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Capítulo 51 de 57
Eloista — parte 20 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
Contradições Não teremos a pretensão de apresentar aos leitores todas as contradições que a Bíblia (Velho Testamento) contém em suas páginas. Apontaremos, apenas algumas, e ficamos certos de que estas serão mais do que suficientes para uma demonstração cabal de que este livro foi escrito por pessoas que não davam muita importância ao que escreviam. Entretanto, é a Bíblia considerada um livro sagrado, ditado do próprio Deus. Como se pode compreender um Deus que se contradiz? Um Deus que hoje afirma para negar amanhã? Penetremos no terreno vasto das contradições. Para minorar o nosso esforço, tal o de uma pesquisa cuidadosa em tomo de um vasto texto sagrado, cheio de incoerências, de interpolações e de coisas inverossímeis, peçamos de empréstimo a Leterre, algumas que ele classificou, estudioso metódico que foi, em vida, desse velho livro atribuido a Moisés. C. 1.26 - Façamos o homem à nossa imagem... C. 1,27 - E criou Deus o homem; macho e fêmea o criou. C. 1,28 - Crescei e multiplicai-vos. Como ninguém ignora, foi esta criação feita no sexto dia.
O homem e a mulher já existiam, portanto, aptos a multiplicarem-se e a lavrarem a terra (com que instrumento, não se sabe!). C. II, 5 - Entretanto no sétimo dia, ainda, "não havia nem planta, nem erva do campo, nem homem para lavrar a terra". A contradição já estava patente. C. II, 7 - Por isso que, não havendo no sétimo dia ninguém para lavrar a terra, formou Deus o homem do pó da terra e deu-lhe vida e o chamou de Adão". C. II, 18 - mas, Deus entendeu que não era bom estar o homem só... C. II, 21 - Por isso que o adormeceu e lhe arrancou uma costela... C. II, 22 - e formou com ela uma mulher. Não é preciso ser-se teólogo, sábio ou dono de muita perspicácia para descobrir-se nestas linhas a embrulhada dessa narração. Idêntica contradição se encontra na questão da vegetação. C. I, 29 - e deu ao homem toda a erva que dá semente, e toda árvore que dá fruto, para seu mantimento, isto no sexto dia.
C. II, 5 - ainda não havia plantas, as quais não tinham nascido por falta de chuva. Portanto, Deus não havia dado nem erva, nem árvore. Não há e nem pode haver maior contradição que esta: “Deus ordenou que os nossos primeiros pais crescessem e se multiplicassem, e porque eles procuraram cumprir a determinação de Jeová, pecaram e foram, por isso, expulsos do paraíso”. Os católicos vão além, acrescentam mais que eles arrastaram os seus descendentes a esta interminável escala de misérias de que está repleto o mundo. Analisemos agora a questão dos filhos de Adão e Eva: C. IV, 1, 2 - e concebeu Eva Caim e Abel. C. V. 1, 2 - diz; que, no dia em que Deus criou o homem a sua semelhança, macho e fêmea, isto é, no sexto dia, os abençoou e chamou seu nome Adão.
Isto não está certo, porque o nome de Adão só foi dado por Deus no sétimo dia, quando Ele o criou do pó da terra; e nesse mesmo dia é que Adão chamou sua mulher Eva, o que não concorda com o versículo citado, nem com o versículo seguinte: C. IV, 1, 2, 3 - em que Eva concebeu Caim e Abel, o qual foi a cabo de poucos dias assassinado por Caim, no versículo que diz: C. V, 3 - que Adão depois de ter vividos 130 anos, gerou seu terceiro filho Sete. Como pode ser isso, pois, se este filho só veio a ser concebido depois de uma infinidade de gerações partidas de Caim?! ... (18, 19, 20, 21). Igualmente confusa a história do assassínio de Abel e da fuga de Cairo para o deserto. C. IV, 8 - e Caim matou Abel. (?) C. IV, 16 -e fugiu para a terra de Nod. (?) C. IV, 17 - e ali se casou e teve um filho. Ora, como explicar-se essa terra de Nod, com habitantes, pois, se não existia mais ninguém na Terra, a não ser Adão e Eva?
