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Capítulo 24 de 57

Parte 23 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

86. [ ] Nas ruínas do palácio de Ninive, em Babilônia, descobriram-se na biblioteca de Assurbanipal, as doze lâminas de barro com as inscrições cuneiformes de Gilgamés. A décima primeira contém a lenda do dilúvio tal qual a encontramos na gênesis de Moisés, que foi escrita no VQ século a.C., sendo que o sumeriano Gilgamés, gravou aquela página, nas imediações do XXV século, a. de Cristo. As mesmas expressões de arrependimento de Deus se encontravam numa e noutra; as mesmas descrições nos seus menores detalhes são ali narradas, notando-se mesmo, que mais vivas e mais completas do que no Gênesis. Aí o Noé de Moisés é chamado Atrachasis. Isto evidencia simplesmente, que todos os povos da Terra de norte a sul, tiveram conhecimento do cataclismo sucedido num continente. É isto o que nos conta D. Merejkowsky, em sua obra "Le Mysteres de l'Orient".

Conforme estudos de José de Campos Novais e transmitidos em polêmica que sustentou com figuras máximas do Protestantismo no Brasil, a história do dilúvio na Bíblia está cheia de contradições, comparando-a com o poema de Isdubar, canto XI, dos tempos dos caldeus. Em 1932, em poucas semanas conta Leterre que registrou em seus arquivos o fato, de que morriam na China cerca de 370.000 pessoas, afogadas por inundações, além de 80 milhões de fome e peste, fenômeno este nunca visto alí, desde o famoso dilúvio de Noé!... E isto que aconteceu na China, se não se dispusesse dos meios atuais, seria, talvez, transmitido à posteridade, como o foram as centenas de dilúvios universais cantadas e decantadas em prosa e verso por todos os povos da antiguidade. Deucalião, antigo rei da Phitia, na Thessália, era filho Prometeu e de Pandora e marido de Pyrrha. É o Noé da mitologia grega. Júpiter, irritado com os crimes do gênero humano, inundou a Terra para a destruir. Aconselhados por Prometeu, Deucalião e Pyrrha refugiaramse numa barca que foi dar à costa do Parnaso.

Únicos sobreviventes do dilúvio repovoaram o mundo, arremessando pedras para trás deles. Cada pedra lançada por Deucalião transformou-se num homem e de cada uma das que Pyrrha atirou, nasceu uma mulher. Diz Louis Jacolliot, com a autoridade que todos nós conhecemos que não há um livro da India antiga, tratado de Teologia ou poema, que não dê sua versão ao grande cataclismo que todos os povos ainda guardam na memória. Vejamos o dilúvio, segundo o Mahabarata e as tradições brahmânicas: Segundo a predição do Senhor, a Terra se povoou e os filhos de Ádima e de Heva se tornaram tão numerosos e tão maus que não mais se podiam entender. Eles esqueceram Deus e suas promessas, e acabaram por se cansarem do barulho de suas disputas sangrentas. Um dia o rei Daytha teve a audácia de imprecar contra o trovão, ameaçando-o se ele não se calasse, de ir conquistar os céus à frente de seus guerreiros. O Senhor resolveu então impor a essas criaturas um castigo terrlvel, que pudesse servir de lição àqueles que sobrevivessem à sua descendência.

Como se observa, Brahma não se queixa, como o Jeová da Bíblia, de haver criado o mundo, fraqueza que está em desacordo com a sua presciência. Assim, conta-nos Jacolliot, na gênesis hindu, em seu livro já citado: Havendo Brahma observado o mundo, para saber qual era entre todos os homens o que merecia ser salvo e de conservar a raça humana, escolheu Vaiswasvata (o Noé da India) por suas virtudes e eis como ele conheceu sua vontade e o mais que aconteceu. Vaiswasvata tinha chegado a esta idade da vida em que os dedicados servidores de Deus devem deixar a família, os amigos, para se recolherem ao deserto ou às florestas, para aí terminarem seus dias, no meio de austeridade de toda a natureza, na perpétua contemplação da pura essência divina. Um dia, como ele estivesse fazendo as suas abluções às margens sagradas do rio Viriny, um pequeno peixe, ornado das mais brilhantes cores, veio a encalhar na areia. Salva-me, disse este último ao santo personagem; se não escutares meu pedido, serei infalivelmente devorado pelos peixes maiores que eu e que habitam este rio.

