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Capítulo 45 de 87

Parte 45 de 87

A Vida além do Véu · Osvaldo Polidoro

Assim, tendo passado através daquela área onde as pessoas passam ao sair da  terra,  e  da  qual  já  falamos  resumidamente,  passamos  aos  reinos  mais  escuros. Agora  sentimos a pressão na alma aumentando, sendo necessário um coração forte e cautela nos  passos para o combate. Porque você notará que nós não estávamos procurando aquele  método pelo qual os mais elevados podem sustentar seu contato com aqueles da escuridão,  sendo invisíveis  a  eles. Estávamos  nos  condicionando,  como até aqui, ao ambiente das  esferas  inferiores  à  nossa,  assim  como  a  esta,  de  estado  ainda  mais  baixo,  para  que  ganhássemos corpo, ainda que sem dúvida não tão denso e bruto como os dos habitantes  propriamente,  mas  mesmo assim  bem  próximo disso para,  de  vez  em  quando, sermos  visíveis a eles se desejarmos, e rapidamente, e mesmo para que pudessem, em algumas 242 – Reverendo G. VALE OWEN  ocasiões, estar conscientes do nosso contato com eles e que eles mesmos possam nos tocar.

Então fomos bem vagarosamente e andando, e o tempo inteiro inspirando a condição que  nos  era  ambiente para este mesmo fim e propósito. E desta forma também atingimos  algum sentimento de simpatia entre os que nossos trabalhos agora iriam iniciar. Há  uma  região  que  está  sempre  no  crepúsculo,  mas  termina  numa  descida  íngreme, cujo final está na escuridão. Enquanto estávamos ali para vermos, observamos  através do vale profundo que parecia estar preenchido com trevas tão densas que não  podíamos penetrar de onde estávamos, na luz. Sobre este oceano escuro de névoa e vapor,  uma luz parada ali permanecia, mas não podia afundar muito abaixo da superfície, de tão  denso era este oceano.

E abaixo dele tínhamos que ir. A Ponte da qual sua mãe falou a você atravessa diretamente sobre o vale e as  terras de elevação mais baixa além. Aqueles das profundezas que galgam aquele lado,  descansam ali por um período até irem até o fim, mais para adiante, e atravessarem o  grande caminho até aqui deste lado. Há casas de repouso aqui e lá ao longo do caminho  onde eles, que estão fracos demais para continuarem a jornada ao primeiro estágio, podem  ficar  e  se  refrescar  de  vez  em  quando. Porque  mesmo depois  de atingirem  a  Ponte,  a  jornada para atravessá­la é dolorosa, já que do lado deles o que veem é escuridão e treva  de onde lentamente devem sair, e ouvem o lamento daqueles companheiros temporários  que ainda permanecem lá embaixo, no caminho do vale da morte e do desespero.

Nosso  propósito  não  era  atravessar  a  Ponte,  mas  fazer  nossa  descida  às  profundezas deste lado. O  que  está  além  das  “elevações  mais  baixas”  de  que  você  falou,  e  que  se  encontra na extremidade do Caminho? O Caminho está no cume não tão alto quanto o Plano de repouso que leva às  regiões  de  Luz. Este  é  um  cume  baixo,  e  corre  paralelo  ao  precipício  onde  a  outra  extremidade  da  Ponte  daqui  desemboca. Então  aquele  cume  fica  parecido  com  uma  montanha, alongada e ovalada em forma, com o vale abaixo e entre ele e o Plano de  Repouso.

Além dali está uma vasta planície no nível do final do vale, mas de superfície  desigual  e  com  rachaduras  em  cavernas  e  desfiladeiros,  além  dali  mergulha­se  para  regiões ainda mais baixas, com a escuridão ainda mais profunda. É o cume da montanha  que  eles  se  esforçam  por  atingir,  para  atingirem  a  Ponte  daquele  lado. O  cume  da  montanha é pequeno somente comparado à vastidão da região como um todo. Mas é tão  grande, sem lugar para paradas, que muitos ali se perdem e voltam ao vale novamente. Depende do grau de visão dele, que porsua vez depende em tamanho da intensidade de seu  arrependimento e desejo pela vida melhor, o quão próximo estará achar o caminho de  saída.

