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Capítulo 4 de 87
Parte 4 de 87
A Vida além do Véu · Osvaldo Polidoro
Quando chegamos, vimos que um grupo de Espíritos missionários havia retornado de seu período de compromissos numa região fronteiriça da esfera terrestre, onde estiveram trabalhando com almas recém chegadas que não percebiam que haviam atravessado a linha demarcatória entre a terra e 26 – Reverendo G. VALE OWEN o mundo espiritual. Muitos eram luminosos, mas foram trazidos ao local para que se encontrassem conosco numa ação de graças, antes de seguirem aos seus próprios planos. Eram de idade variada, já que os velhos não haviam progredido ainda para tornaremse jovens e vigorosos novamente; os jovens não haviam atingido a idade plena. Todos estavam reunidos com muita expectativa, e, conforme os grupos destes novos companheiros nesta vida chegavam uns após outros, eles observavam maravilhados suas faces e as diferentes cores de roupagens usadas pelas várias ordens e hierarquias.
Aos poucos, ficamos todos reunidos e então ouvimos um acorde de música que pareceu nos invadir a todos, unindo toda esta multidão em uma só grande família. Então vimos uma grande cruz de luz aparecer. Parecia estar apoiada na encosta da grande montanha que delineava a planície e, enquanto a observávamos, ela começou a se desmanchar em centelhas de luz brilhante, e em pouco tempo percebemos que era uma enorme falange de anjos de uma esfera mais alta que ficou ali, formando uma cruz perto da montanha; tudo em torno deles cintilava em dourado, e podíamos sentir, mesmo à distância, suas cálidas emanações amorosas. Gradualmente eles foram ficando mais nítidos para a nossa visão, conforme tornaramse mais presentes neste ambiente inferior ao deles, e então vimos, parado na parte onde está o cruzamento dos dois braços da cruz, um Ser maior. Parecia que instintivamente todos sabíamos que era Ele.
Era uma manifestação do Cristo naquilo que conhecem como Forma Presente. Ele ficou ali, silencioso e estático, por algum tempo, e então levantou Sua mão direita ao alto, e vimos uma coluna de luz descer e ficar ali enquanto Ele ali a mantinha. A coluna era um caminho, e nele vimos outra falange descendo e, quando chegaram até o braço levantado, ali pararam e ficaram silentes com suas mãos cruzadas sobre o peito e cabeças inclinadas. Então a mão moveuse até que tivesse rodeado tudo até embaixo, os dedos apontando a planície, e vimos a coluna estenderse em nossa direção a meia altura, até que ligou o espaço entre a montanha e a planície, e a extremidade dela ficou sobre a multidão agrupada ali. Ao longo desta coluna caminhou a falange que se tornara visível por último, e pairaram sobre nós.
Abriram seus braços então, e todos vagarosamente voltaramse em direção à montanha, e suavemente ouvimos suavemente suas vozes, uma parte declamando e outra cantando um hino de devoção a Ele Que ali estava, tudo tão belo e tão sagrado que primeiramente ficamos em silêncio. Mas depois nós também aprendemos suas palavras e cantamos, ou declamamos com eles; já que, evidentemente, era esse o propósito deles ao virem até nós. Enquanto cantávamos, elevouse entre nós e a montanha uma neblina de matiz azulado que tinha um efeito muito curioso. Parecia agir como uma lente telescópica, trazendo a visão d’Ele para mais perto, até que pudemos ver a expressão de Sua face. Aquilo agia assim também nas formas daqueles que ficaram bem abaixo d’Ele.
Mas nós não tínhamos olhos para eles, somente para a Sua face e forma, tão graciosas. Não posso descrever a expressão. Era um misto de coisas que as palavras não traduzem, a não ser em pequena parte. Havia mesclados o amor, a piedade, a alegria e a majestade, e eu senti que a vida era uma coisa muito sagrada, quando unia a Ele e a nós em um só laço. Penso que os outros sentiram a mesma coisa também, mas não nos falávamos, estando toda a nossa atenção voltada para a visão d’Ele. 27 – A VIDA ALÉM DO VÉU Então, lentamente a neblina esvaneceu na atmosfera, e vimos a cruz na montanha e Ele como antes, apenas visto com mais dificuldade; e os anjos que haviam se aproximado de nós foram em embora, pairando agora sobre Ele.
Então, gradualmente tudo sumiu. Mas o efeito foi um sentimento muito definido de Sua Presença muito atuante e perpétua. Talvez tenha sido esse o objetivo desta visão ser oferecida aos recémchegados que, apesar de não poderem ver tão claramente como nós que estávamos aqui há mais tempo, mesmo assim puderam ver o suficiente para que os encorajasse e lhes desse paz. Ficamos por ali por mais algum tempo, e então, silenciosamente, seguimos nosso caminho, não conversando muito porque estávamos impressionados com o que havíamos testemunhado. E também, depois de todas estas manifestações sempre havia muito em que pensar.
