Voltar ao livro Antologia dos Imortais

Capítulo 134 de 150

Apelo ao Viajor

Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos

Arlindo Costa e Silva

1 Viajante do mundo pára e pensa Assinalando os dons que Deus te empresta: A natureza a derramar-se em festa, 4 A, visão, a beleza, o sonho, a crença...

Ergue-te ao sol do amor, caminha e incensa. De paz constante e de Alegria honesta O trecho da jornada que te resta, Procurando servir sem recompensa.

Segue fazendo o bem por onde fores, Esquecendo nos trilhos redentores 11 Charcos e penas, sombras e penares...

Porque, um dia ante o tempo que te espreita, Receberás os frutos da colheita, Na espécie de sementes que plantares.

[1] 1. Leia-se vi-a-jan-te, com diérese. 4-11. Observem-se os exemplos de enumeração. - Enumeração: “Recurso estilístico, denominado enumeração caótica por Leo Spitzer, e consistente em uma apresentação, quase catalogal, de idéias ou elementos que se sucedem com um máximo de rapidez e fluência, sem prejuízo da qualidade do texto...” ( Geir Campos, Op. Cit. )

( * ) Residindo em Uberaba, Minas, de 1901 a 1912, fez Arlindo Costa o Curso Normal e colaborou em diversos jornais, dentre outros, a Gazeta de Uberaba, Lavoura e Comércio e Brasil Central. Foi professor do Grupo Escolar Uberabense e fundador do jornal Lírios do Vale, título de que se serviu para o seu primeiro livro, editado em 1907. Representou, em 1911, o professorado do Triângulo Mineiro no Congresso de Professores levado a efeito em Belo Horizonte. Em Anápolis, onde passou a residir desde Junho de 1912, foi coletor estadual e presidente do Conselho Municipal. Criou o primeiro Grupo Escolar da cidade, e contribuiu para a fundação da Escola Normal. Nestas instituições exerceu o magistério. Muito lutou para a emancipação política de Anápolis. Era deputado estadual quando desencarnou ( Piranjuba, antiga Pouso Alto, Estado de Goiás, 28 de Setembro de 1880 – Anápolis, Estado de Goiás, 4 de Janeiro de 1928. ) BIBLIOGRAFIA: Lírios do Vale. Deixou um livro inédito: Poemas da Saudade. SIM

EUGÊNIO Júlio SAVARD de Saint-Brisson *

1. Singram mares do Cosmo as barcaças airosas... Eis a frota do Sol a vogar pelo espaço... Os tufões siderais marcam vivo compasso, Sinfonia de luz a envolver nebulosas...

Mostra a Terra à distância o perfil rude e baço Da mantilha sutil de cortinas gasosas... 7. E na altura onde estou sinto ânsias saudosas, Tristes dardos lembrando a amargura e o cansaço.

A beleza do anil a exornar cada canto É qual prece de amor que se eleva e se espalma Pelo empíreo estrelado em fulgor sacrossanto.

Não duvido, meu Deus, na certeza de agora! 13. Sim! Meu corpo vivia inundado de alma 14. Como o dia de névoa esmaltado de aurora!...

(*) Poeta espontâneo, de vastos recursos e profunda emotividade, “caráter bondoso e coração terno”, Eugênio Savard bem cedo encontrou o termo de uma existência de desventura e sofrimento. Matriculando-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, não pôde terminar os estudos, por falta de recursos e em razão de seu precário estado de saúde. Grave neurastenia tomou conta do seu organismo, já debilitado pelo trabalho excessivo. Em busca de alívio aos padecimentos, esteve em Portugal, onde fez amizade com o brilhante orador e poeta português Silva Gonçalves, que escreveu, em memória de ES, o livro Perpétuas e Goivos, no qual, apreciando o vate brasileiro pelo seu merecimento literário, pôs em destaque “as suas qualidades poéticas, o seu fino temperamento artístico, os requintes de cinzelamento, com que aprimorava a forma, e o sentir, que fazia transparecer nas suas composições” (apud Asas, página 8 da 2ª parte - “Juízo sobre Eugênio Savard”). O primoroso autor do soneto “Camões naufragado em Cambodge” foi igualmente músico, “delicioso compositor e

ardente entusiasta de Verdi” (idem, ibidem, pág. 24). (Estado do Rio, 13 de novembro de 1865 – Niterói, Est. do Rio, 1º de dezembro de 1899).

