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Capítulo 23 de 57
Parte 22 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
e teve por autor Mgs. Richard Laurence, arcebispo de Csel, na Irlanda. [ ] O livro de Enoque está dividido em doze seções. É na segunda que ele narra a história dos amores dos anjos com as filhas dos homens. O número dos homens tendo-se multiplicado prodigiosamente, eles tiveram filhas muito belas. Ora, os mais brilhantes dos anjos se tornaram apaixonados, e foram levados, por este fato, a cometerem muitos erros. Eles criaram coragem e disseram: Vamos à Terra e escolhamos mulheres entre as mais belas das filhas dos homens. Então, Semiazas, que Deus tinha criado príncipe dos anjos mais brilhantes, lhes disse: Um tal projeto é excelente; mas penso que não ousais pô-lo em execução e eu não ficarei isolado sem fazer como vós todos, filhos nas belas filhas dos homens. Todos responderam: Façamos juramento de executar nosso projeto e sejamos anatematizados se falharmos. Eles se uniram, então, em juramento e imprecaram. Eram eles em número de duzentos no começo. Era no tempo em que vivia Jared (pai de Enoque). Partiram juntos, desceram do Céu e vieram sobre a Montanha Harmonin, ou monte dos juramentos.
Eis aqui o nome dos vinte principais entre eles: Semiazas, Atarcuh, Araciel, Chobabiel, Horommamme, Ramiel, Sampisich, Zaciel, Balciel, Azalcel, Pharmarus, Amariel, Anagemas, Thausael, Samiel, Sarinas, Eumiel, Tyriel, Jumiel, Sariel. Eles e os outros e outros ainda, tomaram as mulheres no ano 1170 da criação do mundo. Deste comércio nasceram os gigantes, etc., etc... Está assim demonstrado que não se tratava de uma revolta contra Deus. O mais brilhante dos anjos, tendo à frente o príncipe Semiazas, que não é nem Lúcifer nem Satã, vieram em passeio de prazeres sobre a Terra e eis tudo. Os anjos tornados pais se interessaram por seus filhos e foram para os gigantes, professores fora do comum. Não somente os ensinaram a fazer jóias e pedrarias; mas, ainda, a magia e a arte de ler o futuro nos astros. Por outro lado, iniciaram suas concubinas nos grandes mistérios. Compreende-se o que se segue: senhoritas, as amantes dos anjos e seus bastardos gigantes ficaram logo superiores aos outros homens; que os mistificadores, quando são mágicos, podem se sobrepor aos seus contemporâneos. “A Terra vivia imersa em dores".
Comovidos com as dores da Terra, os quatro anjos da harmonia pediram a Deus para pôr um termo a esses males. Entrementes, o senhor Azazel, um dos anjos que dormiam com as filhas dos homens, tinha procurado uma altercação com Semiazas, espancara-o e tomara o seu lugar como chefe dos seus companheiros na Terra. Deus enviou o anjo Rafael para combater Azazel e este foi vencido e aprisionado em uma caverna, no deserto de Dodoel. Deus achou então necessário o Dilúvio, pois afogando toda a gente, inclusive os simples que sofriam de feitiçaria, impediria os gigantes de continuar em seus exercícios de magia. Os inocentes que se arranjassem. Quanto aos anjos, eles voltariam aos Céus e deveriam ficar bem sadios dali por diante. É sem dúvida, diz Léo Taxil, depois dessa época, que os anjos se tornaram seres assexuados. O Catolicismo não tem, pois, razão de suprimir este episódio em seus manuais de história santa; ficar-se-la sabendo, ao menos, por que os anjos são eunucos. Pasmem! Este livro de Enoque foi uma honra para o Catolicismo até o IVº século.
Os Pais da Igreja falavam dele como de um livro muito conhecido; Orígenes, a quem S. Jerônimo chamava o mestre das Igrejas, invocava a sua autoridade. Em seu "Tratado sobre o Paganismo", Tertuliano demonstra uma grande veneração por este livro. Vendo, porém, o Catolicismo, mais tarde, que ele invalidava os primeiros versículos do capítulo IV do Gênesis, fizeram-no desaparecer, mas os fragmentos puderam ser conservados e foram citados por Scaliger, Semler e Fabricius. Muito longa é ainda a história. O que, porém, está escrito é o suficiente para, que se observem as contradições existentes entre esta lenda de Satã, Lúcifer, a serpente e outras coisas mais que repugnam à razão de qualquer criatura de mente sadia. Taxil diz que os padres costumam declarar às suas ovelhas que os judeus nada entendem de seus livros santos e que não compreendem nem a sua religião. Reflitamos um pouco!
