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Capítulo 15 de 57
Parte 14 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
A marcha evolutiva da gênesis da terra e do homem - sua meta última A Terra, diz Kardec, guarda consigo os traços evidentes de sua formação; acompanham-se-lhe as fases com precisão matemática nos diferentes terrenos que lhe compõe a crosta sólida. O conjunto destes estudos constitui a ciência chamada Geologia, ciência que, ainda nova, muito esclareceu a questão tão controvertida da sua origem e das dos seres que a habitam. Diz, ainda, o eminente mestre que na nova Ciência não há hipóteses, mas o resultado rigoroso da observação dos fatos, e, em presença de fatos, não é admissível a dúvida. A história da formação do globo está escrita nas camadas geológicas de maneira mais certa do que nos livros preconcebidos, por ser a própria natureza que fala e se mostra a descoberto, e não a imaginação humana, que cria sistemas.
Onde se vêem vestígios de fogo, pode dizer-se com certeza que existiu o fogo; onde se notam os da água, pode-se igualmente afirmar que ela alí passou; onde o dos animais, dirse-á que eles aí viveram. A Geologia é, portanto, uma ciência toda de observação, só tira conseqüências do que vê; sobre os pontos duvidosos, nada afirma; só emite opiniões discutíveis, cuja solução definitiva espera observações mais completas. Sem as descobertas da Geologia, assim como sem as da Astronomia, a gênesis do mundo estaria, ainda, nas trevas da legenda. Graças a ela, hoje o homem conhece a história de sua habitação, e os castelos fabulosos que cercavam o berço
desmoronaram-se para jamais se levantarem. [ ] Como dissemos em considerações tecidas no início deste livro, não nos conformamos que homens de grande valor na atualidade, aceitem e proclamem como verdade, lendas que podem encantar pela poesia, mas que a razão normal repele em face dos desmentidos constantes da Ciência. Diz James Hutton, geólogo inglês, nascido em 1726 e falecido em 1797, que os nossos conhecimentos da estrutura da Terra são tão recentes, que os escritores e comentadores do assunto nunca deixaram de expressar assombro ante a antiguidade da Astronomia, comparada com a modernidade da Geologia. Desde os tempos mais recuados, o homem tem apresentado toda a sorte de teoria sobre a origem da Terra. Um dos erros mais perniciosos, ao lidarmos com teorias, diz Trattner, é de iniciar nos textos antigos concepções modernas. À luz da análise histórica, verifica-se que os antigos souberam muito pouco sobre a estrutura da Terra. A contribuição da Babilônia e dos judeus foi nula. A Babilônia, vasto país arenoso, possuia muito poucas rochas para despertar o interesse de seus pensadores.
Aos antigos hebreus, por outro lado, era impossível qualquer progresso nesse terreno, porque atribuiam todos os fenômenos naturais ao seu Jeová. De um terremoto diziam: “Olhando Jeová a Terra ela treme"; e descreviam uma catástrofe vulcânica, nestes termos: "Jeová fez chover fogo e enxôfre sobre Sodoma e Gomorra". Os homens continuam apegados à idéia de que os fenômenos naturais são governados por deuses caprichosos. “Thus when, in 1775, Massachusetts was shaken by earthquaques, the Rev. Dr. Price, in a published sermon, attributed them to the ‘iron points’ invented by the sagacious Mr. Franklin”, saving: “In Boston are more erectede than elsewhere in New England, and Boston seems to be more dread fully shaken. Oh! There is no getting
out of the mighty hand of God”. [ ] Assim, quando, em 1775, Massachusets foi abalada por terremoto, o Rev. Dr. Price, num sermão público, atribuiu os ao “pára-raios” inventado pelo sagaz senhor Franklin, dizendo: “Em Boston eles são construidos em maior número do que na Nova Inglaterra, e Boston parece ser mais terrivelmente abalada. Oh! não é possível deter a poderosa mão de Deus". Isto porque no ano de 1752 à margem do rio Schuylkill, Benjamim Franklin, deitando seu papagaio ao vento e arrancando elas nuvens uma faísca elétrica, provava justamente o contrário. Com essa distração infantil ele demolia a crença multimilenar da ação divina da tempestade. Sobrepondo-se ao velho viajante grego Heródoto, surge Aristóteles, possuidor da mentalidade do gênio científico. Ele, no dizer de Trattner, representa o nível máximo da Ciência antiga, tanto no terreno da observação dos fatos, como na da especulação teórica. As mudanças sofridas pela face do planeta foram mais bem compreendidas por ele do que por qualquer de seus antecessores ou contemporâneos.