Só depois é que tiveram Sete, o qual gerou Enos. (Com quem?). Crê-se que os esoteristas explicam todas essas contradições. É muito poderosa a imaginação e a inteligência em matéria de malabarismos tem feito prodígios. Ora, o que claramente se percebe, nesta suposta chave bíblica, ou nas elucidações esotéricas, é que se trata de um subterfúgio, sem o mínimo valor probante, sem qualquer espécie de demonstração, por mais apagada que seja, subterfúgio com o fim de salvar do naufrágio, do afundamento, do ridículo, o livro que vem sendo cultuado pelas gerações até os nossos dias. Os interessados ou ignorantes, que não fazem outra coisa senão copiar o que lhes convém, fizeram para sua conveniência, a adaptação da lenda do Zend-Avesta, transplantada com algumas modificações no Gênesis, quando os persas andaram pela Mesopotâmia, 2.300 anos antes de Moisés e cujas doutrinas deixaram raízes em toda a parte. Eis a lenda: Ormuzd, o Deus bom, colocou na Terra o primeiro homem e a primeira mulher Meshia e Meshiahé, destinados a morrerem como todos os seres criados.
Prometeu-lhes constante felicidade neste e no outro mundo, com a condição de o adorarem como sendo o autor de todos os bens. Durante muito tempo o casal se conformou com isso, e suas palavras, pensamentos e ações eram puros, e executavam santamente a vontade de Ormuzd, quando se aproximavam um do outro. Mas um dia, o Deus do mal, Ahriman, apareceu-lhes sob a pele de uma serpente, sua forma habitual, os enganou pela habilidade de sua palavra, e fez-se adorar por eles, como sendo o princípio de tudo quanto era bom. Desde, então, suas almas foram condenadas ao inferno até a ressurreição. A vida tornou-se-lhes cheia de penas e de sofrimentos: tiveram frio, fome e sede, e aproveitando-se de seus tormentos, um demônio veio, e lhes trouxe uma fruta, sobre a qual eles se atiraram sedentos. Foi a segunda fraqueza, em conseqüência da qual seus males dobraram. Sobre cem prazeres anteriores só lhes ficou um.
Caminhando, então, de tentação em tentação, de queda em queda, joguete dos demônios e das misérias, só conseguindo prover a existência à força de invenção e de fadigas, eles se esqueceram de se unirem durante cinqüenta anos, e Meshia só concebeu após esse lapso de tempo. É uma extraordinária coincidência essa que se observa entre a lenda acima transcrita e a história da queda do homem e da mulher, tentados pela serpente. (O demônio). Eis que me lanças da face da Terra e da tua face me esconderei: e serei fugitivo e vagabundo na Terra, e será que todo aquele que me achar me matará. E o Senhor porém disse lhe: Portanto qualquer que matar Caim, sete vezes será castigado. E pos o Senhor um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o encontrasse. (Gên. IX-14, 15). Mas quem poderia encontrar Caim sobre a face da Terra; quem o poderia matar se só Adão e Eva existiam além dele? Os animais ferozes? Deus, por certo, não falaria às feras, ameaçando castigá-las sete vezes.
Demonstra-se no "Pentateuco" que Moisés foi o mais doce dos homens e se demonstra, também, que ele fez degolar vinte e três mil hebreus porque haviam adorado o bezerro de ouro, e vinte e quatro mil que haviam, ou desposado como ele, ou freqüentado as mulheres medianitas; mas sábios comentadores provaram que Moisés era de um natural muito doce, e que ele não fazia mais que executar as vinganças de Deus, mandando massacrar quarenta e sete mil israelitas, como vimos. Os críticos ousados acreditaram perceber uma contradição na narrativa em que se diz que Moisés transformou todas as águas do Egito em sangue, e que os mágicos de Faraó praticaram em seguida o mesmo prodígio, sem que o Êxodo fale de nenhum intervalo entre o milagre de Moisés e a operação mágica dos encantadores. É impossível que estes transformassem em sangue aquilo que já era sangue. Os mesmos incrédulos perguntam, como todos os cavalos tendo sido mortos pela saraiva, na sexta praga, pode o Faraó perseguir os judeus com a sua cavalaria?
Então disse o Senhor: Não contenderá o meu espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém, os seus dias serão 120 anos. Não compreendemos como, depois de afirmativa tão categórica, tão absoluta, viveu Sem 600 anos (C. XI, II); Arxafade, 438 anos (13); Salá, 433 (15); Eber, 464 (17); Peleg e Reu, 239 cada um (19 e 21); Serugue, 230 (23); Naar, 148 (25) e Tera, 205 (32). Isto se deu na época mais próxima da proibição de Jeová de o homem viver mais de 120 anos e atualmente este raro fenômeno de longevidade ainda se observa. Quando o patriarca Noé dividiu a Terra pelos três fdbos, ele o fez: ...dividindo as ilhas das nações nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, entre as suas nações. (Gên. x,5) Como é que o mesmo autor se esquece de sua anterior afirmativa e nos impinge na narrativa da Torre de Babel que: "era a Terra de uma mesma língua, e de uma mesma fala"? (Gên. XI,ll) Em Deuteronômio, capo XXXIV, encontramos: Era Moisés da idade de 120 anos quando morreu...
