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Capítulo 13 de 57
Parte 12 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
evolução. [ ] Diz ainda o grande naturalista, que as conseqüências de semelhante doutrina se compreendem de repente. Elas se resumem em algumas prescrições: trabalhar, amar, ajudar; rejeitar todos os sentimentos baixos e inferiores, tais como o egoismo, o ciúme e, sobretudo o ódio e o espírito de vingança; evitar tudo o que possa prejudicar os outros; não desprezar ninguém; não ver nos imbecis, nos perversos e criminosos senão seres inferiores, quando às vezes só se trata de doentes; e por conseguinte, ser-se indulgente para com os erros alheios; abster-se mesmo, na medida do possível, de julgá-los; estender, enfim, nossa piedade e nossos auxílio até aos animais, aos quais evitaremos o mais possível o sofrimento e aos quais devemos poupar a morte, a não ser em caso de absoluta necessidade; em último lugar, como conseqüência natural da nova doutrina, resignar-nos às desigualdades naturais e passageiras, resultado da lei evolutiva, e desprezar profundamente as desigualdades factícias, as divisões malsãs provenientes dos prejuízos de castas, de religiões, de raças e fronteiras, prejuízos que desaparecem imediatamente com a idéia de que os homens, em suas vidas sucessivas, passam todos pelas condições mais diversas.
Vede como a doutrina da imortalidade no monismo é satisfatória, quanto são belos seus dados e suas conclusões e quanta serenidade e consolação existe nela! Quem quer que haja penetrado nas suas concepções não poderá deixar de trabalhar para o futuro com todas as forças, sem mesmo se importar com o resultado atual ou com os benefícios imediatos, na realização de seu ideal de liberdade, de justiça e de amor. É que, com efeito, não há nada nestas idéias imortalistas, de análogo "às velhas canções que embalavam a miséria humana”, na expressão de Jaurés. Não se trata mais de esperanças sobrenaturais, milagrosas, contrárias à razão, furtando-se a toda a crítica, baseadas em uma palavra sobre o "credo quia absurdum". Trata-se de uma concepção perfeitamente natural da vida e do Universo. Esta concepção, longe de entorpecernos, encoraja-nos poderosamente à ação, pois nos dá a esperança de que nada, de nossas penas, de nossos trabalhos e de nossos esforços, será perdido.
Ela nos mostra o fim a atingir, não em um empíreo misterioso e incompreensível, mas simplesmente, em uma humanidade aperfeiçoada e melhorada; ela nos dá a certeza de chegar, pelo desenvolvimento ininterrupto da consciência individual, a acalmar plenamente nossa sede de ideal, a satisfazer nosso desejo de saber o que é o Universo em sua integridade, de apreciar e de desfrutar um dia tudo o que há de belo e de bom, não somente em nosso planeta, mas, também, nos milhões de sistemas solares, de estrelas inacessíveis, de mundos desconhecidos, de unir, em uma palavra, a Ciência terrestre à Ciência das esferas superiores e à Onipotência do infinito. Eis aí a que ficou reduzido o pecado origirial, a maldição que, segundo a teologia mistificadora, pertence a todos os que ingressam neste mundo de Deus, pelo fato de um casal primitivo e lendário, haver pecado, cumprindo a determinação do seu Criador de crescer e multiplicar-se. Não há nem poderá haver maior contradição do que esta!
Deus ordenou que os nossos primeiros pais crescessem e se multiplicassem, e porque eles procurassem cumprir a determinação de Jeová, pecaram e arrastaram os seus descendentes a esta interminável escala de misérias de que está repleto o mundo. Mas, senhores, tudo isto é pura invencionice. Fica aí, pois, a teoria elevada do alto espiritualismo científico. Ela não somente é lógica, consoladora e sublime, mas, acima de tudo, é reabilitadora do nome de nosso Criador, tido e havido pelo Cristianismo deturpado, como um Deus caprichoso e cruel. É esta a história do mal. Deus não cria filhos privilegiados, filhos diletos. Todos nós conseguimos a nossa situação atual, à custa de lutas ininterruptas, através das diversas encarnações por que passamos e não é este o nosso ponto de parada, pois a vida é infinita. Será justo que pelos pecados de nossos "primeiros pais" sejamos todos condenados ao sofrimento, à morte e mesmo a um inferno eterno? Não é a própria Igreja Romana que afirma que a nossa alma é criada pouco antes do nosso nascimento? Como se compreende que sejamos atingidos em nossa alma, nós que nada temos em comum com o primeiro casal?