Então ficamos ali um pouco e ponderamos, e virei­me aos meus companheiros e  disse: “É um lugar escuro, meus irmãos, e não nos chama com doçura. Mas lá está nosso  caminho, e temos que fazer o melhor que podemos para cumpri­lo”. E um deles respondeu: “Sinto a frieza do ódio e do desespero do fundo da cova. Não podemos fazer quase nada neste oceano de angústia. Mas o pouquinho que pudermos  não pode esperar, porque enquanto esperamos, eles sofrem”.

“Estas são palavras boas de serem ditas”, respondi­lhe, “e estão de acordo com Ele  que veio antes de nós. Nós O estamos seguindo em Sua Luz. Vamos à escuridão, por isto,  também, que é d’Ele, desde que Ele clamou como Seu em Sua vinda”. Desta forma pegamos a estrada para baixo, e quanto mais íamos adentrando a  escuridão, foi ficando cada vez mais escuro, e o frio cada vez mais tenebroso. Mas sabíamos  que fomos para ajudar, e não deveríamos temer, então não hesitamos em nossos passos,  mas fomos cautelosamente, e olhando por este caminho e aquele à direita, porque a nossa  primeira parada era um pouquinho à direita de nossa descida, e não entre o Plano de 243 – A VIDA ALÉM DO VÉU  Repouso e o Cume, e era numa colônia daqueles que estavam cansados por tudo aquilo que  suportaram na vida de mortos, e ainda para aqueles que agora estão sem forças para  recomeçar,  ou  sem  o  conhecimento  de  qual  caminho  tomar  se  saíssem  do  atual  ancoradouro  de  desespero.

Conforme  descíamos,  nossos  olhos  acostumavam­se  à  escuridão, e podíamos ver sobre nós, como numa noite alguém pode ver a região fora da  cidade pelas chamas avermelhadas nas torres de observação dali. Vimos que havia ali  muitas construções em ruínas, algumas agrupadas, outras solitárias. A decadência estava  em tudo. Parecia­nos que jamais alguém conseguira construir algo inteiro, uma vez que  tudo caía em ruínas. Tendo sido construído, abandonavam para construir em outro local  ao  primeiro  sinal  de  uso,  ou,  tendo  cansado  daquilo  antes  que  estivesse  terminado,  largavam para construir outra.

Desânimo e desejo de resignação estavam dominando o ar  –o desânimo do cansativo desespero e o desalento da dúvida, ambos com sua força própria  e a da intenção dos próximos. Havia  árvores  também,  algumas  muito  grandes,  e  estas  com  folhas  nada  graciosas, porque as folhas eram de um verde escuro e amarelo, e espigadas com bordas  dentadas, como se elas também tomassem o aspecto da inimizade em relação àqueles que  moravam perto delas. Aqui e ali atravessávamos cursos d’água com pouca água e cheios de  pedregulhos e pedras afiadas, e a água era pegajosa e fedida pelo lodo. Até que finalmente  chegamos a ver a colônia que procurávamos. Não era uma cidade, mas um agrupamento  de  casas,  algumas  amplas,  outras  pequenas.

Eram  espalhadas,  aqui  e  ali,  e  não  ordenadamente. Não havia ruas na cidade. Muitos moradores estavam em palafitas, ou  num par de lajes de pedras para formar um abrigo. E havia fogueiras nos espaços abertos  para dar luz aos habitantes. Em torno delas, muitos grupos estavam reunidos, alguns  sentados  em  silêncio  olhando  as  chamas,  outros  brigando  barulhentos,  outros  esbravejando em sua raiva, uns aos outros.

Assim  nos  aproximamos,  e  encontrando  um  grupo  silencioso,  ali  ficamos,  esperando e olhando para eles com muita piedade nos nossos corações pela desesperança  de espírito. E, olhando­os, demo­nos as mãos e agradecemos ao Pai por ter nos dado este  trabalho para fazer. Quinta, 3 de janeiro de 1918. Quando nos aproximamos do grupo, eles estavam sentados ou deitados em volta  do fogo flamejante num silêncio mal­humorado. Agora estávamos atrás deles e nenhum  nos olhou.

