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Capítulo 6 de 87
Parte 6 de 87
A Vida além do Véu · Osvaldo Polidoro
Por aqui há uma lenda que diz que uma vez uma destes pássaros, em sua ânsia de sobrepujar seus companheiros, ultrapassou os outros e se projetou na esfera terrestre. Ali ele foi visto por um clarividente que o alvejou, e ele ficou tão transtornado – não pelo tiro, mas pela sensação que sentiu vinda dos pensamentos do homem que ele percebeu de alguma forma que não estava em seu elemento certo, e tão logo percebeu isso, estava aqui de volta. O que ele sentiu, vindo do cérebro do homem, foi a resolução e o desejo de matar e, 38 – Reverendo G. VALE OWEN apesar de saber que isso era sinistro, quando tentou contar aos seus amigos pássaros perdeu seu tempo, porque nada disso é conhecido por aqui, e ele não conseguiu descrever, da mesma forma que uma ave deste reino não poderia descrever sua vida a uma ave da terra. Por isso outras aves disseram que, se ele tinha uma historia a contar e não conseguia, que voltasse e encontrasse o homem e perguntasse a ele qual palavra ele poderia usar.
Ele assim fez, e o homem, que era fazendeiro, disse que “torta de pombo” seria a melhor palavra para descrever a ideia dele. O pássaro retornou e, como eles não puderam traduzir a palavra em sua linguagem, ou tirar qualquer significado daquilo, deram uma solução para quando alguém desejasse visitar a terra no futuro: deveria colocarse em guarda até perguntar se estava em sua esfera ou não. A moral dessa história é: mantenhase em sua própria tarefa, a qual você compreenderá e onde você será entendido por aqueles que também são servos, companheiros seus de trabalho; e não almeje lançarse demais à frente de onde tem certeza de que é seu chão, ou “atmosfera”, ou, pensando que está seguindo em frente, você pode se encontrar num plano que está abaixo daquele de onde você saiu e onde os seres mais elevados dali são menos evoluídos, de várias formas, que o mais baixo de seu próprio plano, e muito piores como companhia. Bem, esta é uma pequena história, como um pequeno interlúdio, e servirá para mostrarlhe que podemos rir aqui, e ser sabiamente tolos, e tolamente sábios às vezes, e que não somos muito maduros em algumas coisas desde que deixamos a terra e viemos para cá. Até logo, querido; mantenha seu coração feliz.
Sexta, 3 de outubro de 1913. Quando você estiver com qualquer dúvida sobre a veracidade da comunicação espiritual, pense nas mensagens que já recebeu e verá que em tudo que escrevemos, nós mantivemos nelas um propósito bem claro. É o propósito de que podemos ajudálo, e através de você, a outros também, a entender como tudo é natural por aqui, senão maravilhoso. Algumas vezes, quando olhamos para trás, para nossas vidas na terra, sentimos um desejo de fazer mais clara a estrada dos que ainda estão aí, e mais brilhante do que foi a nossa, quanto aos nossos pensamentos em direção à vida futura. Nada entendíamos, e assim viemos com uma incerteza sobre o que nos aguardava.
Muitos, pelo que sabemos, dizem que isso é bom, mas, conforme vemos as coisas de nosso atual ponto de vista, não podemos concordar que a incerteza seja boa quando uma meta definitiva deve ser atingida. Segurança, por outro lado, dá decisão e conduz a ações corajosas, e se a nós foi permitido infundir, aos peregrinos da terra, a certeza da vida e do brilho daqui para aqueles que lutam bem a boa luta, estaremos amplamente contemplados pelas nossas jornadas até aqui, vindos de nossas próprias casas cintilantes em luz. Agora vejamos se podemos passarlhe umas poucas palavras sobre as condições que encontramos quando chegamos aqui–as condições, quero dizer, daqueles que chegam aqui pela primeira vez. Eles não estão num grau igual de evolução espiritual, claro, e portanto requerem tratamento diferenciado. Muitos, como você sabe, não percebem por 39 – A VIDA ALÉM DO VÉU algum tempo o fato de estarem mortos, como vocês chamariam, porque encontramse vivos e com um corpo, e suas vagas noções anteriores do estado de apósmorte não são, por isso, descartadas totalmente.