Cheio de piedade, Vaiswasvata o colocou no vaso de cobre que lhe servia para tirar água do rio e o levou para casa; o peixe se pôs a crescer com tal rapidez que em pouco tempo o vaso maior não o podia conter. Vaiswasvata foi então obrigado a transportá-lo para um tanque, onde o seu crescimento continuou com a mesma rapidez e pediu ao seu salvador para levá-lo para o Ganges. Isto está acima de minhas forças, respondeu-lhe o santo eremita; só Brahma te poderá salvar agora. Tenta, sempre, retorquiu o peixe. E Vaiswasvata, tendo-o agarrado, o ergueu com a maior facilidade e o foi depositar no rio sagrado, e não somente o enorme peixe era leve como uma palha, como, também, exalava em torno de si os perfumes mais suaves. Vaiswasvata compreendeu que ele cumpria a vontade do Senhor, e ficou à espera de maravilhosos acontecimentos. O peixe não tardou a chamá-lo e desta vez para pedir-lhe que o conduzisse ao oceano, o que foi feito com a mesma dedicação. Disse, então, o peixe a seu salvador.

Escuta ó homem sábio e benfeitor, o globo vai ser submergido e todos aqueles que o habitam serão aniquilados, pois, eis, que a cólera do Senhor vai soprar sobre as nuvens, para encarregá-las do castigo desta raça má e corrompida, que esqueceu sua origem e as leis de Deus. Teus semelhantes não sabem mais conter o orgulho e ousam clamar contra o Criador, mas suas ameaças já chegaram aos pés do trono de Brahma, e Brahma vai tornar conhecido o seu poder. Trata, pois de construir um barco no qual te encerrarás com toda a tua famllia. Tomarás também sementes de todas as plantas e um casal de todas as espécies de animais, deixando todos aqueles que nascem da podridão e dos vapores, porque o princípio da vida não saiu de grande alma. E tu esperarás com confiança. Vaiswasvata tratou de seguir esta recomendação e tendo construido o barco aí se encerrou com toda a família, as sementes das plantas e um casal de todos os animais, conforme a ordem recebida.

Assim que a chuva começou a cair e os mares a transbordar, um peixe monstruoso, munido de um chifre gigantesco, veio se colocar à frente do barco, e Vaiswasvata, tendo atracado um cabo ao chifre do peixe, este se lançou no meio de todos os elementos desencadeados e se pôs a guiar o barco. E aqueles que o guarneciam viram que a mão de Deus os protegia, pois a impetuosidade da tormenta e a violência das vagas nada puderam contra eles. Isto durou alguns dias, alguns meses, alguns anos, até o momento em que a obra de destruição se completou. Tendo-se acalmado os elementos, os viajantes, sempre guiados pelo misterioso condutor, puderam atracar no cume do Himaláia. Foi Vichnu que nos salvou da morte, lhes disse o peixe ao deixá-los; sua prece fez com que Brahma concedesse graças à humanidade; ide agora completar a obra de Deus, e povoai a Terra.

Segundo a tradição foi lembrado a Brahma que havia antes prometido, enviá-lo à Terra para fazer voltar os homens à fé primitiva e resgatar seus erros que Vichnu obteve que Vaiswasvata seria salvo, a fim de que a promessa de Deus pudesse ser cumprida mais tarde. Esta legenda, pensamos nós, diz, ainda, Jacolliot, pode servir a muito comentário, e o leitor poderá facilmente perceber todas as consequências que dela decorrem. Segundo uns, Vaiswasvata, foi o pai por sua descendência dos povos novos: segundo outros, ele não fez mais que atirar pedras na lama formada pelas águas para fazer nascer homens tantos quantos ele os quisesse. É de um lado, o mito encontrado e adotado pelo judaismo e o dogma católico. De outro, é a tradição de Deucalião e Pyrrha, chegada à Grécia pelos cânticos poéticos

dos imigrantes. [ ] Que dilúvios hajam existido não ousamos contestar. Aceitamos o fato mal descrito por todas as mitologias, sem as fantasias poéticas que o enfeitam. Tirante as superstições ou as alegorias que estudiosos de grande capacidade imaginativa tentam transformar em filosofia, os dilúvios e não o dilúvio nos parecem uma realidade incontestável. Cremos em fenômenos como aquele que narramos, passado em 1932 na China e registrado por Leterre. Mas, fato notório, nesta história de todos os povos há sempre uma arca, uma família ou um casal privilegiado, uma sementeira farta a preservar a destruição das espécies, casais de todos os animais e o povoamento da Terra por último. Todos os padres da Igreja romana e todos os protestantes, malgrado os ensinamentos da Ciência contemporânea, continuam crendo na geração espontânea, uma vez que continuam aceitando a gênesis bíblica: Se os anjos ou os caçadores dos continentes, diz Santo Agostinho, não levaram animais às ilhas afastadas, somos forçados a admitir que a terra os produziu; mas, então, perguntamos a nós mesmos, diz Camille Flammarion, para que serviu

