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Capítulo 108 de 150

Trovas

Antologia dos Imortais · Chico Xavier, espíritos diversos

Virgílio Brandão*

Há diferença nas ruas Da miséria e da abastança, Mas é sempre igual nas duas O sorriso da criança.

Coração que choras tanto, Acharás decerto, um dia, No imenso mar de teu pranto As pérolas da alegria.

–Eis a verdade corrida Nas sendas de toda sorte: Se a morte sucede à vida, A vida sucede à morte.

O corpo diz ébrio e ufano: – Domino e gozo tranqüilo! Diz a cova ao corpo insano: – Deixa estar que eu te aniquilo!

Guarda bem essa lição Em teus passos descuidados: Pressa, falha e imperfeição Caminham de braços dados.

A história de toda gente Na eternidade é assim: Provação primeiramente, Depois a glória sem fim.

(*) Segundo Augusto Linhares (Col. Poetas Cearenses, pág. 117), VB foi um «poeta lírico à maneira de Juvenal Galeno». Muito dado ao cultivo da trova, «há em suas quadrinhas a fluência e a doçura que tanto agradam ao nosso sentimento», diz Mário Linhares (Hist. Lit. Ceará, pág. 103). Colaborou em quase todas as revistas literárias de Fortaleza. Era funcionário do Tesouro Nacional. Profunda neurastenia levou-o ao suicídio. (Fortaleza, Ceará, 10 de Junho de 1885 – Fortaleza, 12 de Abril de 1943.)

BIBLIOGRAFIA: Líricas; Redondilhas, 2 vols. Deixou a publicar Redondilhas e Cromos (ed. definitiva). ÚLTIMO DIA Antônio Joaquim Pereira da Silva*

Não era mais o lume de Aladino Que trazia na mão dorida e pasma, Era a tremura de um doente de asma, Ouvindo, inerme, o choro do destino.

O leito igual ao chão de lodo e miasma Fêz-se lousa de gelo em Sol a pino... Quero gritar em vão, quanto um menino, Amedrontado à sombra de um fantasma.

Divago. Embalde movo os lábios perros. Varo – errante viajor – impérvios serros... Meu sonho é um velho cão ladrando à lua...

Tudo – silêncio pálido de esfinge... E’ o nada... A dor do nada que me atinge Mal sabendo que a vida continua...

(*) No Rio de Janeiro, Pereira da Silva foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios, ingressando, depois, na Escola Militar. Transferido, mais tarde, para o Estado do Paraná, ai se tornou dedicado amigo de Dario Veloso e de outros poetas da sua estirpe. Deixando o Exército, voltou ao Rio. Estudou Direito e aderiu ao grupo simbolista da Rosa-Cruz. Foi redator da Cidade do Rio, colaborando em outras publicações da imprensa carioca, como crítico literário. Em 1933 ingressou na Academia Brasileira de Letras, cadeira nº. 18. Luís Murat considerou Pereira da Silva um dos maiores poetas da sua geração, «homem que possui uma grande cultura, a par de uma grande inspiração» (apud Pereira da Silva, Beatitudes, pág. 228). (Araruna, Serra da Borborema, Paraíba, 9 de Novembro de 1876 – Rio de Janeiro, GB, 11 de Janeiro de 1944.)

BIBLIOGRAFIA: Vae Soli! ; Solitudes; O Pó das Sandálias; Alfa Noite; etc. ULTIMA HORA

Antônio Joaquim Pereira da Silva*

A noite avança. À luz do olhar nevoento, Escuto o alarme... A rude voz do instinto Fala da morte. Em lágrimas pressinto A lividez do trágico momento.

Espantado, atravesso o labirinto Dos delírios e sonhos que apascento. Vencido, o coração pulsa violento, Ave apresada ao peito semi-extinto.

Tristeza, sombra e pó... Cinza e canseira... A idéia tomba. E’ a hora derradeira, Na exalação dos últimos instantes.

Desço de todo ao caos que me agonia, Mas livre enfim, soluço de alegria, No caminho dos astros cintilantes.

(*) No Rio de Janeiro, Pereira da Silva foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios, ingressando, depois, na Escola Militar. Transferido, mais tarde, para o Estado do Paraná, ai se tornou dedicado amigo de Dario Veloso e de outros poetas da sua estirpe. Deixando o Exército, voltou ao Rio. Estudou Direito e aderiu ao grupo simbolista da Rosa-Cruz. Foi redator da Cidade do Rio, colaborando em outras publicações da imprensa carioca, como crítico literário. Em 1933 ingressou na Academia Brasileira de Letras, cadeira nº. 18. Luís Murat considerou Pereira da Silva um dos maiores poetas da sua geração, «homem que possui uma grande cultura, a par de uma grande inspiração» (apud Pereira da Silva, Beatitudes, pág. 228). (Araruna, Serra da Borborema, Paraíba, 9 de Novembro de 1876 – Rio de Janeiro, GB, 11 de Janeiro de 1944.)

BIBLIOGRAFIA: Vae Soli! ; Solitudes; O Pó das Sandálias; Alfa Noite; etc USURÁRIO

José Júlio da Silva Ramos*

Rico, vivia a sós, desde longínqua data. Afagava o metal resplandecente e louro... Nem um pão a ninguém. Sòmente ouro e mais ouro, Entre pedras faiscando e baixelas de prata.

Conservava o vintém com a devoção de um mouro. Surge, porém, a dor que o despreza e maltrata E, depois, vem a morte erguendo a foice ingrata, Que o lança em desespero a fundo sorvedouro...