A primeira coisa a ser feita com eles, então, é ajudálos a perceberem o fato de que não estão mais na vida terrena e, para isso, empregamos vários métodos. Um deles é perguntarlhes se lembram de algum amigo ou parente, e, quando respondem que sim, mas que estes estão mortos, tentamos este encontro para que vejam aquele espírito em particular que, aparecendo vivo, convenceria o duvidoso de que ele realmentepassou para o lado de cá. Mas não é sempre esse o caso, pois as ilusões cravadas são obstinadas, assim tentamos outro método. Nós o levamos a alguma localidade da terra que lhe é familiar, e mostramos a ele aqueles que ele deixou para trás e a diferença de estado entre ele e os seus. Se isso falhar, fazemolo reviver as últimas experiências passadas antes da passagem para cá, e lentamente o levamos ao momento em que ele se sentiu sonolento, e tentamos unir esse momento com seu despertar por aqui.
Todas estas tentativas frequentemente falham – mais frequentemente que você imagina – já que o caráter é moldado ano após ano, e as ideias que concorrem para esta construção tornamse firmemente imbuídas em seu caráter. Também temos que ser muito cuidadosos para não sobrecarregálo, pois retardaria sua instrução. Algumas vezes, entretanto, no caso dos que são mais esclarecidos, estes percebem imediatamente que passaram para o mundo espiritual, e então nosso trabalho fica fácil. Uma vez fomos enviados para uma grande cidade onde deveríamos encontrar outros socorristas num hospital, a fim de receber o espírito de uma mulher que estava chegando. Estes outros estiveram observandoa durante sua doença, e deviam ajudála a sair e ter conosco.
Encontramos muitos amigos em torno de sua cama na enfermaria, e eles estavam com rostos que expressavam desgosto, como se algum desastre estivesse por acontecer à sua amiga doente. Parecia tão estranho, já que ela era uma boa mulher, e estava por ser conduzida para a luz, saída de uma vida de labuta e tristezas, e, ultimamente, de muito sofrimento na carne. Ela se sentiu sonolenta, e o cordão vital foi cortado por nossos atentos amigos, e então, suavemente, eles a acordaram e ela abriu os olhos e sorriu muito docemente para a face bondosa que estava inclinada sobre ela. Ficou ali, muito feliz e contente, até que começou a pensar no porquê destes rostos estranhos a ela estarem em torno dela, no lugar das enfermeiras e amigos que ela ultimamente estava vendo. Perguntou onde estava e, quando lhe foi dito, um olhar assustado e temeroso cobriu sua face, e ela pediu se poderia ver os amigos que deixara.
Isto lhe foi permitido, e ela os viu através do Véu e balançou tristemente a cabeça, “Se eles pudessem saber”, disse ela, “quão livre da dor estou agora, e confortável. Não poderiam dizer a eles?” Tentamos fazer isso, mas apenas um deles nos ouviu, penso eu, e apenas imperfeitamente, e logo afastou a ideiacomo seforaimaginação. Nós a levamos daquele lugar, e, depois de ela ter adquirido forças, foi levada a uma escola infantil onde seu filhinho estava e, quando ela o viu, sua alegria foi grande demais para ser colocada em palavras. Ele havia passado para cá alguns anos antes, e foi posto nesta escola onde vivia desde então. Então, a criança passou a ser o instrutor de sua 40 – Reverendo G.
VALE OWEN mãe, e esta cena era digna de ser vista. Ele a levou pela escola e pelos campos, e mostrou lhe os diferentes lugares e seus colegas de escola, e, todo o tempo, sua face brilhava de alegria, assim como a da mãe. Nós a deixamos por um pouco, e então, quando retornamos, encontramos aqueles dois sentados num bosque, e ela estava contando a ele sobre os que havia deixado para trás, e ele estava dizendo a ela sobre os que vieram para cá antes, e a quem ele encontrara, e de sua vida na escola, e fizemos muito para tirála de lá, prometendolhe que retornaria logo e sempre, para rever seu menino. Este é um dos melhores casos, e há muitos outros iguais, mas outros são bem diferentes. Enquanto esperávamos pela mãezinha que conversava com seu filho, passeamos pelo local e vimos as várias formas de se ensinar a crianças.
Uma, em especial, chamou minha atenção. Era um enorme globo de vidro, de seis ou sete pés de diâmetro, mais ou menos. Ficava no cruzamento de dois caminhos, e os refletia. Mas, à medida que você olhava dentro dele, podia ver não somente as flores, árvores e plantas que ali cresciam, mas também as diferentes ordens das quais derivaram em tempos passados. Era muito mais uma aula de botânica adiantada, como as que devem ser dadas na terra e deduzidas das plantas fossilizadas da geologia.
