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Capítulo 19 de 57

Parte 18 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

reverenciados. [ ] O grande orientalista Max Müller, assim fala: O Deus mais exaltado recebeu o mesmo nome nas antigas mitologias da india, Grécia, Itália e Alemanha. O nome em sânscrito era DIAUS, em grego ZEUS, em latim JOVIS e em germânico, TIU. Estes nomes não são, apenas, nomes; são fatos históricos. Estas palavras não são apenas palavras; servem para apresentar, com toda vividez de um evento de ontem, os antepassados de toda a raça ariana que, milhares de anos antes de Homero e dos Vedas, adoravam um ente invisível. As pessoas que pensam que um culto politeista foi o objeto mais natural da vida religiosa, esqueceram-se muito facilmente de que “politeísmo deve ser precedido por toda a parte de um teísmo mais ou menos refletido”. Em nenhuma língua do mundo o plural existe antes do singular. Jamais o espírito humano poderia conceber e idéia de muitos deuses sem ter preliminarmente conhecido a Idéial de um Deus.

Será, porém, um erro bastante grande imaginar-se, por que a idéia de um Deus deva existir antes daquela de muitos deuses, que a crença em muitos deuses tenha precedido por toda a parte à crença em um Deus único. Esta última implica a negação formal de um Deus; e esta negação é possível somente depois da concepção real e imaginária de muitos deuses. A intuição primitiva da divindade, não é monoteísta, nem politeista. Ela acha sua expressão mais natural neste artigo de fé, o mais simples, e, entretanto, o mais importante de todos: Deus é Deus. Tal deve ter sido a crença dos pais do gênero humano antes da dispersão das raças e da confusão das línguas. A crença de um Deus único chama-se propriamente - monoteísmo - enquanto que henoteísmo seria o termo mais correto pare designar-se a crença em um Deus.

É necessário não perder de vista que falamos, aqui, de uma época remota da humanidade quando, ao mesmo tempo em que surgiam as idéias, se faziam as primeiras tentativas para exprimir as concepções mais simples, em uma linguagem de extrema simplicidade, de um caráter todo físico e material, e completamente

despida de flexibilidade, para manifestar as minudências do pensamento. [ ] Este eidelon ou imagem transformou-se, porém, em ídolo; o nome mudou-se em numen ou deidade, logo que se apartaram de sua significação original. Se os gregos se recordassem que - Kronos, Uranos, Apolo não eram mais que tentativas para dominar as diversas fases, ou manifestações, ou aspectos, ou pessoas da divindade - eles poderiam servir-se destes nomes nas ocasiões de suas diversas necessidades, como os judeus evocavam - Jeová, Elohim, Sabaoth, como os católicos imploram a assistência da Virgem sob o nome de Anunciada, das Dores e de Nossa Senhora das Graças. Eis mais um depoimento a favor de nossa tese. Max Müller, com a sua indiscutível autoridade, torna evidente que o monoteísmo não é absolutamente originário da religião de Moisés e sim pertencia aos povos mais primitivos. Vigouroux vem, também, em apoio de nosso ponto de vista: É falso, historicamente falando, que a humana gente tenha por toda a parte principiado o culto religioso pela adoração dos astros. Antes, a verdade é que o

homem se iniciou no exercício da religião pela crença em um Deus. [ ] Mariette e Rougé asseveram que "no alto do Panteon egípcio há um Deus único". O duque d'Argil, M. Fergusson e Louis Jacolliot, afirmam que "uma inspiração monoteista, notavelmente pura e elevada, circula através dos Vedas". Darmaster exclama: "O politeísmo tirou sua origem das falsas respostas a esta pergunta: - Que é Deus?”. O politeísmo é um monoteísmo em dissolução, afirma Schelling. Já nos vamos tomando longo para provar urna coisa que é hoje do conhecimento de todos os estudiosos de religiões. Os povos não iniciaram sua crença pelo politeísmo e sim pelo henoteísmo, que é o culto de um só Deus em cada povo, o que vem a ser em essência o mesmo que monoteísmo, se levarmos em conta, Jeová, o mais nacionalista de todos os deuses na superfície da Terra.

