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Capítulo 53 de 57

Eloista — parte 22 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Mas como puderam conservar este grosso volume gravado na argamassa? Qual a maneira de refutar as objeções dos sábios, que encontram no Pentateuco o nome de cidades que então não existiam, preceitos para os reis que não possuiam, passagens onde o autor, muito posterior a Moisés se trai, dizendo: "Porque o rei Og, de Basan, era o único que tinha ficado da estirpe dos gigantes. Em Rabat (cidade), dos filhos de Amon, mostra-se o seu leito de ferro, que tem nove cóvados de comprimento, e quatro de largo, pela medida de um cóvado de mão de homem "..." Abraão atravessou este país até o lugar de Siquém, até o vale ilustre. Os cananeus estavam então naquela terra", etc. etc? Estes sábios estribados nas dificuldades e nas contradições que imputam às crônicas judias, poderão criar dificuldades a um licenciado.

O livro do "Gênesis" é físico ou alegórico? Tirou, mesmo, Deus uma costela de Adão para fazer uma mulher? E como havia ele dito anteriormente que o fez macho e fêmea? Como pôde criar Deus a luz antes do Sol? Como separou ele a luz das trevas, uma vez, que as trevas são, apenas, a privação da luz?

Como fez ele o dia antes que o Sol fosse criado? Como criou ele o firmamento no meio das águas, quando não há firmamento e, apenas, ele existe na imaginação dos antigos gregos, por uma falsa noção? Há muitos que conjecturam que o "Gênesis" só foi escrito quando os judeus tiveram algum conhecimento da filosofia errada de outros povos, e eu sofro a dor de ouvir dizer que Deus não conhece mais a Física do que a Cronologia e a Geografia. Que direi eu do jardim do Éden, de onde saia um rio que se dividia em quatro outros. O Tigre, o Eufrates, o Phison, que se admite seja o Phase, o Geon, que corre no país da Etiópia e que, por conseguinte, só pode ser o Nilo, e cuja nascente é distante de mil léguas da fonte do Eufrates?

Dir-me-ão que Deus é um péssimo geógrafo. Eu desejaria de todo coração comer do fruto que pendia da árvore da Ciência, e me parece que a proibição de comê-lo é estranha; uma vez que, dando Deus a razão ao homem, ele devia encorajá-lo e instruir-se. Desejaria ele ser servido por um tolo? Eu desejaria, também, conversar com a serpente, uma vez que ela possui tanto espírito, mas gostaria de saber que lingua falava ela. O Imperador Juliano, este grande filósofo, perguntou isto ao eminente S.

Cirilo, que não pôde responder satisfatoriamente a esta pergunta, mas que disse a este sábio imperador: "Sois vós a serpente". S. Cirilo não era delicado; mas observai que ele só respondeu esta impertinência teológica quando Juliano morreu. A gênesis diz que a serpente come terra; sabeis que a gênesis se engana e que a terra em si não alimenta ninguém. Com referência a Deus que vinha passear todos os dias, ao meio dia no jardim, e que se entretinha com Adão e Eva e com a serpente, seria muito agradável ver-se uma quarta companhia.

Mas como eu vos creio feito mais para a companhia que José e Maria tiveram no estábulo de Belém, eu não vos proporia uma viagem ao jardim do Eden, sobretudo, quando sua porta está guardada por um querubim armado até os dentes. É verdade que, segundo os rabinos, querubim tem o significado de boi. Eis aí um estranho porteiro. Dizei-me, ao menos, o que significa um querubim. Como explicarei a história dos homens que se tornaram amantes das filhas dos homens e que delas conceberam gigantes?

Não me ojetarão que estas passagens são tiradas de fábulas pagãs? Uma vez que os judeus inventaram tudo no deserto, e que eram muito engenhosos, é de concluir-se que todas as outras nações aprenderam deles sua ciência. Homero, Platão, Vergílio, tudo aprenderam dos judeus. Não está isto demonstrado? Como sairei eu do Dilúvio, das cataratas do Céu, que não tem cataras, de todos os animais chegados do Japão, da África, da América e das terras austrais, fechados em um grande cofre com as provisões para beber e comer durante um ano, sem contar o tempo em que a terra, muito úmida, ainda, nada podia produzir de alimento?

Como a pequena barca de Noé conseguiu agasalhar e dar alimento convenientemente aos animais? Não havia lá somente oito pessoas? Como poderei tornar a história da torre de Babel verossímil? É necessário convir que esta torre era multissimo mais alta que as pirâmides. Teria ela alcançado Vênus, ou pelo menos a Lua?

