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Capítulo 56 de 57

Eloista — parte 25 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Dogmas existentes há muito no Egito, na Fenícia, na Mesopotâmia, na Pérsia e na India. Afirmam que ele foi instmido na sabedoria dos egípcios, que era um grande legislador e entretanto de que lhe serviu tudo isto se desprezou completamente o dogma mais importante da terra dos faraós, o mais necessário aos homens, a crença tão salutar e tão santa, aquela que dá ao homem a grande esperança de melhores dias condicionados à qualidade das ações? Não obstante ela existe no seio do judaismo, pois os essênios e os fariseus a possuiam em parte; eles aceitavam o dogma da imortalidade, das penas e recompensas depois da morte. E o pior é dizer-se que as leis mosaicas, os ensinamentos do patriarca judeu, não são de sua autoria, foram dados por um Deus, por um Deus necessariamente sem visão e sem discernimento. A doutrina dos Espíritos é baseada no mais elevado senso moral.

Se bebemos em outras filosofias religiosas postulados de grande elevação, é simplesmente, porque observamos que Jesus, em sua filosofia sintética, os aceita, também. E se Cristo repudiou uma a uma todas as leis de Moisés, conservando, apenas, aquela lei divina de todos os tempos, "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", conteúdo de toda a elevada moral humana, por que motivo haveremos nós de adotar aquilo que constituiu de repúdio pelo maior dos missionários baixados à Terra? Que ligação filosófica poderia ter tido o Cristo com o patriarca dos judeus? Escutemos reverentes o que nos diz Humberto Rohden, em sua extraordinária obra "A Metafísica do Cristianismo" e meditemos sobre a profundeza de seus admiráveis conceitos: Os ensinamentos de Jesus não tratam, de preferência do que o homem é hoje, mas do que ele é eternamente e pode, por isto, vir a ser amanhã, também no plano histórico de sua vida terrestre. Jesus sabe o que o homem é essencial e eternamente, e não apenas o que ele é acidental e temporariamente.

Sabe que o "reino de Deus está dentro do homem", e é por isto que o homem deve pedir todos os dias “venha o teu reino”. Jesus é o maior realista da História. A razão última porque n6s não o compreendemos é por sermos demasiadamente irrealistas. O nosso superficial periferismo não pode compreender a profunda centralidade do Nazareno. Jesus não pertence a uma certa época, nem a um certo povo - ele é supratemporal, supra nacional, e por isto mesmo sempre atual e moderno.

O seu caráter e ensino transcendem tempo e espaço. Quem o inclui nesta ou naquela categoria de tempo e espaço de credo ou classe, de escola ou igreja. crucifica-lhe o espírito, e esta crucificação espiritual do Cristo abundantemente praticada pelos cristãos, é incomparàvelmente pior que a crucificação corporal de Jesus cometida pelos judeus. Jesus não foi o Messias da sinagoga - como não é, propriamente, o Cristo das nossas igrejas. Acontece-lhe através da Hist6ria, o que sempre tem acontecido aos grandes gênios da humanidade: os seus discípulos profissionais são, em geral, os seus piores inimigos, e, não raro os seus coveiros. Qualquer igreja ou escola formada em torno de um grande gênio é um cortejo fúnebre que o leva ao cemitério. ...

Igrejas, seitas, escolas, livros códigos, regulamentos, sociedades organizadas, etc., são domínio dos talentos e dos técnicos, mas não dos gênios. Dizer que Jesus fundou uma "igreja" no sentido comum desta palavra, é amesquinhar-lhe a grandeza, é cometer contra ele abominável blasfêmia e sacrilégio. ... O gênio confia no poder do espírito, e não no espírito do poder, na violência de organizações eclesiásticas, políticas, hierarquicas, isto é, ultimamente, no poder da espada. Que idéia mesquinha, sacrilegamente mesquinha, devem ter do espírito de Jesus os que o reduzem a um vulgar fundador de igreja. Como se ele fosse qualquer talentoso sociólogo, político ou diplomata humano!... ...

É melhor silenciar de todo as grandezas de um herói do que falsificá-las. Jesus não foi traído e crucificado apenas por Judas e pela sinagoga de Israel - ele está sendo constantemente traído pelos cristãos e crucificado pelos sacerdotes e ministros das

igrejas e seitas que o proclamam seu fundador e patrono. [ ] Mas onde estão estes homens cristificados? Pergunta o notável escritor. E continua. Existem certamente, e sempre têm existido, homens dessa natureza - tipo Paulo de Tarso, Francisco de Assis, Mahatma Gandi, Benedito Spinoza, León Tolstoi, e outros - mas relativamente poucos. E entre os chefes hierarquicos das igrejas são mais raros ainda, uma vez que eles, em virtude da sua posição, têm o dever profissional de excluir outros de seu amor, de organizar cruzadas e inquisições, de fulminar anátemas e excomunhões contra os dissidentes da sua seita ou igreja. Não podem, em virtude do seu cargo, serem chefes eclesiásticos e discípulos de Cristo, ao mesmo tempo, uma vez que um exclui o outro: se incluem no seu amor os dissidentes da sua seita são maus chefes eclesiásticos - se os excluem, são maus cristãos; e vice-versa.

