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Capítulo 135 de 150

Coração

Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos

EUGÊNIO Júlio SAVARD de Saint-Brisson *

Desde o astro primeiro exposto à Imensidade, Na pauta da grandeza, o Regente Divino, Num misto de beleza, alegria e bondade, Fez os mundos e os sóis como notas de um hino.

33. Deu tons ao vento agreste e fala à tempestade, Rumor ao fogo estranho e voz ao mar leonino... A eterna melodia a tudo atinge, invade E sonoriza a paz nas claves do destino.

37. Mas o homem, só ele, era mudo e expectante... Eis, porém, que o Criador premiu-lhe a fonte inculta E o pêndulo da vida inflou-lhe o peito arfante.

Se a dor te envolve o passo em sombra malfazeja, Sente Deus em ti mesmo e, em prece viva, ausculta O ritmo do amor que o coração harpeja!...

(*) Poeta espontâneo, de vastos recursos e profunda emotividade, “caráter bondoso e coração terno”, Eugênio Savard bem cedo encontrou o termo de uma existência de desventura e sofrimento. Matriculando-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, não pôde terminar os estudos, por falta de recursos e em razão de seu precário estado de saúde. Grave neurastenia tomou conta do seu organismo, já debilitado pelo trabalho excessivo. Em busca de alívio aos padecimentos, esteve em Portugal, onde fez amizade com o brilhante orador e poeta português Silva Gonçalves, que escreveu, em memória de ES, o livro Perpétuas e Goivos, no qual, apreciando o vate brasileiro pelo seu merecimento literário, pôs em destaque “as suas qualidades poéticas, o seu fino temperamento artístico, os requintes de cinzelamento, com que aprimorava a forma, e o sentir, que fazia transparecer nas suas composições” (apud Asas, página 8 da 2ª parte - “Juízo sobre Eugênio Savard”). O primoroso autor do soneto

“Camões naufragado em Cambodge” foi igualmente músico, “delicioso compositor e ardente entusiasta de Verdi” (idem, ibidem, pág. 24). (Estado do Rio, 13 de novembro de 1865 – Niterói, Est. do Rio, 1º de dezembro de 1899).

BIBLIOGRAFIA: Asas: dois poemetos: Serenata e O espectro; etc.

33. Novamente, aliteração em t. 37. Ler assim este verso: “Mas/ o/ ho/mem/ só/ e/le e/ ra/ mu/do e ex/pec/tan/te” ALÉM DA TERRA

ORLANDO Martins TEIXEIRA *

Confio o pensamento a sonho terno, Em holocausto mudo à Divindade, E sinto a redenção de todo inferno Na blandícia da paz que, em luz, me invade.

À carícia invisível me prosterno. 6. E por mais ruja a treva e se degrade, Deus fulgura qual facho imenso e eterno, Suporte vivo da imortalidade

Há traços resplandecentes de mil vidas E destroços das épocas perdidas No mar turbilhonante de mim mesmo.

12. Seguimos... Eu e o sonho que delivro, Páginas paralelas de um só livro, 14. No livro do Universo aberto a esmo...

(*) Poeta, dramaturgo e jornalista. Funcionário da Prefeitura Municipal de S. João da Boa Vista. Exerceu o jornalismo no Rio de Janeiro, onde secretariou a Gazeta da Tarde. Segundo Luís Correia de Melo (Dic. Aut. Paulistas, pág. 631), OT “compôs ou traduziu numerosas peças de teatro, principalmente de colaboração com Artur Azevedo, Demétrio de Toledo, Eduardo Vitorino e Moreira Sampaio, sendo de sua autoria o libreto da ópera Ester, do maestro Assis Pacheco”. Afirma Fernando Góes (Pan. IV, pág. 150) que o poeta teve a “vida marcada pelo sofrimento, pela doença, por um amor inatingível”. Andrade Muricy (Pan. Mov. Simb. Brás. II, págs 171-172) dá melhor a conhecer a página amorosa do poeta de “voz roufenha” e “físico infeliz”, “a quem” – segundo as palavras de João Luso – “a tuberculose devorava os pulmões e o amor o coração”. (S. João da Boa Vista, Est. de S. Paulo, 27 de agosto de 1875 – Sítio, atual Antônio Carlos, Minas Gerais, 25 de fevereiro de 1901**.)

