[user_registration_my_account]
Capítulo 32 de 57
Eloista — parte 1 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
1º - XXIII - 24 - Não te inclinarás diante de seus deuses (dos moradores da terra), nem os servirás, nem farás conforme as suas obras; antes, os destruirás totalmente e quebrarás de todo as suas estátuas. 25 - E servireis ao Senhor vosso Deus e ele abençoará o vosso pão e a vossa água, e eu tirarei do meio de ti as enfermidades. 32 - Não faças concerto algum com êles ou com seus deuses. Na tua terra não habitarão, para que não te façam pecar contra mim; se servires aos seus deuses, certamente será um laço para ti. 2º - XX - 23 - Não fareis outros deuses comigo; deuses de prata ou deuses de ouro não fareis para vós. 3º - XXIII - 15 - A festa dos pães as mos guardarás; sete dias comerás pães asmos, como te tenho ordenado, no tempo apontado do mês de Abib; porque nele saíste do Egito.
E ninguém apareça vazio (sem oferta para os sacerdotes) diante de mim. 4º - XXII - 29b - O primogênito de teus filhos me darás. 30 - Assim farás dos teus bois e das tuas ovelhas; sete dias estarão com as suas mães e ao oitavo dia m'os darás. 5.° - XXIII - 12 - Seis dias farás os teus negócios, mas ao sétimo dia descansarás; para que descance o teu boi e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua escrava e o estrangeiro. 6.° - XXIII - 16 - E a festa da séga dos primeiros frutos de teu trabalho, que houveres semeado no campo, e a festa da colheita à saída do ano, quando tiveres colhido do campo o teu trabalho. Três vezes no ano todos os teus varões aparecerão diante do Senhor.
(Incluida a festa da Pascoa). 7º - XXIII - 18a - Não oferecerás a alma de meu sacrifício com pão levedado. 8º - 18b - Nem ficará a gordura da minha festa da noite até a manhã. 9º - 19a - As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus. 10º - 19b - Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.
Como claramente se vê, observa M. Campos, neste quarto mandamento é que se consignava o sacrifício dos filhos, oito dias após o nascimento para que, pelos menos, esgotasse o leite das mães. Esses mandamentos registrados por um escriba do sul no século IXº e por um do norte, no VIIº, contêm, certamente, parte dos velhos preceitos que trouxeram a Caná os primeiros semitas que aí penetraram no tempo de Abraão. Foram atribuidos ao arbítrio de Javé, também identificado ao Deus principal das lendas antigas. Influiram nos costumes dos cananeus, dos povos circunvizinhos e também nos sírios e fenícios. O fato de constarem do mesmo livro, próximos uns dos outros, esses mandamentos provam que os compiladores possuíam retalhos e a todos quiseram aproveitar. É claro que este decálogo, diz M. Campos, velho em demasia, já não nos pode servir, porque muito do que há nele é impraticável para nós. Quem cogitará hoje de expulsar de seu lar um palestino ou de dar a Javé tudo o que abre a madre?
Tampouco terá de aparecer perante Deus judeu nenhum de nossos machos e muito menos compreenderiamos num código, os escrúpulos culinários de cozinhar ou não, cabritos no leite das próprias ou de outras mães. Os dez mandamentos que ainda ornam os nossos catecismos, promulgados espetacularmente entre relâmpagos, trovões, buzinas, com o máximo desrespeito ao bom gosto e à discrição, sabemos com certeza que foram coligidos por algum sacerdote, ou alguns, de Jerusalém, para substituir os primeiros já ultrapassados. A qualquer é fácil averiguar que se enxertaram no texto antigo do Eloista, entre XIX, 25 e XX, 18, onde começa o corpo de preceitos mais antigos, conforme se vê: XIX - 2 - E disselhe o Senhor: - Vai, desce; depois subirás tu e Aarão contigo. O sacerdote, porém, e o povo, não transpuzessem o termo para subir ao Senhor, para que não se lance sobre eles (aí vem o enxerto do decálogo). XX - 18-E todo o povo viu os trovões e os relâmpagos e o sonido da buzina e o monte fumegando. E o povo, vendo isso, retirou-se e pôs-se de longe. 19-E disseram a Moisés: Fala tu
conosco e ouviremos e não fale Deus conosco para que não morramos. [ ] O decálogo repetido quase ipsis verbis no Deuteronômio (V - 6/21) é o seguinte: 1º XX - 2 - Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. 3 - Não terás outros deuses diante de mim. 4 - Não farás para ti imagens de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima do Céu, nem em baixo na Terra, nem nas águas debaixo da terra. 5 - Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus ciumento, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração daqueles que me aborrecem. 6 - E faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos. 2º - 7 - Não tomarás o nome do Senhor Deus em vão, porque o Senhor não tomará como inocente o que tomar o seu nome em vão. 3º - 8 - Lembra-te do dia do sábado para o santificar. 9 - Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. 10 - Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus, não farás nenhuma obra, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro que está dentro de tuas portas. 11 - Porque em seis dias fez o Senhor os Céus, a Terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descançou.
