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Capítulo 46 de 87
Parte 46 de 87
A Vida além do Véu · Osvaldo Polidoro
Não são todas de um mesmo tipo ou padrão de mal. Pelo livre arbítrio e personalidade, há ali, como em qualquer lugar, e pela persistência destes, alguns grandes e outros menores em poder, mesmo como na terra e nas esferas mais brilhantes. Assim chegamos a uma grande cidade, e entramos por um portal enorme onde guardas marchavam de lá para cá. Diminuímos nosso desejo de sermos visíveis e passamos sem sermos vistos. Vimos que a ampla avenida em frente ao portal era alinhada com enormes construções pesadas, como prisões e fortalezas.
De vários buracos de ventilação saíam focos de luz que davam na rua e no pátio. Seguimos até um grande cruzamento onde havia uma estátua num alto pedestal, não no meio, mas em um dos lados, onde estava o prédio maior. A estátua era de um homem que usava a toga de nobre romano, e em sua mão esquerda ele segurava um espelho no qual ele se olhava, mas sua mão direita segurava uma jarra, de onde ele vertia vinho tinto que espirrava numa bacia embaixo – caricatura de nobreza. A bacia era ornamentada com figuras aqui e ali em torno de sua borda. Havia crianças brincando, mas o jogo que os divertia era o de torturar um carneiro esfolandoo vivo.
Em outra parte havia uma mulher rudemente esculpida, que segurava em seu peito um bebê de cabeça para baixo. As esculturas eram deste tipo, todas de escárnio, 247 – A VIDA ALÉM DO VÉU blasfemando contra as virtudes da infância, maternidade, valores, reverência, amor e outros, uma variada multidão obscena que nos fazia quase que apelar desesperados por dignidade da parte dos que viviam ali, para que houvesse bons resultados. Predominava a sujeira e o escárnio em torno de nós. Mesmo os prédios em sua planta e decoração chocavam os olhos em qualquer lugar que olhássemos. Mas estávamos ali por um propósito, como eu disse, e devíamos aguentar o que encontrássemos, e seguir adiante em nossa incumbência.
Então conduzimos nossa vontade para uma condição pela qual pudéssemos ser vistos pelos habitantes, e adentramos o portão do obscuro Palácio do Mal, diante do qual estava a estátua. Passamos por uma ampla entrada semelhante a um calabouço e, atravessando a passagem além dela, encontramonos à frente de uma porta que dava para um balcão. Este acompanhava um hall elevado, na metade do andar entre o térreo e o teto, com lances de escadas aqui e ali, descendo. Nós nos aproximamos da balaustrada e olhamos para o hall abaixo, de onde vinha uma voz forte e penetrante. Pudemos ver por instantes de quem era; mas quando nossos olhos se acostumaram melhor à luz avermelhada que cobria todo o grande espaço abaixo de nós, vimos e soubemos o que acontecia ali.
Em frente a nós elevavase um grande lance de escadaria do chão ao balcão. Todos da multidão sentaramse em torno dela, encarandoa. Sobre os degraus mais baixos e até a metade deles, estavam ali enrolados, em diferentes atitudes, todas horrendas, um homem e uma mulher em umas poucas roupas soltas que, apesar de tudo, faziam aparentar grandeza. Aqui e ali um cinto dourado ou prateado, ou uma grinalda; mas era tudo falso, como podia se ver: o ouro era latão, e as gemas falsificadas. Sobre os degraus, bem em cima, estava um orador.
Ele era enorme de estatura, maior que todos, e também os dominava com sua maldade. Usava uma coroa eriçada e um longo e sujo manto cinza, como se uma vez tivesse sido branco, mas faltavalhe o brilho da brancura e tomou a tonalidade neutra de quem o usava. Em seu peito havia dois cintos de ouro falso que se cruzavam e estavam presos a outro de couro no quadril. Havia sandálias em seus pés, e ao seu lado nos degraus um bordão torto de pastor. Mas o que fez a nossa delegação sentir uma pontada de dor indescritível, enquanto o observávamos, foi a coroa.
Os espigões eram os espinhos de amoreira preta feitos em ouro, que, circulando sua pálida fronte, transformaramse em coroa. Teríamos retornado, mas nosso compromisso estava assumido e tínhamos que ouvir seu discurso até que ele terminasse. É doloroso para mim contar, tanto quanto é para você registrar esta história. Mas é bom, meu irmão, que aqueles que ainda estão na vida da terra cheguem ao conhecimento do que é a vida naquelas esferas trevosas, onde a mistura do bom e do mau não se sustenta por muito tempo. Os bons sobem, os maus afundam para os lugares mais baixos, e a junção do mau com o bom não é contabilizado nas regiões infernais.