encerrar na arca animais de todas as espécies? [ ] Diz a gênesis que "a chuva caiu sobre a Terra durante quarenta dias e quarenta noites", e neste mesmo dia, entrou Noé com toda a sua família, animais, sementes e alimentos e se encerrou na arca. Somando os diversos períodos indicados no seguimento deste capítulo e no capítulo seguinte, observa-se que Noé, sua família e os animais salvos, ficaram na arca durante 393 dias. Que nos digam os teólogos como oito pessoas puderam bastar, durante todo um ano, para dar de beber e de comer a todos esses animais e para limpar seus escrementos. E é preciso que se pense, também, na reprodução de todos eles e de raças que sabemos por demais prolíferas. Isto não nos parece história da Carochinha?

O nível do dilúvio ultrapassou de 15 côvados as mais altas montanhas da Terra; calculou-se, então, que esta acumulação de água representava o valor de mais de doze oceanos, um sobre o outro, e que a décima zona diluviana era, por conseguinte, ela só, 24 vezes maior que as águas reunidas de todos os mares que circundam hoje os dois continentes. Podemos, também, considerar o milagre do dilúvio como o mais extraordinário dos milagres Deus já produziu, pois, que depois de haver criado todos esses oceanos novos, o que já era um esforço imenso, Ele em seguida os destruiu, apenas fazendo soprar um vento. Outro milagre que não deve passar despercebido: no sétimo dia, do sétimo mês, a arca de Noé parou ou aterrissou no monte Ararat, cuja altura é de 5.156 metros; e os montes e as montanhas que são mais altos que o Ararat, tais como o Gourisankar (8.840 m), o Dapsang (8.615), o Nanda-Devid (7.813), o Aconcagua (6.970), o Chimborazo (6.254), o Kilima-Ndajaro (6.000), o Cotopaxi (5.970), etc., não mostraram seus picos senão dez semanas depois, seja o primeiro dia do décimo mês. Isto como milagre é uma coisa estupenda!...

Outro fato milagroso, também, é o de Noé haver conseguido prender todos os animais da Terra, todas as aves do Céu, os répteis, aos sete e sete e aos casais, conforme fossem limpos ou não limpos, dentro de uma arca de tão pequenas proporções. Como isso poderia ter-se dado quando na região em que Noé habitava existiam, apenas, determinadas espécies de animais e de aves? Que viagens longas não teriam feito seus filhos para conseguirem aprisionar os sêres que Jeová havia determinado? Em que veículos teriam sido eles conduzidos? E se se apresentaram espontâneamente, conforme nos quer insinuar a Bíblia, como poderiam esses animais atender a ordem do Senhor, quando muitos deles estavam separados de Noé por distâncias consideráveis, com rios e oceanos de permeio? Mas ninguém tem o direito de duvidar destas coisas por que a Igreja romana no-las apresentam como verdades e herejes serão aqueles que as não aceitam, embora não as compreendam. E que milagre extraordinário não se operou na construção da arca que, segundo a lenda, durou cem anos?

Uma construção de madeira que levasse tanto tempo, não resistiria. Enquanto o construtor se dedicava ao trabalho da pôpa, a proa, por certo, já estaria apodrecida e seria desta forma, um nunca terminar. E as pessoas que assistiam ao trabalho de Noé, não teriam, por ventura, a curiosidade de perguntar a que se destinava tão grande navio? E teria Noé que mentir a toda aquela gente, ele virtuoso, o único distinguido por Deus para perpetuar a humanidade, depois daquela memorável hecatombe? Noé mentir, iludir, enganar, despistar, ser insincero? Será isto procedimento de um justo? Impor-nos crenças dessa natureza é crime e dos maiores. A tática da Igreja é, sem dúvida, muito prática. Ela incute na criança essas verdades inaceitáveis e a criança que não raciocina as vai guardando, à custa de tanta repetição, no seu subconsciente isso que aí vemos, e ao chegar à idade adulta, essas lendas já estão de tal forma enraizadas, que dificilmente o homem delas se liberta.