Algumas de suas informações têm o sabor singularmente moderno: "O mar recobre hoje o que já foram trechos de terra firme, e a terra firme reaparecerá um dia em lugares hoje ocupados pelo mar”. Diz o escritor que, após Aristóteles observar os rios que desaguam ao norte do Mediterrâneo, zombou amavelmente de Platão por sustentar a crença de que eles se originavam de um grande reservatório situado debaixo da terra. Nem os antigos gregos, continua o historiador, nem os romanos se adiantaram muito na explicação dos processos naturais. A maior parte de suas contribuições são fragmentárias, desconexas e entretidas de mitos. O sábio grego Estrabão, autor de uma série de livros sobre Geografia, escrita por volta do 79 ano antes de Cristo, ensinava uma teoria idêntica à de Aristóteles: "Todos admitirão que em muitas épocas uma grande porção do continente foi coberta e de novo posta a nú pelo mar”. A cristandade medieval, como muito bem diz o mesmo escritor, desgraçadamente, não fazia uso dos olhos, nem do bom senso.
Seu interesse supremo era a Teologia e não, por certo, a Geologia. Nesse prodígio da natureza que se chamou Leonardo da Vinci (1245-1319) merece lugar de honra entre os primeiros que investigaram a estrutura da Terra, no afan de conhecê-la cientificamente. Engenheiro de profissão, da Vinci era também pintor, músico, escultor e geólogo. Ele foi com outros, o iniciador das bases científicas da Geologia e que se prolongou por partes até os nossos dias. Da Vinci compreendeu verdadeiramente a origem dos fósseis. Enquanto construia canais na Itália setentrional fez cortes em rochas estratificadas (dispostas em camadas) e desenterrou numerosas conchas fósseis de ostras, caramujos, carangueijos e outros animais marinhos. Interpretou-os corretamente, como devidos à submersão da terra pelo mar, fazendo, assim, reviver a antiga idéia grega de que as rochas estratificadas formavam primitivamente, fundos de oceano. Esta visão científica estava em desacordo com o pensar eclesiástico medieval, que via nos fósseis outras tantas provas do Dilúvio Universal.
Quando estas começaram a dar de si, não houve artifício a que não se recorresse para conciliar os ensinamentos antigos com os fatos da Ciência. O descobrimento de conchas nos Alpes, por exemplo, foi recebido como confirmação do Dilúvio, que se dizia haver coberto as mais altas montanhas. Pela observação cuidadosa dos vales da Itália setentrional, veio Leonardo a compreender a ação das águas correntes no esculpir a superfície da Terra. Ninguém, até então, havia investigado de maneira completa as leis relativas ao movimento das águas e à hidráulica em geral. Ele descreveu o modo como os rios corroem os seus vales, como depositam seixos nos terraços destes, como os detritos mais finos se acumulam nas embocaduras, como ficam enterrados ali plantas e animais, como estes restos orgânicos passam por transformações físicas, petrificando-se à proporção que o limo dos rios se endurece e toma a consistência de uma rocha sólida, e como finalmente, a rocha que contém os fósseis encrustados eleva-se acima do nível do mar e torna-se terra firme.
