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Capítulo 9 de 57

Parte 8 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

uma falta que, ainda, deveria cometer. [ ] Essas lendas onde predominam a poesia, não podem de forma alguma ser levadas a sério. Deus, sem dúvida alguma, onisciente, sabia de antemão, o que aconteceria a este pobre planeta se Adão e Eva não comessem do fruto proibido. A revogação da imortalidade estaria, por certo, prevista, por antecipação, naquela inteligência infinita. Seria uma conveniência da própria natureza que não poderia ter a Terra tão superlotada, coisa fatal, em face do crescimento e da multiplicação por ele mesmo ordenada. Logo, não foi de nossos "primeiros pais" o pecado e sim de um Deus que para inocentar-se, perante a posteridade, atirou nos ombros de dois pobres viventes a responsabilidade do sofrimento e da mortalidade humanas. E à mulher disse: multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. (Gên. III - 16) Não precisamos citar outros versículos para evidenciar o quanto Deus tem sido enganado em suas determinações.

Há mulheres, hoje, que dão à luz sem dor de espécie alguma. São descobertas científicas que se impõem mais uma vez à vontade de um Deus que somente existia no cérebro de Moisés, ou melhor, no cérebro dos autores do Gênesis. Quanto ao fato de ser a mulher dominada pelo marido, nem sempre isto se observa, e é até comum verificar-se o contrário. E há algumas, mesmo, cujos desvelos não são para os maridos. Antes de prosseguirmos na análise ligeira que empreendemos dos diversos versículos da Bíblia, fazemos questão de provar o que dissemos de início, que as lendas bíblicas não são propriamente suas, mas tiveram origem em diversas fontes estranhas, principalmente no livro sagrado dos hindús. Seria útil iniciar-nos pela lenda da criação da mulher que foi inspirada naquela dos brâmanes, de que as castas hindús foram extraídas das diversas partes do corpo de Brahma. A. Leterre, em "Jesus e sua Doutrina" à pg. 60, assim se expressa: Mas não só foi dos Vedas que Moisés tirou material para a sua obra.

Nos numerosos documentos cuneiformes, achados, agora, em Babilônia, datando de mais de 4.000 anos antes dele, dos tempos dos acadianos e sumerianos e nos livros de Zoroastro, se encontram: a lenda da criação do homem no estado de inocência; a sua tentação pela serpente Thiamat, dragão do mar; a queda de Adam, isto é, homem negro oposto à virtude de Sarka, homem claro: - a guerra dos deuses e dos gigantes: - o pecado do deus Zu roubando as insígnias de soberano de seu pai Elu, adormecido, protótipo da lenda de Noha (Noé) e Châm (Cham): - a corrupção dos homens; - a construção de uma gigantesca torre em Babilônia, causadora da cólera dos deuses; - o dilúvio que durou sete dias; - a arca com certo e limitado número de animais: - a pomba, a andorinha e o corvo que foram soltos, etc. No Manarva-Dharma e no Zend-Avesta, também, se encontra a lenda da criação

do mundo em sete períodos e o aparecimento do homem por último. [ ] O Dr. Ch. Contenau, encarregado de missões arqueológicas na Assíria, diz Leterre, afirma que entre os inúmeros deuses que cita, havia o denominado Ea, por apelido o "deus oleiro", porque os caldeus julgavam que os homens haviam sido fabricados de barro por ele, sobre os quais esse Deus soprara o espírito de vida. Daí a lenda de Moisés, a do Adão feito de barro e do sopro nos seus narizes. Poderiamos continuar nessa seqüência de citações para provar a origem das lendas bíblicas, mas, melhor será enquadrá-las, à medida que vá aparecendo a oportunidade. Queremos de vez em quando acentuar que a nossa análise não se inspira em espírito sectarista. Formamos de Moisés, no sentido intelectual, um bom juízo. Era, segundo dizem, um homem culto, inteligente e, sobretudo, dominador. Pode ser considerado como libertador de seu povo, mas destituido das lendas que o cercam e das infâmias multiseculares que lhe atribuem e que constam dos livros que ele nunca escreveu. Era, estamos certos, um homem de seu tempo.

Cremos, mesmo, que o seu espírito evolvido através das transformações por que haja passado, nas inúmeras encarnações, seja hoje, um dos grandes inspiradores da humanidade. Voltando a nosso assunto, todos sabem que a nossa "primeira mãe" era Eva. Uns afirmam que este nome é hebreu; outros, entre eles Jacolliot, que é sânscrito e significa o que completa a vida. De qualquer forma isto nos leva a um raciocínio que deixa bem mal a lenda da torre de Babel. Convenhamos que até antes da confusão das línguas, castigo imposto aos homens por seu desmedido orgulho, pois, pretendiam construir uma torre cuja ponta tocasse o Céu, (quanta infantilidade! ) existisse, ainda, a língua de nossos "primeiros pais". Ora, depois da confusão das línguas, esse nome, é lógico, ficou perdido, se não estava, o que é mais lógico, ainda, antes de qualquer acontecimento de origem milagrosa. Como se explica, assim, que a nossa "primeira mãe" tivesse um nome sânscrito ou mesmo hebreu? Será que mamãe Eva era da mesma nacionalidade que Moisés?

