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Capítulo 52 de 57

Eloista — parte 21 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

O Povo Eleito Não nos preocuparemos muito com Moisés. Não iremos citar neste capítulo tudo o que se relacione com a vida do povo hebreu no tempo do Patriarca. No "Balanço da Bíblia", completaremos o assunto. Preocupemo-nos, no momento, com a vida deste mesmo povo no tempo dos Juízes até os Reis, Para isso, iremos consultar o Velho Testamento o quanto nos for possível, a fim de transmilir aos leitores o conhecimento de uma matéria sumamente vasta, que procuraremos resumir. Pedimos a todos o máximo de atenção na leitura do que iremos expor, pois pretendemos perguntar se se pode chamar eleito de Deus a um povo que sempre viveu curtindo a mais extrema miséria, sempre escravo e sempre perseguido!... Comecemos por aceitar um conselho amigo. Não queiramos decifrar por que Josué, capitão dos judeus, para fazer passar sua tribo do Oriente ao Ocidente do Jordão, em direção de Jericó, teve necessidade que Deus suspendesse o curso desse rio, que não chega a ter neste lugar quarenta pés de largura.

Era facílimo a Josué ter construido uma ponte de pranchas, e mais fácil, ainda, atravessá-lo a pé. Não procuremos sondar, também, por que Jericó caiu ao som das trombetas; são novos prodígios que Deus pratica, em favor de um povo do qual se intitula rei; não examinemos, tão pouco, com que direito veio Josué destruir povoações que nunca haviam ouvido falar em seu nome. Os judeus explicam: "Descendemos de Abraão; Abraão viajou entre vós há quatrocentos anos; logo vossos pais nos pertencem, e vimos matar vossas mães, vossas mulheres, vossos filhos”. Fabricius e Holtennius fizeram a seguinte objeção: Que diriam se um norueguês viesse à Alemanha, com algumas centenas de seus compatriotas, e dissesse aos alemães: Há quatrocentos anos um homem de nosso país, filho de um oleiro, viajou por perto de Viena; por isso a Áustria nos pertence e vimos massacrar tudo em nome do Senhor?

É a Bíblia que nos diz, que mal ficou a cidade sem defesa, os judeus imolaram ao seu Deus todos os habitantes, velhos, mulheres, crianças de peito e todos os animais, com exceção de uma prostituta, que escondeu dois espiões judeus em sua casa, espiões inúteis, pois as muralhas cairam, por efeito de um milagre, ao som das trombetas. Por que matar os animais, quando eles poderiam ser úteis? Sobre esta mulher, Raaba, que a Vulgata chama meretriz, e que, aparentemente, levou depois uma vida honesta, sabe-se que ela foi avó de Daví e conseqüentemente de Jesus, segundo os que crêem em tão duvidosa genealogia. O livro de Josué nos diz que este chefe se tornou senhor de uma parte do país de Caná, e fez prender seus reis, em número de trinta e um, isto é, trinta e um chefes de pequenos burgos, que ousaram defender seus lares, suas mulheres e seus filhos. É longa a distância da Mesopotâmia e Jericó; era necessário, assim, que Cusan houvesse conquistado a Síria e uma parte da Palestina.

De qualquer forma os judeus foram escravos durante oito anos, e faltam ainda sessenta e dois, tempo em que passaram inativos. Esse tempo todo é uma espécie de escravidão; pois tinham ordem de tomar todo o país desde o Mediterrâneo até o Eufrates, país que lhes fora prometido e do qual se teriam apossado se fossem livres. Foram escravos dezoito anos sob Eglon, rei dos moabitas, assassinado por Od; foram, em seguida, durante vinte anos, escravos de um povo cananeu cujo nome é ignorado, até o tempo em que a profetisa guerreira, Débora, os libertou. São, ainda durante sete anos, escravos de Gedeão; dezoito anos dos fenícios, até Jefté; são, ainda, escravos dos fenícios até Saul. Que os leitores consultem a Bíblia - "Juízes", em seus capítulos: IV - v. 12 VI - v. 6 VXI - v. 8 XIII - v. 1 O que pode confundir o nosso julgamento, diz Voltaire, é que eles fossem escravos no tempo de Sansão, uma vez que foi preciso que este com uma simples queixada de burro matasse mil filisteus, obrando Deus, por seu intermédio, os mais extraordinários milagres.