Mas aqui víamos as mesmas plantas vivas e crescendo, e todas as espécies vindas delas, do mesmo ramo original até o atual representante da mesma família. Aprendemos que a tarefa colocada para as crianças era: considerar este avanço progressivo nesta planta ou árvore ou flor, crescendo de forma real naquele jardim e refletida naquele globo, e então tentar construir em suas mentes a evolução para adiante das mesmas espécies. Este é um excelente treino para suas faculdades mentais, mas os resultados são frequentemente divertidos. É o mesmo estudo em que os mais adiantados se empenham em outros departamentos aqui, mas foi proposto por eles uma finalidade prática. Um deles pensou que seria um método útil ajudar as crianças a usarem suas próprias mentes, e assim construiu a bola para este uso especial.
Quando acabam de raciocinar sobre as conclusões deles, eles devem fazer um modelo da planta da forma em que ela aparecerá depois de outro período evolutivo, e alguns destes modelos são temerários e espantosos, e tão impossíveis quanto estranhos. Não devo me alongar com você, por isso continuaremos quando puder escrever novamente. Deus o abençoe e aos seus. Boa noite. Segunda, 6 de outubro de 1913.
Bem, querido, você teve uma feliz festa pela “Ação de Graças pela Colheita”, e estivemos com você, apesar de que não nos viu, e esteve ocupado demais para pensar em nós. Amamos vir e estar com seus companheiros de culto ainda encarnados, e também darmos o que podemos de ajuda em seus cultos. Pode surpreendêlo saber que aqui nestes reinos de Luz, nós também, de vez em quando, fazemos tais reuniões, e nos agrupamos em agradecimento a nosso Pai pela colheita abundante. Fazemos isso para a complementação da ação de graças de nossos companheiros na terra, e também para nossa elevação. Não 41 – A VIDA ALÉM DO VÉU temos aqui tais colheitas como as de vocês, mas temos reuniões para rendermos graças por outras bênçãos que são, para nós, o que as colheitas são, para vocês.
Por exemplo, nós agradecemos a Ele pela beleza em torno de nós e todas as glórias de luz e amor que nos sustentam em vigor para nosso trabalho e progresso, e temos ações para rendermos graças por tais bênçãos como estas. Em tais ocasiões usualmente nos são dadas algumas Manifestações vindas das mais Altas esferas, uma delas vou contar lhe agora. Celebrávamos nossa Eucaristia num vale, onde duas colinas elevadas ficavam um pouco à parte, uma de cada lado, numa das extremidades do vale. Oferecêramos nossas preces e adoração, e estávamos com as cabeças abaixadas, aguardando, naquele silêncio da paz que sempre nos preenche por estas ocasiões, pela palavra de Bênção daquele que havia sido o ministrante principal. Ele ficou um pouco mais no alto na colina, mas não falava, e ficamos pensando no porquê.
Depois de instantes, todos nós elevamos nossas cabeças lentamente, como se alguém consentisse e nos impelisse através de uma voz interior, e vimos que a colina na qual ele estava foi coberta com uma luz dourada que parecia repousar sobre ela como um véu. Isto logo se encolheu e se concentrou em torno da forma do Pastor, que estava ali, parecendo alheio a tudo em torno dele. Então, pareceu voltar a si novamente e, saindo para fora da nuvem, andou em direção a nós, dizendonos que deveríamos esperar um pouquinho até que pudéssemos ver um plano mais alto, de onde certos anjos de lá desceram e estavam presentes. Assim, esperamos, felizes, já que aprendemos que quando tais ordenanças nos são dadas, tudo será justificado. A nuvem então se elevou e espalhouse sobre o vale, cada vez mais distante, até que cobriu todo o céu sobre nós, e então gradualmente desceu e nos envolveu, e estávamos num mar de luz muito mais brilhante que a luz de nossa própria esfera.
Não ofuscava nossos olhos, já que era suavee doce. Aos poucos pudemos ver mais, por causa dela, e então tivemos a visão preparada para nós. As duas colinas no final do vale brilharam como fogo, e cada uma era a lateral ou os braços de um Trono, e sobre este trono, todas as cores do arco íris estavam ali, iridescentes, parecendo bastante com a cena que você leu no Livro de Isaías e no Livro das Revelações. Mas nós não vimos Aquele Que estava no Trono, pelo menos não na forma de um corpo. O que nós vimos foi a manifestação d’Ele em Sua Paternidade.
