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Capítulo 6 de 57

Parte 5 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

o Céu e a Terra" [ ]. De outro modo, esta lição está conforme com a antiga idéia dos fenícios, que tinham imaginado haver Deus empregado deuses inferiores para desenredar o caos. Os fenícios eram, há muito, um povo poderoso; possuiam sua Teogonia muito antes que os hebreus se apropriassem de qualquer porção de seu país. É, pois, natural pensar que quando estes tiveram, enfim, um pequeno contato com a Fenícia, começaram a aprender a língua e assim, os escritores puderam tomar de empréstimo à antiga Física de seus mestres; é a marcha do espírito humano. No tempo em que se coloca Moisés, saberiam o bastante os filósofos fenícios para olhar a Terra como um ponto, em comparação com o infinito de globos que Deus espalhou na imensidade do espaço, que se chama Céu? Esta idéia tão antiga e tão falsa de que o Céu foi feito para a Terra, sempre prevaleceu entre os povos ignorantes. É como se disséssemos que havendo Deus criado as montanhas e um grão de areia, fizesse aquelas para este.

Não é tão pouco possível que os fenícios, tão bons navegadores, não tivessem bons astrônomos; mas prevaleciam os velhos preconceitos e estes devem ter sido manejados pelo autor do Gênesis, que escrevia para ensinar os caminhos de Deus e não os caminhos da Física. A Igreja romana, apesar do grande progresso da Física, da Química e da Astronomia, ainda ensina, como verdades, aqueles dois versículos da Bíblia. Não ignorando qual a composição da água, insiste em afirmar nas escolas que a Terra foi tirada desse elemento. Para os espíritos desprevenidos é bom que recapitulemos uma velha lição recebida em nossos tempos de infância. A água é uma substânca líquida, incolor e inodora, composta de hidrogênio e oxigênio. Estes dois gases, bem como os seus congêneres, tiram a sua origem da incandescência, seja primitiva, seja atual do interior de nosso globo. Assim, não podia Moisés ter tirado a Terra das águas.

E o que mais nos choca, é que, segundo consta, o velho patriarca se diz, apenas, intermediário desses ensinamentos, que lhe foram ministrados pelo próprio Deus. Provado, com toda a simplicidade, que isto é um fato inteiramente falso, a dar crédito a Moisés, ou aos autores do Gênesis, Deus se enganou. Como, porém, o Criador não pode estar sujeito a enganos, conclua-se que tudo isto é, apenas, uma história forjada, ou melhor, um plágio da gênesis dos toscanos, povo que viveu muitos séculos antes e que se estabeleceu do Arnus ao Tibre. Perdoem-nos aqueles de nossos leitores convictos, até o momento, das ilusórias verdades bíblicas, o estarmos contribuindo para a derrubada de seus sonhos, das fantasias que os vêm embalando desde o berço. Somos obrigado a isto por um imperativa da Ciência e da História. Engrandecer a Ciência é louvar a Deus. Sacrificar a verdade em detrimento de lendas é tentar diminui-lO.

Assim, vemo-nos forçado a desfazer sonhos multiseculares, provando que Moisés nada fez de original e que tudo o que consta da Bíblia foi bebido sofregamente em religiões mais antigas do que a fundada pelo chefe judeu. Em Suidas, no artigo Thyrrenia, se pode verificar que os seis dias da criação de que trata a gênesis bíblica, foram copiados quase que inteiramente da cosmogonia dos toscanos, como afirmamos acima: Encontraremos desta forma nesta cosmogonia: No 1° mil Ele fez o Céu e a Terra; No 2° mil Ele fez o firmamento a que chamou Céu; No 3° mil Ele fez o mar e as águas que correm na Terra; No 4° mil Ele fez os dois grandes fachos da natureza; No 5° mil Ele fez a alma dos pássaros, dos répteis, dos quadrúpedes, dos animais que vivem no ar, sobre a terra e o mar; No 6° mil Ele fez o homem.

Comparemos o que se encontra acima, com o que vamos ver na gênesis de Moisés: No 1° dia Deus criou o Céu e a Terra; No 2° dia Deus fez o firmamento a que chamou Céu; No 3° dia Deus juntou as águas e fez o mar; No 4° dia Deus fez os corpos luminosos que estão no Céu, e os dois grandes fachos que presidem o dia e a noite; No 5° dia Deus fez os répteis, os pássaros, os peixes e todos os animais que têm vida e se movem; No 6° dia Deus fez o homem. Que os leitores confrontem as duas gênesis e nos digam se é possível emprestar a Moisés o que já existia há muitos séculos atrás. O que não vacilamos em afirmar, entretanto, é que os autores do Gênesis, pronfundamente versados em religiões, conhecedores da Ciência e da Filosofia de seu tempo, nada mais fizeram do que transplantarem para a religião judaica, verdadeira colcha de retalhos das concepções de suas ancestrais, as principais lendas nelas existentes.

