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Capítulo 7 de 57
Parte 6 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
a lei da gravitação. [ ] A mesma idéia está consignada na gênesis dos antigos persas. No primeiro capítulo do Vendedad, Ormuzd, narrando a origem do mundo, declara: "Criei a luz que foi iluminar o Sol, a Lua e as estrelas". ( Dictionnaire de Mythologie Universelle). A forma aqui é mais clara e mais científica do que em Moisés e dispensa comentários. Argumentando desta forma, poderiamos, com o auxílio de homens eminentes de que nos temos socorrido, marchar indefinidamente sobre este assunto. Mas, não é nosso desejo fatigar o leitor, e sim, provar com lógica, dentro da História e da Ciência, que as concepções mosaicas em matéria de criação do mundo, não podem ser levadas a sério. Vemos, pelas citações de Kardec, cheias de bom senso, que ele repele com todas as forças que Moisés haja recebido diretamente de Deus esses ensinamentos que, ninguém o ignora, a Ciência destruiu de uma vez para sempre. E creiam os que nos lerem que, apesar dos pesares, ainda há no mundo em que vivemos homens de elevada cultura, arraigados, por temor de um inferno criado como fonte de renda, a essas frivolidades bíblicas.
Deus cria a erva e as árvores dos campos Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra. E a terra produziu erva, dando semente conforme a sua espécie, e árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom. (Gên. I, 11 e 12) Não sabemos como isso se possa ter passado, antes da criação do Sol. Segundo o que aprendemos não haveria vida sem a existência de nosso astro rei. Como é, então, que Moisés nos conta que houve ervas e plantas, anteriores à criação do grande foco gerador de luz? E o mais interessante é que, ainda hoje, inteligências privilegiadas aceitam essas coisas como partidas de Deus. Como isso se possa dar não o sabemos. É outro milagre igual ao da gênesis bíblica.
A planta, ninguém o ignora, rouba a energia do Sol para libertar o oxigênio e elaborar seus produtos; vem depositando grandes quantidades de carbono, origem de renovadas combustões, promovendo os grandiosos ciclos entre o animal e o orgânico, enquanto o animal capta, transforma e conduz materiais e energias e com a sua atividade sacode a aparente quietude dos continentes e dos mares. Segundo Morales Macedo, autor da "Biologia Fundamental", 3ª. edição, 1949, uma árvore grande pode mobilizar duzentos litros de água por dia, absorvendo-a pelas raízes e evaporando-a pelas folhas, depois de haver servido de veículo a delicadas operações químicas; e ao mesmo tempo uma só bactéria pode dar uma prole de 16 milhões e produzir grandes transtornos nos seres superiores. Mas isto só se dá, em virtude da energia solar da qual ela se apossa. Um dos pontos mais criticados da gênesis é a criação do Sol depois da luz.
Tem-se procurado explicá-lo segundo os próprios dados fornecidos pela Geologia, dizendo que, nos primeiros tempos de sua formação, a atmosfera terrestre, estando sobrecarregada de vapores densos e opacos, não permitia ver o Sol, que então não existia para a Terra. Esta razão seria, talvez, admissível se nessa época, houvesse habitantes, para julgar da presença ou da ausência do Sol; ora, segundo o próprio Moisés, não havia senão plantas que, contudo, não poderiam crescer e multiplicar-
se sem a ação do calor solar. [ ] Tudo se tem feito para salvar a obra de Moisés ou dos autores do "Pentateuco", mas, o que fica patente, nas entrelinhas da citação de Kardec, é que neste sentido, só se tem marchado para o ridículo. Os teólogos forjam as coisas mais disparatadas, como a duvidar da inteligência alheia e os papalvos vão aceitando o remendo, não porque à inteligência não repugne razões como as expostas, mas, pura e simplesmente, pelo temor de um inferno eterno, como se Deus fosse um pai capaz de condenar eternamente seus filhos. É o Sol a principal fonte de energia para o nosso planeta. Dá-nos luz e calor, produz a mudança da noite em dia e vice-versa; a sucessão, das estações do ano; preside a todos os fenômenos vitais e imprime ritmo à vida.