As idéias que ele e seus sucessores defenderam, não passaram, porém, em branco. Em 1661, Thomas Burnet, escreveu a sua "Teoria Sagrada da Terra", em 1696 William Whiston publicou a "Nova Teoria da Terra". Estas obras visionárias caracterizavam os esforços da Religião para desacreditar o pensamento científico. Ambos os autores ocupam-se do Dilúvio, da perversão da humanidade e do modo como a catástrofe influiu na crosta da Terra. Segundo Whiston, o Dilúvio de Noé foi causado em 18 de novembro de 2349 antes de Cristo, pela cauda de um cometa
que passou sobre o Equador, provocando uma chuva torrencial. [ ] A origem da Terra constituiu sempre um grande interesse para a humanidade. Em 1754, Emmanuel Kant apresentava a primeira teoria com aspirações científicas. A mais antiga hipótese, segundo o autor de "Arquitetos de Idéias", que pretendia explicar a origem da Terra foi, quiçá, a cosmogonia de Hesíodo no século VIII antes de nossa era. O que caracteriza o teorista é o pensar cósmico: ele contempla o Universo em conjunto. Assim Hesíodo concebeu a Terra como originária do caos primitivo, e dando, por sua vez, origem aos céus, às montanhas e aos oceanos, de onde nasceram os deuses. Todas essas idéias são expostas por Hesíodo em "Teogonia", e constituem as primeiras manifestações do espírito teorizador. Era Hesíodo um coordenador. Apanhava as lendas dos deuses e de sua descendência, e procurava acomodá-las num sistema compreensível aos homens de sua época. Passando à literatura oriental, iremos encontrar no Rigveda, X-90, um dos mais antigos hinos védicos, que Deus formou os mundos dos membros de um gigante.
Estava disseminada a crença de que no princípio havia o caos - um período primordial em que a matéria era escura, sem forma e vazia. Dessa matéria formara a divindade um imenso ovo universal. E esse ovo era chocado pelo pensamento divino. No tempo devido, o ovo abriu-se ao meio. A parte de cima, elevandose, formou o Céu, e a de baixo a Terra. Era crença geral em Elefantina no Egito, que esse ovo era formado do lôdo do Nilo. Depois veio a crença de que Deus formara o mundo com as suas próprias mãos. Não findaram aí as conjecturas do homem a respeito da criação do mundo. Agora, era a voz de Deus que comandava, e assim o vemos ordenar: "Haja luz. E houve luz". Com o advento do Cristianismo as lendas hebráicas da criação foram incorporadas ao pensamento medieval. Apesar de ser a Bíblia aceita como uma revelação divina, cujas verdades eram decisivas e indisputáveis, os teólogos não deixaram de debater teorias cosmogônicas pelos séculos em fora.
Gregório de Nissa e Agostinho, que defendiam um conceito mais espiritual, foram reduzidos ao silêncio. De tal modo se arraigara na Europa a idéia da criação manual, que nas esculturas, mosaicos e vitrais, os artistas mediévos representvam Deus no ato de criar e modelar o mundo com suas mãos. Na catedral de Upsala ainda podemos ver a lenda da criação lavrada em pedra sobre o túmulo de Lineu, o famoso naturalista sueco do século XVIII. É Deus figurado alí numa variedade de cenas, como um ser humano ocupado, sob a forma de simples trabalho físico, nos diversos atos da criação. Os fósseis eram considerados como provas do Dilúvio de Noé. O naturalista suiço Bertrand sugeriu que as plantas e animais fósseis tinham sido inseridos nas rochas "diretamente pelo Criador, com o fim de ostentar a harmonia de sua obra e a correspondência dos seres marinhos com os terrestres." Não menos acalorada do que a controvérsia da criação manual versus criação pela voz, era a que dizia respeito à questão do tempo. Deus criou o mundo em seis dias ou instantâneamente?