Se o tivessem feito, não nos teriam visto, seus olhos não estando sintonizados ao  nosso estado, que não era muito diferente ao deles neste grau. Então nos demos as mãos e  gradualmente  nos  fizemos  visíveis;  nesta  hora  eles,  um  ou  outro  deles,  começaram  a  levantar­se, sentindo­se mal, sentindo alguma presença que não estava sintonizada com  eles. É sempre assim, e sempre o mesmo sentimento de irritação e intranquilidade, quando  começam a ansiar por algo, o que os segura de volta frequentemente. O caminho para cima  é  sempre  árduo,  cheio  de  dificuldades  e  ocorrência  de  falhas. A  recompensa  é  bem  merecida no final dela.

Mas isto eles não sabem muito claramente, e o que realmente  sabem é pelo que contam aqueles que vêm a eles como nós fizemos então. Finalmente  um  levantou  e  olhou  intranquilo  acima  dele  para  a  névoa  e  a  escuridão. Ele era alto, magro, de juntas e membros deformados, torto e inclinado, e sua  face era dolorosa de se ver, tal a falta de esperança e tanto desespero tinha, através de sua  face encontramos expressão. Então ele veio em direção a nós em seu andar cambaleante e  ficou a algumas jardas de distância olhando inquisidoramente para nós. Sabíamos que,  apesar da escuridão, podíamos ser vistos pelo menos por aqueles que moravam naquele  lugar escuro. 244 – Reverendo G.

VALE OWEN  Assim, dei um passo à frente e disse: “Você parece muito cansado, meu amigo, e  com  a  mente  muito  perturbada. Podemos  ser  amistosos  de  alguma  forma?”  E  então  ouvimos sua voz. Parecia um estertor vindo de um túnel subterrâneo, tão estranha era. Ele  disse: “Quem podem ser vocês? Há mais de um, porque vejo alguns atrás de você.

Vocês não  são vizinhos destas terras. De que plano vocês vêm, e por que vêm a um lugar escuro como  esse?”  Olhei para ele mais intensamente agora, pois mesmo naquela voz fantasmagórica  pareceu­me encontrar algo familiar para mim ou, pelo menos, não estranho de todo. E  então eu soube. Ele e eu moramos perto um do outro na terra. Sem dúvida, ele era o  magistrado na cidade perto de minha casa, então eu disse seu nome, mas ele não se moveu,  como que esperando o que fazer.

Olhou para mim confuso, nada compreendendo, então  falei o nome da cidade, e aí o nome de sua esposa, e ele então finalmente olhou para o chão  e pôs sua mãos na cabeça tentando puxar pela memória. Primeiro lembrou o nome de sua  esposa, e olhou para minha face, repetindo­o de novo e de novo. E então eu disse seu nome  mais uma vez, e então ele captou­o de meus lábios rapidamente e disse ”Sim, eu lembro –  eu lembro. E o que aconteceu a ela? Você me trouxe notícias dela?

Por que ela me deixou  assim?”  Disse­lhe que ela estava numa esfera mais elevada, e não poderia vir até ele até  que  ele  começasse  sua  jornada  de  subida,  em  direção  à  casa  dela. Mas  ele  só  me  compreendeu pela metade. Nestas esferas escuras eles ficam tão atordoados que a maioria  nem percebe onde está, e alguns nem sabem que passaram pela vida na terra, porque  somente ocasionalmente ocorre um lapso de memória que vem a eles sobre seu curso de  formação na terra, e então some novamente, deixando um vazio atrás. Por isso eles ficam a  maior parte do tempo na incerteza de saberem se viveram alguma vez em outro lugar a  não ser estes infernos. Mas quando começam a cansar do tormento, procuram algum lugar  menos bruto, e moram entre pessoas menos humilhadoras e cruéis, então a recordação  volta novamente aos seus cérebros entorpecidos, e eles começam a agonia do remorso com  severidade.

Assim repeti minha resposta e comecei a explicar. Ele amara sua esposa, apesar  de que em sua maneira egoísta, quando na vida terrena, e pensei em puxá­lo de volta a ela  por este liame. Mas ele me interrompeu; “Se ela tivesse vindo a mim, eu não teria caído  nestes infernos”. “Ela não pode fazer este caminho,” eu disse. “Você deve ir até ela e então  ela  o  encontrará”.