Estes judeus "imbecis" não tinham nunca adivinhado que o seu Isaías, ao apostrofar o rei de Babilônia, seu inimigo, predizendo-lhe que dia viria em que seu poder seria destruido, tinha querido falar, não da futura queda deste rei, mas, na realidade, da antiga revolta de Lúcifer contra Deus e do desbarato e transformação em Satã. Seria necessário que os rabinos tivessem o espírito fechado para não saber ler nas entrelinhas. Ensaiai fazer compreender a um judeu, diz o mesmo autor, que ele adora um Deus em três pessoas, perdereis vosso tempo e ele gargalhará em vossos narizes. Responderá que se Deus fosse triplo, Ele teria dito a Moisés, aos patriarcas e aos profetas. Com a Bíblia na mão, sustentaria que nem uma palavra nela faz alusão a tal trindade, aliás, incompreensível, e que ao contrário, de princípio a fim, a Escritura Santa atesta a personalidade de Jeová como essencial, una e indivisível. E os padres, na sua piedade infinita, erguem as espáduas e riem de tanta ignorância!... Não sabemos como se pode ser ousado a ponto de meter-se Deus nessa embrulhada tão cheia de contradições, de frivolidades, que mais parecem histórias infantís.
O Dilúvio Não é nosso intuito apresentar um trabalho sobre o dilúvio bíblico. Deixemos que disso se encarregue a Ciência, porque ela poderá livrarnos de uma demonstração de incapacidade. Onde a Ciência se insinua com força e consegue apresentar argumentos indiscutíveis em favor de uma tese, não há outro remédio senão o curvarmos a cabeça em sinal de respeito. Possivelmente, esta narração bíblica não é mais que a reprodução, um tanto modificada do dilúvio, segundo o Mahabarata e as tradições brahmânicas. O fato incontestável é que Moisés ou quem fale em seu nome, mais uma vez copiou da India a história a que nos referimos como fez com muitas outras, o que já foi por nós comprovado no decorrer de nosso trabalho. Então disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é vindo perante a minha face, porque a Terra está cheia de violência, e eis que os desfarei com a Terra.
Faze para ti um arca de madeira de gofer; farás compartimento na arca; e a betumarás por dentro e por fora com betume. E desta maneira a farás: de trezentos côvados o comprimento da arca, e cinqüenta côvados a sua largura; e de trinta côvados a sua altura. Farás na arca uma janela, e de um côvado a acabarás em cima; e a porta da arca porás a seu lado; far-lhe-ás andares baixos, segundos e terceiros. Porque eis que trago um dilúvio de água sobre a Terra, para desfazer toda carne onde há espírito de vida debaixo dos Céus; tudo o que há na Terra expirará. Mas contigo estabelecerei o meu pacto; entrarás na arca tu e os teus filhos, e a tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo. E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, meterás na arca, para os conservares vivos contigo; macho e fêmea serão.
Das aves segundo a sua espécie, e dos animais conforme a sua espécie virão a ti, para os conservares em vida. E tu toma para ti de toda a comida que se come, e ajunta-a para ti, e te será para mantimento para ti e para eles. (Gên. VI, 13 a 22). Depois disse o Senhor a Noé: Entra tu e toda tua casa na arca, porque te hei visto justo junto de mim nesta geração. De todo o animal limpo tomarás para ti sete e sete, macho e sua fêmea, mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea. Porque, passado ainda sete dias, farei chover sobre a Terra quarenta dias e quarenta noites; e desfarei de sobre a face da Terra toda a substância que fiz. E fez Noé conforme a tudo o que o Senhor lhe ordenara. E era Noé da idade de seiscentos anos, quando o dilúvio das águas veio sobre a Terra. E entrou Noé e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos com ele na arca, por causa das águas do dilúvio.
Dos animais limpos, e dos animais que não são limpos, e das aves, e de todo o réptil sobre a Terra. Entraram de dois em dois para Noé na arca, macho e fêmea como Deus ordenara para Noé. E aconteceu que, passados sete dias, vieram sobre a Terra as águas do dilúvio. No ano seiscentos da vida de Noé, no mês segundo, aos 17 dias do mês, naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos Céus se abriram. E houve chuva sobre a Terra 40 dias e 40 noites. E no mesmo dia, entrou Noé e Sem, e Cão, e Jafé, os filhos de Noé, como também a mulher de Noé, e as três mulheres de seus filhos com ele na arca. Eles e todo o animal conforme a sua espécie, e todo o gado conforme a sua espécie, e todo réptil que se roja sobre a terra conforme a sua espécie, todo pássaro de toda qualidade. E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para Noé na arca.