O capítulo inicial do Gênesis deixa bem claro que a criação abrangeu seis dias; mas um pouco adiante ignora-se esse período. O versículo 4 do II capítulo refere-se expressamente ao "dia em que o Senhor Deus fez a Terra e os Céus". Eis aí um dilema perturbador, criado por duas versões contraditórias que se faziam face no mesmo livro. A qual delas dar fé? Longas e ásperas foram as disputas dos teólogos. Por fim chegou-se a um acordo pelo qual se julgava harmonizar as duas versões discrepantes: veio-se pois, a admitir que, por um processo misterioso Deus criara o Universo em seis dias, e todavia lhe dera a existência instantâneamente. Quem formulou essa conciliação em suas roupagens clássicas foi S. Tomás de Aquino, que aclarou as dificuldades dizendo que Deus criara num momento a substância de todas as coisas, sendo-lhe, no entanto, preciso seis dias para dispor, moldar, separar e aperfeiçoar a sua obra. Com o desenvolvimento da cultura. o homem começou a inquirir os fundamentos dessas "revelações". Já vimos como Copérnico desmantelara a teoria ptolomaica.
Aqueles que pensavam, e cujo número se tornava cada vez maior, já não se podiam satisfazer com a lacônica e impositiva sentença do "Deus criou". Queriam saber como. Quais tinham sido os agentes empregados na criação. Qual a ordem da sucessão dos fatos. Estas questões deram nascimento a algumas das idéias mais grandiosas que já concebeu o espírito humano. Compreendê-las, ainda que em
parte, é "aumentar o nosso cabedal de inteligência". [ ] No limiar das cosmogonias modernas, no dizer do grande escritor, vamos encontrar Descartes (1596-1650), o original e arguto gênio francês da Filosofia, que se divorciou do pensamento tradicional criando o seu sistema sobre os fundamentos da Ciência. Dizia ele: Não se deve aceitar qualquer idéia que nos vem dos livros, da tradição, da autoridade da Igreja. Nenhuma deve ser aceita a não ser que resista a um exame rigoroso. Não admira, pois, que as opiniões de Descartes causassem desagrado. Ele fundava a sua filosofia, não sobre as virtudes da fé, mas sobre a dúvida. Isto está explícito em seu "Discurso do Método". Se Descartes não fosse tolhido pelo medo mórbido da Igreja, teria dado mais plena expressão ao seu pensar. Mas ainda não chegara o momento propício, e ele não queria expõr-se às sevícias da Inquisição. Vem, por último, Thomas Chrowder Chamberlin. A sua teoria é a seguinte: Terra começou a existir como uma massa fria, relativamente pequena, que constituiu o núcleo do futuro planeta.
De tempos em tempos, essa massa primitiva sofria adições de fragmentos esparsos, pequenos e grandes, sólidos e gasosos. Tais fragmentos, que vão desde as partículas infinitamente pequenas, até as grandes massas, são chamadas planetésimos. Esta opinião é incompatível com a idéia laplaciana de que a Terra foi primitivamente um globo incandescente ou em fusão. A alta temperatura no interior da Terra deve-se, sem dúvida, ao choque e à pressão. A Terra cresceu muito devagar, e assim os corpos cadentes que se tornavam incandescentes ao penetrar na atmosfera, já estavam frios quando outros se lhes vinham juntar. A Terra foi, portanto, aumentando com a queda desses planetésimos sem que a sua temperatura se elevasse muito, e nunca passou pelo estado de fusão, nunca foi completamente gasosa. Este crescimento tomou muito tempo - um bilhão de anos por hipótese - processando-se a uma temperatura que nunca sofreu variações excessivas.
A idéia do globo em fusão com uma crosta sólida é uma representação falsa dos fatos que são estes: a Terra é sólida, sempre foi sólida e cresceu por uma acumulação de partículas sólidas que atuaram umas sobre as outras. Há um processo constante de reorganização interna, o qual explica os movimentos da Terra, ou terremotos, e todos os fenômenos similares. Vimos, assim, a formar bem
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