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Capítulo 139 de 150
João Damasceno Vieira Fernandes *
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
Peregrino da vida e da morte oriundo 2. Avança do nascer ao pôr do Sol, durante A evolução sem fim nos carreiros do mundo, Pela ronda do tempo, a ressurgir constante.
Das sombras da maldade à luz do bem fecundo, Das ruínas morais ao triunfo pujante, Aprende pouco a pouco e, segundo a segundo, 8. Ergue em tudo, a ti mesmo, o teu grito de – avante!
Segue esgarçando os véus dos caminhos secretos, Desfazendo aflições e remontando afetos, Com risos e ilusões, suspiros e agonias.
12. E ao morrer-te o rancor e ao nascer-te a humildade, Em êxtases de amor e em lances de bondade, 14. Encontrarás, ditoso, a paz de novos dias!
(*) Poeta, jornalista, crítico literário, dramaturgo, historiador, Patrono da cadeira nº 17 da extinta Academia Riograndense de Letras, colaborou ativamente na revista do Pártenon Literário, do qual fazia parte, e em várias publicações periódicas, dentre elas, Álbum do Domingo, O Mosquito, Lusitano. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do congênere da Bahia. Gozou de grande prestígio como poeta, e “a sua poesia da última fase é no geral simples, sem distorções, direta, a par de calorosamente humana e fraterna”. (Guilhermino César, in História da Lit. R.G.S., pág. 284). (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 6 de maio de 1853 – Salvador, Bahia, 7 de março de 1910 **).
BIBLIOGRAFIA: Ensaios Tímidos; Auroras do Sul; Esboços Literários, poesia e crítica; Escrínios; Albatrozes; etc. _________________________
** Essas datas, tirámo-las do Diário da Bahia e do Diário de Notícias, jornais de Salvador, que noticiaram o sepultamento de Damasceno Vieira.
2. Note-se o “enjambement” que nos suscita a idéia de alguém que avança do nascer ao pôr do Sol, durante a evolução sem fim... 8. Aliteração em t. 12. Observem-se, não apenas neste verso, mas nos anteriores, as antíteses primorosas. 14. Cf. o soneto “A Lendo do Judeu Errante”, de autoria do poeta quando encarnado (apud Col. Poetas Sul-Riogr., pág. 94), cuja disposição rimática é perfeitamente idêntica à de “Avante!”. NO DIA DE FINADOS
INÊS SABINO Pinho Maia *
1. Agradeço, meu filho, a glória que me deste, O mármore custoso, o imponente jazigo, A legenda piedosa, as flores que bendigo, A oração da saudade, a sombra do cipreste... Mas afasta de nós a pompa que me veste! 6. Este luxo no chão é miséria comigo... Quero apenas o amor por sacrossanto abrigo, Dá-me teu coração por tesouro celeste.
Não me busques, em vão, na gelidez das lousas! Transfunde-me a lembrança em pão que reconforte A quem viva de fel na aflição que te espia...
Procura-me na dor do caminho em que pousas E esparze em tudo o bem, porque a bênção da morte, 14. Que me acordou na luz, há-de acordar-me um dia...
(*) Poetisa, jornalista e romancista. Domingos Carvalho da Silva, em sua obra Vozes Fem. da Poesia Brás., pág. 22, considerou-a merecedora de figurar num seleto grupo de poetisas da fase pós-romântica e parnasiana. Iniciou a sua educação literária na Inglaterra. Regressando ao Brasil ainda bem jovem, pouco depois dava a público as suas primeiras poesias e traduzia, para o português, contos, novelas e pequenos romances ingleses e franceses. Foi uma das escritoras que no Nordeste, em fins do século XIX, lutou pela participação da mulher nas lides literárias, contra um meio adverso nesse sentido. No prefácio à sua obra Impressões, Inês Sabino Pinho Maia fez esta judiciosa observação: “Retirem-se do manto estrelado da poesia os salpicos do ideal, que um livro de versos não passará de um compêndio enjoativo das verdades amargas que nos rodeiam acremente por todas a parte”. O Jornal do Commércio, do Rio, em seu úmero de 14 de setembro de 1911, destacou-lhe a “grande nobreza de sentimento”,
o “espírito caridoso e esmoler” e a real educação”. (Bahia (**), 31 de dezembro de 1853 – Rio de Janeiro, GB, 13 de setembro de 1911).