Pois o mau deixado junto com o mau gera blasfêmias que não são possíveis na sociedade composta na terra. Ele pregava a eles o Evangelho da Paz. Vou darlhe uns poucos parágrafos de seu discurso, e através deles você julgará o resto: “E assim, meus irmãos e irmãs, todos nós, em mansidão, chegamos juntos em nossa adoração à Besta que matou o cordeiro. Pois se o cordeiro foi assassinado por nós, então o que matou o cordeiro foi o benfeitor ativo de nossa raça – o cordeiro sendo apenas o instrumento passivo – coma finalidade de podermos chegar aos abençoados e sobreviver às doenças condenáveis dos amaldiçoados. É, portanto, concordar, meus irmãos, como a Besta foi tão curiosamente procurada e acharam o cordeiro, e de sua inutilidade inofensiva trouxe o sangue de vida e salvação, assim também vocês, inclinados em ações nobres, deveriam procurar e encontrar o complemento do cordeiro, e fazerem assim como o Pastor nos ensinou.
Por seus temperamentos astutos, longe de serem como os cordeiros inertes, deveriam ser trazidos à vida de todos a febre e o frenesi de sua sagacidade. E o que é como 248 – Reverendo G. VALE OWEN o tímido e inofensivo cordeiro senão a mulher, meus irmãos, a mais graciosa, senão a mais tola complementação do homem. E em seus ouvidos, tão afinados à delicadeza vulgar, minhas irmãs, eu cochicharia uma palavra de conselho também. Crianças não vêm até aqui nestes grandes reinos, dos quais vocês me deram a honra de elegerme Governador.
Mas, apesar disso, a vocês eu diria, olhem para mim em minha mansidão e olhem para este cajado que eu tenho nas mãos, e contem comigo como seu pastor e sigamme. Levarei vocês para aqueles que têm crianças demais, crianças para apartar e para lançar dos peitos maternais, como uma vez elas lançaram fora as vidas imaturas que haviam começado nelas, mas que elas, da plenitude de sua piedade, sacrificaram no altar de Moloc antes de virem à vida de trabalho e dor sobre a terra. Venham, agradáveis senhoras, e juntemse àquelas pobres senhoras que lamentam o assassinato, enquanto encolhemse e esforçamse por jogar fora todas as memórias da vida daqueles que eram seus queridos, seus pequenos assassinados.” Ele mencionou outras frases, por demais perversas para expor em palavras agora; nem pediria a Kathleen para dizêlas a você, nem a você que as escutasse. Mas estas eu lhe transmiti, para que você e os outros possam de relance entrever o escárnio maldoso e a mansidão irônica daquele homem que, por sua vez, é apenas um tipo dos milhares nestes reinos. Ele, que assumiu um caráter tão gentil e uma graça tão doentia, era um dos mais ferozes e mais cruéis déspotas de toda aquela região.
Verdadeiramente, como ele dissera, eles o elegeram Governador, mas foi por medo de seu grande poder de maldade. E agora que ele chamou aqueles pobres disformes e semiloucos de nobres, eles o aplaudiam em sua servidão, pela mesma razão. Aquelas pobres velhas megeras, as mulheres esquálidas em seu vestuário elegante, a elas ele chamou de simpáticas senhoras, e convidouas para seguilo como ovelhas a seu pastor, e por medo também elas alegraram se aprovando, e subiram para irem com ele quando ele se virou para galgar o primeiro grande lance de escadas. Mas enquanto ele começou a subir, colocando o pessoal sobre o próximo degrau acima do que ele estava, ele parou e retornou, e vagarosamente desceu passo a passo, até que atingiu o chão; e toda a multidão no hall curvouse com a respiração paralisada de espanto, misto de esperança e medo. A razão disto era a visão que tiveram no topo da escadaria diante deles.
Porque nós estávamos lá e assumimos bastante de nosso esplendor normal, tanto quanto nos era possível naquele ambiente. Uma senhora de nossa comitiva ficou a uns doze degraus abaixo de nós. Sua tiara de esmeraldas brilhava sobre sua fronte conforme ela balançava seus cabelos castanhodourados, e a joia de ordem sobre seu ombro brilhava, cintilante e real, por causa de suas virtudes. E tudo isto mostrava contraste em relação àquelas joias espalhafatosas da multidão diante dela. E em seus braços ela segurava um buquê de lírios.
