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Capítulo 36 de 57

Eloista — parte 5 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Os acontecimentos do Antigo Testamento, e as cerimônias que ele prescreve não são aos seus olhos mais que símbolos, ou, para traduzir suas pr6prias palavras, não são mais que uma roupagem muitas vezes grosseira sob a qual se escondem o corpo e a alma da lei. Enfim, para os que continuam crendo na Cabala, ou melhor, para os espíritas cabalistas, este sábio não deve valer coisa nenhuma. O arraial da fé é quase inexpugnável às razões da inteligência. León Denis, falando do Antigo Testamento, nos diz: Esta obra não remonta a tão antiga data como se tem de bom grado feito crer. Foi em todo caso retoca da mais ou menos tempo depois da volta de Babilônia, porque nela se encontram alusões ao cativeiro dos judeus nesse país (cerca de 700 a.

C.). É bem a obra dos homens, o testemunho de sua fé, de suas aspirações, do seu saber, e também de seus erros e superstições, etc... Parece, em certos casos, se inspirarem os autores do “Pentateuco” em revelações mais antigas, como faz notar Swedenborg, com provas em apoio. Os iniciados encaram o Antigo Testamento como puramente simbólico e nele pensam descobrir todas as verdades por meio da Cabala. Ainda, León Denis, pondo-se de acordo com o padre Loisy, nos diz em outra parte de seu livro, "Cristinanismo e Espiritismo": É também essa a minha opinião.

Daí se segue que não poderia a Bíblia ser considerada a palavra de Deus, nenhuma revelação sobrenatural. O que se deve ver nela é uma compilação de narrativas históricas e legendárias, de ensinamentos sublimes, de par com pormenores às vezes triviais. E eis como encerra a questão, este grande apóstolo do Espiritismo: Não! a humanidade não quer mais símbolos, nem lendas, nem mistérios, nem verdades veladas. Faz-se-lhe necessário a grande luz, a esplêndida erupção do verdadeiro, que só o novo espiritualismo lho pode fornecer. Eis por que somos espírita e não cabalista.

Ou o Espiritismo é a última palavra em matéria de revelação e de moral ou os Espíritos nos iludiram e, então, é justo que procuremos em outras fontes aquilo que não nos basta ou que não encontramos na obra da Codificação. *** Temos a impressão de haver provado que não pode existir simbolismo na Bíblia e a impossibilidade de resolvermos os seus pontos obscuros por meio de símbolos. Provamos que o histórico é completamente diferente do Moisés da Bíblia; que a gênesis hebraica é uma cópia da gênesis de povos mais antigos; que as lendas, as leis não são originárias do Antigo Testamento e sim de povos da mais distante antiguidade. Deixamos a gênesis brahmânica em meio do caminho, para estabelecer uma comparação entre ela e as demais do mundo antigo, numa demonstração da influência que o Brahmanismo exerceu sobre os demais credos do mundo. Terminemo-la, pois: Assim que este mundo saiu da obscuridade, os princípios elementares sutis produziram a semente vegetal que animou as plantas; das plantas a vida passou em corpos fantásticos que nasceram na lama das águas; depois por uma série de formas e de animais diferentes chegou até o homem. Ele passará sucessivamente pelos vegetais, os vermes, os insetos, os peixes, as serpentes, as tartarugas, as feras e os animais selvagens, tal é o grau inferior.

“Tais foram declarados desde Brahma" até os vegetais, as transmigrações que têm lugar neste mundo. “Os vegetais revelam uma multidão de formas, em virtude de suas atividades precedentes; eles são envoltos de obscuridade, mas são dotados de uma alma interior e experimentam o prazer e a pena”. A água se eleva para o Sol em vapores; do Sol ela desce em forma de chuva; da chuva nascem os vegetais, e dos vegetais os animais. Cada ser adquire as qualidades daquele que o precedeu, de sorte que quanto mais um elemento é distanciado da série, mais qualidades possui. Em primeiro lugar, é preciso observar e comparar a idéia que os hindus faziam de Deus e a idéia dos judeus a respeito da Divindade.

Como se distanciam os hindus, povo incontestavelmente mais antigo que os hebreus, na sua concepção a respeito do Criador e da Criação! Depois, esses textos permitem-nos dizer que a opinião científica da India antiga sobre a criação universal foi a seguinte: que o princípio material e o princípio espiritual estão unidos na água sob a influência do calor, e que o ser animado progrediu somente pelas forças da natureza, elevando-se gradualmente de um tipo inferior a um tipo superior, desde a mônada primeira até o homem. Não será esta a teoria científica moderna? Não está contida nela nossa forma espiritualista, isto é, a da evolução da espécie, marchando paralela com a evolução do espírito? Como poderemos pensar com o Antigo Testamento, nós que somos evolucionistas, de acordo com a doutrina espírita, quando este livro sagrado dá a entender que as espécies animais e vegetais foram criadas tais quais são hoje, quando diz que estas espécies foram criadas para um fim determinado, com órgãos e funções previstas de antemão e bem definidos?