Sem o corpo de carne é um louco que esbraveja, Quer governar, ainda, a migalha e a bandeja; Enjaulado na sombra, excita-se e reage.

E conquanto pranteie e se lamente embora, O infeliz Harpagão possui sòmente, agora, Uma cama de terra e um cobertor de laje.

(*) Emérito professor de Português do Colégio Pedro II, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº37, prosador primoroso e poeta lírico de profunda inspiração, Silva Ramos fêz o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Filólogo dos mais eminentes, soube influenciar espíritos de escol quais Antenor Nascentes, Manuel Bandeira e Sousa da Silveira. Colaborou em diversas publicações, como A Semana, Revista da Academia Brasileira de Letras, Renascença, etc. «A magnanimidade de Silva Ramos» – disse Alcântara Machado – «é atestada não por este ou aquele capítulo, mas por todas as páginas da sua existência. » (Recife, Pernambuco, 6 de Março de 1853 – Rio de Janeiro, GB, 16 de Dezembro de 1930.)

BIBLIOGRAFIA: Adejos; Pela Vida Fora; A Reforma Ortográfica; Centenário de João de Deus, conferência; etc VELHO JOÃO

Cornélio Pires *

Velho João, agonizas triste e pobre, Sem que o mundo, sequer, a mão te estenda; Ninguém te oferta um caldo por merenda, Nem um trapo de pano que lhe sobre...

Ah! ninguém te agradece ao peito nobre O cansaço na roça e na moenda; Morres, lembrando as pompas da fazenda, No seboso molambo que te encobre.

Percebes, pelos vãos da própria furna, Flores aos borbotões, na paz noturna, E abandonas o corpo, a fim de vê-las...

Fitas, em prece, a noite calma e santa E sobes, velho João, como quem canta Nos milharais do Céu, plantando estrelas!

Roubaste um pão apenas, Mãe querida, Tu que foste roubada em toda a vida Por tantos filhos que te abandonaram!... Mas Deus guarda-te, além, por luz e enfeite, O tesouro de sangue, pranto e leite Das pérolas de amor que te furtaram!

(*)Além de poeta, contista, jornalista, humorista e conferencista, era Cornélio Pires devotado pesquisador do nosso folclore. «Seja bom» – recomendou-lhe, certa vez, Amadeu Amaral. E Cornélio Pires, ao fazer-se tarefeiro da Doutrina Espírita, não foi apenas um bom, mas verdadeiro herói da bondade permanente, a benefício dos semelhantes. Pouco antes de desencarnar, fundou em Tietê, SP, a «Granja de Jesus», entidade de amparo ao menor abandonado. Escreveu para inúmeros jornais e revistas, tendo iniciado a sua vida literária em O Malho, do Rio. Alguns dos seus livros continuam a ter numerosas e sucessivas reedições. «Sua obra» – di-lo Joffre Martins Veiga – «é eminentemente popular e de cunho essencialmente brasileiro. » (Tietê, Est. de S. Paulo, 13 de Julho de 1884 – S. Paulo, Estado de S. Paulo, em 17 de Fevereiro de 1958.)

BIBLIOGRAFIA: Musa Caipira; O Monturo; Versos; Coisas d’Outro Mundo; Onde estás, ó morte?»; etc VERSOS A MINHA MÃE

Antônio Francisco da Costa e Silva*

Pássaro preso no recinto escasso Do velho canavial, beirando o rio, Quis ver o mundo vasto e conheci-o, Varando, em pleno vôo, o azul do espaço...

Lembro-me agora... Enceguecido, abraço A exaltação, a glória e o poderio... Mas tudo, minha Mãe, era vazio Fora do amor que brilha em teu regaço.

Vi mil chagas de dor que a fama incensa Nos nervos de ouro da cidade imensa, E prazeres em trágico desmando...

Mas no colo a que, em sonho, me recostas, Tenho apenas teu vulto de mãos postas, Que teu filho recorda, soluçando...

(*) Depois de fazer o curso primário e os preparatórios em Teresina, transferiu-se da Costa e Silva para o Recife, onde, sòmente em 1913 veio a bacharelar-se em Direito. Foi funcionário público do Ministério da Fazenda, ascendendo a altos postos. Durante quase dez anos viveu o poeta em Belo Horizonte, mudando-se, posteriormente, para o Rio, onde desencarnou. «A sua poesia» – escreveu Andrade Muricy – «trazia uma exaltação luminosa, um inebriamento comunicativo. Era alguém que cantava, mas com uma virtuosidade harmoniosa e forte, um belo ímpeto arrebatado.» (Amarante, Piauí, 28 ¿' de Novembro de 1885 – Rio de Janeiro, GB, 29 de Junho de 1950.)

BIBLIOGRAFIA: Sangue; Zodíaco; Verhaeren; Verônica; etc. VIDA - HOJE - EXCESSO - SOBRIEDADE - PRECE Antonio Fernandes da Silveira Carvalho*

Berço e túmulo – surpresa –, Nascer e morrer do dia. Num – alegria e tristeza; Noutro – tristeza e alegria.

Hoje! Auxilia, auxilia, Mesmo ante a luta que enfade. Amanhã será teu dia De sombra e necessidade.

Estende a luz do progresso. Quem serve, a si mesmo exalta. Para quem foge do excesso, O necessário não falta.

Generoso e entusiasta, Sê comedido também. Aquele que nada basta, Tendo tudo, nada tem.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.