Portanto abençoou o Senhor o dia do sábado e o santificou. 4º - 12 - Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. 5º - 13 - Não matarás. 6º - 14 - Não adulterarás. 7º - 15 - Não furtarás. 8º - 16 - Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. 9º - 17a - Não cobiçarás a mulher de teu próximo. 10º - 17b - Não cobiçarás a casa de teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma de teu próximo. O primeiro e terceiro mandamentos, diz, ainda, o historiador, respondem ao formulário peculiar ao culto de Javé; os outros enumeram, bombasticamente, parte das exigências mínimas ingênitas ao homem, sem observância natural, sem condenação dos contraventores, das quais nenhuma sociedade, mesmo de selvagens, subsistiria.
Todo legislador profano que simulou haver a divindade ditado suas leis é visivelmente um blasfemador e um pérfido; um blasfemador, uma vez que calunia a Deus; um pérfido porque escraviza o seu povo as suas próprias opiniões. Há duas espécies de leis, diz o filósofo, uma natural, comum a todos e a todos útil. Não furtarás e não matarás o teu próximo; terás um cuidado especial com aqueles que te deram o ser e que construíram tua infância; não seduzirás a mulher de teu próximo; não mentirás para lhe causar dano e o auxiliarás em suas necessidades para que te tomes merecedor de auxílio. Eis as leis promulgadas desde o fundo das ilhas japonesas até as praias de nosso Ocidente. Nem Orfeu, nem Hermes, nem Minos, nem Licurgo, tiveram necessidade que Júpiter descesse à Terra, acompanhado de raios e trovões, para anunciar verdades que já se encontravam gravadas em todos os corações.
As outras leis são políticas; leis puramente civis, eternamente arbitrárias, que tanto estabelecem o eforato, como os consulados, os comícios por centúrias, ou por tribos; um aerópago ou um senado; a aristocracia, a democracia ou a monarquia. Seria conhecer muito mal o coração humano, imaginar que um legislador profano houvesse estabelecido suas leis políticas em nome de Deus, que não fosse para tirar partido, visando sempre aos seus próprios interesses. Mas nem sempre isto acontece. Ainda, hoje, em assembléias de magistrados se encontram almas retas e elevadas, que propõem coisas úteis à sociedade sem se jactanciarem de qualquer revelação. Houve, mesmo, entre os legisladores, vários que instituiram leis admiráveis sem as atribuir a Júpiter ou a Minerva. Tal foi o senado romano, que deu leis à Europa e pode-se afirmar ao mundo todo, sem os iludir, que a elas submeteu seus súditos, com mais facilidade que Hermes aos egípcios, Minos aos cretenses e Zalmoxis aos antigos citas. Com efeito, nenhum povo do mundo vê com indiferença a desintegração da fanulia, e o desrespeito filial.
Em toda a sociedade, mesmo nos tempos mais recuados, o nome foi sempre zelado. O assassínio, o furto, o despudor, o adultério, em todos os tempos foram sempre punidos. O falso testemunho, a inveja, foram sempre condenados por todas as religiões de todos os povos da Terra. No entanto, se encararmos a Bíblia, na sua dura realidade, sem o servilismo pelo dogmatismo, verificaremos que o furto e o assassínio estão nela consagrados quando exercido fora da comunidade. A prostituição era entre os judeus um hábito sagrado, sem reservas, como é fácil verificar no caso de Thamar (Gên. XXXVIII), e, no dizer de Morais Campos, é nas páginas sagradas da Bíblia que vamos encontrar a origem da torpeza do serralho. Vemos Rubem a trazer afrodisíaco para a sua própria mãe, que teve ainda que disputar com a irmã, sua rival de leito, não um lar, mas as primazias e as vantagens do alcouce.