Como se pode pensar que Deus tenha tido a intenção de criar na humanidade, toda uma raça de párias, destinada ao sofrimento, à desgraça, pelo erro de seus pais e apenas por haverem comido uma maçã? E a solicitação de Eva a Adão não seria pesada como uma circunstância atenuante? O Brahmanismo, queiram ou não queiram, tem uma concepção da justiça de Deus muito mais elevada. Em nosso livro "Como os Teólogos Refutam", reproduzimos a lenda de Ádima e Heva, tal qual se encontra no "Hari Pourana" e ainda, hoje, é cultivada na ilha do Ceilão. Pretendemos agora, para conhecimento dos estudiosos, registrar a mesma lenda, transcrita do "Ramatsariar - Preceitos e Comentários" e iremos verificar, mais uma vez, qual a origem da legenda de Adão e Eva, alicerce profundo, onde repousa o edifício do Catolicismo Romano e conseqüentemente o dogma ridículo do pecado original.
A Terra era coberta de flores, as árvores pendiam sob o peso dos frutos, milhares de animais pulavam de alegria nas planícies; as aves e os pássaros voavam satisfeitos, os elefantes brancos passeavam lentamente à sombra das florestas gigantescas, e Brahma compreendeu que era o momento de criar o homem que deveria povoar esta estância. Ele distinguiu o homem pela força, o talhe e a majestade, e o chamou Ádima (em sânscrito, o primeiro homem); A mulher recebeu em partilha a graça, a doçura e a beleza, e a chamou Heva (em sânscrito, o que completa a vida). Com efeito, dando uma companhia a Ádima, o Senhor completava a vida que lhe acabava de dar, e assentando, assim, as bases da humanidade que iria nascer, Ele proclamava a igualdade do homem e da mulher sobre a Terra e para o Céu.
Princípio divino que foi mais ou menos desconhecido pelas legislações antigas e modernas, e que só foi abandonado pela influência deletéria dos padres, quando da revolução brahmânica. 0 Senhor deu então a Ádima e a Heva, por morada, a antiga Trapobana dos antigos, a ilha de Ceilão, ilha bem digna por seu clima, seus produtos e sua esplêndida vegetação, de ser o Paraíso terrestre, o berço do gênero humano. Depois proibiu a Adima e Heva de deixarem Ceilão, e continuou nestes termos: Ide, lhes disse, uni-vos, produzi seres que serão vossa imagem vivente na Terra, por séculos e séculos, até que volvais a mim. Eu, Senhor de tudo o que existe, vos criei para me adorardes durante toda a vossa vida e aqueles que tiverem fé em mim partilharão de minha felicidade depois do fim de todas as coisas. “Ensinai isto a vossos filhos, que eles não percam nunca minha lembrança, pois eu estarei com eles todas as vezes que eles pronunciarem meu nome."
Depois proibiu a Ádimo e Heva de deixarem Ceilão, e continuou nestes termos: Vossa missão deve cingir-se a povoar esta ilha magnífica, onde tudo reuní para vossa satisfação e vossa comodidade, e espalhar meu culto no coração daqueles que vão nascer. O resto do Globo é ainda inabitável; se mais tarde o número de vossos filhos crescer de tal forma que esta ilha não seja suficiente para contê-lo, que eles me interroguem em meio aos sacrifícios, e eu farei conhecer minha vontade. Dito isto desapareceu. Então, Ádima, voltando-se para sua jovem mulher, a olhou... Seu coração pulsava no peito à vista de uma tão perfeita beleza... Ela se mantinha de pé diante dele, sorrindo em sua virginal candura, palpitante de desejos desconhecidos; seus grandes cabelos soltos, envolviam seu corpo, enlaçando em suas aspirais caprichosas, a sua pudica figura e os seus seios nus que a emoção começa a erguer. Ádima se aproximou dela trêmulo.