Corno fica evidenciado, a nossa crítica até o momento, e esperamos que neste ritmo as coisas continuem, tem-se alicerçado na História e na Ciência, amparados que estamos por figuras eminentes cujos depoimentos têm sido aceitos por todos os valores intelectuais insuspeitos e que não trilham a vereda infeliz dos que curvam a cabeça ao dogma sacrílego. Os judeus, a quem pertence, na realidade, a religião de Moisés, dão a esta uma interpretação racional, diferente da que lhe querem emprestar católicos e protestantes São profundos conhecedores da história de seu povo, eternamente perseguido e a lutar sem tréguas e sem esmorecimentos por uma vida de liberdade que tanto merecem. A contribuição deste povo em matéria de Ciência, e de Filosofia, aos conhecimentos generalizados de todos os tempos é coisa que a Matemática não prevê. Mas, a humanidade é, e continua sendo profundamente ingrata. Will Durant, depois de citar o poema de Ikanoton, diz: Temos aqui, além de um dos grandes poemas da História, a primeira firme expressão do monoteísmo - 700 anos antes de Isaías.

Como acentua Breasted, em “Development”, esta concepção de um Deus único, talvez seja o reflexo da unificação do mundo mediterrâneo sob a liderança do Egito. No reinado de Tutmés III, Ikanoton concebe o Deus único para todas as nações e chega a mencionar antes do Egito, o nome de outros países como dentro do governo de Aton; isto representa um prodigioso avanço para além da idéia do

deus tribal até então predominante. [ ] A. Leterre a quem não se pode negar seja um profundo estudioso desses assuntos, afirma que todas as tribos africanas, que podem ser contadas aos milhares, tanto as do litoral como as das regiões centrais, algumas de difícil contato entre si e ainda mais com o europeu, adoram um Deus, Supremo, Criador, Onisciente, misericordioso e sumamente bom, e, porque nunca faça mal à sua criatura, não lhe prestam culto algum, nem lhe dirigem preces, nem procedem a sacrifícios de animais em seu holocausto. No Manavadharma, segundo a lenda, Deus se revelou a Cristna; nos Vedas, a Buda; no Zendavesta, a Zoroastro; nos Kings, da China, a Láo-Tseu, a Confúcius; no Pentateuco, a Moisés, no Corão, a Maomé, no livro de Job, ao pontífice Job e nos Evangelhos a Jesus. Não se pode, pois, duvidar, que a crença monoteista, isto é, a crença em um Deus único existisse desde a antiguidade pré-histórica. Lê-se nos Vedas: Deus é aquele que sempre foi; Ele criou tudo quanto existe; uma esfera perfeita, sem começo nem fim e à sua fraca imagem.

Deus anima e governa toda a criação pela providência geral de seus prindpios invariáveis e eternos. Não sonde a natureza da existência daquele que sempre foi; esta pesquisa é vã e criminosa. Basta que, dia a dia, noite a noite, suas obras te manifestem sua sabedoria, seu poder e sua misericórdia. Trata de tirar proveito disto. O rei da Babilônia, Nabuchodonozor, orava do seguinte modo: Criado por ti, Senhor, eu te abençôo, tu me deste o poder de reinar sobre os povos, segundo tua bondade. Constitui, pois, teu reinado, impõe a todos os homens a adoração de teu nome. Senhor dos povos, ouve minhas preces. “Que todas as raças terrestres venham às portas de Deus". (Babilu-Babilônia) Nos antigos livros da China (nos Kings), encontra-se o seguinte, transcrito pelo imperador Kang-Ki e compilado por Du Halde, página 41, da edição de Amsterdam: Ele não teve começo e não terá fim. Ele produziu todas as coisas desde o começo; Ele é quem governa como verdadeiro Senhor; Ele é infinitamente bom e infinitamente justo; Ele ilumina, sustenta e regula tudo com suprema autoridade e soberana justiça.

Max Müller, ainda, em sua "Histoire des Religions", diz: Se olharmos os olhos negros dos chineses, acharemos que ali também há uma alma que corresponde às outras almas e que o Deus que ele tem em mente é o mesma que nos empolga o espírito, apesar do embaraço de sua linguagem religiosa. Os Druidas (sábios), sacerdotes dos Celtas, diziam que Deus é por demais incomensurável para ser representado por imagens fabricadas por mãos humanas; e que seu culto não pode ser prestado entre as muralhas de um templo; mas, sim, no santuário da natureza, sob a ramagem das árvores ou nas margens do vasto oceano. Léon Denis, em sua obra "Le Génie Celtique et le Monde lnvisible", diz que para os Druidas, o símbolo da vida e da luz era representado pelo termo Esus. O Deus dos Druidas era Be-il, de onde o Ba-al da Caldéa, ao qual juntaram Teutalés, símile de Thot-Hermes do Egito. Em seu livro "Dans le Thibet", o padre Huc consigna o que dizem os Lamas: Buda é o ser necessário, independente, princípio e fim de tudo. É o Verbo, a Palavra.