No terraço, que agora era o assento do Trono, vimos uma enorme falange de anjos, todos reverentes em adoração a um berço. No berço vimos uma criança que lhes sorria, e finalmente ergueu os braços em direção ao espaço aberto sobre ele, onde uma luz parecia descer de cima. Então, um globo desceu de lá para as suas mãos, e ele se ergueu e o segurou com a mão esquerda. Parecia vivo com o brilho da vida, e cintilava, e brilhava, e ficou mais e mais iluminado, até que mal podíamos perceber nada mais a não ser a bola e a criança que a segurava, cujo corpo parecia irradiar de si sua luz vívida. Então ele a tomou em suas duas mãos e a abriu em duas metades, e levantouas, mostrando para nós os círculos abertos.
Um estava pleno de irradiação rosa, e o outro de azul. Na primeira vimos os reinos espirituais dispostos em círculos concêntricos, cada círculo repleto dos seres lindos e gloriosos daqueles reinos. Mas os círculos externos não eram tão brilhantes quanto os mais internos, apesar de ali podermos ver mais claramente seus habitantes, porque estavam 42 – Reverendo G. VALE OWEN mais próximos de nosso próprio plano que os outros. À medida que nos aproximávamos dos mais internos, a luz tornavase intensa demais para se ver claramente o que continham.
Mas o mais externo reconhecemos como sendo o nosso. A outra bola de luz rósea era diferente. Não havia círculos aparentes nele. Mas, mesmo assim, em perfeita ordem, vimos todas as diferentes espécies de vida animal e vegetal, na forma em que se apresentam nos planetas, inclusive na Terra. Mas nós não os vimos na forma em que se apresentam entre vocês, mas na forma perfeita, desde o homem até a mais baixa forma da vida animal, e desde a maior árvore e a mais suculenta fruta, até a menor semente que germina.
Quando acabamos de ver estas cenas, a criança gentilmente ajuntou as duas metades, os Céus Gloriosos e a perfeita Criação Material, e quando ele as agrupou já não era possível ver as marcas da junção, nem dizer qual era uma metade e qual a outra. Mas enquanto observávamos as metades da bola unidas, vimos que ela aumentou e, finalmente, flutuou, saindo das mãos da criança, e elevouse espaço acima, e ficou lá, pairando, uma linda bola de luz. Então ali, gradualmente apareceu, em pé na esfera, a figura do Cristo Que, em Sua mão esquerda segurava uma cruz, cuja base repousava no globo e o topo ficava um pouquinho acima de Seus ombros. Em Sua direita, Ele segurava a criança, em cuja testa notamos um círculo dourado usado como um diadema em sua cabeça, e em cima de seu peito uma joia como um grande rubi. Então o globo começou a subir lentamente aos céus, e quanto mais alto subia, mais pequenino se tornava à nossa visão, até que sumiu na distância no espaço acima, entre as duas colinas.
Então voltamos à nossa forma antiga, e nos sentamos para pensarmos no que acabáramos de ver, e o significado de tudo. Mas apesar de que alguém parecesse ter um leve relance quanto ao entendimento de tudo, ninguém o esclareceu. Então nos lembramos de nosso ministrante, que primeiramente havia recebido o batismo vindo da nuvem, e, como nos pareceu, em grau mais intenso que para o resto de nós. Nós o encontramos sentado ali naquela rocha, com um cálido sorriso em sua face, como se soubesse viríamos até ele no final, e estava esperando que nos lembrássemos dele. Ele nos convidou a nos sentarmos novamente e, ainda sentado na rocha onde podíamos vêlo bem, falounos sobre a Visão.
Foilhe explicado em seus significados mais óbvios, e estes ele era capaz de nos transmitir, levandonos a pensar em tudo e trabalhar nossas mentes pelo ensinamento mais profundo e elevado, cada qual com seu grau de elevação atingido. Isso é o que usualmente se faz, percebi, quando ensinamentos nos são dados por este caminho. A hemisfera rosa representava a Criação que era inferior à nossa esfera, e a azul o nosso plano e os superiores a nós. Mas não havia duas Criações, apenas uma; não havia descontinuidade entre estas duas hemisferas ou qualquer um de seus departamentos. A criança era a representação do começo, progresso e final, o qual não tinha fim – nosso caminho para adiante.
O rubi representa o sacrifício, e o diadema a realização, e a ascensão do globo e do Cristo e a criança guiaram nossas aspirações aos reinos que atualmente estão além de nosso alcance. Mas, é claro, havia em tudo muito mais que este mero esboço, e temos que, como já disse, interpretar por nós mesmos. Isto, de acordo com nossos costumes, conseguiremos, e, em futuras reuniões, tiraremos nossas conclusões de vez em quando, e elas serão discutidas. 43 – A VIDA ALÉM DO VÉU Obrigado. Posso fazer‐lhe uma pergunta que gostariam que lhes colocasse? Não há necessidade de colocála em palavras.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.