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Capítulo 26 de 57
Parte 25 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
A torre de Babel E era toda a Terra de uma mesma língua e de uma mesma fala. E aconteceu que, partindo eles do Oriente, acharam um vale na terra de Sinai; e habitaram ali. E disseram aos outros: eia façamos tijolos, e queimemo-los bem. E foilhes o tijolo por pedra, e o betume por cal. E disseram: eia edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no Céu, e façamos um nome para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a Terra. Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam. E disse: Eis que o povo é um, e todos tem uma mesma língua: isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro. Assim o Senhor os espalhou dalí sobre a Terra, e cessaram de edificar a cidade. (Gên. XI, 1 a 9).
Deus, para que pudesse ver a cidade e a torre que homens edificavam, não precisava dar-se ao: incomodo de descer do Céu. E por que confundir as línguas no intuito de fazer com que eles parassem tão estranha edificação? O pior castigo seria certamente, deixar que esses idiotas continuassem a erguer a torre cujo cume deveria tocar no céu, porque eles naturalmente a estariam construindo até hoje. São Jerônimo, em seu comentário sobre Isaías, afirmou que a Torre de Babel tinha 4.000 passos de altura, quando Jeová decretou a interrupção dos trabalhos, e Voltaire observa que isto é igual a vinte mil pés, ou seja, que a torre era dez vezes mais alta que a grande pirâmide do Egito, que mede 142 metros. Ora, as pirâmides subsistiram e não resta o mais insignificante traço desta prodigiosa empresa da Torre de Babel, que o Gênesis coloca no 1179º ano depois do Dilúvio.
Para uma altura de 1.420 metros, que não é ainda o fato, pois ela teria que atingir o Céu, era necessario uma base de formidável desenvolvimento; como se explica que essa imensa massa de alvenaria, tão compacta e tão sólida, tivesse desaparecido? Só se pode atribuir o desaparecimento da Torre de Babel a um desses milagres extraordinários que Jeová costumava praticar e que o autor esqueceuse de referir. Um prodígio extraordinário é a formação súbita de tantas línguas. Os comentadores, ainda hoje, procuram quais as línguas mães que nasceram de repente dessa dispersão de povos. Acresce, ainda, que toda a Terra ignora o prodígio da Torre de Babel. Quando o patriarca Noé dividiu a Terra pelos seus três filhos, ele o fez: ...dividindo as ilhas das nações nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, entre as suas nações. (Gên. X, 5) Como é que o mesmo autor se esquece de sua anterior afirmativa nos impinge, como se pode encontrar na citação acima: "era toda a Terra de uma mesma língua, e de uma mesma fala".
(Gên. XI, 11), contradizendo-se positivamente? Era assim que Deus ditava a Moisés as verdades da Bíblia. Como é possível admitir-se, em face de tantas contradições, que a Bíblia fosse obra de inspiração divina? Bastaria uma para que o bom senso repelisse a afirmativa clerical de que Deus inspirou Moisés quando escrevia essas "sublimes verdades". M. Vernes, em "La Grande Encyclopédie de Berthelot", vol. IV, pg. 1028, narra da mesma forma, ou melhor, reproduz em outros termos, a narrativa bíblica da Torre de Babel, mas, acrescenta que esta lenda da confusão das línguas é babilônica, e isto já anteriormente o afirmamos, quando dissemos que era ela existente desde o tempo dos sumerianos, que falam da construção de uma torre gigantesca, causadora da cólera dos deuses. Foi, assim, tomada pelos israelitas de empréstimo. Encontrou-se, diz ainda, Vernes, em Birs-Ninroud, nas ruinas da antiga Borsippa, os traços ainda nítidos de um monumento que se pensa ter sido a famosa "Torre dos Andares" de que fala Heródoto e à qual se prende a lenda da confusão das línguas.
Hoje, diz, por sua vez, Oppert, a Torre de Babel é ainda representada pela ruína de "Birs-Ninroud", cujo aspecto poderoso extasia todos os viajantes. Um pedaço de muro enorme se eleva, ainda, a onze metros de altura sobre uma colina que se divisa a oito léguas de distância. Nada iguala o espetáculo que oferece a ruina, quando escondida pelas brumas matinais, ela surge com o desaparecimento desta cortina de nuvens. A legenda da Torre de Babel é babilônica; ela será encontrada um dia entre os testos da literatura caldéia; fragmento a menciona, mas isto é ainda duvidoso. A legenda em si é perpetuada na escrita sumeriana. Borsippa é designada por um ideograma que a intitula a cidade da "Torre Arruinada", e esta lembrança atesta por si mesma, a persistência da antiga tradição transmitida pelo Gênesis. Sabemos, com certeza, pelo menos, que a torre não é judia, mas babilônica.
Não queremos afirmar que Voltaire tenha razão, quando duvida da existência de qualquer monumento que possa ser indicado como resto da legendária torre, nem tão pouco queremos adiantar que a ruina da cidade de Borsippa, indicada por Oppert, e aceita pelo povo como a ruina da Torre dos Andares, seja a mesma Torre de Babel. Convenhamos, para satisfazer aos crentes, que o grande escritor francês se haja equivocado, e que a ruina da torre cuja construção produziu a milenária confusão das línguas, esteja perpetuada naquelas ruinas que tanto extasiam os viajantes; o que não podemos aceitar é que um punhado de homens que entendiam de construção, pretendesse fazer uma torre cujo cume tocasse no Céu. *** Esta idéia idiota nunca teria surgido no cérebro de homens maduros, a não ser que todos eles estivessem grandemente afetados das faculdades mentais. Não há boa vontade capaz de fazer aceitar a um homem de bom senso, tamanha infantilidade. Nem os selvagens seriam capazes de pensar em fazer uma construção que tocasse o Céu.