Sob sua influência se nutrem as plantas, se desenvolvem, frutificam e voltam a germinar; as espécies animais ordenam sua vida em períodos de nascimento, reprodução e morte; o homem conta seu tempo pelo espaço que medeia entre a noite e o dia, entre a vigília e o sono. É ainda o Sol que nos dá energia, para que, dentro da carcassa que aprisionou o nosso espírito, raciocinemos sobre este disparate bíblico de haver Deus criado as ervas e as árvores dos campos, antes que a energia solar vivificasse tudo. Cai, assim, por terra, a interpretação que os doutores da Igreja católica vêm dando aos versículos 11 e 12 do capítulo I do Gênesis. Vamos até "La Bible Amusante" de Léo Taxil, cuja edição no Brasil foi proibida pelo clero, incontestàvelmente poderoso: Impossível ser mais precavido que um Deus. Com efeito, pergunta-se o que seria a Terra, se Deus houvesse plantado árvores frutíferas, portadoras de frutos diferentes dos de sua espécie.
Agradecemos ao paternal Elohim não nos haver dado pés de damascos produzindo laranjas, laranjeiras produzindo maçãs; macieiras produzindo groselhas, etc.; isso seria uma atrapalhação dos demônios! Havendo, porém a Terra obedecida à ordem suprema, os pés de damascos emergidos da terra, produziram damascos e Deus, mais uma vez “viu que era
bom”. E assim foi a tarde e a manhã do terceiro dia. [ ]
Deus separa as águas E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. Fez Deus a expansão, fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão. (Gên. I, 6 e 7) Conforme nos ensina Kardec, Moisés participava, evidentemente, das crenças primitivas sobre a Cosmogonia. Como os homens de seu tempo, ele acreditava na solidez da abobada celeste e em reservatórios superiores para as águas. Essa idéia é expressa sem alegoria, nem ambigüidade nesta passagem (vs. 6 e seguintes): Deus disse: Faça-se o firmamento no meio das águas e separe ele umas águas das outras. Deus fez o firmamento, separou as águas que estalvam em cima do firmamento das que estavam em baixo. Por uma crença antiga, a água era considerada o princípio, o elemento gerador primitivo; Moisés, por isso, também, deixa de falar na criação das águas, como já existentes.
"As trevas cobriam o abismo", isto é, as profundezas do espaço que a imaginação representava vagamente ocupado pelas águas, e nas trevas antes da criação da luz; eis porque Moisés diz: "O Espírito de Deus era levado (ou pairava) sobre as águas". Era, assim, o Céu um vasto zimbório, cuja capacidade estava cheia de ar, aparecendo sob forma côncava; era uma abobada real, cujas bordas descansavam sobre a Terra, marcando-lhes os limites. As estrelas de cuja natureza não podia suspeitar eram pontos brilhantes, todas a igual distância da Terra, dispostas em uma só superfície e suspensas na abóbada como lâmpadas. Não concebiam a formação das nuvens pela evaporação das águas: não lhes passava absolutamente pela idéia, que a chuva que caia do céu tivesse origem na terra, pois não a viam subir. Daí a crença no grande reservatório superior e nas águas inferiores que estavam habituados a ver. As águas de cima, escapando-se pelas frestas da abóbada, caíam em forma de chuva de chuva e conforme o tamanho dessas frestas, eram fracas, fortes ou fortíssimas.
Da escuridão em que se encontravam os nossos avós, passamos para uma época em que a luz da inteligência ilumina o caminho do espírito humano. Onde havia trevas já se divisa um ambiente de mais claridade. É o progresso que não estaciona, é a Ciência a nos impulsionar para a frente, sempre e cada vez mais para a frente, fazendo com que a humanidade se aperceba num crescente sem limites da infinita grandeza do Criador. As descobertas da Ciência glorificam a Deus, em vez de rebaixá-lO, pois só destroem o que os homens construiram sobre as idéias que formaram a seu
respeito. [ ] Os teólogos se julgam os únicos a terem autoridade para a interpretação das Escrituras. São, no seu entender, as únicas inteligências de escól, a quem Deus confiou a verdade integral. Mas isso é, apenas, pretensão. A Ciência e a Filosofia não precisam de licença para trazer luz à confusão incrível que esses pseudo iluminados têm lançado sobre os homens. Os sistemas utópicos de nossos ancestrais serão separados da verdade, pelo futuro, pelo bom senso e pela lógica. A Ciência será sempre o comandante em chefe desses desbravamentos. Os espíritos não ensinam senão justamente o que é mister para guiar no caminho
da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode achar por si mesmo. [ ] O mais que surge é lenda, é mistificação, e é, no dizer de Jacolliot, crença imposta, domínio pela superstição, pelo charlatanismo e pela mentira, culto do maravilhoso, proscrição da razão. Acreditar-se que Deus, o infinito em todas as suas perfeições, se dignasse baixar à Terra, em forma humana, para ditar a Moisés aquilo que a Ciência do futuro iria destruir completamente, é muita ingenuidade! Não sabemos o juízo que fazem esses homens do infinito; não atinamos com o conceito que eles formam do Criador. Para figurarmos, tanto quanto nos é possível, com as nossas acanhadas faculdades, a infinidade do espaço, suponhamos que, partindo da Terra, perdida no meio do infinito, para um ponto qualquer do Universo, e isto com a velocidade prodigiosa da faísca elétrica, que percorre milhares de léguas por segundo, apenas, acabamos de deixar este globo, tendo percorrido milhões de léguas, e já nos acharemos em um lugar, de onde a Terra somente nos aparece sob o aspecto de uma pálida estrela.