A Terra, os homens e tudo quanto existe é uma manifestação parcial e temporária de Buda. Tudo foi criado por Buda, no sentido de tudo vir dele como a Luz vem do Sol. Todos os seres emanados de Buda tiveram um começo e terão um fim; mas assim, como eles saíram necessàriamente da Essência Universal, eles terão de ser reintegrados. É como os rios e as cachoeiras produzidos pelas águas do mar que, após um percurso mais ou menos longo, vão novamente se perder na sua imensidade. Assim, Buda é eterno; suas manifestações também são eternas. No Egito, no Livro dos Mortos, à pg. 17, lê-se: Eu sou aquele que existia do nada; eu sou o que cria, eu sou aquele que se criara por si próprio. Eu sou ontem e conheço amanhã, sempre e nunca. O templo de Sais, antiga cidade do baixo Egito, trazia gravado em seu frontespício: Eu sou tudo o que foi, que é, e que será, e nenhum mortal jamais levantou o véu que me encobre.

No México, segundo A. Leterre, em 1431, o rei Netzahualcovotl que, em criança, havia escapado milagrosamente de degolação dos filhos machos, como sucedeu a Cristna, a Moisés, a Jesus e a outros reformadores (lendas) , mandou construir templos, sendo o mais belo dedicado ao "Deus desconhecido". Dizia ele que ídolos de pedra e de madeira, se não podem ouvir, nem sentir, ainda menos poderiam criar o Céu e a Terra e os homens, os quais devem ser obra de um "Deus desconhecido", todo poderoso, a quem confiava a sua salvação. Esse Deus desconhecido do México, continua Leterre, deve ser aquele mesmo Deus que Paulo encontrou em Atenas, conforme se vê em Atos XVI, 23. O Ser Supremo dos Astecas era denominado Teotl; era impessoal e impersonificável. Dele dependia a existência humana. Era divindade de absoluta perfeição e pureza em quem se encontra defesa segura. Nos livros de Hermes, encontra-se o seguinte diálogo tido com Thoth, que bem define o espírito moral e intelectual daquelas eras: É difícil ao pensamento conceber Deus e a língua exprimí-lo.

Não se pode descrever uma coisa imaterial por meios materiais; o que é eterno não se alia, senão dificilmente, ao que está sujeito ao tempo. Um passa, outro existe sempre. Um é uma percepção do espírito, e outro uma realidade. O que pode ser concebido pelos olhos e pelos sentidos como os corpos visíveis, pode ser traduzido pela linguagem; o que é incorpóreo, invisível, imaterial, sem forma, não pode ser conhecido pelos nossos sentidos. Compreende, pois, Thoth, que Deus é inefável. Nos mesmos livros lê-se, também, o seguinte: Desconhecendo nossas ciências e nossa civilização, os vindouros dirão que adoramos astros, planetas e animais, quando, de fato, adoramos um só Criador e Onipotente. Na antiga Pérsia, Zoroastro chamava-o de Mithra-o Deus Criador, sendo Ormuzd, o Pai No Egito - Osiris. Na Fenícia - Adonis. Na Arábia - Bacchus. Na Frigia - Athis. Moisés - Jeová. Maómé - Allah.

Há quem afirme que o horror que os judeus tinham pelas outras nações, vinha de seu horror pela idolatria; mas é muito mais verossímil que o modo pelo qual eles exterminavam algumas povoações de Caná e o ódio que as nações vizinhas lhes dedicavam, fossem a causa dessa aversão invencível. Uma prova de que a idolatria das nações não era a causa deste ódio é que pela história do povo judeu se verifica que eles eram muitas vezes idólatras. Salomão sacrificava aos deuses estrangeiros. Depois dele não se vê quase nenhum rei na pequena província de Judá que não permitisse o culto dos deuses e que não lhes oferecesse incenso. A província de Israel conservou seu deus bezerro e seus bois sagrados, ou adorava outras divindades. Esta idolatria que se reprova em outras nações e que historiadores como Cesar Cantú acentuam, considerando o judeu como pouco afeito a superstições, é ainda uma coisa muito pouco esclarecida. Não seria, talvez, muito difícil, livrar desta reprovação a Teologia dos antigos.