Quando diz, ainda, que o homem ocupa uma posição toda especial no Universo e que somente ele é provido de uma alma imortal? Poderemos aceitar a assertiva de que o Sol, a Lua e as Estrelas foram criados para iluminar nossa Terra? A idéia evolucionista, diz Gustavo Geley, é completamente oposta: A Terra, planeta insignificante, não tem importância especial nenhuma entre o infinito de mundos que constituem o Universo. 0 homem é o animal mais aperfeiçoado e o mais elevado do planeta. As espécies terrestres, animais e vegetais, são todas o produto da evolução de uma ou de algumas formas elementares, esta evolução é feita pelo simples jogo das forças naturais. É pelo jogo das forças naturais que os seres se adaptam a seu meio, que seus órgãos e suas funções se desenvolveram e se organizaram, conforme as influências exteriores, criadas por uma Inteligência Suprema. ( Les Preuves du Transformisme) Já que penetramos no terreno científico, continuemos a dissecar a ciência de Moisés: A Bíblia, diz Kardec, contém evidentemente fatos que a razão desenvolvida pela Ciência, não pode hoje aceitar, e outros que parecem singulares e repugnam, porque se ligam a costumes que não são mais os nossos.

Um livro para ser sagrado, para servir de farol, para ser de inspiração divina, é preciso que não tenha um erro; mas a Bíblia está cheia deles, de contradições, e, como tivemos oportunidade de provar, nada tem de original. O movimento da Terra, diz o Mestre, apareceu em determinada época, tão em oposição às letras sagradas, que não houve gênero de perseguição a que essa teoria não tivesse servido de pretexto e, no entanto, a Terra gira, malgrado os anátemas, não podendo ninguém hoje contestá-lo, sem agravo à sua própria razão. Diz, também, a Bíblia que o mundo foi criado em seis dias e põe a época de sua criação há 4.000 anos, mais ou menos, antes da era cristã. Anteriormente a Terra não existia, foi tirada do nada; o texto é formal. Eis, porém, que a Ciência positiva e inexorável, prova o contrário.

A história da formação do globo terráqueo, está escrita em caracteres irrecusáveis no mundo fóssil, achando-se provado que os seis dias da Criação indicam outros tantos períodos, cada um de talvez centenas de milhares, de anos. Isto não é um sistema, uma doutrina, uma opinião insulada; é um fato tão certo quanto o movimento da Terra e que a Teologia não pode negar-se a admitir, o que demonstra evidentemente o erro em que se está sujeito a cair, tomando ao pé da letra expressões de uma linguagem freqüentemente figurada. Dever-se-ia daí e concluir que a Bíblia é um erro? Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram ao interpretá-la. Esta última asserção de Kardec de que os homens se equivocaram ao interpretar a Bíblia, não tem consistência, nem para nós, nem para ele, além da diplomacia que ele emprega para não ferir a fé alheia.

Tanto isso é verdade que o Mestre, em outra parte, destrói por completo, sua afirmativa. Diz êle: Os teólogos tentaram salvar os seis dias da Criação, procurando interpretá-los como períodos geológicos. Há mais de um século atrás, porém, já se sabia que eram arbitrários os seis períodos geológicos, atribuidos à gênesis bíblica, uma vez que nesta época se contavam mais de vinte e cinco formações caracterizadas. A dúvida desaparece com a clareza dos textos bíblicos: Deus chamou à luz, “dia", e às trevas, "noite". E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

Isto só se pode aplicar ao dia de 24 horas. Mais claro se toma, ainda, o sentido, nos seguintes versículos: Fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. E Deus os pôs na expansão dos céus, para iluminar a Terra. (Gênesis, I, 16 e 17) No período seguinte, Kardec se põe de acordo com a Gênesis bíblica, quanto à criação do homem em último lugar. E nós não pensamos de ontra forma. Há, apenas, uma restrição de nossa parte.

A Gênesis bíblica é uma compilação indisfarçável da gênesis dos toscanos, e a concepção de haver sido o homem criado em último lugar já existia desde os tempos védicos; é uma doutrina, pois, completamente hindu. Se Moisés fala da criação do homem em último lugar, dá o Dilúvio Universal como tendo ocorrido em 1654 da formação do mundo, quando a ciência geológica, na própria expressão do Mestre, prova que o grande cataclismo teve lugar antes do aparecimento da espécie humana, atendendo a que, até hoje, não se encontrou, nas camadas primitivas, traço algum de sua presença, nem dos animais de igual categoria, no que se refere ao físico. Nos tempos primitivos, como os meios de observação fossem necessariamente muito imperfeitos, as primeiras teorias sobre o sistema do mundo deviam ser cheias de erros grosseiros; mas, se esses meios fossem tão completos quais os de hoje, os homens não saberiam servir-se deles, aliás, não podiam ser senão o fruto do desenvolvimento da inteligência e do conhecimento sucessivo das leis naturais.