Ao longe o Sol desaparecia no oceano, as flores das bananeiras se erguiam para aspirar o orvalho da tarde; milhares de pássaros de plumagens variadas gorjeavam docemente no alto dos tamarindeiros e das palmeiras, os pirilampos fosforescentes começavam a volutear nos ares, e todos estes ruídos da natureza subiram até Brahma, que se rejubilava em sua mansão celeste. Ádima se animou então a passar a mão pela cabeleira perfumada da companheira; ele sentia como que um calafrio percorrer todo o corpo de Heva, e este frisson contaminou-o... Tomou-a, então, entre os braços e lhe deu o primeiro beijo, pronunciando baixinho o nome de sua companheira, Heva, que acabava de lhe ser dada... Ádima murmurava docemente a jovem mulher que o recebia... E cambaleante, agitada, seu belo corpo vergou sobre os braços de seu companheiro... A noite chegava, os pássaros silenciavam nas matas; o Senhor estava satisfeito, pois o amor acabava de nascer, precedendo a união dos sexos. Assim, o quis Brahma, para ensinar às suas criaturas que a união do homem e da mulher sem o amor seria uma monstruosidade, contrária à natureza e às suas leis.
Ádima e Heva viveram algum tempo em uma felicidade perfeita, nenhum sofrimento vinha perturbar-lhe a quietude; eles não tinham mais que estender a mão para colher os frutos mais saborosos; não tinham mais que abaixar-se para apanhar o arroz, o mais fino e o melhor. Mas um dia uma vaga inquietude começou a se apossar de ambos; ciumento de sua felicidade e da obra de Brahma, o príncipe dos Rackchasas, o espírito do mal, lhes insuflou um desejo desconhecido. - Passeemos na ilha, disse Ádima a sua companheira, e vejamos se não há ainda um lugar mais belo do que este. Heva seguiu o esposo; eles marcharam durante dias e meses parando às margens claras das fontes, sob as gigantescas árvores que lhes escondia a luz do Sol... Mas, à medida que eles avançavam, jovem mulher se sentia tomada de um terror inexplicável, de receios estranhos. - Adima, dizia ela, parece-me que desobedecemos ao Senhor. Já não abandonamos o lugar que Ele nos deixou para a nossa morada? - Não tenhais medo, respondeu Ádima, não foi daquela terra horrível, inabitável que Ele nos falou.
E eles marchavam sempre... Chegaram, enfim à extremidade da ilha de Ceilão; em frente e eles, viram um belo braço de mar, estreito, e de outro lado, uma vasta planície que parecia estender-se ao infinito; um estreito atalho formado de rochedos que se elevavam do seio das águas unia sua ilha a este continente desconhecido. Os dois viajantes pararam maravilhados; o lugar que eles avistavam era coberto de grandes árvores, pássaros de mil cores esvoaçavam por entre a folhagem. - Eis aí coisas muito belas, disse Ádima, e que bons frutos essas árvores nos devem dar! Vamos prová-los, e se este país for preferível ao nosso, aí plantaremos nossa tenda. Heva, trêmula, implorou a Ádima nada fazer que pudesse irritar o Senhor contra eles. - Não estamos nós em um bom lugar? Não temos água pura, frutos deliciosos, por que procurar outra coisa? E então! - Nós voltaremos, disse Ádima. Que mal nos pode causar o visitar este país desconhecido que se oferece a nossos olhos? E ele se aproximou dos rochedos. Heva o seguia tremendo.