E estaria Javé, pergunta o notável historiador, de acordo com o décimo mandamento, ao dar de herança ao povo adotivo, uma terra de que manava leite e mel, plantada de vinhas e olivais, semeada de cidades, à custa do trabalho milenar de outra gente que era necessário eliminar? E, por cúmulo, não sendo isso verdade, não passou de argumento teológico inventado dentro do ambiente religioso e moral, a favor do Deus racista? “Amarás a Deus sobre todas as coisas", mandamento moderno, por universal, é conceito alheio ao decálogo da Bíblia, mesmo em face da mística do Deuteronômio, ainda radicalmente judaica. “Não farás para ti imagens de escultura, etc." - Ruiu fragorosamente ante a vitória, sobre a intempestiva exaltação reformatória dos cristãos, do paganismo popular que transportou a engenharia de seus templos, o modelo dos altares e os
seus ícones coloridos, para dentro dos arraiais católicos. [ ] Eis a história dos mandamentos. Eles passaram por inúmeras transformações até chegarem aos nossos dias, igualando-se, por fim, àqueles mesmos dos tempos de Hamurabi que, por sua vez, foi buscálos na velha religião de Brahma. Aos dogmáticos nada aproveitará o que se encontra escrito, não é, pois, para eles que escrevemos, do contrário, estariamos perdendo o nosso tempo. Diz bem uma máxima brahmânica: Fácil é chegar-se a um acordo com o ignorante; mais fácil, ainda, com o que sabe distinguir as coisas; mas, aos homens enfatuados com um saber insignificante, nem Brahma é capaz de os convencer.
Será o Pentateuco obra de Moisés? Como verificamos em capítulo anterior, ficou provado que o primeiro livro atribuido a Moisés, não foi obra dele. Um cochilo, uma palavra, derrubou por completo a lenda secular de que o Gênesis foi escrito pelo patriarca dos judeus. O país dos assírios, fundado 151 anos depois de Moisés, não podia ter saído da pena do legislador, uma vez que ainda não existia. Se no versículo 14, do capítulo I do Gênesis, estivesse escrito: "O Tigre, rio que corre no país dos rotennous", não teríamos uma prova forte a mais para acrescentar contra a afirmativa de ser Moisés o autor do "Pentateuco", Mas, um descuido dos verdadeiros autores do Gênesis, pos tudo por terra, pois lá encontramos com todas as letras: "O Tigre, rio que corre no país dos assírios". Atribuir a Moisés tudo o que se tem pretendido, é impossível, sob muitos aspectos. Ninguém será capaz de escrever sobre sua própria morte, salvo em caso de manifestação espírita.
Em Deuteronômio, capítulo XXXIV, encontramos: E assim morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme ao dito do Senhor. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor e ninguém tem sabido até hoje a sua sepultura. Era Moisés da idade de 120 anos quando morreu: e seus olhos nunca se escureceram, nem perdeu o seu vigor. E os filhos de Israel prantearam Moisés trinta dias nas campinas de Moabe; e os dias de pranto do luto de Moisés se cumpriram. O Gênesis (XII, 6), descrevendo o caminho que seguiu Abraão desde a Mesopotâmia até Sichem, diz: "Ora, os cananeus ocuparam então o país", Logo não foi Moisés quem escreveu isso, porque só o seu sucessor os expeliu do país, depois de haver feito extermínios próprios de canibais. Tal documento só poderia ser escrito depois dos Juízes e no tempo dos reis sucessores, quando menos, Saul.
Não nos venham os defensores da paternidade de Moisés sobre o "Pentateuco" com a afirmativa de que, sendo ele profeta, poderia muito bem ter sido inspirado com relação ao futuro. É uma escapadela inaceitável. Temos, ainda, em favor de nossa tese, o fato de que nenhum profeta citou os livros do "Pentateuco", não fazem referência a eles, nem nos Salmos, nem nos livros atribuidos a Salomão, a Jeremias, a Isaías, enfim, em nenhum dos livros canônicos dos judeus. As palavras Gênesis, Êxodo, Números, Levítico, Deuteronômio não se encontram em nenhum escrito reconhecido por eles como autênticos. Em que língua teria Moisés escrito em um deserto selvagem? Não podia ser senão em egípcio, uma vez que é a própria Bíblia que afirma que Moisés e seu povo tinham nascido no Egito. Os egípcios daquele tempo ainda não se serviam de papiros; gravavam-se hieróglifos sobre a pedra mármore, ou sobre a madeira.
