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Capítulo 11 de 57

Parte 10 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

importa seis semanas de mais ou de menos? [ ] Qual mal pôde fazer uma criança que, apenas, acaba de nascer? Como pôde ela prevaricar? Como pode uma criancinha que nada fez, sofrer as conseqüências da maldição de nossos "primeiros pais"? Eram estas as interogações de Clemente de Alexandria, este homem sábio da antiguidade. Observai bem que ele pronunciava estas palavras não para combater a opinião rigorosa do pecado original que não se tinha ainda desenvolvido, mas somente para mostrar que as paixões, que podem corromper todos os homens, não podem ter, ainda, atingido uma criança. Ele não afirmou: “esta criatura de um dia não será condenada se morrer hoje"; pois ninguém tinha sequer imaginado que ela seria condenada. São Clemente não podia, assim, combater um sistema desconhecido. O pensamento de Orígenes, quanto ao pecado original, não consistia senão na infelicidade de poder o homem tornar-se semelhante a Adão, pecando como ele.

Convenhamos que o batismo fosse uma necessidade, aceitemo-lo, para argumentar que ele fosse o selo do Cristianismo, mas ninguém havia dito ainda que ele apagasse ou lavasse os pecados ainda não cometidos; ninguém, inicialmente, seria capaz de afirmar que uma criaturinha inocente, morta um minuto após o nascimento, fosse condenada às chamas eternas. Tertuliano, segundo reza a História só queria ser batizado no momento da morte; e o foi por um bispo ariano. Ele participava da crença antiga de que se o homem fosse batizado e não cometesse depois nenhum pecado, teria direito à bem-aventurança. Foi nesta época e por esta razão que começaram a batizar as crianças. Há mais ainda. Jesus nunca disse: "A criança não batizada será condenada". Ele veio ao mundo, segundo a crença católica, para expiar todos os pecados, para resgatar o gênero humano; logo as crianças não podiam ser condenadas. E se o sacrifício de Cristo Deus, no conceito católico, era infinito, por que então o batismo para complemento?

O batismo vem assim, dar uma demonstração de que o sacrifício de Jesus por si só, não é o bastante para resgate do gênero humano, nem mesmo das crianças que nunca pecaram. Eis a lógica. Jesus foi batizado, mas a ninguém batizou. Paulo circuncidou Timóteo, seu discípulo, mas não disse que o havia batizado. No Gênesis C. I, 26, 27, 28, Deus criou o homem e a mulher no sexto dia, abençoou-os e deu-lhes a terra para trabalhar e lhes disse: "crescei e multiplicai-vos". Assim sendo, nessa ordem, Ele admitiu o ato da procriação como indispensável à multiplicação da espécie, não podendo, portanto, esse ato constituir um crime.

Segundo Leterre em "Jesus e sua Doutrina", e segundo, ainda, Voltaire, em seu "Dictionnaire Philosophique", t. 14, ed. 1860, pg. 259 - Pelágio e seus discípulos diziam que: Se todos os homens nascessem da cólera eterna daquele que lhes deu a vida; se antes de pensarem, eles já são culpados, é, pois, um crime hediondo permitir-lhes vir ao mundo; o casamento seria o mais horrível delito e, neste caso, o casamento não passaria do mau princípio dos maniqueanos. Isto não seria mais adorar a Deus, mas ao Diabo. Pelágio e os seus debatiam esta doutrina na África, onde Agostinho gozava de imenso prestígio. Ele antes tinha sido maniqueano; abandonando estas fileiras, viu-se na obrigação de combater Pelágio.

Não podendo este resistir a Agostinho, nem a Jerônimo; e enfim de discussão em discussão, a disputa já se ia prolongando demais, quando Agostinho deu o caso por terminado, impondo ao catolicismo a crença de que as crianças nascidas e por nascer no Universo se encontravam em estado de condenação, nestes termos: A fé católica ensina que todos os homens nascem tão culpados, que mesmo as crianças são condenadas quando morrem antes de se regenerarem em Jesus. Foi num concílio de bispos na África, segundo Leterre, que o tema do pecado original ficou resolvido, e foi Cipriano, bispo de Cartago, discípulo de Tertuliano, que propalou até o IVº século, quando se deu a polêmica entre Agostinho e Pelágio, por escrito, escritos estes que foram destruidos posteriormente pelo clero romano, como tantos outros, se bem que os concílios de Dióspolis e de Jerusalém, em 415, reconhecessem que Pelágio tinha razão.

