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Capítulo 48 de 87
Parte 48 de 87
A Vida além do Véu · Osvaldo Polidoro
Mas ele respondeu: “Senhor, está no meu coração fazer isso, mas temo o meu senhor, o Chefe. Ele é terrível em sua fúria, senhor, e mesmo agora tenho cá comigo um temor, tenho o receio de que já tenha havido um espião farejador buscado cheiro de curry para ele, ao levarlhe umrelatório do que já foi feito”. E eu respondi: “Pareceme que você tem progredido rapidamente desde que viemos para esta cidade trevosa, meu amigo. Já havia reparado antes um bom sentimento desabrochando, mas não o avisei disto. Agora, vejo que não estava errado e portanto dou lhe uma escolha.
Pense rápida e decisivamente. Estamos aqui para tirar daqui estes que estão prontos para seguirem um passinho à frente rumo à luz. Fica por sua conta escolher seu lugar, ao nosso lado ou contra nós. Virá em frente conosco, ou ficará aqui e servirá seu 256 – Reverendo G. VALE OWEN atual senhor?
Escolha rapidamente e agora”. Por poucos segundos ele ficou ali olhando para mim, e depois para meus companheiros, e depois para os túneis que levavam para a escuridão, e então cravou os olhos no chão a seus pés. Tudo isto ele fez prontamente, conforme eu ordenara, e então respondeu a mim: “Senhor, obrigado. Farei como me pede e abrirei os portões. Mas não espero ir adiante com os senhores.
Não mereço tanto–nãoainda”. Então, como se resolver obedecer a nós tivesse lhe dado nova vitalidade, ele moveuse e, mesmo naquela luz escura, percebi um ar de decisão, e sua túnica parecia cair um pouco melhor sobre seus joelhos nus, e sua aparência tinha tomado um aspecto mais gracioso e saudável. Por isto eu soube mais da mudança de seu estado de espírito que ele. É assim, em ocasiões onde a força de caráter sobrepuja e enterra uma porção de iniquidade, começase repentinamente a abrir os portais de sua prisão e abrir caminho para a liberdade e para a luz de Deus. Sim, mas ele não sabia, e eu não tinha muita certeza de seu poder de decisão, então mantiveme observando enquanto ele seguia agindo.
Ouvio chamar, em voz forte, para que o porteiro abrisse as portas. Escuteio gritar o mesmo comando ao segundo, conforme ele seguia descendo no túnel; e então sua voz tornouse mais fraca gradualmente, à medida que se distanciava de nós em direção à caverna na qual chegamos em primeiro lugar. Terça, 15 de janeiro de 1918. Então ao mesmo tempo levantamos nossas vozes e enviamos um coro de louvor. Ele ia ficando cada vez mais alto à medida que cantávamos, e encheu o lugar com sua melodia e penetrou nos túneis e preencheu as galerias e as caves onde os pobres desesperançados estavam em serviço por seu senhor, este cruel Príncipe das Trevas que os mantinha presos pelo temor do poder de sua malignidade.
E por muitos foinos dito mais tarde que quando a força de nosso canto chegava a eles e aumentava de volume, eles paravam para ouvir aquela coisa estranha, porque a música que fazem era muito diferente da nossa, e o tema que cantamos não era igual ao que estavam acostumados a ouvir. Qual foi o tema, Líder? Fizemos a propósito para o que tínhamos em mãos. Cantamos sobre o poder e a autoridade, e como foi aplicado nestas cidades apavoradas do mundo da escuridão. Mostramos sua crueldade e sua vergonha e a condição desesperadora daqueles que se achavam nestas malhas.
E então demonstramos os efeitos que tal maldade trouxe a esta região, e como a escuridão chegou com a escuridão de espírito e arrebentou as árvores e secou o solo e transformou os lugares rochosos em cavernas e muitos em abismos, e como a própria água tornouse asquerosa e o ar estagnado e podre e a decadência do mal em toda a parte. E então mudamos de tema, e invocamos as belas pastagens da terra e as montanhas iluminadas e as doces águas que descem e seguem em correntezas até as planícies onde a grama verdejante e as lindas flores desabrocham e oferecem seus lábios doces para o próprio sol de Deus para que Ele as beije pela sua beleza. Cantamos canções de pássaros e a canção da mamãe para o bebê e a canção do namorado para sua amada, e as canções de louvor que as pessoas cantam juntas nos santuários onde a exaltação é feita a Ele, Que mandou Seus anjos para que pudessem trazer estes que oram e adoram até os degraus de Seu trono, para serem apresentados a Ele com o incenso da purificação por Sua glória. Cantamos todas estas coisas que fazem a beleza da terra, e então elevamos nossas vozes com todo nosso ardor e toda a força de nossas gargantas enquanto falávamos das casas aonde eram trazidos os que tentaram fazer seu serviço bravamente na terra, e agora habitam na luz e na glória das Razões de Deus, onde as árvores eram perenes e as flores de 257 – A VIDA ALÉM DO VÉU cores lindas, e de toda a cobertura de encanto que foi encontrada para o regozijo daqueles que chegaram à soberania do Príncipe Salvador Que os conduziu ao Pai. Quantos havia em sua comitiva, por favor?