Paremos um momento por aqui e calculemos o número de judeus mortos pelos seus próprios irmãos, ou por ordem de Deus, desde o tempo em que erraram pelo deserto até que elegeram um rei: Os levitas depois da adoração do bezerro de ouro fabricado pelo irmão de Moisés, mataram 23.000 judeus Consumidos pelo fogo, pela revolta de Coré, 250 judeus Mortos pela mesma revolta, 14.700 judeus Mortos por haverem coabitado com as filhas dos moabitas, 24.000 judeus Mortos no vau do Jordão por não poderem pronunciar shiboleth, 42.000 judeus Mortos pelos benjamitas que atacavam, 40.000 judeus Benjamitas mortos por outras tribos, 45.000 judeus Quando a arca foi tomada pelos filisteus, e Deus para os punir, os contaminou de hemorróidas, etc., 50.000 judeus Somando, teremos um total de 239.020 mortos, por ordem de Judeus, ou pelas guerras civis, sem contar os que pereceram no deserto e os que morreram lutando contra os cananeus, e outros, o que pode ir além de um milhão.

Se julgássemos os judeus, como julgamos os outros povos, diz o filósofo, não se poderia conceber como os filhos de Jacó puderam produzir uma raça tão numerosa, para poder suportar tal perda. Deus que os provava, os punia e os conduzia, tornou essa nação tão diferente das outras que é necessário observá-la com outros olhos e não com os que observamos as outras nações da Terra e não julgar esses contecimentos como ordinariamente julgamos. Depois de Saul, os judeus continuaram a "gozar" da mesma fclicidade que no tempo dos Juízes, como que a atestar o quanto é vantajoso serse um "povo eleito". Saul, o primeiro rei, é obrigado a matar-se. Isbosete e Mafibosete, seus, filhos, são assassinados. Davi liberta os filhos de Saul dos gaboanitas, para depois serem trucidados. Ordena seu filho Salomão a matar Adonias, seu outro filho e, ainda, seu general Joab. O rei Aza faz matar parte do povo em Jerusalém; Baasa assassina Nadab, filho de Jeroboão, e todos os seus parentes. Jehu assassina Joram e Ochosias, setenta filhos de Achab, quarenta e dois irmãos de Ochosias, e todos os seus amigos.

Atalia assassina todos os seus filhos, com exceção de Joas, mas é assassinada pelo sumo sacerdote Joiadade. Joas é assassinado pelos seus criados; Amasias é morto. Zacaria é assassinado por Sellum, que é assassinado por Manahem, O qual faz cortar o ventre de todas as mulheres grávidas de Tapsa. Phacéia, filho de Manahem é assassinado por Phacéia, filho de Pomeli, que é assassinado por Ozéas, filho de Ela. Manassés faz matar um grande número de judeus, e os judeus assassinam Amon, filho de Manassés. No meio de tantos massacres, dez tribos levantadas por Salmanazar, rei dos babilonios, são escravizadas e dispersas para sempre, cxceto alguns operários para o cultivo da terra. Restam duas tribos, bem como o pequeno número de judeus que pôde ficar em Samaria com os novos habitantes estrangeiros; estão sempre submissos aos reis da Pérsia. Quando Alexandre se apossa da Pérsia, está a Judéia entre as suas conquistas. Depois de Alexandre, os judeus continuaram submissos, tanto aos seleucidas, seus sucessores na Síria, quanto aos Ptolomeus, seus sucessores no Egito; sempre sujeitos e vivendo, apenas, de seu velho ofício de corretores, que haviam exercitado na Ásia.