É, ainda, uma vez, a Bíblia que nos diz, que as tábuas dos mandamentos foram gravadas em pedra polida, o que exigia esforços e um tempo prodigioso. Será possível, indagamos, que em um deserto onde o povo judeu não possuia sapateiros e alfaiates, e onde o Deus do Universo era obrigado a fazer contínuos milagres para conservar as roupas surradas e os velhos calçados dos judeus, houvesse homens tão hábeis para gravar os cinco livros do "Pentateuco" sobre o mármore ou sobre a madeira? Responderão, naturalmente, que um bezerro de ouro foi feito por estes homens em uma noite, e em seguida reduziram o ouro a pó, operação impossível na química ordinária e ainda não descoberta; que construiram o tabernáculo ornado com trinta e quatro colunas de bronze, com capitéis de prata; que teceram e bordaram cortinas de linho, de jacinto, de púrpura e escarlate; mas estas declarações é que fortificam a opinião dos contraditores.
Eles contraporão que em um deserto onde faltava tudo, não era possível fazer obras tão extraordinárias; que era necessário fazer em primeiro lugar, calçados e túnicas; que para as pessoas a quem falta tudo, o luxo não entra em suas cogitações; e que é uma contradição a afirmativa de que entre o povo judeu existiam fundidores, bordadores, gravadores, quando faltavam o pão e a roupa. Se Moisés houvesse dito que Deus punia a iniquidade até a quarta geração, Ezequiel não teria ousado afirmar o contrário. (Ezequiel C. XVIII). Teria ele concedido quarenta e oito cidades aos levitas em um país onde não existiam dez, e em um deserto onde ele sempre errou sem encontrar sequer uma habitação? Teria ele escrito regras para os reis judeus, quando não havia reis entre seu povo? Então, Moisés teria dado preceitos para a conduta de reis que não existiram senão cinco séculos depois dele, e não teria ele escrito algo para os Juízes e pontífices que lhe sucederam?
Esta reflexão nos conduz a crer que o "Pentateuco" tenha sido escrito no tempo dos reis e que as cerimônias instituidas por Moisés eram, apenas, tradição. Poderia acontecer, diz o filósofo, que Moisés houvesse dito aos judeus: "Eu não vos fiz sair em número de seiscentos mil combatentes da terra do Egito, sob a proteção de vosso Deus?" – E os judeus certamente, lhe teriam respondido: "É necessário muita timidez para não nos atirardes contra o Faraó do Egito, ele não nos poderia enfrentar com duzentos mil homens. Nós o teríamos vencido sem esforço e seriamos os donos do país. Então! O Deus que vos fala degolou, para nos alegrar, todos os primogênitos do Egito, e se há neste país trezentas mil famílias, isto equivale a trezentos mil homens mortos em uma noite para vingar-nos, e vós não secundastes o vosso Deus! e não nos podieis ter dado este país fértil que os seus filhos não poderiam defender!
Preferistes fazer-nos sair como ladrões e covardes para nos fazer sucumbir no deserto, entre os precipícios e as montanhas! Poderieis, quando menos, conduzir-nos por caminhos certos para esta terra de Caná, à qual nenhum direito nos assiste, mas que nos prometestes e na qual não nos foi dado ainda penetrar."
Diz a Bíblia que Moisés escreveu o Decálogo [ ] sobre duas lâminas de pedra. A conclusão a que podemos chegar é que não existindo papirus naquele tempo, o chefe judeu, para escrever o "Pentateuco", isto é, os cinco volumosos livros a ele atribuidos, só podia se ter servido do mesmo material. A Bíblia, diz, ainda, que Josué fêz gravar sôbre um altar de pedras
brutas, rebocado de argamassa, todo o Deuteronômio. [ ] Se isso fosse verdade esta gravação nâo se teria conservado para os pósteros. Moisés não podia ter dito que se encontrava para lá do Jordão, quando, ao contrário, se encontrava para cá deste rio.
Ele não podia ter falado de cidades [ ] inexistentes em seu tempo. Ele não podia ter apresentado preceitos para conduta de reis, quando
estes não existiam ainda. [ ]
Ele não podia ter citado o livro do Reto-Justos [ ], porque este foi escrito no tempo dos reis. Ele não podia ter ordenado a seu povo pagar meio siclo por cabeça, segundo o siclo do santuário, porque os judeus não possuiam templos e
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.