Não nos admira, diz Taxil, o desconhecimento por parte dos gregos, dos romanos, dos egípcios, dos caldeus, dos persas, dos hindus, dos chineses, das façanhas e dos gestos de um Gedeão, de um Sansão, ou de qualquer outro herói simplesmente israelita; o que nos estarrece, porém, é o completo desconhecimento dos nomes de Adão e de Noé por parte daquelas nações. Uma vez que tudo foi destruido pelo Dilúvio, e que Noé e sua geração foi o segundo pai da humanidade, seria indigno dos historiadores não se preocuparem com ele e com a sua família. Mas essa honra eles nunca terão, porque isto é simplesmente história de crianças, e os adultos que se preocupam com a verdadeira história da humanidade não costumam consignar tolices entre as que escrevem. Chama-se isto, senso de responsabilidade. Os nomes de Adão e Eva, de Caim e Abel, de Enoque e Matusalém, de Lemeque, Noé, Sem, Cão e Jafé, etc... Deveriam constar de todos os pergaminhos antigos, mas infelizmente, só os podemos encontrar entre as páginas do Velho Testamento.
Quanto à cultura da vinha, somente a Bíblia empresta sua paternidade a Noé. No entanto, Dionysos ou Bacchus, um dos grandes deuses da Grécia, do oriente helênico e da Itália é o deus poeticamente aceito como sendo o criador do vinho. Se, como afirmam os esoteristas, as lendas tomadas por empréstimo e que constam da Bíblia, têm um sentido oculto e encerram muita filosofia, por que se ensinam essas lendas, sem que elas estejam acompanhadas da explicação filosófica indispensável? Não será isso um erro e um crime ao mesmo tempo? Quando a Bíblia historia que os hebreus, no Êxodo, roubaram dos egípcios todos os vasos de ouro e as suas ricas roupagens, vêm os senhores esoteristas afirmar que o êxodo é um mito, que os hebreus e Moisés nunca foram ladrões. O que houve, a Bíblia consigna, apenas, em forma de símbolo, pois, os vasos de ouro e as roupagens eram a sabedoria dos egípcios que os hebreus assimilaram. Desta forma não há furto ou roubo que não se justifique.
Diz o padre Moreux: 0 que ler a Bíblia como um livro comum, pode ficar certo de nada entender, nem lhe tirar proveito. Os Pais da Igreja já o notaram há muito tempo. Ora, a Igreja romana nunca leu a Bíblia de outra forma, do contrário não teria atirado vivo à fogueira um punhado considerável de homens notáveis pelo fato de discordarem da paralisação do Sol por Josué. E, a ser verdadeira essa afirmativa do padre Moreux, por que os seus colegas não ensinam a Bíblia como a devem ensinar? Por que não eliminam dela as coisas abomináveis, como aquela em que está dito, de uma maneira clara, que Jeová, para que as pragas se repetissem contra o faraó, endureceu seu coração, e que assim procedia porque com isso se sentia glorificado? Por que não retirar de entre as páginas do Velho Testamento, aquela história de pouca moralidade entre Sara e o faraó, quando esta passava a pedido de seu esposo, por sua irmã e em virtude de sua deslumbrante beleza?
Por que não retiram da Bíblia a conformação indecente de Abraão, proxeneta, por mais de uma vez, da própria mulher, que, sabedor de que sua esposa havia prevaricado com o faraó, não só aceita deste as suas excusas, como, ainda, recebe uma compensação, representada numa fortuna, naquele tempo considerável? Por que não retiram, ou explicam, onde reside a moral na ordem de Moisés aos oficiais para que voltassem, matassem tedas as crianças, as mulheres, os homens e deixassem, apenas, as virgens para os soldados? E aquela história de Ló coabitando com as suas duas filhas? E a recompensa dada a essas filhas de serem as mães de duas numerosas gerações? E aquela narração hedionda de Sodoma e Gomorra, em que todos os habitantes daquela primeira cidade, crianças, rapazes e velhos, sem exceção, cobiçaram abominàvelmente os dois anjos que se hospedaram em casa do homem que mais tarde fez surgir duas grandes gerações do incesto com as suas duas desavergonhadas filhas?
E o oferecimento por parte, ainda, deste pai incestuoso, de suas duas filhas à população viciada de Sodoma, com o fim de poupar a integridade física e moral dos dois mensageiros que hospedava? Que nos ensinem, então, os incensadores da Bíblia, a ler diferentemente estas passagens do Velho Testamento, uma vez que não sabemos lê-las como se deve, e por isso, não encontramos nelas a moralidade que a Igreja romana, certamente, divisa. Por que não ensinar que as lendas bíblicas, na sua quase totalidade, são lendas copiadas de povos mais antigos? Isso não viria em detrimento do livro sagrado dos judeus, porque o próprio Cristo, em matéria de moral, não fez mais do que repetir os postulados da velha religião de Brâhma que ele não podia, de forma alguma, repudiar. E será que Jesus se diminuiu com isto? Pelo contrário, Ele se agigantou, porque com esse seu modo de proceder, ensinou ao homem que ele deveria aceitar as coisas boas, mesmo quando elas partissem de filosofias que tivessem um rótulo diferente da sua.
Por que os padres não aceitam o divórcio, quando ele se encontra explícito na religião de Moisés e quando o Cristo no Novo Testamento, o admite em caso de infidelidade? Por que não se circuncidam os senhores reverendos? Não foi a circuncisão um pacto de amizade eterna entre Jeová e os seus filhos? Não foi esta uma rigorosa determinação divina? E não foi o Cristo circuncidado? Em vez disso cuidam de atacar os credos alheios e amaldiçoar os seus crentes.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.