Ao  ouvir  isto,  ele  gritou  com  raiva:  “Ela  que  se  dane  por  ser  tão  orgulhosa e difícil. Ela sempre foi uma fina e santa senhora para mim, que reclamava de  meus pequenos erros. Diga a ela, se for a seu local de moradia, que ela pode ficar em sua  imaculada mansão e regozijar­se do estado de seu marido. Ele está aqui em num lugar  bastante mais aprazível que o dela, se não mais gracioso. E ela descerá de seu estado  elevado  e  teremos  uma  ralé  bem  baixa  para  recepcioná­la.

Portanto,  bom  dia  para  o  senhor!”. E zombando, virou­se e riu para a multidão por sua aprovação. Mas ali levantou­se um outro deles que veio e o levou para o lado. Este estava  sentado entre eles, e estava andrajoso como qualquer outro. Mesmo assim movimentava­se  como um cavalheiro e tinha um quê de graça em tudo que nos foi surpreendente.

Ele falou  a ele por instantes e então retornaram a mim, e este companheiro disse: “Senhor, este  homem não entendeu bem o propósito de suas palavras, nem que o senhor realmente veio  confortar, e não insultar. Está um pouquinho arrependido do que lhe disse em palavras  impróprias. Eu lhe disse que o senhor e ele não eram completamente desconhecidos um ao  outro. Por sua bondade, senhor, fale a ele novamente, mas não de sua esposa, porque ele  ainda não pode suportar sua deserção, que é o nome que ele dá à ausência dela”. Fiquei  muito  surpreendido  com  esse  discurso,  tão  solenemente  proferido,  enquanto  ao  mesmo  tempo  eram  ouvidos  sons  de  brigas  e  maldições  dos  grupos  das  fogueiras na planície.

Mas eu o deixei com palavras de agradecimento e fui ao homem que 245 – A VIDA ALÉM DO VÉU  conhecia. Senti que meu propósito era principalmente ele, porque tive convicção de que se  pudesse  impressioná­lo,  poderíamos  através  dele  conseguir  fazer  seus  companheiros  interessarem­se pelo futuro deles, porque ele parecia ser o dominador perante os demais. Então fui até ele e o peguei pelo braço dizendo seu nome e sorrindo, e fomos  andar à parte, e gradualmente levei­o a uma conversa sobre sua vida na terra, e suas  vontades e aventuras, e suas falhas, e, finalmente, de alguns de seus pecados. Estes, ele não  os admitiu muito prontamente, mas antes que eu o deixasse ele me permitiu culpá­lo em  dois pontos, e admitiu que eu tinha razão. Este foi um grande avanço, e pedi que pensasse  em tudo aquilo da forma como eu havia colocado a ele, e então eu o procuraria e falaria  com ele novamente, se ele assim o desejasse.

Desta forma tomei suas mãos num apertado  cumprimento e deixei­o. Eu o vi sentar­se e dobrar seus joelhos até o queixo e passar seus  braços pelas canelas, e deixei­o olhando o fogo numa introspecção profunda. Mas eu não iria até ele enquanto não procurasse e falasse com o outro homem,  que me parecia maduro para uma jornada para fora daquela região, rumo a outra mais  sintonizada  com  sua  mente  arrependida. Não  o  encontrei  por  algum  tempo,  mas  finalmente fui ao seu encontro quando estava sentado num tronco de uma árvore caída,  conversando com uma mulher que escutava muito atenta ao que ele dizia. Vendo­me aproximar, ele ficou em pé e veio em minha direção, e disse: “Meu  amigo, obrigado por seu bom serviço, porque através de sua ajuda tão marcante consegui  impressionar aquele homem infeliz como nunca antes havia conseguido.

Você está mais  familiarizado com a natureza destes seus companheiros que eu, e usou sua experiência por  um bom efeito. E agora, o que será de sua própria vida e do futuro?”  “Eu  agradeço  ao  senhor,  em  retorno”,  respondeu. “Não  devo  me  alongar  em  minha descoberta com o senhor. Não sou desta região, senhor, mas da Quarta Esfera, e  estou aqui pela opção de servir, tanto quanto possa, entre estas pobres e escuras almas”.  ”Mora aqui constantemente?” perguntei a ele, encantado, e ele respondeu: “Por longos  períodos, sim. Mas quando a depressão fica pesada demais, eu volto para meu lar por um  pouquinho,  para  me  recompor,  para  depois  voltar  para  cá  mais  uma  vez”.