Ele tomou, então, sua mulher nos ombros e pôs-se a atravessar o espaço que o separava do objeto de seus desejos. Assim que eles tocaram a terra, um barulho pavoroso se fez ouvir; árvores, flores, frutos, pássaros, tudo o que eles avistavam da outra margem desapareceu de repente; os rochedos. sobre os quais eles tinham vindo, afundaram no abismo das águas; somente algumas rochas agudas, continuaram a dominar o mar, como para indicar a passagem que a cólera celeste havia destruído. Estes rochedos que se elevam no Oceano Índico, entre a ponta oriental da India e a ilha de Ceilão, são ainda hoje conhecidos sob o nome de "Palam Ádima", isto é, pico de Adão. Assim que os vapores vão à China e à Índia, diz Jacolliot, pus3sam as Malvinas, o primeiro ponto da costa hindu que eles avistam é um pico azulado, muitas vezes coroado de nuvens, e que se eleva majestosamente do seio das águas. É do pé desta montanha que, segundo a tradição, o primeiro homem partiu para ir abordar a costa da grande terra.
Desde os tempos mais recuados, esta montanha traz o nome de "Pico de Adão", e é ainda sob este nome que a ciência geográfica moderna o designa. Continuemos a descrição de nossa lenda interrompida: A vegetação que eles tinham avistado de longe não era mais que uma miragem enganadora, suscitada pelo príncipe Backchasas para levá-los à desobediência. Ádima se deixou cair na areia nua; mas Heva veio a ele e se lhe atirou nos braços dizendo: - Não te desoles; roguemos, antes, ao autor de todas as coisas, que nos perdoe. No momento em que ela assim falava, uma voz se fez ouvir entre as nuvens e pronunciou as seguintes palavras: “Mulher, não pecaste senão por amor a teu marido, que eu te ordenei que amasses, e tu esperaste de mim. Eu te perdôo, e a ele por tua causa! Mas não mais entrareis no lugar de delícias que eu havia criado para a vossa felicidade. Pela vossa desobediência às minhas ordens, o Espírito do mal acaba de invadir a Terra...
Vossos filhos, reduzidos a sofrer e a trabalhar a terra por vossa falta, se tornarão maus e me esquecerão. Mas eu enviarei Vichnou, que encarnará no seio de uma mulher, e trará a todos a esperança da recompensa em uma outra vida, e o meio, orando a mim, de amenizar seus males”. Eles se ergueram consolados, mas daí por diante, tiveram que se submeter a um duro labor, para obter da terra o seu alimento. (Ramatsariar - Preceitos e Comentários sobre os Vedas) Que grandeza e que simplicidade nesta lenda hindu, e ao mesmo tempo quanta poesia! Como se agiganta da Eva bíblica a Heva brahmânica! Aquela é uma mulher bronca, sem iniciativa, sem ternura e sem beleza, ao passo que a outra, além de possuir todas essas qualidades, é conselheira do marido e não revela desânimo na hora da provação. O redentor hindu nascerá de uma mulher para recompensar Heva por não haver desesperado de Deus, e por não ter tido a idéia do primeiro pecado, do qual só foi cúmplice por amor para com aquele a quem o Criador lhe havia ordenado que amasse.
Há aí beleza e consolação, um contraste frisante daquilo que se lê na Bíblia, onde pode haver beleza, mas nenhuma consolação. Moisés, ou aqueles que escreveram em seu nome, deviam ter copiado integralmente esta lenda brahmânica e não transformá-la naquela que deu ensejo ao Catolicismo de criar a fantasia de um dogma ridículo: o pecado original. Mesmo assim, qualquer das duas lendas deve ser desprezada pelos homens de consciência sadia. Como se pode conceber que Deus seja dono de tais fraquezas e aceitar que ele por uma simples desobediência de nossos "primeiros pais" haja podido condenar a humanidade inteira, inocente, ao mal e ao sofrimento. O homem necessitava explicar a origem do mal e o seu raciocínio primitivo criou esta bela fantasia. Esta tradição nasceu, pois, de uma necessidade, e serviu de modelo a um mau pintor do Judaismo, que lhe esmaeceu as cores mais belas, dela retirando a perspectiva sublime da bondade divina e a poesia encantadora que lhe deu o Brahmanismo. Não devemos esquecer que Deus é justo e que, para que exista esta desordem aparente, é necessário haver uma razão digna de Deus. Mas a fantasia que lhe emprestam é simplesmente deplorável, e só se compreende a sua aceitação pela fraca mentalidade e pelo fanatismo humano.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.