Não nos causa admiração que a criação bíblica tenha sido inspirada em religiões mais antigas e que todas elas fossem beber na lndia a origem de tudo o que a este respeito existe. O que nos surpreende e com o que não nos podemos conformar é com o fato de quererem impingir-nos como verdades, coisas que a Ciência há muito destruiu completamente. Kardec, como dissemos no início desta obra, encontra alegorias na Bíblia e as explica com lógica. Não deixa, porém, de reconhecer o infinito de senões existentes no Velho Testamento. Diz ele que a Bíblia contém fatos que a razão desenvolvida pela Ciência, não pode aceitar. Outros repugnam, por se ligarem a costumes que não são mais de nossos dias. A alegoria, diz o mestre, tem nela parte considerável e, sob esse véu, oculta verdades sublimes, que ressurgem quando se procura o fundo do pensamento: Por que razão não se levantou esse véu mais cedo?

Porque de um lado havia deficiência de luzes, que só a Ciência e uma perfeita Filosofia, podiam trazer, e de outro modo, o princípio da imutabilidade absoluta da fé, conseqüência de um respeito demasiado cego pela letra, sob a qual a razão se inclinava e, por conseguinte temia comprometer a base de crenças estabelecidas no sentido literal. Partindo essas crenças de um ponto primitivo, temia-se que, se o primeiro anel da cadeia viesse a quebrar-se, todas as malhas da rede se romperiam, motivo pelo qual se fecharam os olhos sobre o perigo. Mas fechar os olhos sobre este não é evitá-lo. Quando um edifício cede na sua construção, não é mais prudente substituir logo os materiais em mau estado por outros bons, do que, por consideração à velhice do edifício, esperar que o mal fique sem remédio e que mais tarde seja preciso reconstruí-lo todo de novo?

A Ciência, levando suas investigações desde as entranhas da Terra, até as profundezas do Céu, demonstrou, portanto, inquestionavelmente os erros da gênesis mosaica, tomada ao pé da letra, e a impossibilidade material de que as coisas se passassem do modo pelo qual estão aí textualmente narradas, dando por essa forma, profundo golpe em todas as crenças seculares. A fé ortodoxa ficou combalida, julgando ver arrebatada a sua pedra fundamental. Mas, quem devia ter razão: a Ciência marchando prudente e progressivamente sobre o terreno sólido dos algarismos e da observação, sem nada afirmar, antes de ter a prova a seu alcance, ou uma exposição escrita em uma época em que faltavam absolutamente os meios de observação? Quem vencerá finalmente: aquele que diz que dois e dois são cinco, e recusa verificar ou aquele que diz que dois e dois são

quatro, e fornece a prova? [ ] Diz, ainda, o codificador da doutrina dos Espíritos que, incontestavelmente, Deus, que é a pura verdade, não podia conduzir os homens ao erro, consciente, nem inconscientemente; do contrário, não seria Deus. Se, portanto, os fatos contradizem as palavras atribuidas a Ele, é preciso concluir logicamente que Deus não as pronunciou ou que foram tomadas em sentido contrário. Se a religião está em algumas de suas partes em contradição com a Ciência, a culpa não é desta última, que não pode negar o que existe; mas dos homens, por terem prematuramente fundamentado dogmas absolutos, fazendo deles questão de vida e morte, sobre hipóteses suscetíveis de serem desmentidas pela experiência. Será sensato, pergunta o mestre, por consideração aos textos recebidos como sagrados, impor silencio à Ciência? Lançar o anátema sobre o progresso como atentatório à Religião é lançá-lo igualmente sobre a obra de Deus, além do que é trabalho inútil, porque todos os anátemas do mundo não impedirão a Ciência de marchar e de se tornar patente a verdade.

Se a Religião recusa caminhar com a Ciência, a Ciência seguirá sozinha. A Terra era tohu bohu e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia (planava) sobre a face das águas. "Tohu bohu" significa precisamente caos, desordem; é uma dessas palavras imitativas que se encontram em todas as línguas; é o que nos dizem Voltaire e Léo Taxil. A Terra não estava ainda formada tal qual é: a matéria existia, mas o poder divino não a havia ainda organizado. O Espírito de Deus significa, ao pé da letra, "o sopro, o vento", que agitava as águas. Esta idéia, diz, ainda o escritor francês, está expressa

nos fragmentos do autor fenício Sanchoniathon. [ ] Os fenícios acreditavam, com os demais povos, na matéria eterna. Não há um só autor da antiguidade que haja dito que se pudesse tirar alguma coisa do nada. Não se encontra mesmo em toda a Bíblia, nenhuma passagem que afirme que a matéria tenha sido feita do nada. Os homens estiveram sempre divididos quanto à questão da eternidade do mundo, mas nunca quanto à eternidade da matéria. (Gigni) De nihilo nihilum, innihilum nil posse reverti. (Pers., Sat. III,83). Eis como pensava toda a antiguidade.

