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Capítulo 126 de 150
Acendalhas
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
AMÉRICO Augusto de Sousa FALÇÃO *
Pensei que a morte ocultasse A noite pesada e fria, E a morte deu-me outra face Dos sonhos de cada dia.
Acolhe, afaga e conserva O passo sem ilusão. Toda a carne é igual à erva. Que nasce e retorna ao chão.
Se a flama de amor te invade, Não tente sócio e prazer. Amor é felicidade A reluzir no dever.
O verbo enfeitado e ameno, De muita beleza humana, Parece mel com veneno Em taça de porcelana.
Remorso fremindo em chaga, Na desculpa que alivia, É como dor que se apaga Ao toque da anestesia.
Esse diamante que vês, De faces luminescentes, Viveu séculos talvez No chavascal de serpentes.
Ergue ao Céu a moradia Da própria felicidade. Na Terra toda a alegria Paga imposto de saudade. Escritor que atende ao mal Dando o mal por satisfeito, Da pena talha o punhal Que, um dia, lhe vara o peito.
Quando o corpo, inerte, expira, Notamos, amargamente, Quanta gente na mentira, 64. Quanta mentira na gente.
Afirmas que é hipocrisia Sorrir para a falsidade. Mas que outra coisa seria O ensino da caridade?
Humilhado! Mesmo assim, Perdão é a glória que levas. A noite ensombra o jardim, 72. O jardim perfuma as trevas.
Muita cautela, Maria, Cuidado no coração. Um namoro, cada dia... Amor não é isso, não.
Evita a palavra turva, Sê claro, de longe e perto. Na estrada de muita curva,
O desastre chega certo.
Não condenes quem resvala Onde o vício se avolume. Muita flor que enfeita a sala Nasceu na fossa de estrume.
Desfaz-se a ostra em escolhos, Brilha a pérola na rua. A morte nos cerra os olhos, 64. Mas a vida continua.
64. Cf. nota nº 16 deste capítilo. 72. “...o jardim, / O jardim...”: Anadiplose – “ Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete no começo de um VERSO a palavra ou frase sinal do verso anterios...” ( Geir Campos, Op. Cit. )
(*) Fez os estudos primários e secundários em João Pessoa, formando-se, em 1908, pela Faculdade do Direito de Recife. Redator de A União e diretor da Biblioteca Pública do Estado da Paraíba. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. <<Poeta magnífico,>> - afirma Edgard Rezende ( Os Mais..., pág 1790 - << produziu composições impregnadas de lirismo suave e encantador,>> Era-lhe,porém, a trova um dos gêneros prediletos, e Luiz Pinto( Ant. da Paraíba, pág. 23) afirma ter sido ele, AF, <<um repentista temido e de incomparável fecundidade>>, a manejar com inteligência a sátira,sua insuperável arma de combate. ( Praia de Lucena,Município de Santa Rita, Paraíba, 11de Fevereiro de 1880 – João Pessoa, Paraíba, 9 de Abrilde 1942.)
BIBLIOGRAFIA: Auras Paraibanas; Visões de outrora; Soluços de Realejo; etc.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.