É tão glorioso que ninguém pode captar todo seu significado enquanto ela esteja acontecendo. Devese pensar sobre ela gradualmente; e conversamos entre nós sobre tudo, cada um dando suas impressões, e agrupando todas, descobrimos que uma revelação havia sido feita, sobre algo que não entendíamos muito bem. Naquele momento o que mais parecia haver nos impressionado foi o poder que Ele tinha de falar a nós silenciosamente. Não pronunciara uma só palavra, mas nos pareceu estarmos ouvindo Sua voz conversando conosco a cada movimento que fizesse, e entendemos muito bem o que a voz dizia, apesar de que realmente nada falara. Isso é tudo o que lhe posso contar por agora, portanto, adeus, querido filho, e possa você ver, como realmente verá, um dia, o que nosso Senhor, tem guardado para aqueles que O amam.
Segunda, 29 de setembro de 1913. Aideiade ver as coisas do ponto de vista de uma esfera mais elevada que a sua, é para que se dê o verdadeiro valor quando se lê o que acabamos de escrever. De outra forma, você estará sempre enganado pela aparência de incongruência na associação das ideias que temos lhe passado. A nós é perfeitamente normal unir a chegada de nosso Senhor com o outro evento da formação daquela ponte que é a expansão da grande região do precipício. O que lá é visto concretamente – isto é, claro, concretamente para nós aqui é apenas um fenômeno do mesmo poder invisível pelo qual o Senhor e suas legiões angélicas cobriram a abóbada celeste entre a esfera na qual agora nos movemos e aquelas de onde vieram eles.
Você compreenderá que aquela manifestação foi, para nós, muito mais que uma materialização é, para vocês. Foi a ligação entre dois estados do Reino do Pai pela união no espaço através das vibrações mais elevadas do que as que podemos usar nestas esferas mais baixas. Como tudo acontece, nós apenas podemos imaginar, mas, ao passarmos de suaesfera terrestre para esta, a conexão entre esta e a próxima não parece estranha. Desejamos que você pudesse ser melhor esclarecido ao observar algumas das maravilhas de nosso plano, pois então tudo lhe pareceria mais natural, tanto em sua jornada na terra, quanto também quando vier para cá e nada soar estranho em sua mente. A primeira coisa que veria é que a terra é o embrião do céu, e que o céu é apenas a terra purgada e aperfeiçoada; e em seguida veria que as razões são bem óbvias. 28 – Reverendo G.
VALE OWEN Para ajudálo neste assunto, portanto, tentaremos contarlhe de um sistema que temos aqui para separar e discernir entre as coisas que importam e as de menor importância. Quando estamos com alguma dúvida – e falo apenas de nosso círculo imediato – vamos ao topo de algum edifício, ou montanha, ou algum lugar elevado de onde possamos avistar as terras distantes que nos cercam. Então, expomos nossas dificuldades, e quando acabamos de completar o raciocínio, ficamos em silêncio por um tempo, esforçandonos por retratar tudo dentro de nós, da forma como as coisas são. Depois de algum tempo começamos a ver e ouvir algum lugar mais alto que o nosso, e vemos que as coisas importantes são as que nos mostram, pela visão e audição, que ainda persistem naquele plano mais elevado, naquelas esferas mais altas. Mas não ouvimos ou vemos as coisas que não importam tanto, e é desta forma conseguimos separar uma categoria de outra.
Parece tudo certo, querida, mas poderia dar‐me um caso mais específico, a fim de exemplificar? Penso que sim. Tivemos que lidar com uma dúvida, e não sabíamos como agir da melhor forma. Foi sobre uma mulher que estava aqui por um bom tempo e não parecia capaz de progredir muito. Não era má pessoa, mas parecia ser insegura a respeito de si mesma e de todos os que a cercavam.
Sua principal dúvida era sobre os anjos – se eles eram todos de luz e bondade, ou se alguns eram de um estado angelical e outros da escuridão. Por algum tempo não conseguimos ver o porquê disto estar perturbandoa tanto, já que tudo por aqui parecia ser amoroso e brilhante. Mas descobrimos que ela tinha alguns parentes que haviam vindo para cá antes dela, e a quem ela não vira e não conseguia encontrar seu paradeiro. Quando descobrimos o principal problema dela, discutimos entre nós e fomos ao topo da colina, colocando nosso desejo de ajudála e pedindo que nos fosse mostrada a melhor maneira. Uma coisa memorável aconteceu, tão inesperada quanto útil.