O concílio de Milano, também, foi a seu favor, mas os bispos de África, estimulados por Agostinho, pediram ao Papa que condenasse aqueles dois concílios, bem como o próprio Pelágio. Inocêncio I interrogou Pelágio e recusou condená-lo, bem como os concílios, que o absolveram. Inocêncio I morreu logo após, e os bispos africanos voltaram à carga, junto ao Papa Zózimo. Este interrogou Pelágio e confirmou a recusa de Inocêncio. Agostinho, no dizer de Leterre, estourou de raiva e forçou este Papa a interrogar novamente Pelágio e seus adeptos. Foi aí que o dogma do pecado original começou a tomar foros e a tornar-se, por assim dizer, o pedestal do Catolicismo. Camille Crewell, um dos dezesseis apologistas, colaboradores de "Christus", de autoria de Joseph Huby, a pg. 11, dá a tradução da prece que o padre da primitiva religião Nahuatl, do México, há milhares de anos, recitava perante os fiéis: Ele não pecou livremente, pois agiu sob a influência do astro que se prende ao seu nascimento.

É mais uma prova dos conhecimentos astrológicos de povos antiquíssimos e do desconhecimento do pecado de Adão. * * * A religião católica declara que as crianças mortas com pouca idade vão para o Céu, se receberem o sacramento do batismo. Mas julgar assim é fazê-lo arbitrariamente. Quem será capaz de assegurar com toda a certeza sobre a conduta que estas crianças teriam se suas existências tivessem seguido o seu curso normal? Deus, dando felicidade eterna a uma alma, por alguns minutos passados na Terra, durante os quais ela não pôde fazer nem o bem nem o mal, seria profundamente injusto. Ele seria injusto para o resto dos homens, aos quais imporia toda a sorte de penosas provações, concedendo de outro lado a felicidade eterna, a quem, pela exigüidade do tempo passado entre nós, não sofreu e nem sequer imaginou as agruras da vida. Para gozar-se a felicidade suprema é preciso fazer jús a ela. Louis Figuier diz que não se pode explicar esta decisão da Igreja, a menos que se queira supor que Deus é injusto e parcial.

Criar uma alma por uma existência de dez minutos, e conceder-lhe depois a eternidade das recompensas, eis o que Deus não saberia fazer na sua infinita eqüidade. Isto que acabamos de apresentar, se refere, apenas, às crianças mortas depois de haverem recebido o sacramento do batismo. E aos olhos desta mesma Igreja, o que se tornarão as crianças mortas sem ele? Alguns teólogos ferozes que escreveram antes de Agostinho, diz Figuier em "Le lendemain de la Mort", não hesitaram em condenálas às chamas eternas. Entretanto, suas opiniões não prevaleceram, e a doutrina de Agostinho, que felizmente evolveu, tornou-se lei. A Igreja envia as crianças mortas para um purgatório especial que denomina limbo. É morada intermediária entre o Céu e o Inferno, onde, segundo se afirma, não se sofre, nem se goza e onde estão privadas da contemplação de Deus. As crianças, porém, que morreram sem o sacramento do batismo são muito numerosas em face da população de nosso globo.

A religião católica é professada por muito menos de um décimo da população da Terra e nem todos os católicos se apressam em batizar seus filhos. De outro modo, muitas crianças morrem de acidentes. Será que Deus, na sua infinita bondade, será capaz de atirar a alma desses que sem culpa e sem a ação da vontade, deixaram de receber o aludido sacramento, que não podem responder pela indiferença dos pais, que foram acidentadas, sem que pudessem disso se aperceber, em uma espécie de aniquilamento, que não é outra coisa o tal limbo criado pela imaginação dos teólogos interesseiros? Isto não é tudo. A instituição do batismo é relativamente recente. Nos dois primeiros séculos não se usava batizar as crianças; uma vez que não constituia crença, esta hoje em moda, de que as crianças pagam pelo pecado de Adão. Antes do Catolicismo, todas as crianças eram naturalmente privadas desta cerimônia sacramental, o que significa que todas elas, na concepção católica romana, estão no limbo.