Ela estava ali, a representação da feminilidade pura em todo seu perfeito encanto, um desafio ao cinismo grosseiro da raça do orador anterior. Então, por um longo tempo olharam para ela, os homens e as mulheres dali, até que uma delas soluçou e tentou abafar o som em seu manto. Mas então as outras deram passagem para que voltasse a elas sua feminilidade de outrora, e todo o hall ficou repleto com o lamento das mulheres – oh, tão desejosas de ouvir naquele lugar de miséria e de escravidão, que os homens também começaram a cobrir suas faces com suas mãos, e caindo no chão, espremiam suas faces no pó lamacento do solo. Mas agora o Governador dominouse, pois viu seu poder posto em perigo. Com muita raiva começou a dar passos largos em direção aos corpos das mulheres, para pegar quem primeiro tinha iniciado a lamentação.
Porém, nesta hora eu vim para o degrau mais baixo e chameio: “Abaixe suas mãos e venha até aqui onde estou”. Ao ouvir isto, ele virouse e, olhando de soslaio, começou dizendo: “Mas vocês, meus senhores, são bemvindos, portanto estejam em paz entre nós. Apesar de que estes 249 – A VIDA ALÉM DO VÉU pobres covardes estão por demais deslumbrados pela luz da senhora que está atrás do senhor, e eu apenas tento trazêlos de volta à razão, para poderem darlhes uma apropriada boa vinda”. Mas respondi severamente a ele: “Pare, e venha até aqui”. Assim ele fez e ficou diante de mim, e eu continuei: “Você tem blasfemado, tanto em seu discurso como em suas armadilhas.
Tire fora esta coroa blasfema e jogue este bordão de pastor, você que ousa escarnecer do Único Que clama por Suas crianças as quais você prende em seu laço de medo”. Estas ordens ele cumpriu, e então eu falei para alguns homens parados ali perto, e disselhes mais gentilmente: “Vocês têm sido covardes por tempo demais, e este homem escravizouos, corpo e alma. Ele deve ser conduzido para uma cidade onde alguém, superior em maldade, deverá governálo. Façam isso vocês, vocês que o serviram até aqui, façam o que peço. Tirem dele este manto e esta coroa que ele fez para escárnio d’Ele a Quem até mesmo ele algum dia deverá ter como Príncipe Soberano e Senhor”.
E então esperei, e ali vieram em nossa direção quatro deles e começaram a desabotoar seu cinturão. Ele virouse ferozmente enfurecido sobre eles, mas eu tirei o pessoal dele da frente e impus minhas mãos sobre seus ombros, e a esse toque ele sentiu o meu poder e não mais teve reação. Portanto minha vontade quanto a ele estava realizada, e quando fiz com que saísse do hall em direção à escuridão, guardas esperavam para levá lo para aquela região distante onde, conforme ele fez aos outros, tudo seria feito a ele. Então pedi que se sentassem no hall e, assim que o fizeram, chamei o cantor de nosso grupo, e ele elevou sua poderosa voz e preencheu todo o ambiente com sua melodia. E enquanto ele cantava, os corações daquela gente começaram a bater mais livremente, não estando mais presos pelo medo dele, a quem tinham visto tão indefeso em nossas mãos.
E a luz começou a perder a tonalidade avermelhada e tornouse mais jovial, e um sentimento maior de paz do Ser invadiu o lugar e banhou seus corpos quentes e febris com uma brisa refrescante. O que ele cantou para todos? Ele cantou uma música de uma feliz brincadeira e alegria – do espírito da primavera, sobre a manhã rompendo as barras da prisão da noite e liberando sons e cantos de pássaros e árvores e correntezas de rios. Ele não cantou nenhuma palavra de santidade ou das qualidades de Deus, não ali, nem naquela hora. O remédio precisava primeiramente estimular suas individualidades para que pudessem perceber sua liberdade tardia daquela escravidão.
E por isso ele cantou canções sobre o prazer de viver e sobre a alegria da amizade. E eles não ficaram alegres, mas menos desesperados. Mais tarde nós os retomamos e demos instruções, e o dia chegou em que o hall estava completamente cheio de adoradores d’Ele sobre Quem tinham ouvido blasfêmias uma vez, na indiferença de seu pavor. Este serviço de prestar culto não era o que ajudaria como ajudava os de maior grau de bondade. Mas suas pobres vozes, tão em falta de harmonia, já apresentavam uma nota de esperança que nos era muito doce, pois tínhamos trabalhado com eles em suas dúvidas e terrores.
Então outros vieram para tomar nossos lugares e fortalecêlos e encorajálos até que estivessem prontos para a jornada, longa e difícil, mas sempre em direção à aurora do leste; enquanto isso seguimos para nosso próximo destino. Eram todos eles de mesmo tipo de mentalidade? Quase, amigo, quase. Havia poucos ali faltando . E vou contarlhe algo que achará estranho ou improvável.