Quinze–dois septetos e eu. Isto é o que totalizávamos. Conforme cantávamos, um após outro daqueles escravos do diabo vieram a nos ver. Uma pálida e cinza face emergiu pela metade de um túnel, e então de outro, ou de uma rachadura na pedra, e dos buracos e guaritas de onde nem tínhamos percebido olharem para nós, até que todos os precipícios em torno de nós estavam lotados de apavorados, ainda que desejosos, tímidos demais para se achegarem, ainda tragando golfadas de ar fresco como homens sedentos do deserto. Mas outros havia que olhavam em nossa direção com raiva com os olhos vermelhos e brilhantes, que mandavam faíscas íntimas sobre nós, e outros ainda parados, que abaixavam a cabeça até o chão de remorso pela má conduta do passado e pela memória daquela cantiga de ninar das mães que cantamos, e por tudo que isto significava e que eles rejeitaram, e vieram por outra estrada – a isto.
Então cantamos mais suavemente, e terminamos num doce e longo coro de repouso e paz, e um longo e solene “Amém”. Então um deles veio em nossa direção, ficou a uma pequena distância, ajoelhou se e disse, “Amém”. Quando os outros viram isto, eles suspenderam a respiração para verem qual praga cairia sobre ele, porque era uma traição ao senhor do lugar. Mas fui em direção a ele e o levantei e leveio ao meio de nós, e o aconchegamos para que ninguém pudesse fazerlhe algum mal. Então vieram em número de quatrocentos, aos pares, aos trios, e então às dúzias, e ficaram como criancinhas respondendo sua lição, e murmuravam, como ouviramno fazer, “Amém”.
Nesta hora, aqueles que permaneceram ou abaixaramse paralisados nas sombras das galerias e nos penhascos sibilavam pragas a nós e àqueles, mas nenhum veio tentar encontrar proteção conosco. Então eu, vendo que vieram todos os que tinham que vir, disse aos outros: “Fiquem em silêncio todos vocês que hoje fizeram sua escolha entre a luz e a escuridão. Estes, que são mais valentes que vocês, sairão destas minas e dos lugares escuros em direção à luz e à amplidão sobre as quais lhes cantamos. Sejam curiosos em seus corações para ensinarem a vocês mesmos que, quando novamente os companheiros da luz de Deus vierem a vocês, estejam prontos para seguir sua liderança, assim como fizeram estes hoje”. E então volteime ao nosso grupo e às almas socorridas, porque elas estavam temerosas e tremendo pela aventura que empreenderam, e disse: “E vocês, meus irmãos, façam seus caminhos para a cidade, e cuidado que ninguém lhes destratará por causa do desgosto do Chefe.
Porque ele não é mais o senhor de vocês, porém vocês aprenderão servir a um Senhor mais brilhante, e usarão seu emblema os que progrediram para serem assim merecedores. Mas agora não tenham medo algum, exceto o de descuidarem do que falamos e obedeçam, porque o Chefe deste lugar vem, e devemos ter considerações com ele em primeiro lugar para que consequentemente seu caminho para frente esteja claro”. Assim viramonos em direção ao portão pelo qual o Capitão havia saído, e através do qual muitos dos quatrocentos vieram para somar ao nosso grupo. E assim que fizemos isso ouvimos um grande ruído vindo do lado de fora do portão por onde entráramos, e o barulho ficou mais alto e aproximouse de nós. Portanto esperamos a chegada do Chefe que, quando passava de uma caverna a outra, chamava seus escravos para seguiremno e vingaremse dos insolentes intrusos ao seu reino, que enfrentaram seus vigilantes e desafiaram sua autoridade.
Com estas palavras de ameaça e muitos juramentos e imprecações, ele chegou; e aqueles espíritos acovardados, aterrorizados pelo medo de sua presença, seguiramno com maldições e gritos, tomando para si seus juramentos blasfemadores para cumprirem suas ordens. 258 – Reverendo G. VALE OWEN Ficamos à frente do grupo para recebêlo quando passou pelo portão, e finalmente apareceu. Como ele se parecia, Líder? Quero dizer, sua aparência... Meu amigo, ele era um filho de Deus e, portanto, meu irmão, afundado no mal como estava.