Que arte deverei usar para justificar as duas mentiras de Abraão, o pai dos crentes, que, com a idade de cento e trinta e cinco anos bem contados, fez passar a bela Sara por sua irmã no Egito e em Gerare, a fim de que os reis destes países se tornassem seus amantes, e lhe fizessem presentes? Fi! Como é feio vender sua mulher! Apresentai-me a razão, o por que havendo Deus ordenado a Abraão que toda a sua posteridade fosse circuncidada, não deu esta mesma ordem a Moisés? Poderei saber se os três anjos, a quem Sara serviu um bezerro inteiro, tinham um corpo, ou tomaram um de empréstimo?

E como se concebe que havendo Deus enviado dois anjos à Sodoma, quisessem os sodomitas cometer um certo pecado com estes anjos? Eles deviam ser muito belos. Mas por que Ló, o Justo, ofereceu suas duas filhas aos sodomitas, em lugar dos dois anjos? Que bisbilhoteiras! Elas se deitaram um pouco com o pai.

Ah! Sábios mestres, isto não é honesto! Acreditar-me-à meu auditório quando eu afirmar que a mulher de Ló foi transformada em estátua de sal? O que responderei se me disserem que isto é uma grosseira imitação da antiga fábula de Eurídice, e que a estátua de sal não resistiria à chuva? O que direi quando for necessário justificar as bênçãos caídas sobre Jacó, o Justo, que enganou Isaque, seu pai, e que furtou Labão, seu cunhado?

Como explicarei a aparição de Deus a este justo, no alto de uma escada? e como se bateu Jacó durante uma noite inteira com um anjo? Etc. etc.. Como devo falar sobre o estabelecimento dos judeus no Egito, e sua evasão? O Êxodo diz que eles ficaram quatrocentos e trinta anos no Egito (XII, 40); e fazendo a conta justa não encontramos mais de duzentos e cinco anos. Por que a filha do Faraó se banhava no Nilo, onde ninguém toma banho por causa dos crocodilos?

Etc. etc... Havendo Moisés desposado a filha de um idólatra, como o tomou Deus por seu profeta sem lhe fazer nenhuma censura? Como os amigos do faraó fizeram os mesmos milagres de Moisés, exceto o de cobrir o país de piolhos e de insetos asquerosos? Como mudaram eles a água em sangue já mudada por Moisés? Como é que Moisés, conduzido por Deus, à frente de 630.000 combatentes, fugiu com o seu povo, em vez de se apossar do Egito, cuios primogênitos foram mortos por Deus?

O Egito nunca conseguiu organizar um exército de 100.000 homens, desde que se faz menção dele nos tempos históricos. Como é que Moisés, havendo fugido da terra de Gessen, em vez de ir em linha reta ao país de Caná, atravessou a metade do Egito, e subiu até a frente de Memphis. entre Baal-Sephon e o mar Vermelho? Enfim, como foi que o faraó pôde perseguílos com sua cavalaria, uma vez que na quinta praga do Egito, Deus acabava de fazer perecer todos os cavalos e todas as bestas. e que, considerando que o Egito é cortado por tantos canais, sempre teve pouca cavalaria? Como conciliar o que diz o Êxodo com o discurso de Santo Estêvão no Ato dos Apóstolos, e com as passagens de Geremias e de Amós? O Êxodo (XVI, 35) diz que os filhos de Israel comeram maná durante 40 anos, até chegarem a um país habitado etc.; Jeremias, Amós e Santo Estevão, dizem que não se oferecia nem sacrifício, nem hóstia durante todo esse tempo.

O Êxodo (XL, 3) diz que se construiu um tabernáculo no qual colocaram o arco da aliança; e Sto. Estêvão, em Atos, disse que se levava o tabernáculo de Moloque e de Remphan. Não sou muito bom químico para me desfazer de um bezerro de ouro, que o Êxodo diz ter sido formado em um só dia, e que Moisés o reduziu a cinzas. Estes dois fatos são milagrosos ou isto é possível à arte humana? É ainda um milagre que o condutor de uma nação em um deserto, faça degolar 23.000 homens desta nação, por uma só das doze tribos, e que 20.000 homens se tenham deixado massacrar sem se defender?

Devo eu ainda encarar como um milagre ou como um ato de justiça ordinária, o fazer-se morrer 24.000 hebreus, porque um de entre eles havia dormido com uma medianita, enquanto Moisés, tomou uma medianita por esposa? e estes hebreus que nos pintam tão ferozes não eram homens tão bons, uma vez que se deixavam matar por mulheres? E a propósito de moças, poderei conservar-me sério quando disser que Moisés encontrou 32.000 virgens no campo medianita, com 61.000 asnos? Isto não significa dois asnos para cada virgem? Qual a explicação que poderei dar quando falar na lei que proibe comer lebre porque “rumina e não tem cascos fendidos”, enquanto que a lebre tem o pé fendido e não rumina? Vimos que este belo livro já fez de Deus um mau geógrafo, uma mau cronologista, um meu fisico; ele não o fez melhor naturalista.