À medida que o homem se adiantou no conhecimento dessas leis, penetrou os mistérios da Criação, e retificou as idéias que formulara sobre a origem das coisas. Para quem sabe ler, Kardec, com a diplomacia que lhe é peculiar, a única que a época comportava, diz de maneira suave, que a Bíblia, no ponto em que a abordamos, era um livro destinado à mentalidade do povo daquele tempo, cheia de erros e incoerências quanto à origem do mundo e à sua formação.

Como é possível, pois, que a aceitemos como um farol capaz de iluminar a humanidade de nosso século? Mais adiante, Kardec mata a questão em definitivo, quando diz: "Uma vez que é impossível conceber a gênesis sem os dados fornecidos pela Ciência, pode-se dizer com todo rigor da verdade, que a Ciência é convidada a constituir a verdadeira gênesis, segundo as leis da natureza". E assim, vai Kardec, diplomaticamente, pondo por terra toda a "ciência" bíblica. E, há, ainda, quem ouse falar na tal ciência dos símbolos e da numerologia! E o Codificador da doutrina dos Espíritos, desejando orientar-nos na escolha de nosso Deus, diz-nos o seguinte: Não é mais o Deus terrível, ciumento, vingativo, de Moisés; o Deus cruel e implacável, que rega a Terra com sangue humano, que ordena a tortura e o extermínio dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga aqueles que poupam as vítimas; o Deus que Jesus nos revela não é mais o Deus injusto, que pune um povo inteiro pela falta de seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que fere os filhos pelas faltas dos pais; mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, chefe de mansidão e de misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido, e dá a cada um segundo as suas obras; não é mais o Deus de um povo privilegiado, o Deus dos exércitos, presidindo aos combates contra o Deus dos outros povos; mas o Pai comum do gênero humano, que estende sua proteção sobre todos os seus filhos, e os chama todos a si; não é mais o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na escravidão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas sim o que diz aos homens: a vossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino celeste...

Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena retribuir olho por olho, dente por dente... Enfim, não é mais o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado. Quando se destrói o Deus de uma religião como acaba de faze-lo magistralmente Kardec, destrói-se a religião por completo, pois é no Deus de cada uma que os homens se apoiam no sentido moral. É este o Deus que nos surge de entre as páginas do Velho Testamento e que a pena do grande lionês tão bem define. Este Deus bíblico, além de tudo, politeísta, uma vez que preside os combates contra o Deus dos outros povos, não nos pode ter legado senão uma doutrina de vinganças, de crimes e de miséria.

Imaginem um Deus a ordenar a seus filhos que se unam a prostitutas e a mulheres adúlteras!... Como está demonstrado, diz Houtin, em "Questions Bibliques au XIX e, Siécle", pg. 35 "há uma multidão de erros, contradições e absurdos manifestos no Antigo Testamento. A ortodoxia, para salvar a autoridade do texto sagrado, inventou o "CONCORDISMO", falsa ciência que consiste em encontrar, custe o que custar, "um acordo perfeito entre as ciências modernas e os conhecimentos do povo de Deus". Assim, se afirma que os "dias" da Criação não são dias, mas períodos, enquanto que o texto sagrado salienta a manhã e a tarde de cada dia. A Ciência independente só pode opor ao "concordismo" um supremo desdém.

De outro modo, há no Antigo Testamento, numerosas passagens em que Deus é representado de uma maneira indigna da idéia que fazem dEle as Igrejas modernas. Econtra-se, assim, o Criador passeando ao ar fresco, cheirando o odor dos sacrifícios, mostrando-se de costas a Moisés, ordenando abomináveis massacres e punindo os chefes que não mataram bastante. Para justificar esses textos não só se usou de sofismas, como se pretende que Deus queria falar aos homens, segundo os hábitos e as idéias de seu tempo. Semelhantes subterfúgios são a negação da crítica histórica. Os textos, diz Salomão Reinach, onde o Deus de Israel se revela diferente do ideal ao qual esse nome corresponde hoje, não devem ser atenuados, mas tomados literalmente; eles são para o historiador, de um interesse todo particular, pois permitem uma observação patente da evolução da idéia de Deus.

“A Divindade é, sem dúvida, inacessível ao homem; mas em diferentes épocas em que a civilização atravessou, a humanidade fez a Divindade à sua imagem e a evolução desta imagem é uma parte essencial da história, mesma, da humanidade”. Como vimos, é a própria bíblia que nos auxilia a provar que o "Pentateuco" não pode ter sido obra de Moisés; que na confecção desses livros contribuiram vários colaboradores; que as barbaridades que ela consigna estão a indicar que o Antigo Testamento, para quem sabe ler, torna-se um livro desprezível, indigno de ser lido por nossas filhas. E que o espírito esclarecido pode tê-lo em sua biblioteca, apenas por curiosidade, para conhecer o atraso de nossos ancestrais, mas, nunca, como um livro que possa indicar a quem quer que seja o caminho pelo qual devemos marchar. E a Cabala, que por si e para si já precisa de um tradutor e esclarecedor, é o mais fraco dos subterfúgios, quando se pretende salvar a Bíblia do naufrágio da incoerência.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.