Razão forte tinha o abade Moreaux quando afirmava que era necessário saber ler a Bíblia para poder compreendê-la. Naturalmente, este vulto eminente do Catolicismo romano quando assim falava, não admitia o raciocínio daqueles que lendo a Bíblia com perfeição levavam à fogueira do Santo Ofício grandes vultos que a humanidade ainda hoje venera. Ou será que esse abade era adepto da Cabala ou do Exoterismo judeu-cristão?

O pecado original O pecado original é a base fundamental da doutrina católica e protestante. Estes dois ramos do Cristinanismo nos ensinam, com efeito, de acordo com uma narrativa tirada da Bíblia, que Adão e, conseqüentemente, toda a sua posteridade, incorreu, depois que o nosso "primeiro pai" comeu do fruto proibido, na perdição eterna, condenação à qual nossa humanidade não pode escapar a não ser reconciliando-se com o seu Criador irritado. Mas, como esta pobre humanidade é incapaz, por si mesma, de salvarse, era necessário que o filho de Deus viesse encarnar-se em um corpo humano a fim de se oferecer como vítima expiatória, para resgatá-la da mancha original. Sendo infinita a ofensa para com Deus, era necessária para seu resgate uma reparação, também, de valor infinito. Eis porque para a redenção do gênero humano se tornou imperiosa a encarnação de um Deus para amainar a cólera deste mesmo Deus. Pelo que foi exposto, compreende-se perfeitamente que, suprimindo-se o dogma do pecado original, toda a doutrina que decorre dele fica reduzida a coisa nenhuma.

Todos conhecem o capítulo IIº e IIIº da Bíblia, tornando-se enfadonha para o leitor a sua repetição. Nesses capítulos iremos encontrar em toda a sua simplicidade, a narração que nos lega a tradição hebraica. Tomando-se ao pé de letra a narrativa atribuida a Moisés, que idéia de justiça e de bondade se pode fazer deste Deus, que tendo por seu infinito poder, trazido à vida dois seres privilegiados, ornando-os como criaturas prediletas, permitiu a um seu inimigo irreconciliável, vir, por inveja, enganar a inocência e levar ao crime os dois seres criados para a felicidade? Este Deus devia saber dotado que é da presciência, que os criando, eles cairiam certamente em tentação. Assim sendo, por que consentiu Ele nisso? E pensando bem, não teria sido exagerado o castigo imposto e desproporcional à ofensa de uma maneira inconcebível? Deus sabia, dono de predicados infinitos, que a queda seria mais que certa.

Se Adão não houvesse comido do fruto proibido, o que teria acontecido à nossa espécie, uma vez que de acordo com o desígnio do Criador e segundo as palavras pronunciadas por Ele no paraíso terrestre: “Crescei e multiplicai-vos, povoai a Terra e tornai-a sujeita a vós”, lei natural da multiplicação do homem, por Ele ordenada? A humanidade sendo imortal teria chegado infalivelmente a um ponto em que a Terra não seria suficiente para abrigar e alimentar seus habitantes. Agora, se examinarmos o dogma sob o ponto de vista da justiça, iremos espantarnos e com razão de vermos todos os animais incorrerem no castigo de uma falta que eles não cometeram. Coisa notável, o Gênesis em parte alguma faz referência a Satã. Isto é deslavada invenção da Teologia sobre esse personagem fantástico, pois, na narração bíblica, está dito simplesmente: “Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais que Deus tinha formado sobre a Terra”. Isto não prova que a serpente fosse o Diabo em pessoa. Deus condena Eva em seguida a ter filhos com dor.

Quanto a Adão deveria comer o pão com o suor de seu rosto. Tal é, segundo a Bíblia, a origem de todos os nossos males, e foi a partir deste momento fatal que fomos condenados à morte. Não se pense que somente os judeus tiveram o monopólio desta invenção ingênua da queda do primeiro homem. Esta doutrina era ensinada no interior de todos os santuários. Com alguma variação iremos encontrar esta velha tradição, ou uma tradição idêntica, em todos os povos antigos. Não há dúvida que os primeiros livros da Bíblia foram copiados dos Vedas, o livro sagrado dos hindús. Os judeus hebraizaram de alguma forma as tradições que eles haviam recolhido dos egípcios, povo mais antigo e que lhe era bem superior em Inteligência e Ciência. O Paraíso terrestre, mencionado na gênesis bíblica, não passa de uma figura alegórica, pois, não se encontrou em nosso globo o menor sinal de sua existência.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.