Que razões apresentarei eu para leis não menos sábias, como a das águas do ciúme, da punição de morte para um homem que dormiu com a mulher menstruada? etc., etc. Poderei eu justificar essas leis bárbaras e ridículas que dizem provindas do próprio Deus? Que responderei eu àqueles que ficarem pasmados, quando ouvirem que precisou um milagre para fazer passar o rio Jordão, que, em sua maior largura, não tem mais de 45 pés, que se podia muito fàcilmente atravessar com uma jangada pequena, e que era vadeável em muitos lugares, testemunha de 42.000 efraimitas degolados em um váu deste rio por seu irmãos? Que responderei eu àqueles que perguntarem como os muros de Jericó cairam ao som das trombetas, e por que as outras cidades não cairam de igual forma? Como desculparei a ação da cortezã Rahab que traiu Jericó, sua pátria?

Em que era necessária esta traição, uma vez que era preciso, apenas fazer soar as trombetas para tomar a cidade? E como poderei sondar a profundeza dos decretos divinos, que quiseram que nosso divino salvador J. Cristo nascesse dessa cortezã Rahab. Assim como do incesto de Tamar com Judas seu sogro, e do adultério de Davi e de Betsabé? Como os caminhos de Deus são incompreensíveis!

Que aprovação poderei dar a Josué, que fez prender 31 pequenos reis e usurpou seus pequenos Estados, isto é, suas aldeias? Como falarei da batalha de Josué com os amorrenitas em Betoron sobre o caminho de Gabaon? O Senhor fez chover do Céu grandes pedras, desde Betoron até Azeca; desta forma os amorrenitas foram exterminados pelos rochedos que caiam do Céu durante o espaço de cinco léguas. A Escritura diz que era meio-dia; por que, Josué ordena ao sol e à lua que parem no meio do Céu para dar tempo à derrota da pequena tropa que já estava exterminada? Por que manda ele que a lua pare ao meio-dia?

Como foi possível ao sol e a lua ficarem um dia parados no mesmo lugar? Para qual comentador terei que recorrer para explicar esta verdade extraordinária? Que direi de Jephté que imolou sua filha e que fez degolar 42.000 judeus da tribo de Efraim, que não podia pronunciar Schiboleth? Devo confessar ou negar que a lei dos judeus não anuncia em nenhum lugar, as penas e as recompensas depois da morte? Como se explica que nem Moisés, nem Josué tenham falado na imortalidade da alma, dogma conhecido dos antigos egípcios, dos caldeus, dos persas e dos gregos, dogma que não esteve muito em voga entre os judeus senão depois de Alexandre, e que os saduceus reprovaram sempre, porque ele não se encontra no "Pentateuco"?

Que cor terei que dar à história do levita que, tendo chegado em seu asno a Gabaá, cidade dos benjamitas, tornou-se o objeto da paixão sodomita de todos os gabaonitas, que o quiseram violar? Ele lhes entregou sua mulher, com a qual os gabaonitas dormiram durante toda a noite; ela morreu no outro dia. Se os sodomitas houvessem aceitado as duas filhas de Ló em lugar dos dois anjos, teriam elas morrido? Tenho necessidade de vossas luzes para poder compreender este versículo do 1º capítulo dos "Juízes”: “O Senhor acompanhou Juda, e ele se tornou mestre das montanhas; porém não pôde derrotar os que habitavam no vale, porque estes tinham muitas carroças falcadas”, isto é, armadas de foices. Não posso compreender em meu fraco entendimento, como o Deus do Céu e da Terra, que tantas vezes mudou a ordem da natureza, e suspendeu as leis eternas em favor de seu povo judeu, não haja chegado a ponto de vencer os habitantes de um vale, porque eles possuissem carroças.

Será verdade, como vários sábios pretendem, que os judeus olhavam então seu deus como uma divindade local e protetora, que tanto era mais como menos poderoso que os deuses de seus inimigos? e não estará isto provado com esta resposta de Jephté: “Por ventura não te é devido por direito tudo o que possui o teu Camos? Logo ficará em nossa possessão o que o Senhor nosso Deus alcançou com a vitória". Acrescentarei, ainda, que é difícil de crer que eles tivessem tantas carroças armadas de foices em um país montanhoso, onde a Escritura diz em tantos lugares que a grande magnificência era de estar montado num asno. A história de Aod me entristece muito mais. Vejo os judeus quase sempre sujeitos, malgrado o socorro de seu Deus, que havia prometido em discurso de dar-lhes todo o país situado entre o Nilo, o mar e o Eufrates.