Por esta razão, eu alegremente passaria por cima da descrição de sua aparência por caridade e por pena, que seria o que mais senti por ele naquela hora de sua grande ira e grande humilhação. Mas você me pede para descrever seu aspecto e o farei, e verá o quanto profunda uma verdade pode estar sob as palavras “como derrubar o poderoso”. Ele era de estatura gigantesca, tão alto como um homem e meio de altura. Seus ombros eram desiguais, o esquerdo mais baixo que o direito, e sua cabeça, quase sem cabelos, era espetada num pescoço largo. Uma túnica de ouro velho e sem mangas estava sobre ele, e havia uma espada pendurada ao seu lado esquerdo, numa bainha de couro atravessada no seu ombro direito.
Usava elmo de ferro e sapatos de couro não curtido, na testa uma tiara de prata manchada por oxidação e na frente dela, numa saliência, estava esculpido algo semelhante a algum animal que poderia ser chamado de polvo terrestre, se isso existisse, símbolo de seu poder maligno. Seu aspecto total era de uma realeza escarnecedora, ou ainda, o esforço de ser nobre além do que pode. Paixão maligna, fúria, luxúria, crueldade e ódio pareciam dominar sua face escurecida e permear toda a sua personalidade. E apesar disso revestiam uma nobreza potencial, anulando o que poderia ter grande poder para o bom, agora tornado ao mal. Ele era um Arcanjo condenado, o que é uma maneira diferente de se dizer “arquidemônio”.
Você sabe o que ele foi em sua vida terrena? Suas perguntas, amigo, eu gosto de responder, e quando você as faz posso sentir algo do superior levandoo a fazer isto, que deve dizer respeito a mim. E, portanto, eu as respondo. Não pare de fazêlas, não, pois podem estar nelas razões que não considerei e que poderia encontrar apenas pelo questionamento. Você não interpretará mal minha intenção.
Se ele fosse um grande cirurgião num grande hospital para os pobres na sua Inglaterra, isto não quer dizer que os outros são como ele. Tivesse sido um pastor ou filantropo, não seria de se estranhar. Pois a aparência externa nem sempre está em consonância com o homem real. Bem, isto ele foi, e isto você tem em uma palavra. Desculpe, se eu me meti nisto irrefletidamente.
Não, não, meu filho. Não é assim... Não interprete mal minhas palavras. Pergunte o que quiser, porque o que for perguntado estará nas mentes de muitos, e você fala por muitos. Assim lá ele permaneceu, o Rei inquestionável de toda aquela populaça, e havia centenas deles que lotavam tudo atrás dele e no outro lado.
Mas em torno dele era deixado um espaço – eles não chegavam perto demais de seu braço. Sua mão esquerda segurava um pesado e temível chicote com muitos fios, e nele seus olhos frequentemente pousavam e olhavam em torno rapidamente. Mas agora ele hesitava em falar, já que permanecemos em silêncio, porque ele estava acostumado há muito tempo a falar com autoridade e à maneira de um tirano, e faltavalhe coragem de nos falar agora que nos viu, porque temos aparência pacífica em contraste com toda a temerosa e trêmula atitude de todos os outros naquele lugar. Mas enquanto esperávamos, encarando cada um dos outros, percebi que atrás dele havia um homem amarrado e preso por dois com o uniforme dos guardas que encontráramos no Portão Principal. Olhei muito acuradamente agora, porque ele estava nas sombras, e percebi que era nosso guia, o Capitão.
Vendo isto, avancei rapidamente em sua direção e, ao passar pelo Chefe, toquei a lâmina de sua espada na passagem, e então 259 – A VIDA ALÉM DO VÉU fiquei diante deles que seguravam o homem amarrado e ordenei: “Soltem este homem destas correias e mandemno para cá para perto de nosso grupo”. A estas palavras um grito de raiva saiu do Chefe, e ele tentou levantar sua espada contra mim. Mas toda a têmpera havia saído da lâmina, e ficou torta, mole como uma alga; ele fitava aquilo horrorizado naquela hora, porque ele a havia desembainhado em defesa de sua autoridade diminuída de poder. Eu não tinha em mente fazer dele motivo de riso, mas os outros, seus escravos, viram o lado cômico de seu apuro, não com humor, mas com malícia, e dos lugares escondidos vieram gargalhadas e zombaria. Então a lâmina murchou e caiu do cabo todo estragado, e ele a lançou para um ponto entre as rochas onde alguém ria mais alto que seus colegas.