“Com  que  frequência?”  perguntei­lhe. “Desde  que  vim  para  cá  pela  primeira  vez”,  disse  ele,  “uns  sessenta anos na medida de tempo da terra, voltei para casa umas nove vezes. Muitos dos  que  eu  conheci  na  terra  vieram  para  cá  nos  meus  primeiros  tempos,  mas  nenhum  ultimamente; eles todos são estranhos agora. Ainda tenho a intenção de ajudá­los, um por  um”. Diante disso, fiquei maravilhado e envergonhado.

Nesta hora minha comitiva  chegou de seu turno e considerou esta conduta uma virtude. Mas este que estava diante de  mim fez­me lembrar de outro Que deixava Sua glória de lado e tirava de Si para que outros  pudessem ser satisfeitos. Penso que até então eu não havia percebido completamente o que  significava um homem renunciar sua própria vida por seus amigos, sim, e por amigos como  estes, e habitar com eles nestas regiões sombrias da morte. Ele me viu e entendeu o que se  passava em minha mente, e tomando para si a minha vergonha, disse melancolicamente:  “Tanto Ele fez por mim, senhor–tanto–epor um custo tão alto”. E eu lhe disse, segurando suas mãos nas minhas: “Meu irmão, você me deu uma  lição  do  verdadeiro  Livro  do  Amor  de  Deus.

O  Cristo  de  Deus  está  além  de  nosso  entendimento na Majestade de Sua Beleza e Seu Amor é grande e doce. Podemos não  compreendê­Lo,  apenas  reverenciá­Lo  em  adoração. Mas  desde  que  é  assim,  sempre  ganhamos em estar junto de quem sabe como buscar ser um cristo menor. E esse, penso eu,  encontrei em você”. Mas ele apenas abaixou sua cabeça, e enquanto eu, inclinado em reverência,  beijei­o onde seu cabelo repartia­se, murmurou como se fosse para si mesmo: “Se eu fosse  merecedor... se apenas fosse merecedordaquele Nome”. 246 – Reverendo G.

VALE OWEN IX NA ESCURIDÃO MAIS PROFUNDA. A CIDADE DA BLASFÊMIA. A CIDADE DAS MINAS. Sexta, 4 de janeiro de 1918. Daquela  colônia  fomos  adiante  às  regiões  das  trevas.

Fizemos  o  que  nos  foi  possível, indo de grupo em grupo onde havia conjuntos de casas ou onde fogueiras ardiam,  e  ministramos  conforto  e  advertências  àqueles  que  nos  recebiam. Mas  a  maioria  não  estava com muita prontidão para isto. Uns poucos seriam capazes de conduzir seus passos  para acima daquele lugar, mas a maior parte desceria mais, para a miséria dos lugares  abaixo,  antes  que sua dureza desse lugar ao desespero, e o desespero fizesse com que  clamassem,  e  uma  cintilação  de  luz  acendesse  nestas  pobres  almas  perdidas. Então  chegariam ao arrependimento e a emendar­se, e começaria sua cansativa jornada em  direção ao Vale da Ponte. Mas este tempo não estava próximo ainda.

Então os deixamos,  porque  tínhamos  nossas  ordens,  e  na  nossa  cabeça  o  mapa  da  região  na  qual  encontraríamos  nosso  caminho  aos  lugares  onde  nos  esperavam  trabalhos  especiais. Porque nossa ida a estes lugares escuros não era fortuita, mas tínhamos propósitos que nos  foram confiados por aqueles que nos enviaram para estes lugares. E à medida que seguíamos, sentíamos sobre nós um poder crescente do mal. Pois,  repare bem, hágraduações de Poder, também com o do mal, nas diferentes colônias aqui, e  também  diferentes  notas  dominantes  de  mal  nas  várias  regiões. E,  além  disso,  a  desigualdade de forças existem ali como na terra.

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