O rei do Egito Ptolomeu Epifânio concedeu-lhes alguns favores. Um judeu chamado Joseph, torna-se o empreiteiro geral dos impostos sobre a Baixa Síria e a Judéia, que pertenciam a este Ptolomeu. Foi esta a mais ditosa época dos judeus, pois foi nela que construiram a terceira parte de sua cidade, chamada depois recinto dos macabeus, porque os macabeus a terminaram. Do jugo dos Ptolomeus passaram ao rei da Síria, Antiócus, o Deus. Como haviam enriquecido na lide com os impostos, tornaram-se audaciosos e se revoltaram contra o seu senhor Antiócus. Foi no tempo dos macabeus em que os judeus de Alexandria celebraram com coragem as suas ações; mas os macabeus não puderam impedir que o general de Antiócus Eupator, filho de Antiócus Epifânio, arrazasse as muralhas do templo, deixando de pé somente o santuário, que cortasse a cabeça ao sumo sacerdote Onias, olhado como autor da revolta. Nunca os judeus estiveram tão submissos quanto na Síria. Viviam sujeitos às suas leis; não adoravam mais as divindades estrangeiras e foi nessa época que sua religião foi irrevogàvelmente fixada.

Apesar disso, nunca se sentiram tão infelizes: viviam esperando a liberdade, cumprimento das promessas de seus profetas, os socorros de seu Deus, mas continuavam sempre abandonados pela Providência. Se respiraram um pouco com as guerras intestinas do rei da Síria, foi para se armarem, pouco depois, uns contra os outros. Como não tinham reis e o título de grande sacrificador era a primeira dignidade, para alcançá-la era necessário lutar de armas na mão, e só se chegava ao santuário pisando sobre o cadáver dos irmãos. Hircan, da raça dos macabeus, tornado sumo sacerdote, mas sempre submisso aos sírios, abriu o sepulcro de Daví para procurar um tesouro, que o exagerado Joseph dizia ser de três mil talentos. Quando se construiu o templo, sob Neemias, é que foi procurado o precioso tesouro. Este Hircan obteve de Antiócus Sideto o direito de fabricar moedas; mas como nunca as houve judias, é de supor-se que o tesouro do túmulo de Daví não fosse considerável.

O grande sacerdote Hircan era saduceu e não acreditava na imortalidade da alma, nem nos anjos, ponto de desentendimento entre fariseus e saduseus. Conspiraram aqueles contra Hircan e o quiseram condenar à prisão e ao açoite. Hircan vingou-se deles e governou despoticamente. Seu filho Aristóbulo ousou fazer-se rei durante os distúrbios da Síria e do Egito; foi este um tirano mais cruel que todos os outros que haviam oprimido o povo judeu. Aristóbulo que orava no templo, não comia carne de porco, matou de fome sua mãe, e fez degolar Antígono, seu irmão. Teve como sucessor João ou Joanés, tão perverso quanto ele. Assim, os judeus foram sempre submissos e escravos. Sabemos como eles se revoltaram contra os romanos e como Tito, e em seguida Adriano, os venderam no mercado pelo preço do animal que eles não queriam comer. Tiveram uma sorte mais infeliz, ainda, sob o império de Trajano e Adriano. Houve no tempo de Trajano um tremor de terra, que tragou as mais belas cidades da Síria.

Convenceram-se os judeus de que isto era um sinal evidente da cólera divina contra os romanos. Reuniram-se e se armaram na África e em Chipre e deram um sinal tão grande de ferocidade contra os inimigos que, por castigo, seus vencedores, a todos supliciaram. Os que restaram continuaram possuidos da mesma cólera contra Adriano, quando Barchochebas, dizendo-se o Messias, se pôs à sua vanguarda. Este fanatismo foi abafado em torrentes de sangue. Paremos por aqui. Em matéria de sofrimento não há povo no mundo que ultrapasse o judeu. Como, pois, chamar-se a estes infelizes, sempre submissos escravos, o "povo eleito"? Eleito de Deus, por que, para que? Eleito, talvez para as desilusões da vida, para esperar de seus profetas, profecias que nunca se cumpriram, e graças de Deus que tudo lhes havia prometido e que os havia provado e guiado e que os atirou a braços com todas as agruras de uma vida povoada das mais negras misérias, das mais terríveis lutas e plena das mais atrozes decepções. Isto que acabamos de citar, refere-se a um tempo que já vai bem distante.