BIBLIOGRAFIA: Magnificat.

** Luís Correia de Melo (op. cit., pág. 631) registra 1902 como o ano de desencarnação

6. Elipse: “E por mais (que) ruja...” 12. Aposiopese: “seguimos...” 14. Ler assim este verso:

No/ li/vro do U/ ni/verso a/ ber/to a/ es/mo...

Neste soneto, revela-se o poeta pouco afeito aos altos vôos do artesanato poético e, para que possamos observar o quanto OT, ainda encarnado, era distraído quanto à forma, vamos citar-lhe alguns versos alexandrinos, uns trimembres, outros não. De início, cf. o quarto verso do soneto “Horas Mortas” (Pan. IV, pág. 150), com acentuação na 1ª, 4ª, 8ª e 12ª sílabas. Em seguida, cf. “Paisagem Espiritual”, 7º e 8º versos, respectivamente, com acentuação na 3ª, 7ª e 12ª e 4ª, 9ª e 12ª sílabas (id., pág. 151). PERTO E LONGE

João Marques RENATO DA CUNHA

Na câmara olorosa, antes do réveillon, Há sedas no alvo leito e holandas de bordados, Fitas e rendas sobre os móveis entalhados, Loções no toucador, pentes, rouge e baton...

Na mesma casa, em quarto pobre e de mau tom, Ante um catre modesto há roupas sem plissados, Forros sem bibelots, limpos e descuidados, Um livro de orações e a paz de um ninho bom...

Duas irmãs no mundo, em diversos destinos... Uma, a sofrer, fruindo ilusões passageiras; Outra, a penar, gemendo entre sonhos mofinos...

Cada qual conduzindo um dever e uma cruz, Caminham, perto e longe, embora companheiras, 14. Buscando o mesmo amor... sonhando a mesma luz...

(*) De Renato da Cunha afirma Antônio Carlos Machado (Coletânea Poetas Sul-Riogr., pág. 155): “Foi um dos grandes poetas gaúchos do século XIX. Foi também um dos mais discutidos do seu tempo.” Colaborou no Jornal do Comércio e no Correio do Povo, dos quais era redator, na A Batalha e em outros jornais de Porto Alegre, aí fundando O Reclame, em 1895. É tido como iniciador dos simbolistas no Rio Grande do Sul, antecedendo a geração de Marcelo Gama e Zeferino Brazil. Seus versos “brilham, não só pela beleza de imaginação, galas de estico e elevação e grandeza de pensamento, bem como pela metrificação” (apud RC, Maldições e Crenças, pág. 5). Patrono, na extinta Academia Rio-grandense de Letras, da cadeira nº 36. (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 15 de abril de 1869 – Porto Alegre, 2 de maio de 1901.)

BIBLIOGRAFIA: Rutilações; Pérolas e Diamantes; Vesúvios; etc.

14. Para que possamos comprovar o gosto do poeta pelas palavras estrangeiras, de preferência francesas, vamos transcrever-lhe apenas os terceiros de um “Soneto”, citado pelo autor da Coletânea de Poetas Sul-Riograndenses:

“As lindas cortesãs, envoltas em arminhos, Nos fofos dos coupés, como rolas nos ninhos, Saíam dos bordéis cansadas das vigílias.

E nas mesas do jogo os velhos crapulosos Davam ao bacarat, febrentos, sequiosos, Os últimos ceitis roubados às famílias” (Pág. 157)

Aliás, só mesmo um grande amigo dos francesismos para fundar um jornal do gabarito de O Reclame, cujo título, por si só, faria corar a qualquer gramático inimigo dos galicismos DILEMA

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.