Um instante depois, seguindo sempre a mesma direção, achamo-nos na diretriz das estrelas longínquas que de vossa estância terrestre, mal distinguis; e daí, não somente a Terra se perde de todo às nossas vistas nas profundezas do céu, mas, ainda, o vosso próprio sol, com todo o seu esplendor, se eclipsa pela extensão que nos separa dele. Animados sempre pela mesma velocidade do relâmpago, atravessamos sistemas de mundos, a cada passo que avançamos na imensidade, ilhas de luz etéreas, vias esteliferas, paragens suntuossas, onde Deus semeou os mundos com a mesma profusão com que semeou as plantas nos prados terrestres. Ora, há, apenas, alguns minutos que caminhamos, e já centenas de milhões e milhões de léguas nos separam da Terra, milhões de mundos passaram sob as nossas vistas, sendo, que, todavia, não temos em realidade, avançado um só passo no Universo. Se continuarmos durante anos, séculos, milhares de séculos, milhões de períodos cem vezes seculares, e incessantemente, com a mesma velocidade do relâmpago, nada mais tere933mos avançado! E isso de qualquer lado que partamos, e para qualquer ponto a que nos encaminhemos desde que deixamos este grão invisível
que se chama Terra. Eis o que é o espaço. [ ] Eis Kardec a dar-nos uma noção embora sumária do que seja o infinito. Ele se refere, apenas, à imensidão dos Céus, onde os mundos existem aos bilhões. Será possível, perguntamos, agora: que o Criador de tudo o que a nossa imaginação divisou neste passeio através do espaço incomensurável, se tenha manifestado a Moisés, de forma visível? Aceitar essas frivolidades é o mesmo que renunciar à inteligência, ao bom senso, à lógica. É diminuir, é restringir o infinito a este conglomerado de átomos que somos nós. Em face do exposto, concordamos com Jacolliot, quando afirma que se chega a reconhecer, enfim, que todos os pretensos dogmas revelados sobre a origem do mundo, a natureza de Deus, e suas manifestações visíveis, não são mais que um tecido de fábulas alegóricas sem consistência e que fazem vergonha à razão humana. Berthelot, o grande sábio francês, o grande enciclopedista, diz com razão: A Ciência desempenha um papel capital na educação intelectual e moral da humanidade.
Pelo conhecimento das leis de Frsica, há mais ou menos dois séculos, a Ciência revogou a concepção do Universo e derrubou, para sempre, as noções do milagre e do sobrenatural. Washburn escreveu: Para lançar um milagre, basta um mentiroso que o invente e um imbecil que nele creia. Deus, leitores amigos, é infinitamente maior do que o pretendem fazer determinadas religiões.
Deus forma o homem do pó da terra E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. Plantou o Senhor Deus um jardim no Eden, da banda do Oriente, e pôs alí o homem que tinha formado. E o Senhor fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para ser comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. E saía um rio do Eden para regar o jardim, e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pison, este é o que rodeia toda a terra de Avilã, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; alí há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom, este é o que rodeia toda a terra de Cusi. E o nome do terceiro rio é Tigre; este é que vai para a banda do oriente da Assíria. E o quarto rio é o Eufrates.
