sentir o que sinto!...

29 Ah! Se eu pudesse...

_____________________ (*) Tendo concluído o curso médico, em 1914, no Rio de Janeiro, volta Jorge de Lima, em 1922, a Maceió, onde é recebido como o 《Príncipe do Poetas Alagoanos》. Poeta, romancista, jornalista, contista, ensaísta, professor de Literatura na Universidade do Brasil, era um talento multívio. Em sua última fase literária, após ter abandonado o modernismo regionalista que tanta fama lhe trouxera, JL 《 incursionou pela poesia religiosa e terminou cultuando uma poesia quase abstrata, ou tirante a escrita automática》. ( Péricles E. da Silva Ramos, in A Lit. no Brasil, III, t. 1, pág.609.) Referindo-se ao Livro de Sonetos do poeta, J. Fernando Carneiro 《informa, com sua autoridade de médico, amigo e exegeta de Jorge de Lima, que ele escreveu todo o livro, 77 sonetos e mais 25 que continuaram inéditos, em pleno estado hipnagógico e no espaço apenas de 10 dias》.(apud A. Rangel Bandeira,Jorge de Lima..., pág. 115) 《O poeta que escreveu a Invenção de Orfeu, e se chamou Jorge de Lima,》- disse Eduardo Portella - 《foi dos mais complexos e fortes de toda a nossa poesia moderna.》 《Muitas vezes》 – observa Rangel Bandeira (ibidem, pág. 123) - 《Invenção de Orfeu dá a impressão de ter sido um livro psicografado; era Jorge de Lima que registrava seu próprio delírio.》Segundo Fernando Carneiro, o poeta alagoano foi 《a encarnação da bondade》: 《Tudo em Jorge de Lima estava envolto num halo de bondade, até a sua tristeza, até as suas fraquezas.》( União dos Palmares, Est. De Alagoas, 23 de Abril de 1893** - Rio de Janeiro, Gb, 15 de Novembro de 1953.) BIBLIOGRAFIA: XIV Alexandrinos; Poemas; Poemas Escolhidos; Tempo e Eternidade; Invenção de Orfeu; etc.

_____________________ (**) Ver Antônio Rangel Bandeira, Op. eit., pág. 16.

_____________________ 2-15. Exemplos de anadiplose: “... este meu corpo, /este meu corpo...” – “E esta luz, /esta luz que...”. 5-18-23. “Para onde foram as minhas rugas?! / Esconderam-se as rugas”; “Se não estivesse tão calmo, teria medo, / muito medo...”; “Mas, a memória!?/Oh! Memória”. Exemplos de epífora: “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete a mesma palavra ou frase no fim de vários VERSOS...” (Geir Campos, Op. Cit)

7-8. Aonde - onde. Cf. nota n° 72, pág.141. 21. Refere-se o poeta à possibilidade que tem o Espírito de se locomover pela volitação.

_________________________ 29-36. Exemplos de anáfora: “ ah! Se eu pudesse!” e “Lá vai...” 32. Atende-se na hipérbole.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.