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Capítulo 140 de 150

Epístola do Além

Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos

Raimundo Antônio de BULHÃO PATO *

Abisma-se a minha alma aos impulsos da prece, Fitando a dor além que a muitos entristece...

3. Pelos campos da morte onde o mal prepondera, O ente humano enfermiço agita-se qual fera.

A voragem hiante eletriza e arrebata O espírito rendido à revolta insensata.

Na grande inquietação do ser que a tudo anela E que descobre, alfim, que a carne se esfacela,

A alma forte que ria, hoje chora a sofrer Na vastidão do umbral que transfigura o ser.

Cavernas e pauis, precipícios e furnas... Mausoléus de quem vive em névoas taciturnas...

13. Neblina e fetidez... O tempo, em caos, dormita 14. Horrendos animais em urros, choro e grita...

Cada vulto é um dragão que indignado ulula Preso à inveja, à vingança, à dissensão, à gula...

E arrasta-se a sentir remorsos de culpado Em frio enregelante e em calor abafado.

A populaça brame... E avança o turbilhão No gargalhar febril de caminho malsão!

Os farrapos da vida, errantes pelo espaço, Pervagam sem parar, gemendo a passo e passo...

Mas todos saldarão os seus mais torvos crimes, Sob a luz do porvir, em vitórias sublimes.

Quando renascerão na carne redentora Guardados pela dor, nossa mestra e tutora!

E o visitante, em meio aos seres padecentes, Rega a senda que pisa em lágrimas pungentes.

29. Alguém pode esquecer, no imo de si mesmo, 30. Tantas almas na dor a chorarem a esmo? ... ..........................................................................

Reflete, amigo, assim, que aí em teu remanso O pranto irado e hostil profana o luar manso...

Quando em fúria te açoite a borrasca do inverno, Aceita a provação que é luz do Sol Eterno!

Há muito companheiro entregue ao sofrimento, Sob materialismo ingrato e virulento.

37. O ateu, estátua viva a morrer enganado. Acalenta consigo estranho e horrível fado...

O crime que passou, no qual ninguém mais pensa, Resta ecoando na alma, igual rude sentença...

Oferece a quem chora o afago da ternura; Aos frêmitos de dor, a benção doce e pura.

O serviço do amor, sem láurea ou recompensa, 44. Ser-te-á nova luz na luz divina e imensa.

Não olvides jamais o conceito imortal: 46. Há alegria no bem e há tristeza no mal!...

(*) Poeta, prosador e tradutor português, Bulhão Pato pertenceu à Academia das Ciências de Lisboa, tendo ido para Portugal com apenas 9 anos de idade. Afirma João Gaspar Simões que o poeta, amigo dileto de Alexandre Herculano, freqüentou a rodas dos maiores escritores da época. Poeta harmonioso, espontâneo e apaixonado, foi, segundo Mendes dos Remédios (Hist. Lit. Port., pág. 582), “o último representante da escola típica do Romantismo, cujos fundadores conheceu e tratou”. (Bilbau, Espanha, 3 de março de 1829 – Torre da Caparica, Portugal, 4 de agosto de 1912).

BIBLIOGRAFIA: Paquita; Flores Agrestes; Livro do Monte, etc.

3. Refere-se o poeta às regiões purgatoriais da Espiritualidade. 13. O espírito, no Umbral, perde a noção do tempo-hora. 14. O poeta faz alusão aos casos de zoantropia. Em grande parte, formas licantrópicas. 29-30 Ler com hiato: no/ i/mo e a/ es/mo.

37. Belíssima imagem: o ateu, estátua viva a morrer... 44. Epímone: “nova luz na luz divina” – Cf. nota 2, pág. 36. 46. Dupla antítese. A fim de que possamos observar o gosto do poeta para os alexandrinos dispostos em parelhas, vamos transcrever-lhe apenas pequeno trecho de “O Pinheiro Bravo” (apud Cláudio Brandão, Antol. Contemp., págs. 423-424):

“............................................................ Da cruel granizada, em tempos de invernia, Muita vez me abrigou a tua ramaria!

O furacão austral não se insultava a fronte – Em-pé, robusto e só, no píncaro do monte!” NADA

B. LOPES (Bernardino da Costa Lopes) *

O molho de verde grama, Cortado inerme e pendente Sobre o rio que o reclama, Rodopia inutilmente.

5. Na água que se derrama 6. Desde o berço da corrente, Segue o rio e fica a rama No bailado incongruente.

A vida de muitas almas Teimosas, tristes e incalmas, Assim, estranha, decorre... A inércia, mesmo agitada, É sombra, ruído, nada – Para o ser que nunca morre.

(*) Jornalista e poeta de mérito. Classificou-o João Ribeiro como sendo um dos maiores poetas de sua geração. Mestre do gênero descritivo entre nós, “B. Lopes é” – no dizer de C. Chiacchio, Biocrítica, pág. 62 – “a poesia sem metafísicas complicadas, nem filosofias tétricas. Simples poeta de poesia simples”. (Boa Esperança, atual Imbiara, Município de Rio Bonito, Est. do Rio, 19 de janeiro de 1859 – Rio de Janeiro, Gb, 18 de setembro de 1916.

BIBLIOGRAFIA: Cromos; Pizzicatos; Val de Lírios, Plumários; etc. 5. Ler Na / á/gua, com hiato. 6. Observe-se a metáfora. 18-20. Ler com diérese: vo-a e cri-an-ça.

Cf. “Cromos” – IV -, 11 verso: “Dis/se/me o/ Ti/o sim/plí/cio”; 12º verso: “E a/ bo/a do/na/ da/ da/ ca/sa” (apud Rot. II, pág. 600): “Quadro”, 1º verso: “Ca/í/ra o/ sol/ no ho/ri/zon/te”. A proósito de voa, do mesmo sonetilho, observe-se o 8º verso: “Vo/am/ as/ a/vês/ ao/ mon/te”. Ainda, o 11º e o 13º versos: “U/ma/ to/a/da/ dis/tan/te”, “Es/ta/ um/ ho/mem/ na/ por/ta” (ap. E. Werneck, Antol. Bras., pág. 498 RECADO

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.