Havia dezoito anos que eles eram escravos de um pequeno rei, chamado Eglon, assim que Deus suscitou Aod em seu favor, filho de Gera, que se servia da mão esquerda como da mão direita. Aod, filho de Gera, tendo feito um punhal com dois trinchantes, o escondeu embaixo do seu manto, como fizeram depois Jacques Clement e Ravaillac. Ele pediu ao reizinho uma audiência secreta, e lhe disse haver um mistério. de importância a comunicar-lhe da parte de Deus. Eglon se ergue respeitosamente, e Aod, com a mão esquerda, enterra seu punhal na barriga do rei. Deus favoreceu em tudo esta ação, que, na moral de todas as nações da Terra, parecia um pouco dura.

Ensinai-me qual é o assassínio mais divino, o deste santo Aod, ou o de São Davi, que fêz assassinar o seu corno Urias, ou do bem-aventurado Salomão que possuindo setecentas mulheres e trezentas concubinas, assassinou seu irmão Adonias porque este lhe pediu uma, etc., etc., etc. Eu vos imploro dizer-me por que meio Sansão conseguiu prender 300 raposas, ligá-las uma a uma pelo rabo, prender fogo em sua cauda e atirá-las contra a seifa dos filisteus. As raposas só habitam em países que possuam matas. Não havia florestas neste lugar, e parece muito difícil prender 300 raposas vivas, e de amarrálas pelo rabo. Disseram em seguida que ele matou mil filisteus com uma grande queixada de burro e que de um dos dentes desta queixada jorrou uma fonte.

Quando se trata de queixada de burro, me deveis esclarecimentos. Peço-vos as mesmas instruções sobre o homem simples, Tobias, que dormia de olhos abertos, e que ficou cego por um escremento de andorlnha; sobre o anjo que desceu expressamente disto que se chama empíreo, para ir procurar com Tobias fios de prata que o judeu Gabel devia a Tobias pai; sobre a mulher de Tobias filho, que teve sete maridos e que o diabo havia torcido o pescoço; e sobre a maneira de rostituir a vista aos cegos com o fel de um peixe. Estas histórias são sérias, e não há nada mais digno de atenção, depois dos romances espanhóis; não se pode comparálos senão às histórias de Judite e Ester. Mas poderei interpretar o texto sagrado que diz que a bela Judite descendia de Simeão, filho de Rubem, segundo os mesmos textos sagrados (I Par. II, 1), que não podem mentir?

Tenho necessidade de vosso socorro na história dos "Reis”, no mínimo, para aquela dos "Juízes”, e de Tobias, e de seu cão, e de Ester, de Judite e de Rute, etc., etc. Logo que Saul foi sagrado rei, eram os judeus escravos dos filisteus. Os vencedores não lhes permitiam possuir espadas nem lanças; e eles eram mesmo obrigados a ir aos filisteus para afiar a rêlha de suas charruas e suas machadinhas. No entanto Saul ofereceu batalha aos filisteus, e sobre eles levou vantagem, isto é, a vitória; e nesta batalha ele se encontra à frente de 330.000 soldados, em um pequeno país que não pode alimentar 30.000 almas; pois, não havia, então, senão o terço da terra santa, no máximo; e este país estéril não alimenta hoje 20.000 habitantes. O excedente era obrigado a ganhar sua vida, dedicando-se à profissão de corretor em Balk, em Damasco, em Tyro e em Babilônia.

Não sei como justificar a ação de Samuel, que cortou em pedaços o rei Agag, que Saul havia feito prisioneiro, e posto a resgaste. Devemos um grande respeito a Davi, que era um homem segundo o coração de Deus; mas temo de faltar à Ciência para justificar pelas leis ordinárias, a conduta de Davi, que se associa a 400 homens de má vida, e carregado de dívidas, como diz a Escritura (I Reis, XXII, 2); que marcha para saquear a casa de Nabal, servidor do rei, e que, oito dias depois, esposa sua viúva, que vai oferecer seus serviços a Achis, sem perdoar nem o sexo, nem a idade; que, desde que está no trono, toma novas concubinas, arrebata Betsabé a seu marido, e faz matar aquele que a desonra. Tenho pena em imaginar que Deus nasça em seguida na Judéia desta mulher adúltera e homicida, contada entre os avós do Ser Supremo. Eu já vos preveni sobre este artigo que dá uma pena extrema às almas devotas. As riquezas de Davi e de Salomão, que montam a mais de cinco milhões de ducados ouro, parecem difíceis de conciliar com a pobreza do país, e com o estado a que estavam reduzidos os judeus sob Saul, quando eles não tinham como fazer afiar seus arados e seus machados.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.