E os que entraram, macho e fêmea de toda a carne entraram, como Deus lhe tinha ordenado; e o Senhor o fechou por fora. (Gên. VII, 1 a 16). A nossa preocupação única e exclusiva é fazer com que a humanidade compreenda a impossibilidade da aceitação, não só das lendas que deram vida às religiões antigas, principalmente, quando elas pretendem se envolver em conhecimentos científicos, como também, em fatos históricos, onde a fantasia e a superstição lhes desvirtuam o sentido verdadeiro. A narração bíblica atribuida a Moisés, igual em sua essência àquela das tradições brahmânicas, peca justamente pela falta de realidade, quando as fantasias começam a surgir, tais como a construção das duas arcas, a de Noé e a de Vaiswasvata, ambas com a mesma finalidade. Basta raciocinarmos um momento para chegar à conclusão de que em nenhuma delas caberiam todos os animais da Terra, limpos e não limpos, as aves dos céus e os répteis que se rojam sobre a terra.
Juntemos a isso os alimentos, o escremento de todos os seres vivos encerrados na arca e sabendo que esta tem, apenas, as dimensões de um navio médio da atualidade, conceberemos o impossível desta história. M. Vernes em "La Grande Encyclopèdie", falando sobre o dilúvio bíblico, diz que uma primeira observação concerne ao caráter do texto tradicional, que resulta da combinação de várias fontes ou documentos, ditos jeovistas e elohistas; e assim se explicam muitos detalhes contraditórios, sem falar das representações e do duplo emprego, notadamente quanto à duração das diversas fases do dilúvio. Um segundo ponto é a narração do dilúvio bíblico com as tradições ou legendas análogas que se encontram em diversos povos da antiguidade. O escritor, ou mais exatamente, os escritores, parece que se inspiraram nos mitos babilônicos que eles retocaram à vontade, subordinando-os ao seu próprio ponto de vista religioso, às suas noções espiritualistas e morais da ação divina. A época destes empréstimos teria sido o VIIIº século antes de nossa era, seja de preferência, a época do cativeiro de Babilônia.
A mitologia grega oferece uma narração do dilúvio exposta sob o nome de "Deucalião" e do qual somente a raça dos Jepétides sobreviveu. Outras provas de um dilúvio são encontradas em narrações chinesas, indianas, e entre os índios da América do Sul, etc. Admite-se atualmente, que muitas destas narrações são tomadas de empréstimo aos missionários pelos povos selvagens; e de outro modo foram aceitas como a única hipótese capaz de explicar a existência de conchas e de ossadas fósseis nos picos das mais altas montanhas. Um manuscrito encontrado em recentes escavações no país dos Toltecas, intitulado o “Troano”, traduzido por Le Plongeon e depositado no British Museum de Londres, assim se exprime: “No ano 6000 de Kan, em 11 maluc, no mês de Zac, terríveis tremores de terra se produziram e continuaram sem interrupção até o dia 13 de chuen. A região das colinas de argila, o país de Mú, foi sacrificada.
Depois de sacudido por duas vezes, ele desapareceu subitamente durante a noite; o solo, continuamente, influenciado por forças vulcânicas, subia e descia em vários lugares, até que cedeu; as regiões foram, então, separadas umas das outras e depois dispersas; não tendo podido resistir às suas terríveis convulsões, elas afundaram-se, arrastando 64 milhões de habitantes”. Isto se passou 8.060 anos antes da composição deste livro. Tudo isto concorda com os escritos de Platão, apesar de separado deste continente por umas 5.000 léguas, e hoje aceitos como verídicos pela maioria dos sábios, embora uma parte seja pela negação e outra pela dúvida. As tradições dos Maias remontam há mais de 14.000 anos antes da chegada de Cristóvão Colombo à América.
Os peruvianos conservam a recordação desse acontecimento. [ ] Eis o que encontramos em "Jesus e sua Doutrina" de A. Leterre: No Bagavad, as circunstancias do dilúvio de Moisés são idênticas às dos indianos, tanto assim, que, Vishnu teria enviado a Satyavata um barco igual que, muito mais tarde, Deus mandou Noé construir, para nele se recolher com um casal de cada espécie, a fim de repovoar a Terra. A China também registrou o acontecimento muito antes de Moisés, o que prova, sempre, que este legislador foi buscar os elementos para a sua prova, nas obras antigas, como ele mesmo confessa. Os escandinavos dizem que foi devido ao gigante Ymus que houve o dilúvio e só um homem chamado Belgemer é que se salvou com sua família em um barco, por ordem de Deus. O mesmo se dá com os celtas, cujo homem salvo se chamava Dwivan e a mulher Dwivach. Entre os gauleses, o Noé chamava-se Duyman e a mulher Duymoch. Por ocasião da descoberta do Brasil, os índios que habitavam a parte que hoje se chama Rio de Janeiro, já possuiam uma lenda a respeito do dilúvio cuja descrição o leitor encontrará em " Le Folklore de l'Ancien Testament", de J. C. Frazer, pg.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.