BIBLIOGRAFIA; Ave Libertas, poemeto; Rosas Pálidas, versos (1ª série): Impressões, versos (2ª série); Contos e Lapidações; etc. ____ (**) Affonso Costa em “Poetas de outro Sexo”, p. III, afirma ter ela nascido na Bahia e não em Pernambuco. ____ 1. Enumeração 6. Antítese 14. Poliptoto: “Que me acordou..., há de acordar-te...” BAGATELA
RAIMUNDO da Mota de AZEVEDO Correia *
O vento corre uivante e desempedra Alvo seixo engastado na montanha A pedra solta cai sobre outra pedra, Brotam faíscas de uma luz castanha...
Novo golpe do vento e o fogo medra Na alfombra ressequida, em doida sanha... Há luta que se alteia e se desmedra No incêndio arrasador em fúria estranha..
Mais forte zune o vento e a tudo encrispa, 10. Sobem chamas cruéis de chispa em chispa... O homem chora a perdida sementeira...
Também no mundo é assim... Por bagatela 13. Surge a paixão que se desencastela, 14. Queimando a safra de uma vida inteira...
(*) Para Manuel Bandeira, RC “certamente é o maior artista do verso que já tivemos”. “O maior dos parnasianos”, afirma Agripino Grieco – “e um dos poucos que tiveram íntima sensibilidade, foi Raimundo Correia”. Exerceu cargos de magistratura, administração e diplomacia, e foi professor da Faculdade de Direito de Ouro Preto. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Ronald de Carvalho (Pequena Hist. Lit. Bras., pág. 295) declara que o poeta, “por suas tendências à meditação e seu entranhado amor aos problemas íntimos da consciência, ficou mais perto da anima rerum que os seus companheiros. “Em sua arte poética existia algo de nobre e superior, dentro de uma emoção nunca transbordante, mas sempre vigiadas pelo senso crítico.” (A. Lins e A. B. Hollanda, Rot. Lit., II, pág. 611). (A bordo do vapor brasileiro San’Luiz, barra de Mangunça, Município de Cururupu, Maranhão, 13 de maio de 1859 – Paris, 13 de setembro de 1911).
BIBLIOGRAFIA: Primeiros Sonhos; Sinfonias; Versos e Versões; etc.
10. Observe-se a onomatopéia, acentuando a idéia de incêndio: “chamas cruéis de chispa em chispa.../ O homem chora... 13. “Surge a paixão que se desencastela”. Este decassílabo sáfico com acento secundário na 8ª sílaba, conquanto venha de um parnasiano, não constitui inovação na poética de Raimundo Correia. Pelo menos é o que depreendemos dos exemplos seguintes, colhidos em sua Poesia Completa e Prosa: - “Por sobre as águas indolentemente” (Verso 14º do soneto “Ofélia”, páginas 145-146); - “De escuma, e raios e fosforescências...” (Verso 18º do poema “O Dia acorda”! Deus por uma fresta”, de Versos e Versões, pág. 190) - “Vi-te no céu; e enamoradamente,” (Verso 2º do soneto “Beijos do Céu”, pág. 301) 14.O tema deste soneto – “Bagatela” – corresponde às características apontadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos, sobre a poesia de RC: “As características de sua poesia são, pelo fundo, um agudo sentimento da transitoriedade das coisas e insolúvel pessimismo; e, pela forma, perceptível senso das virtualidades vocabulares. Sempre foi considerado um dos grandes do parnasianismo; e não há por que rever essa posição” (Pan. III, págs. 77-78)
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.