Quando ficamos ajoelhados ali, todo o topo da colina pareceu tornarse transparente e, enquanto estávamos ajoelhados, com as cabeças inclinadas, enxergamos diretamente através dela, e uma parte das regiões abaixo foi trazida a nós muito nitidamente. A cena que vimos – e todos nós a vimos, portanto não poderia ser ilusão – era numa planície obscura, árida e nua, e, encostado numa rocha, estava um homem de alta estatura. Diante dele, ajoelhada no chão, com as faces cobertas pelas mãos, havia uma outra pessoa. Era um homem, e parecia estar implorando algo ao outro, que continuava ali, com aparência de estar em dúvida. Então, finalmente, num impulso súbito, ele se abaixou e levantou em suas costas aquele que estava ajoelhado e o conduziu pela planície, em direção ao horizonte onde refulgia a luz pálida do crepúsculo.
Ele andou uma longa jornada com aquela carga e então, quando chegaram a um lugar onde a luz era mais forte, ele o largou e apontou um caminho a ele; então vimos que este agradeceu muito e muito, então voltouse e correu rumo à luz. Nós o seguimos com nossos olhos, e então vimos que lhe havia sido apontado o caminho da ponte, da qual já lhe falei – na extremidade que está no outro lado do precipício. Ainda não entendíamos por que esta visão estava sendo mostrada a nós, e continuamos seguindo o homem até que ele alcançou o enorme prédio que está no começo da ponte – não para guardála, mas para 29 – A VIDA ALÉM DO VÉU auxiliar os que chegam até ali, necessitando de descanso e ajuda. Vimos que o homem havia sido observado pelo guardião, pois um facho de luz sinalizouo aos que estavam embaixo, mostrandoo ao guardião seguinte, ao longo da ponte. E então a colina reassumiu seu aspecto normal de novo, e nada mais foi visto por nós.
Estávamos perplexos, mais que antes, e estávamos descendo a colina quando nossa Senhora Diretora veio ao nosso encontro, e em sua companhia estava alguém que parecia um alto servidor de alguma parte de nossa esfera, mas que não havíamos conhecido ainda. Ela disse que ele veio para nos explicar a instrução que acabáramos de receber. Aquele homem menor era o marido da mulher a quem estávamos tentando ajudar, e deveríamos dizer a ela que fosse até a ponte, pois lhe seria dado alojamento ali, onde então poderia esperar até que seu querido chegasse. O homem mais alto que vimos era o que a mulher chamou de anjo das trevas, já que ele era um dos mais poderosos Espíritos nos planos trevosos. Mas, conforme observamos, ele era capaz de uma boa ação.
Por que, então, perguntamos, ele ainda estava nas regiões de trevas? O servidor sorriu e respondeu, “Meus queridos amigos, o Reino de Deus Nosso Pai é um lugar muito mais maravilhoso do que podem imaginar. Vocês jamais se defrontaram ainda com um reino ou esfera que fosse completo por si mesmo, independente e separado dos demais. Nem há nenhum assim. Aquele anjo trevoso mescla, em si, muitas esferas de conhecimento, bondade e maldade.
Ele permanece onde está, primeiro por causa da maldade remanescente nele, que o incapacita para as regiões de luz. Ele permanece ali também porque ele poderia progredir se quisesse, mas mesmo assim ele não o deseja por enquanto, em parte por causa de sua obstinação, e parte porque ele ainda odeia a luz, e acha que os que partem para a horrível montanha são loucos, pois a dor e as agonias são mais intensas ali, em razão do contraste com o que veem entre a luz e a escuridão. Então ele fica, e há multidões como ele, a quem uma espécie de desespero embrutecedor e estonteante impede de seguirem adiante. Também em suas horas de raiva e loucura, ele é cruel. Ele torturou e maltratou algumas vezes este mesmo homem a quem vocês viram com ele, e o fez com a crueldade de um fanfarrão covarde.
Mas, como viram, isto foi superado e quando o homem implorou nesta última vez, alguma corda sensível no coração do outro vibrou um pouquinho só, e, num impulso, temendo uma reversão em suas intenções, liberou sua vítima que desejou empreender a jornada, e apontoulhe o caminho, sem dúvida pensando em seu coração no quanto ele era estúpido e contudo, talvez, um estúpido mais inteligente que ele, afinal de contas”. Isso era novidade para nós. Não percebêramos antes que havia bondade naquelas regiões de trevas; mas agora vimos que era natural que assim fosse, ou, se todos ali fossem totalmente ruins, nenhum deles jamais desejaria estar conosco deste lado. Mas o que tem a ver tudo isso com o discernimento entre as coisas que importam e as que têm menor importância? Tudo que é do bem é de Deus, e a luz e a treva, quando aplicadas aos Seus filhos, não são, e não podem ser, absolutas.