Logo não foi Moisés que escreveu o Deuteronômio. O Gênesis (XII, 6), descrevendo o caminho que seguiu Abraão desde a Mesopotâmia até Sichen, diz: "Ora os cananeus ocupavam então o país". Logo não foi Moisés que escreveu isso, porque só o seu sucessor os expeliu do país, depois de haver feito extermínios próprios de canibais. Estes foram os reis que reinaram na terra de Edom, antes que reinasse rei algum sobre os filhos de Israel. (Gên. XXXIV, 31) Tal documento só poderia ser escrito depois dos Juízes e no tempo dos reis sucessores, quando menos, Saul. Se Moisés houvesse dito que punia a iniqüidade até a quarta geração, Ezequiel não teria ousado afirmar o contrário. (Ezeq. XVIII). Teria Moisés concedido quarenta e oito cidades aos levitas em um país onde não existiam dez, e em um deserto onde ele sempre errou sem encontrar, sequer, uma habitação? Teria ele escrito regras para os reis judeus, quando não havia reis entre o seu povo?
Então, Moisés teria dado preceitos para a conduta de reis que não existiram senão cinco séculos depois dele, e não teria escrito algo para os juízes e pontífices que lhe sucederam? Esta reflexão nos conduz à certeza de que o "Pentateuco" tenha sido escrito no tempo dos reis e que as cerimonias instituidas por Moisés eram, apenas, tradição. Resumindo: Ele não podia ter falado de cidades inexistentes em seu tempo (Núm XXXV, 7); não podia ter apresentado preceitos para a conduta de reis, quando estes não existiam (Det. XVII, 14, 16); não podia ter ordenado o seu povo a pagar meio ciclo por cabeça, segundo o ciclo do santuário, porque os judeus não possuiam templos e só os possuiram muitos séculos depois de Moisés. (Êxodo XXX, 13); não podia ser citado o livro do Reto (Justos), porque este foi escrito no tempo dos Reis (Josué, X, 13 e 11 Reis, I, 18).
É falso que Moisés haja falado para além do Jordão, quando ele não o atravessou nunca, e morreu sobre o monte Nebo, longe e ao oriente do Jordão, conforme nos diz a Escritura. É falso e impossível que ele pudesse estar em outro deserto de Parã, uma vez que está dito que ele ganhou uma batalha nesta época, no deserto de Moabe, a mais de cento e cinqüenta léguas de Parã. É falso e impossível que ele estivesse nesse deserto de Parã, próximo do mar Vermelho, uma vez que o mar Vermelho dista mais de cinqüenta léguas de Parã. É falso que haja muito ouro em Hazeroth perto de Parã. Este miserável país, longe de possuir ouro, só possui calhaus. Dom Calmet repete em vão as explicações de alguns comentadores, bastante imprudentes para dizer que para lá do Jordão significa para cá. É necessário, então dizer, que o em cima significa em baixo, que dentro significa fora, e que os pés significam a cabeça.
O autor, qualquer que ele seja, faz falar Moisés sobre as margens do mar Vermelho no quadrigésimo ano e onze mêses depois da saída do Egito, para dar força à sua narrativa pelo cuidado de marcar as datas; mas rste cuidado o traiu, e fez aparecer todas as mentiras. Moisés saiu do Egito com a idade de oitenta anos; e a Escritura diz que ele morreu com cento e vinte. Assim, ele já estava morto quando o Deuteronômio o fez falar; e ele o fez falar em um lugar onde ele não esteve, e onde não podia estar. Se Sara morreu com 127 anos, se ela morreu imediatamente após pretender Abraão degolar seu filho Isaque, este filho tinha pois, trinta e sete anos, e não treze, quando seu pai o quis imolar ao Senhor, pois, sua mãe, segundo a própria narrativa bíblica, o concebeu com a idade de 90 anos. Não precisamos ir além. De vez em quando, encontrar-se-ão entre as páginas deste livro, novas contradições. O que aí se acha é o suficiente para a análise rigorosa de um livro, que querem impingir como sendo ditado pelo próprio Deus, tal como se o Criador escrevesse um compêndio de contradições e falsidades.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.