Reuna-se a essa tática o temor do inferno, que o padre, também, incute, afirmando que para lá seguem todos aqueles que rejeitam uma verdade da Igreja. O dilúvio bíblico, diz Kardec, designado, também, pelo nome de grande dilúvio, é um fato de existência incontestável. Devia ter sido ocasionado pelo levantamento de uma parte das montanhas desse continente, como o do México. O que vem em apoio dessa opinião é a existência de um mar interior que se estendia outrora do mar Negro ao oceano Boreal, atestado pelas observações geológicas. O mar de Azoff, o mar Cáspio, cujas águas são salgadas, apesar de não comunicarem com outro mar, o lago Aral e muitos outros lagos espalhados nas imensas planícies da Tartária, e as estepes da Rússia, parecem ser o resto desse antigo mar. Na ocasião do levantamento das montanhas do Cáucaso, posterior ao dilúvio universal, parte dessas águas foi repelida para o oceano Boreal ao norte, e a outra para o oceano Índico, ao sul.

Estas inundaram e destruiram precisamente a Mesopotâmia e toda a região habitada pelos antecessores do povo hebreu. Está hoje bem averiguado que esse dilúvio foi local, apesar da grande extensão ocupada e que não podia ser causado pelas chuvas, visto como, por mais abundantes e contínuas que fossem, durante 40 dias e 40 noites, os cálculos provam que a quantidade de água caída não podia ser suficiente para cobrir toda a terra acima das mais altas montanhas. Para os homens de então, continua Kardec, que só conheciam uma extensão limitadíssima da superfície do globo, e não concebiam idéia alguma da sua configuração, desde o momento em que a inundação invadisse as regiões conhecidas, isso lhes devia parecer toda a Terra. Se juntarmos a essa crença, a forma imaginada e hiperbólica peculiar ao estilo oriental, ninguém deve surpreender-se pela exagêro das narrativas bíblicas.

O dilúvio asiático é evidentemente posterior à aparição do homem na Terra; confirma-o a memória dessa parte do mundo, conservada pela tradição de todos os povos e consagradas em suas teorias, assim como é igualmente posterior ao grande dilúvio universal, que marcou o período geológico atual, e quando se fala de homens e animais antidiluvianos, entende-se isso com esse primeiro cataclismo. É o próprio Kardec a rejeitar a lenda bíblica do dilúvio universal da forma pela qual é narrada, e diz positivamente, à página 199 da “Gênesis Segundo o Espiritismo", que a lenda mosaica do dilúvio muito se assemelha à legenda indiana de Brahma, transformado em peixe, dirigindo-se ao piedoso monarca Vaiswasvata. Que sendo evidente a analogia de ambas as lendas, e que sendo os Vedas muito mais antigos que a narração bíblica de Noé, aquela chegaria ao povo hebreu através do Egito com uma multidão de outras crenças. Conclusão: Moisés ou os que falaram em seu nome beberam esses conhecimentos à sombra dos santuários, repositório dos conhecimentos filosóficos e científicos dos povos mais antigos.

O último século oferece notável exemplo de um fenômeno desse gênero. A seis dias de viagem da cidade do México, havia em 1750, uma região fértil e bem cultivada, onde crescia em abundância o arroz, o milho e a banana. No mês de junho, terríveis tremores de terra agitaram o solo, os quais se renovaram constantemente durante dois meses inteiros. Na noite de 28 para 29 de setembro a terra sofreu violenta convulsão; um terreno de muitas léguas de extensão levantou-se pouco a pouco e acabou por atingir a altura de 1.600 metros, sobre uma superfície de dez léguas quadradas. O terreno ondulava como as águas do mar ao sopro da tempestade: milhares de montículos apareciam alternadamente: enfim, abriu-se um abismo de perto de três léguas: fumo, fogo, pedras incandescentes, cinzas foram lançadas a uma altura prodigiosa. Seis montanhas surgiram desse abismo, entre os quais, o vulcão, a que se deu o nome de Jorulle, eleva-se hoje a 550 metros acima da antiga planície.

No momento em que começava o tremor do solo, os dois rios Cuitimba e São Pedro, retrocedendo os seus cursos, inundaram toda a planície ocupada hoje pelo Jorulle; mas, no terreno abriu-se um abismo, que os sorveu. E

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