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Capítulo 104 de 150
Sob os Ventos da Noite
Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos
José Júlio da Silva Ramos*
– “Ouro, luxo e prazer é o que a vida resume!” – Brada jovem mulher sobre doirada escória; Vive, bela, a voejar na carne ardente e flórea E morre num salão, em vagas de perfume. ; .
No pesadelo, a sós, loucamente presume Resguardar no sepulcro o carro de vanglória; Mentaliza brasões na caverna marmórea, Ergue em franco delírio a cabeça de nume...
Supõe-se em pleno baile e dança, viva, lesta, Exige a gargalhar mais música na festa, Pede vinho e caviar sem que ninguém a acoite...
Súbito, acorda e grita, a encravar as mãos finas Nos troncos espectrais das tristes casuarinas Que gemem a chorar, sob os ventos da noite...
(*) Emérito professor de Português do Colégio Pedro II, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº37, prosador primoroso e poeta lírico de profunda inspiração, Silva Ramos fêz o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Filólogo dos mais eminentes, soube influenciar espíritos de escol quais Antenor Nascentes, Manuel Bandeira e Sousa da Silveira. Colaborou em diversas publicações, como A Semana, Revista da Academia Brasileira de Letras, Renascença, etc. «A magnanimidade de Silva Ramos» – disse Alcântara Machado – «é atestada não por este ou aquele capítulo, mas por todas as páginas da sua existência. » (Recife, Pernambuco, 6 de Março de 1853 – Rio de Janeiro, GB, 16 de Dezembro de 1930.)
BIBLIOGRAFIA: Adejos; Pela Vida Fora; A Reforma Ortográfica; Centenário de João de Deus, conferência; etc. SOLUÇO MATERNAL
Andradina América de Andrada E Oliveira*
Perdoa-me a loucura, pobre filha, Entreguei-te ao salão, inerme criança, E ao dizer-te: – “repousa, folga e dança”, Envolvi-te em meu logro, de partilha...
Contemplo-te a bailar... O palco brilha... És volúpia, beleza, intemperança... Escuto em prece o aplauso que te alcança E lamento a vitória que te humilha...
Ah! minha triste pérola perdida, Novamente daria sonho e vida Para furtar-te ao fogo em que te abrasas!
Mas tudo agora é a mágoa que me entrega Á imensa dor de ver-te rica e cega, Mariposa queimando as próprias asas!...
Poetisa, contista, romancista, iniciou sua vida literária, quase menina, conforme afirma sua filha Lola de Oliveira em Minha Mãe!, escrevendo em inúmeros periódicos sul-riograndenses. Foi também teatróloga e aplaudida conferencista. Professora pela Escola Normal de Porto Alegre, com distinção em todas as matérias, a poetisa de Folhas Mortas lecionou em cursos particulares, em várias cidades gaúchas, depois de nove anos dedicados ao magistério público. Fundou um jornal literário feminino, O Escrínio, mais tarde transformado em revista ilustrada, e formou, segundo Antônio Carlos Machado, entre as maiores feministas brasileiras de sua época. De 1920 até à sua desencarnação, residiu na capital paulista. (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 12 de Junho de 1878 – S. Paulo, 19 de Junho de 1935.)
BIBLIOGRAFIA: Folhas Mortas; Preludiando, contos; Cruz de Pérolas, contos; etc. SONETO
Artur Ragazzi*
Era a última hora para a cabeça estática Que pensava, apesar de tudo. O corpo anestesiado no suor denso e álgido Não movia sequer leve ponta do dedo.
Os olhos haviam parado dentro das órbitas, Mas no imóvel espelho das pupilas Aumentara a visão com estranha potência, Sob a ação de outros raios.
Teto, paredes, portas desapareceram como por encanto E comecei a ver, pela gaze das lágrimas, Antigas afeições que imaginava mortas...
Velhos amigos meus vinham, prestas, do Além, a enxugarem-me o pranto. Encontrara o outro mundo! E quis gritar, eufórico, Mas a garganta seca era apenas silêncio.
(*) Poeta largamente relacionado e estimado nos ambientes literários e sociais de Belo Horizonte. Italiano de nascimento, veio com os pais, ainda menino, para o Brasil, fixando-se em Ouro Preto. Em 1897, inaugura,da a nova capital mineira, aí passou a residir até ao fim de sua existência. Foi uma das principais expressões do alto comércio de Belo Horizonte e elemento de valor nos círculos literários que nessa cidade se formaram à sombra de Alphonsus de Guimaraens e de Mendes de Oliveira. «Poeta de largos recursos,» – di-lo a Folha de Minas, em 5 de Novembro de 1948 – «era também Artur Ragazzi uma alma pura e sensível a todas as manifestações do calor humano..» Em vários jornais e revistas mineiros e cariocas saíram estampadas as suas produções líricas, «donde rescendem impulsos sinceros de uma inspiração privilegiada, a par de notável poder de expressão verbal». (Veneza, Itália, 31 de Julho de 1879 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 4 de Novembro de 1948.)
BIBLIOGRAFIA: Cavaleiro Andante; Coivara Acesa; algumas inéditas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.