Alguns escolheram seguir seu Governador para seu rebaixamento. Tanto estavam ligados pela maldade, que não acharam nada em seus próprios caracteres para que permanecessem ali, de acordo com eles mesmos. Então seguiramno em sua queda como se estivessem servindoo em sua violenta glória de poder. Então somente 250 – Reverendo G. VALE OWEN poucos foram conosco, e outros poucos foram a outros lugares em seus afazeres.
Mas a grande maioria deles ficou e aprendeu novamente aquelas verdades que há tanto tempo haviam esquecido. E a velha história era tão nova e maravilhosa a eles que dava pena de ver. O que aconteceu com o Governador? Ele ainda está naquela cidade distante onde os guardas deixaramno. Ainda não evoluiu, ficou parado no intento do mal e muita malícia.
Tais como ele, meu amigo, são difíceis de mudar para algo mais elevado. Você falou de sua guarda. Quem são eles? Ah, agora você tocou num dos tópicos mais difíceis de ser entendido até que se aprenda mais dos caminhos de Deus, Sua Sabedoria, e Sua Soberania. Resumindo, saiba você, amigo, que Deus é Soberano não só no Céu, mas em todos os Infernos Ele governa, e somente Ele.
Os outros dominam localmente, mas Ele governa sobre todos. Os guardas de quem falei eram homens da mesma cidade à qual enviamos o homem. Eram homens malvados e não tinham submissão ao Criador de todos. Mas, não sabendo de quem era o julgamento despachado, esta era mais uma vítima em suas mãos; sem saberem que foi por sua salvação, eles fizeram nossa vontade sem barulho. Você pode achar a chave aqui, se aprofundarse o suficiente, para muito daquilo que acontece em sua terra.
No pensamento de muitos, os homens malvados estão fora do âmbito de Seu Reino; e para estes os males e desastres seriam manifestações defeituosas de Sua vibração dinâmica. Mas ambos estão sob Seu controle, e mesmo os homens malvados, inconscientemente, são colocados a efetuarem seus planos e propósitos na finalidade. Mas isto é uma matéria extensa demais para se tratar agora. Boa noite, e que nossa paz seja sua, amigo. Terça, 8 de janeiro de 1918.
Enquanto fomos a estas localidades durante nosso trabalho de ajuda e misericórdia, vimos que nosso plano préarranjado tinha sido, muito curiosamente, feito para nós. Cada colônia que visitamos nos deu, pela experiência, ganho de conhecimento, um passo em avanço;assim, portanto, enquanto ministramos a outros, nós mesmos éramos ministrados através deles, por aqueles que observam nosso bem estar e nossa escolaridade. Nisto, meu irmão, você pode, e vai, discernir outra fase do princípio de que já lhe falamos, isto é, para seu juízo, o uso daqueles que são rebeldes para o leal serviço de seu verdadeiro Rei. Sem a permissão deles? Sem a oposição deles.
Eles, mesmo os que estão muito afastados na escuridão, não opõem suas vontades às influências mandadas a eles por aqueles que os observam de suas habitações nos Reinos da Vida e Luz, são feitos a serviço do Rei. E quando eles dão meia volta e repensam os passos mais uma vez em direção do brilho do sol do Grande Dia, sua reconsideração é feita, e então também isto pode ser colocado em sua contabilidade positiva, já que, apesar de não saberem, foram focalizados como estando em sintonia com esta santidade, e que eles, neste ou naquele detalhe, já não sustentam mais seu hábito de rebeldia contra a Vontade de Deus. Mas o Governador de quem me falou na última sessão não era um destes, aparentemente. Contudo, ele foi usado em certo grau. 251 – A VIDA ALÉM DO VÉU Ele foi usado, sim, porque com sua derrota foi mostrado às suas companhias eventuais que havia um poder maior que o dele. Também foi mostrado que, mais cedo ou mais tarde, as condutas malignas jamais continuarão desaforadas, mas as escalas são marcadas em outro parâmetro de contagem, portanto a balança no final mostra igualdade, e a justiça é desta forma declarada e quitada.
Mas aquele governador não contará aquilo entre seus pontos, porque sua vontade não estava de acordo com a nossa, mas suplantava em descréditos. Não obstante, já que a punição foi aplicada em doses a ele ali, em parte, pelos seus crimes, isto deverá ser tirado da soma total de seu débito a pagar, portanto, numa forma negativa, você reparará, isto também foi colocado em sua contabilidade positiva. Porém sua pergunta tem algum fundo, amigo. Realmente lidaram com aquele governador contra a vontade dele, mas para uma coibição quando seu trabalho de maldade foi mais longe que o necessário, pois já era o bastante para aqueles que permitiram que ele e sua malignidade chegassem a este ponto. Foi por isso que fomos mandados para aquele hall naquele instante.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.