Diz, ainda, adiante H. Rohden: "Um ótimo judeu seria um péssimo cristão, e o melhor dos católicos seria o pior dos protestantes” - tais são as conseqüências monstruosas do sectarismo criado pdos homens que defendem certa religião, mas não são religiosos. Eis o pensamento de um folósofo que dia a dia mais se agiganta. E este pensamento tão bem exposto, que nos toca em cheio o coração, é também o pensamento dos Espíritos que do Alto nos vêm dizer, constantemente, que a religião em si não passa de rótulo, mas que muito valem as ações dos indivíduos. A moral espírita está cheia de amor, daquele mesmo amor pregado pelo Cristo, ela abraça fraternalmente a toda a humanidade, sem olhar crenças, filosofias, racismos. Mas é um paradoxo, dirão alguns, aqueles que não nos compreenderam, a pregação de amor de um escritor, que combate as religiões do passado. Não combatemos e se procuramos à custa dos mais penosos sacrifícios esclarecer o pensamento humano, não é por espírito sectarista, é ainda por amor aos nossos semelhantes.

Também foi dito: quem repudiar sua mulher de-lhe carta de divórcio. Eu porém vos digo que todo o que repudia sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, a faz ser adúltera e qualquer que se casar com a repudiada comete adultério. Também tendes ouvido o que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor o teu juramento: Eu, porém vos digo que absolutamente não jureis, nem pelo Céu que é o trono de Deus... Tendes ouvido que foi dito: olho por olho, dente por dente: Eu, porém vos digo: Não resistais ao homem mau, mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe, também, a outra. Raciocinemos. O que acima se encontra não é a demolição feita pelo próprio Cristo da moral que não mais servia aos homens de seu tempo? E como pretendem determinados espíritas apegados a uma crença multimilenar que ela ainda lhes possa ser útil?

Fazemos questão de frisar para que não sejamos mal interpretado: Quando falamos em Moisés, falamos nele, apenas, indiretamente, pois, como já ficou evidenciado, não acreditamos que o "Pentateuco" seja obra sua, e assim, não cremos, tampouco, nas infâmias, imoralidades, matanças, roubos, que a Bíblia consigna, atribuidos ao legislador hebreu, aconselhados sempre pelo sanguinário Jeová. Admitimos Moisés como libertador do povo judeu. Homem enérgico, dono da Ciência e da Filosofia de seu tempo, conhecimentos adquiridos à sombra dos santuários, ministrados pelos padres, na educação esmerada que lhe deu o Faraó que o tomou sob sua proteção. Admitimos um Moisés sem a auréola das lendas e dos milagres que lhe emprestaram os seus poetas exaltadores. Acreditamos no Patriarca pura e simplesmente, como um vulto a quem os judeus muito devem. Povo escravo, os israelitas, se não fossem libertados pela mão potente e extraordinária deste homem, talvez tivessem desaparecido da face do planeta. Deles, conheceriamos, apenas, a sua história e a humanidade se teria privado de seus sábios eminentes a quem ela tanto deve.

Os judeus intelectuais que habitam os quatro cantos do globo, não acreditam, por certo, nessas fantasias; a massa judaica, dela, apenas, no máximo, dez por cento, conhece a sua religião, e na generalidade, por sua falta de cultura, não está em condições de opinar. Não passa pela nossa imaginação a hipótese infeliz de imaginar que homens esclarecidos que, mais que ninguém, conhecem a história de seu povo, possam acreditar um instante nessas narrativas fabulosas que sobre a figura férrea de seu grande libertador, consignam as páginas do Velho Testamento. Não acreditamos tão pouco na crença sincera que possa ter o Catolicismo romano sobre o mesmo assunto. À sombra do Vaticano vivem homens de grande valor, afeitos ao estudo e conhecedores de toda a ciência contemporânea. Assim, não se concebe que estes vultos eminentes dêem crédito às frivolidades bíblicas que não são poucas e muito menos às suas inumeráveis contradições. Estamos com Lous Jacolliot. O "Pentateuco" foi obra do grande sacerdote Hilquias, e daí não nos afastamos um passo.

Sigmund Freud, em suas "Obras Completas", ed. Espanhola de 1949, II volume, página 139, consigna uma anedota muito conhecida a de um menino inteligente a quem perguntaram quem foi a mãe de Moisés. A criança respondeu sem vacilações, haver sido a princesa, e ao objetarlhe que ela nada mais havia feito que salvá-lo das águas, retrucou: "Isto é o que ela diz", mostrando, assim, que havia encontrado a significação do mito. Foram perguntar a Jesus por que jejuando os fariseus e os discípulos de João, não o faziam seus discípulos - respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Porém dias virão em que lhe será tirado o noivo e nesses dias jejuarão. Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho: porque o remendo tira parte do vestido e fica maior a ruptura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; de outro modo arrebentam os odres e derrama-se o vinho, e estragam-se os odres, mas vinho novo é posto em odres novos, e ambos se conservam.

Haverá no mundo, ainda, quem se iluda, depois das palavras claras do grande Nazareno? Quanta filosofia!... Jesus classifica a doutrina do patriarca de vestido velho, tão velho, que nem um remendo da sua poderia melhorá-la e considera o vinho do legislador, antigo demais para ser colocado em seus odres. Maior auxílio não poderíamos oferecer à inteligência dos estudiosos sobre o assunto. Uma coisa, a mais, queremos deixar patente. Se os judeus de todos os tempos nada houvessem produzido, se continuassem uma nação escravizada, impossibilitada, por isso, da formação de homens tão eminentes como os que já produziram, se nada mais houvessem feito em benefício da humanidade, mesmo, assim, o Ocidente lhe seria devedor, porque foi do seio do judaismo que brotou a maior figura de todos os tempos: JESUS CRISTO.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.