Elas devem ser entendidas como relativas. Há, como sabemos, muitos “anjos das trevas” que estão na escuridão por causa de algum desvio em seu comportamento, algum traço de obstinação que os previne contra o que é bom dentro deles, fazendo esse efeito. E estes, um dia, podem nos ultrapassar na estrada das eras, e, no 30 – Reverendo G. VALE OWEN Reino dos Céus, tornaremse maiores que nós, que hoje somos mais abençoados que eles. Boa noite, meu querido filho.
Pense sobre o que escrevemos. Tem sido uma lição proveitosa a nós, e seria bom que muitos em sua vida atual pudessem aprendêla. 31 – A VIDA ALÉM DO VÉU II CENAS MAIS BRILHANTES Terça, 30 de setembro de 1913. Dificilmente você compreenderia tudo o que sentimos quando chegamos à terra desta maneira, comungando com alguém que ainda caminha em sua estrada através do vale. Sentimos que somos mais privilegiados, pois, uma vez que sejamos capazes de convencer as pessoas do quanto têm em suas mãos para usarem na evolução da raça, parece não haver fronteiras para as possibilidades do bem e da ilustração. Apesar disso, somos capazes de fazer pouco, e devemos ficar felizes até que outros venham cooperar conosco, como você fez, sem medo, sabendo que nenhum mal pode sobrevir àqueles que amam a Deus, e servemNo por Seu Filho, nosso SenhorRedentor.
Para ajudar aqueles que ainda duvidam de nós, de nossa mensagem e missão, deixeme dizer que não saímos de nossas lindas casas para descer para as brumas que envolvem a terra por nada. Temos uma missão e um trabalho em curso, e alguém deve cumprila, e nos alegramos por fazêlo. Há pouco tempo atrás – se usarmos a linguagem da terra – fomos mandados a uma região ondeas águas eram captadas num grande lago, ou bacia, e em torno do lago, à alguma distância de cada lado, foram erigidos alguns prédios enormes com torres. Eles eram de arquitetura e projetos variados, e não eram construídos com apenas um material. Jardins espaçosos e bosques circundavamnos, alguns deles de milhas de extensão, e plenos de lindas flora e fauna, a maioria com espécies conhecidas na terra, mas também com o que seria estranho a vocês agora, apesar de que acho que uma parte deles já viveu um dia na terra.
Isso são detalhes. O que quer explicarlhe é o propósito destas colônias. Elas são para nada mais que a composição de músicas e manufatura de instrumentos. Os que vivem ali entregamse aos estudos da música e suas combinações e efeitos, e não somente ao que você conhece como som, mas também em outras conexões. Visitamos várias das casas maiores, e encontramos faces sorridentes e felizes a nos cumprimentar e nos mostrar o lugar; e também para nos explicar o que somos capazes de entender, e francamente confesso que não era muito.
Aquilo que eu pessoalmente entendi, tentarei explicar a você. Uma casa – ou colégio, já que eles eram mais colégios que fábricas, pelo que vi – era devotada ao estudo do melhor método de inspiração musical infundida aos que, na terra, tinham o talento para a composição; e outra casa dava mais atenção aos que eram aptos à música tocada, e outras à cantada, e ainda outros faziam um estudo especial da música sacra, e outros de concertos, e outros de composição de óperas, e assimpor diante. Os resultados de seus estudos eram tabulados, e ali suas funções acabam. Estes 32 – Reverendo G. VALE OWEN resultados são estudados de novo por outra classe, que considerará o melhor método de comunicálos aos compositores musicais em geral, e então outro corpo fará o real trabalho da transmissão, através do Véu, para a esfera da terra.
Aqui são apontados a eles os objetivos de seus esforços, isto é, os que provam estar mais prontos para corresponderem à sua inspiração. Estes foram cuidadosamente selecionados por outros que são treinados para esta seleção. Tudo está em perfeita ordem; dos colégios em torno do lago até a igreja, ou o hall de concertos, ou a casa de óperas na terra, há uma corrente de trabalhadores treinados que estão constantemente ativos, dando à terra um pequeno presente de sua música celestial. E é assim que todas as suas melhores músicas chegam até vocês... Sim, você está bem certo.
Muito de suas músicas não é nosso, e muito é alterado em sua passagem. Mas isso não é culpa dos trabalhadores destas esferas, mas fica na porta dos que estão do seu lado do Véu, é destes deste lado que são de regiões escuras, a quem o caráter do compositor lhes permite obscurecer aquilo que vem de nós aqui. Para que serviam as torres? Eu já ia lhe explicar isso. O lago é muito extenso, e os prédios estão a alguma distância dele, por todos os lados.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.