Deus cria a luz e a separa das trevas Deus disse: haja luz. E houve luz E viu Deus que era boa a luz, e fez Deus separação entre a luz e as trevas. (Gên. 1, 3 e 4)

Não podemos atinar como é possível separar a luz das trevas. Haverá no mundo trabalho mais difícil? Quem ignora, hoje, que a luz nos vem do Sol e que o Sol é o foco imenso e único de onde ela se irradia? O Sol, no entanto, foi criado somente no quarto dia. A despeito, ainda, de todas as leis de atração e de gravitação, fez o Criador em primeiro lugar a Terra que é um simples satélite do astro rei. Sendo o nosso globo sujeito a ele em seu movimento de translação, a sua formação deveria ter sido posterior. Esse erro se originou da idéia falsa que se fazia da criação do Universo. Para os antigos era o nosso insignificante planeta o centro do mundo. A Ciência hoje nos revela que antes do nosso Sol e da nossa Terra, bilhões de sóis e de terras rolavam pelo infinito dos Céus. Os teólogos tentaram salvar os seis dias da criação, procurando interpretá-los como períodos geológicos.

Há mais de um século atrás, porém, já se sabia que eram arbitrários os seis períodos geológicos atribuidos à gênesis bíblica, uma vez que nesta época se contavam mais de vinte e cinco formações caracterizadas. A dúvida desaparece com a clareza dos textos bíblicos: Deus chamou à luz, “dia”, e às trevas, “noite”. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro. (Gên. I, 14 e 15) Isto só se pode aplicar ao dia de 24 horas. Mais claro se torna, ainda, o sentido, nos seguintes versículos: E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia. e o luminar menor para govenar a noite; e fez as estrelas. E Deus os pôs na expansão dos Céus para iluminar a Terra. (Gên. I, 16 e 17) O Deus de Moisés, ao que tudo indica, não era muito versado em Astronomia, do contrário, teria sabido que a Lua não possui luz própria e que apenas irradia aquela que recebe do Sol.

Como é, pois, que o Patriarca se arranjou nos três primeiros dias da criação, considerando que o Sol só foi feito no quarto? Depois, chamar os sóis gigantescos de simples luminares, é provar muito ignorância em matéria de Ciência. Não podemos exigir dos autores do Gênesis, os conhecimentos físicos e químicos que hoje possuímos, mas os católicos, cuja moral religiosa não entra absolutamente em debate, erram grandemente, pretendendo fazer-nos crer como provindas de Deus todas essas heresias científicas. Voltaire, pouco simpatizado pelo clero, porque nunca aceitasse as suas puerilidades teológicas, diz: Si Dieu avait d'abord répandu la lumière dans les airs pour être ensuite poussée par le soleil, et pour éclairer le monde, elle ne pouvait être poussée, ni éc: lairer, ni être separée des tenebres, ni faira un jour du soir au matin, avant que le soleil existât;

cette theorie est contraire à toute physique et a toute raison. [ ] Se Deus tivesse a princípio espalhado a luz nos ares, para ser em seguida jorrada pelo Sol, a fim de iluminar o mundo, não poderia essa mesma luz ser projetada, nem iluminar, sem ser separada das trevas, nem fazer um dia da tarde à manhã, antes que o sol existisse; esta teoria é contrária à física e ao bom senso. Este dogma, de que Deus começou pela criação da luz, está inteiramente conforme a opinião do antigo Zoroastro e dos primeiros persas; eles separaram a luz das trevas. Até aí estiveram de acordo com os hebreus e os persas, mas Zoroastro foi bem mais longe. A luz e as trevas foram inimigas, e Arihman, deus da noite, foi sempre um revoltado contra Oromase, o deus do dia: eis uma alegoria impressionante e de uma filosofia profunda.