BIBLIOGRAFIA: Asas: dois poemetos: Serenata e O espectro; etc.

1. A aliteração em s sugere, com efeito, que as barcaças airosas singram mares do Cosmo. Leia-se com hiato: sin/to/ ân/sias. 13.Duas leituras para este verso:

a) Sim!/ Meu/ cor/po/ vi/via i/nun/da/do de/ al/ma/; b) Sim!/ Meu/ cor/po/ vi/via i/nun/da/do de al/ma

14. Transcrevamos de “Dois Crepúsculos” (apud Asas, 2ª Parte, pág. 22) o último terceto, que nos parece haver suscitado este inimitável “Sim” ...” Senão vejamos DEPOIS DA TORMENTA

EUGÊNIO Júlio SAVARD de Saint-Brisson *

Cresce a lousa sombria a embuçar o horizonte... O pincel do corisco a explodir ansiedade, Escrevendo com luz, proclama a tempestade, 18. E estrondeia o tambor do trovão pelo monte...

19. Cai a chuva a rugir por mil bocas de fonte... 20. Verte, foge e me impele à oração da saudade... 21. Sou agora ave exul na bonança que invade A Natureza erguida à paz de ninho insonte.

23. Reencontrei o fanal da esperança perdida E canto a exaltação do júbilo fecundo De quem achou na morte a grandeza da vida.

Louvada seja a dor que a tudo eleva e acalma! Bendito seja Deus, surgindo, mundo a mundo, Por sol de céu em céu, por amor de alma em alma!...

(*) Poeta espontâneo, de vastos recursos e profunda emotividade, “caráter bondoso e coração terno”, Eugênio Savard bem cedo encontrou o termo de uma existência de desventura e sofrimento. Matriculando-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, não pôde terminar os estudos, por falta de recursos e em razão de seu precário estado de saúde. Grave neurastenia tomou conta do seu organismo, já debilitado pelo trabalho excessivo. Em busca de alívio aos padecimentos, esteve em Portugal, onde fez amizade com o brilhante orador e poeta português Silva Gonçalves, que escreveu, em memória de ES, o livro Perpétuas e Goivos, no qual, apreciando o vate brasileiro pelo seu merecimento literário, pôs em destaque “as suas qualidades poéticas, o seu fino temperamento artístico, os requintes de cinzelamento, com que aprimorava a forma, e o sentir, que fazia transparecer nas suas composições” (apud Asas, página 8 da 2ª parte - “Juízo sobre Eugênio Savard”). O primoroso autor do soneto “Camões naufragado em Cambodge” foi igualmente músico, “delicioso compositor e

ardente entusiasta de Verdi” (idem, ibidem, pág. 24). (Estado do Rio, 13 de novembro de 1865 – Niterói, Est. do Rio, 1º de dezembro de 1899).

BIBLIOGRAFIA: Asas: dois poemetos: Serenata e O espectro; etc.

18. Todos os verbos deste quarteto caracterizam-se por vigorosa expressão: “embuçar o horizonte”, “explodir ansiedade”, “escrevendo com luz”, “estrondeia o tambor do trovão”. Observe-se, ainda, a aliteração em t e tr. 19. Hipérbole: rugir por mil bocas de fonte. 20. Note-se o adensamento da ação verbal, pela sucessão de três verbos: “Verte, foge e me impele à oração da saudade...” 21. Usando da figura poética – diástole ou alongamento (Ancípite), o poeta escreveu exul. Leia-se reen/con/trei, com sinérese.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.