A humanidade é bem antiga, ela é mesmo mais velha do que pensam os teólogos. Segundo a Vulgata, tem o mundo mais ou menos seis mil anos e segundo os Setenta, mais ou menos sete mil. Ora, a Ciência afirma que em vez de seis ou sete mil anos da teologia católica, o mundo conta com algumas centenas de milhões de anos de existência. Assim, as crianças, durante centenas de milhares de anos, isto é, depois que surgiu na Terra o primeiro casal humano, têm sido condenadas a residir no limbo, pois, não faz muito mais de mil e quinhentos anos que um pequeno número de crianças têm sido batizadas para merecer a graça de entrar no Paraíso. Agora, quando pensamos que aquelas que não foram batizadas, nada fizeram para merecer esta sorte, pois, o batismo não havia, ainda, sido instituído, ficamos duvidando da sinceridade de propósitos que presidiu à instituição de sacramento tão original. Santo Agostinho que condenou as almas argumenta que elas se encontram neste estado porque estando elas ligadas à de Adão, é provável que todas sejam cúmplices.

Mas como a Igreja decidiu que as almas não são feitas senão quando o corpo está iniciado, este sistema caiu, malgrado o nome de seu autor. Outros dizem que o pecado original se transmitia de alma para alma por via de emanação, e que uma alma vinda de outra chegava neste mundo com toda a corrupção da alma mater. Esta opinião, também, não foi aceita. O fato que mais intriga é que sendo nossas almas feitas há tão pouco tempo, como podem elas, mesmo, dentro da lógica do clero católico, responder pelo erro de uma outra alma que viveu há tantos milhares de anos? Não dizem os senhores clérigos que a vida é uma única? Como conciliar, pois, as responsabilidades que atiram sobre os nossos ombros, com o horrendo crime de nossos "primeiros pais”, esses gulosos impenintentes? Uma vez que já conhecemos o pensamento católico naquilo que conceme ao batismo, à salvação dos entes que apenas desabrocharam na Terra para morrerem em seguida, examinemos o nosso ponto de vista espírita, isto é, da pluralidade das existências.

A alma de uma criança de alguns meses, ainda se encontra em estado rudimentar; ela é mais ou menos a mesma que era no dia do nascimento. Se a criança morre nesta idade, terá que recomeçar sua carreira. Ela terá que experimentar como todas as criaturas humanas, as vicissitudes da vida planetária, até o seu completo aperfeiçoamento. Nesta doutrina não há privilegiados, são tratados de igual forma todas as criaturas de Deus. A explicação que damos dos destinos das crianças é conforme a economia que se observa nas operações da natureza. A natureza quer que nada do que é criado, se perca. A alma de um homem criminoso é má; mas é uma alma, ela existe, ela é eterna; não se deve perder. Somente é necessário que se aperfeiçoe e se corrija. É o que acontece, graças às novas existências para as quais a natureza convoca a alma imperfeita, a fim de fornecer-lhe os meios de se erguer da queda. Assim, o princípio da alma é conservado, e nada fica destruido daquilo que foi criado. A alma da criança morta em tenra idade, também, não pode perecer.

Uma segunda encarnação em outra criança permitir-lhe-á retomar o curso de sua evolução, interrompido acidentalmente pela morte. Assim a alma se conserva e nada ficará perdido. A Química, depois de Lavoisier, iluminou uma grande verdade; é que nada se perde dos elementos da matéria, e os corpos mudam de forma, mas o elemento que compõe o corpo é imperecível, indestrutível e podemos sempre encontrá-lo intato, malgrado as suas mil transformações. Se é verdade que no mundo material nada se perde, é igualmente certo que no mundo espiritual nada se perde também, e que tudo não faz senão se transformar.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.