E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Eden para o lavrar e o guardar. E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente. Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás, porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Gên. II, 7 a 17) Depois de formado o homem, fez Deus um jardim ideal para ele, o Eden e dando-lhe pormenores circunstanciados, nomeando os rios que por ele corriam, quis localizá-lo. Antes não o fizesse, diz Léo Taxil, em sua "La Bible Amusante", antes não localizasse o tal jardim, para não ser pegado em flagrante delito de fanfarronada. Vejamos seus comentários a tal respeito: Com efeito, todos os comentadores estão de acordo em reconhecer que o Pison é o Phase, chamado mais tarde o Araxe, rio da Mingrélia, que tem sua nascente num dos braços mais inacessíveis do Cáucaso e se há nessa região ouro e onix, em compensação ninguém até hoje conseguiu saber o que é bdélio.
De outro modo, não nos consta haver nenhum erro respeito do terceiro e quarto rios, o Tigre e o Eufrates, donde se conclui claramente que de acordo com o Gênesis, o paraíso terrestre ficava na Asia, na região do maciço do Ararat, na Armênia, embora (primeiro cochilo do autor sacro) Araxe, Tigre e Eufrates, todos tendo nascentes "relativamente" vizinhas, as tem perfeitamente distintas. O Araxe, longe de provir de outro rio, sai do vulcão Bingol Dagh, de onde corre para o mar Cáspio. Quanto ao Tigre e ao Eufrates, não somente eles não provêm de um mesmo rio, como ao contário, vão fazer junção em Korna para formar o Chatel-el-Arab e se jogar no golfo Pérsico. Com referência ao segundo rio, chamado Giom pelo Gênesis, o cochilo do autor sagrado é fantástico. “É diz ele, o rio do país de Cusi”.
Ora, de acordo com a versão dos Setenta e mesmo da Vulgata, a terra de Cusi ou de Chus (filho de Cão e pai de Nemrod) não é outra senão a Etiópia: por conseguinte, este Gior é o Nilo que corre, não na Ásia, mas na África e precisamente em sentido oposto ao Araxe, ao Tigre e ao Eufrates, sendo a direção geral do curso do grande rio africano, de sul a norte. Se se coloca a nascente do Nilo em Vitória-Nianza, assim como se admite para não ir mais além, há no mínimo 1.800 léguas de distância, entre as nascentes do primeiro e do segundo rio mencionado pela gênesis como fertilizando o mesmo jardim do Eden. É bem verdade que os dois outros não têm as suas nascentes há mais de sessenta léguas uma da outra; o que já é bem interessante para um jardim. De qualquer forma, será um Eden este imenso território eriçado de picos, os mais escarpados, formado
em uma das regiões mais impraticáveis do globo? [ ] Resumindo o quanto possível o que comenta o mesmo autor sobre o assunto, diremos que os teólogos, conforme é do conhecimento geral, pretendem que o "Pentateuco", seja obra de Moisés, isto é, os cinco livros da Bíblia: o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio. Mas os sábios tiveram a impiedade de fazer pesquisas, e sua opinião geral é que estes livros foram fabricados por Esdras, na volta do cativeiro de Babilônia, em meiados do século V antes de Cristo, enquanto Moisés, supondo que ele devesse existir e admitindo por um instante como autênticas as datas que o concemem, viveu mil anos antes. Nasceu no país de Gessen, no Egito, em 1571, antes de nossa era e morreu na Arábia, sobre o monte Nebo, em 1451. Bossuet se revoltou contra os trabalhos de Hobbes, Spinoza e Ricardo Simon, que eram contra a autenticidade das obras de Moisés. Não entristeça Bossuet.
O versículo 14 do capítulo II° do Gênesis, entre outros exemplos, dá uma prova clara da velhacaria literária e religiosa, e demonstra precisamente, como dois e dois são quatro, que o dito Gênesis não podia ter sido escrito por Moisés. É no versículo em que ele diz: “O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre no país dos Assírios”. Isto aí está com todas as letras. Alguns tradutores substituem as quatro últimas palavras por: “para a banda do oriente da Assíria”; mas isto não muda nada. A questão é simples: Moisés morto em 1451 antes de Cristo não podia ter empregado as expressões Assíria e assirianos, pela razão única de que o império Assírio, que se estendia ao mesmo tempo sobre Ninive e Babilônia, e que durou até o VII° século antes de nossa era, começou a existir lá
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