Moisés, diz Léo Taxil, profundamente ignorante em Astronomia, se deixou iludir pelo Espírito Santo: pois, a divina pomba sabia, no tempo em que foi escrito o Gênesis, aquilo que Roemer deveria descobrir em 1875. Nota-se, ainda, a nenhuma importância que têm as estrelas na criação bíblica. Os "dois grandes luminares" são o Sol e a Lua; a Lua! Que não é senão um satélite de nosso planeta terrestre! A ignorante gênesis está bem longe de acreditar que a Lua, a Terra e mesmo o Sol significam muito pouco em face do Universo; que nosso brilhante astro rei, astro central do mundo que habitamos, é uma estrela modesta, uma das inúmeras que compõem a via-láctea. a autor sagrado não vê que a Terra, ínfimo planeta, em realidade, gira em torno de uma estrela de sétima grandeza; e esta estrela-sol, o pobre narrador a faz depender, astronomicamente, de seu planeta. Moisés, o pobre Moisés, ele mesmo ficaria pasmo, se, com o consentimento de Deus, viesse hoje ao mundo e se pusesse a estudar em qualquer dos seus potentes observatórios.

Como não ficaria estarrecido ante as maravilhas celestes e com as dimensões e volumes das estrelas!. Iria o grande legislador saber que o nosso sol é 1.300.000 vezes maior do que a Terra e que Sirius ultrapassa o sol doze vezes em grandeza e Procion, seis vezes; que Deneb, do Cisne, a segunda estrela da Grande Ursa; Vega, o belo sol azul da Lira; Pollux, dos Gêmeos, são também estrelas majestosas, faróis gigantescos disseminados na noite sideral e perto dos quais o nosso sol faria efeito de simples ponto luminoso. Ficaria tonto quando soubesse que Capela ou a Cabra, astro enorme, é 5.800 vezes maior que o nosso sol; que Arcturus, apesar de sua incrível distância, luz ainda com um brilho que eclipsa todos os astros de nosso céu boreal; e enfim, Bételguese, da constelação de Orion. A própria imaginação de Moisés não acharia palavras para exprimir essa visão assombrosa.

As duas estrelas Arcturus e Bételguese, vale cada uma, muitos milhares de sóis. como o nosso; entre elas e o nosso astro do dia há quase a mesma proporção que entre o nosso Sol e a Terra. E, entretanto a nossa Astronomia achou uma estrela que a eclipsa. Para percebê-la é preciso ganhar as regiões astrais onde ela brilha na constelação do Navio: é Canopus, a mais poderosa estrela conhecida até hoje, porque é igual a 8.760 sóis reunidos. O astrônomo inglês Walkai, membro da Sociedade Real Astronômica de Londres, entre todos os astros examinados ao telescópio e de que se tem ensaiado medir a distância, a luz, o calor, acaba de estudar Canopus.

A sua distância da Terra seria de 489 anos luz, isto é, o raio luminoso que nos chega hoje dessa estrela deve ter partido no ano 1426. Este astro formidável não é, entretanto, o pivot em torno do qual evolui nosso Sol; é em torno de Alcione, estrela da constelação das Plêiades, que nosso sistema solar preenche em vinte e dois e meio milhões de anos, uma de suas grandes revoluções, e, um raio de luz de Alcione deve viajar durante 715 anos antes de poder atingir a nossa Terra. Há estrelas cuja luz só nos chega depois de 5.500 anos. O grupo de Plêiades compõe-se de um milhar de estrelas, de que somente sete são visíveis a olho nu. Tudo isso Moisés aprenderia e muito mais ainda, e iria, com certeza, entristecer, por haver impingido à humanidade, como havendo partido de Deus os seus velhos ensinamentos tão distanciados da verdade. Não é possível, por mais cega que pretenda ser uma fé, dar guarida a uma gênesis que a Ciência rejeita completamente.

Como é possível às vezes, perguntamos, que homens eminentes, homens cuja cultura não pode ser posta em dúvida, aceitem sem qualquer exame essas frivolidades bíblicas? Será que não estamos racionando bem? Será que a Ciência é uma mentira? Não pode ser a Ciência é a maior revelação divina aos homens. A. Kardec, falando sobre o assunto, isto é, sobre a criação da luz diz: 0 erro vem da falsa idéia em que se permaneceu por muito tempo de que todo o Universo começou com a Terra, e não se compreender que o Sol pudesse ter sido criado depois da luz. A assertiva de Moisés é, pois, falsa nesta parte. Sabe-se hoje Que antes do Sol e da nossa terra, existiam milhares de sóis e de terras, que gozavam, por conseguinte, da luz. A assertiva de Moisés é, pois, perfeitamente exata como princfpio, mas é falsa na parte em que se supõe a Terra criada antes do Sol. Estando a Terra vassalada ao Sol em seu movimento de translação, não podia ser formada senão depois dele. É o que Moisés não podia saber, pois que ignorava

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