Então virei para os guardas novamente, e eles rapidamente soltaram o prisioneiro e mandaramno a nós. Imediatamente o Chefe desvestiu seu ar de ridícula majestade, e inclinouse cortesmente diante de mim, e então para meu grupo. Verdadeiramente este homem está destinado a ser, no decorrer dos tempos, um grande servidor de nosso Pai, quando sua maldade tornarse bondade. “Senhor”, disse ele, “vocês têm a liberdade, parece, de um poder maior que o meu. Diante disto me inclino, e gostaria de saber o que querem de mim e destes meus servos que me atendem tão de boa vontade e tão bem”.
Por seu grande auto controle, ele não deixava de expor, aqui e ali, seu íntimo espírito de malícia cínica. É sempre assim nas regiões infernais; tudo é falsificação, exceto a escravidão. Conteilhe de nossa missão, e ele nos disse: “Não sabia de seu estado, ou de algo para que eu pudesse darlhes boas vindas mais apropriadas. Mas, tendo descuidado disto, não mais agirei assim. Sigamme, e eu mesmo serei seu guia aos Portões de minha Cidade.
Sigamme, cavalheiros, enquanto os levo pelos caminhos”. E assim fomos atrás dele, e passamos pelas cavernas e locais de trabalho, e chegamos finalmente ao portão menor que nos levou aos degraus que davam para a porta escondida, através da qual chegamos às minas. Sexta, 18 de janeiro de 1918. Enquanto estávamos nas minas, nossa comitiva foi aumentando em tamanho por aqueles que se ajuntavam a nós vindos das cavernas que se estendiam pela escuridão distante para qualquer que fosse o lado. As novidades, tão escassas entre eles, foram espalhadas rapidamente até os limites mais distantes destas regiões trevosas, e agora a nossa contagem era de milhares, onde antes eram centenas.
Quando paramos diante do muro, embaixo do buraco por onde espiamos a caverna onde agora estávamos, eu me virei e pude ver pouco além dos mais próximos da multidão, mas podia ouvir aqueles que tinham estado nos trabalhos mais afastados e no mais profundo subterrâneo ainda chegando com pressa febril e juntandose a nós atrás dos outros, ficando em silêncio na presença do Chefe e seus convidados desconcertantes. Então, em primeiro lugar falei a ele, e então ao grupo, e disse: “Em seu coração não há o que combine com suas palavras de cortesia com as quais acabou de nos cumprimentar. Mas viemos aqui com piedade e bênçãos, sejam maiores ou menores. Disto você não pode ficar sem, e pedirei agora que haja com cuidado no que se seguirá, tanto quanto a sua vontade quanto ao nosso retorno. Então, quando tivermos seguido nossa jornada com estes que rapidamente vão trocar seu serviço por outro não tão profundo na escuridão da maldade como o seu, pondere e batalhe com os significados das coisas, e lembrese destas minhas palavras que vão ajudá lo quando morder seus dedos, vexado e humilhado em seu orgulho pela batalha desesperada contra nós que viemos daqueles lugares onde o orgulho e a crueldade de forma alguma encontram lugar sob aluz branda dos céus de seu Rei”. 260 – Reverendo G.
VALE OWEN Ele ficou em silêncio, olhando para o chão, não nos dizendo nem sim nem não, mas estava malhumorado e ameaçador, tenso em cada músculo e cada tendão e pronto para a chance que buscava, mas que temia, para nos atacar. Então eu falei à multidão: “E quanto a vocês, de forma alguma fiquem com medo do que vai acontecer pela escolha que vocês fizeram, porque escolheram a parte mais forte, que jamais falhará com vocês. Somente sejam muito verdadeiros e não vacilem em seus passos, e atingirão a liberdade rapidamente e os altos planos, ondea luz está no final da jornada”. Fiz uma pausa e todos ficaram silenciosos por um pouco de tempo, até que o Chefe levantou a cabeça e, olhando para mim, disse: “Terminou?” E deilhe a resposta: “Por agora. Quando estivermos livres destas galerias e estivermos em espaço aberto lá fora, eu vou agrupálos onde possam ouvirme melhor e darei a diretriz do que têm a fazer”.
“Sim, quando estivermos livres destas passagens escuras, ah, sim!, será bem melhor”, ele disse, e notei a ameaça sob suas palavras enquanto as dizia. Então ele se virou e, tendo passado pela porta, veio logo à janela sobre nós e disselhes que subissem e seguissemno, enquanto ele os lideraria para a Cidade. Ficamos de lado para deixálos passar e, enquanto iam, procurei pelo Capitão para dizerlhe de meu desejo quanto a estas pessoas e a ele. Então ele se misturou em seu meio e passou com eles para fora das minas. Então reunimos os retardatários vindo atrás, e finalmente todos tinham passado pela porta e ficamos sozinhos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.