Todas as nações civilizadas tiveram a crença em um Deus Supremo, mestre dos deuses subalternos e dos homens. Os egípcios reconheciam um princípio primordial que eles denominavam Knef, ao qual tudo o mais era subordinado. Os antigos persas adoravam o bom princípio chamado Oromase, e estavam bem longe de sacrificar ao mau princípio Arimane que eles encaravam, mais ou menos, como o católico encara o Diabo. Os guebros ainda hoje conservam o dogma sagrado da unidade de Deus. Os antigos brâhmanes reconheciam um só Ser Supremo; os chineses não associavam um só ser subalterno à divindade, e não tiveram um único ídolo até o tempo em que o culto de Fo e as superstições dos bonzos seduziram a população. Os gregos e os romanos, malgrado a multidão de seus deuses, reconheciam em Júpiter o soberano absoluto do Céu e da Terra. Homero, nas mais absurdas ficções da poesia, nunca se separou desta verdade.

Ele representa sempre Júpiter como o todo poderoso, que envia o bem e o mal à Terra, e que no momento em que franzia o sobrôlho, fazia tremer os deuses e os homens. Erguiam-se altares, faziam sacrifícios aos deuses subalternos, dependentes do Deus Supremo. Não há um só monumento antigo em que o nome do Soberano do Céu seja dado a um deus secundário, a Mercurio, a Apolo, a Marte. A idéia de um Deus Soberano, de sua providência, de seus decretos eternos, encontra-se em todos os filósofos, e em todos os poetas. É pois injusto pensar que os antigos igualassem os heróis, os gênios, os deuses inferiores àquele que eles chamavam o Pai e Mestre dos deuses, como seria ridículo pensar que hoje associamos a Deus os bemaventurados e os anjos. Voltaire, a quem recorremos com prazer de vez em quando, pergunta se os antigos filósofos e os legisladores apreenderam estas coisas dos judeus ou se o contrário foi o que se deu.

Vejamos o que nos diz Philon: ele confessa que antes da tradução dos ‘Setenta’ os estrangeiros não tinham o mínimo conhecimento dos livros judaicos. Os grandes povos não podem tirar os seus conhecimentos de um povo obscuro e escravo. Os judeus não tinham livros até o tempo de Josias. Foi encontrado por acaso durante o seu reinado, o único exemplar da lei que existia. Este povo, já desde o seu cativeiro em Babilônia, não conhecia outro alfabeto que o caldeu; não foi distinguido por nenhuma arte, por nenhuma miniatura de qualquer espécie; e mesmo no tempo de Salomão eles eram obrigados a pagar bem caro aos obreiros estrangeiros. Dizer que os egípcios, os persas, os gregos, foram instruidos pelos judeus, é o mesmo que dizer que os romanos aprenderam as artes com os filhos da Baixa Bretanha. Os judeus nunca foram, nem geômetras, nem físicos, nem astrônomos. Longe de ter escolas públicas para a instrução da juventude, em sua língua faltava até o termo para exprimir esta instituição. Os povos do Peru e do México regulavam o ano bem melhor que eles.

Sua permanência em Babilônia e em Alexandria, durante a qual os particulares podiam instruir-se, não formou o povo senão na arte da usura. Não souberam nunca cunhar moedas; e quando Antiochus Sidetes lhes permitiu possuir sua moeda à parte, eles puderam aproveitar desta licença, apenas, durante cinco anos; ainda se pretende que estas moedas foram cunhadas em Samaria. Daí serem raras as moedas judias e quase sempre falsas. Enfim, não encontrareis neles mais que um povo ignorante e bárbaro, que vive desde muito na mais sórdida avareza, na mais detestável superstição e no mais irreconciliável ódio por todos os povos que os toleram e os

enriquecem. Não é necessário, portanto, queimá-los. [ ] Em face de tudo o que deixamos escrito, é um tanto arriscado chamar o Judaismo de primeira religião monoteista aparecida na face da Terra.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.