Nos dias recentes de nossa vida, vemos esse povo, outrora ignorante e hoje orgulho da humanidade, distinguindo-se em todos os setores de nossa atividade, porém continuando perseguidos, injustiçados. Será este título orgulhoso de "povo eleito", o motivo de tão grande maldição? Ou estará reservado ao povo judeu que na expressão de um grande, é o fermento da humanidade, um desses papéis relevantes que será capaz de elevar o mundo a uma altura onde ele ainda não conseguiu atingir? Isto só Deus o sabe. Não toquemos em Moisés senão para falar em sua família originalíssima. Seu irmão Arão, com a idade de cem anos, adora o bezerro de ouro; seu filho se torna esmoler dos ídolos, por dinheiro, prova evidente de que neste tempo não era definitiva ainda a religião dos judeus, o que só foi possível no tempo de Esdras, quando este pôs em ordem o livro encontrado (!) por ilquias, no reinado de Josias. Não toquemos em Moisés senão para falar em sua família originalíssima.

Seu irmão Arão, com a idade de cem anos, adora o bezerro de ouro; seu filho se torna esmoler dos ídolos, por dinheiro, prova evidente de que neste tempo não era definitiva ainda a religião dos judeus, o que só foi possível no tempo de Esdras, quando este pôs em ordem o livro encontrado (!) por Hilquias no reinado de Josias. A generosidade deste povo guiado por Deus era extraordinária. Vemos a filha de Jephté imolada ao Senhor por seu pai; maravilhosa ação de graças. Vemos Abimeleque, filho de Gedeão com uma vagabunda, esmagar sobre uma mesma pedra, as cabeças de seus setenta irmãos. Era um mau parente, este filho de Gedeão, e Gedeão, por sua vez, amigo de Deus, era bem um deslavado.

Razão forte tinha Samuel quando pretendia a abolição dos pequenos reis, certo de que todos eles eram assassinos, a começar por Davi, que assassinou Mefiboseth, filho de Jônatas, seu grande e terno amigo "que ele amava com um amor maior que o das mulheres"; que assassinou Urias, marido de sua Bethsabé; que assassinou até as crianças de peito nos vilarejos aliados de seu protetor Achis; que ordena, morrendo, que assassinem seu general Joabe e seu conselheiro Semei. Vemos Salomão assassinar seu irmão Adonias e terminemos com Herodes, o Grande, que assassina seu cunhado, sua esposa, todos os seus parentes, não poupando seus próprios filhos. Não falemos nas quatorze mil crianças que este facínora mandou degolar na cidade de Belém (!). E aquela lei proibindo as mulheres de terem relações com bodes e os homens com as cabras! Quanta desgraça! Há quem negue que entre o povo judeu houvesse este pecado contra a natureza. Mas, se a lei foi feita, é lógico que o abuso existia. Ninguém legisla sem necessidade.

Encontramos, ainda, na história deste povo eleito, o sacrifício de seres humanos, oferecidos em holocausto ao Senhor e crianças imoladas, pelo mesmo motivo, por suas mães. É Isaías que diz: "lmolais vossos filhos aos deuses, nas torrentes, sobre as pedras" (Isaías L VII,5 ). Naturalmente dirão que não era ao deus Adonai que as mães sacrificavam seus filhos. Fosse Melkom ou Sadai, ou Baal, ou outro deus qualquer, o que importa é que o crime era sempre monstruoso. Não se pode negar, também, a qualidade de idólatras aos judeus, uma vez que adoravam deuses estrangeiros. Terminemos este capítulo com uma carta de São Jerônimo a Dardanus, escrita no ano 414, sobre a terra prometida, a maior chantagem de Jeová ao povo judeu: Peço aos que pretendem que o povo judeu, depois de sua saida do Egito, tomou posse da "terra prometida", que se tornou para nós, pela paixão e ressurreição do Salvador, uma terra verdadeira de promessas, de fazer-nos ver que este povo em realidade a possuiu. Todo o seu domínio vai do Dan a Barnabé, isto é, num comprimento de cento e sessenta milhas.

A Escritura Sagrada não dá mais a Daví e a Salomão... Tenho vergonha de dizer qual é a largura da terra prometida, e sinto-a tão ridícula que temo que os pagãos se aproveitem da oportunidade para blasfemar. Não se conta mais de quarenta e seis milhas de Joppe ao nosso pequeno burgo de Belém,

depois disto, é horrendo deserto. [ ] Este mesmo santo, em carta a um de seus devotos, descreve bem a "terra prometida". Não há aqui senão calhaus e nenhuma água para beber desde Jerusalém a Belém. Neste país eriçado de montanhas peladas, há, apenas, bons vales, em direção ao Jordão. Seria verdadeiramente um país de leite e mél, como dizeis, se o comprardes ao abominável deserto de Horeb e de Sinai. E aqui encerramos com tristeza, este capítulo, síntese da história de um povo que a Escritura Sagrada chama de "eleito de Deus", numa propaganda nefasta e injusta ao Deus verdadeiro, cujas leis elegem, apenas, aqueles que, na realidade, fizeram por merecê-lo. Se Deus houvesse, em verdade, prometido alguma coisa ao povo judeu, seria pelo merecimento deste povo, e a sua promessa teria sido cumprida na sua absoluta integralidade.

Um teólogo em maus lençóis Trata-se do licenciado Domênico Zapata, nomeado professor de Teologia na Universidade de Salamanca. Este ilustre Frei, de saudosa memória, não podendo conciliar o seu raciocínio esclarecido com aquilo que lhe parecia pouco claro no Velho Testamento, pede aos doutores daquela Universidade que o tire do embaraço, ministrandolhe ensinamentos a respeito de suas inúmeras dúvidas. E assim, faz a esses extraordinários interpretadores das coisas sagradas, várias perguntas que, ao que conta a História, ficaram sem resposta. Se algum teólogo moderno, naturalmente, mais profundo que os seus antepassados, sentir-se capaz de resolver as questões apresentadas por Zapata, nós o encarecemos que o faça, pois, debalde o tentamos dentro de nossos minguados conhecimentos teológicos. Este interrogatório do curioso frei, escrito em 1629, foi extraviado ou desaparecido, mas, ainda se encontra um exemplar espanhol na biblioteca de Brunswick.

Sábios mestres, o que devo fazer para provar que os judeus, que fizemos queimar às centenas, foram, durante quatro mil anos, o povo eleito de Deus? Por que Deus a quem não podemos, sob pena de blasfêmia, olhar como injusto, pôde abandonar a Terra inteira pela pequena horda judia, e em seguida abandonar sua pequena horda por uma outra, que foi durante duzentos anos muito menor e mais desprezada? Por que praticou ele uma infinidade de milagres incompreensíveis, em favor desta mesquinha nação, antes dos tempos chamados históricos? Por que não os pratica mais depois de séculos? E por que não os vemos nunca, nós que somos o povo de Deus?

Se Deus é o Deus de Abraão, por que queimais os filhos de Abraão? E se os queimais, por que recitais suas preces, na ocasião de queimá-los? Como, vós que admitis o livro da Lei, os matais porque eles obedecem a estas leis? Como conciliarei eu a cronologia dos chineses, dos caldeus, dos fenícios, dos egípcios, com a dos judeus? e como me ajustarei eu entre as quarenta maneiras diferentes de calcular os tempos dos comentadores? Eu direi que Deus ditou estes livros; e responderão que Deus não conhece Cronologia.

Com quais argumentos provarei que os livros atribuidos a Moisés foram escritos por ele no deserto? Poderei afirmar que ele os escreveu para lá do Jordão, quando ele nunca atravessou o Jordão? Responderão que Deus não conhece Geografia. O livro intitulado "Josué" diz (VIII, 32) que ele fez o Deteuronômio sobre pedras rebocadas de argamassa; esta passagem e a dos antigos autores provam evidentemente que, no tempo de Moisés e de Josué, os povos orientais gravavam sobre a pedra suas leis e suas observações. O Pentateuco nos diz que o povo judeu se ressentia no deserto da falta de alimentos e de roupas; é pouco provável que tivessem homens hábeis para gravar um livro volumoso, quando lhes faltava alfaiates e sapateiros.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.