[user_registration_my_account]
Capítulo 33 de 57
Eloista — parte 2 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
só os possuiram muitos séculos depois de Moisés. [ ] Vêde, caro leitor, se o selo da impostura foi alguma vez mais bem colocado? Não penetremos aqui nos detalhes dos prodígios espantosos que tornaram Moisés testemunha ocular. Milord Boligbroke repreende com extrema severidade aqueles que dão a paternidade do "Pentateuco" a Moisés e, sobretudo aqueles que fazem cantar um longo poema a este patriarca de oitenta anos, saindo do fundo do Mar Vermelho, à frente de três milhões de pessoas, às quais precisava alimentar e manter. Diz ele que é necessário ser-se "muito imbecil e tão impudente quanto um Abadie (teólogo protestante), para ousar trazer como prova de autencidade dos escritos de Moisés, a afirmativa de que ele os leu para todo o povo judeu”. É precisamente esta a questão. Aquele que os escreveu, seiscentos ou setecentos anos depois dele, pôde, sem dúvida, dizer que Moisés lera sua obra aos três milhões de judeus reunidos no deserto. Esta circunstância não é mais difícil de imaginar que as outras.
Milord acrescenta que as puerilidades de Abadie e de seus consortes não sustentarão este edifício monstruoso que desmorona de todos os lados e que cai sobre sua cabeça. O sábio Lacroze se explica desta forma sobre o começo do Deuteronômio, em seu manuscrito, que se encontra em Berlim: "Tantas palavras, tantas falsidades pueris e tantas provas saltam aos olhos sobre a impossibilidade de Moisés haver escrito qualquer dos livros que a ignorância lhe atribui". É falso que Moisés haja falado para além do Jordão, quando ele não o atravessou nunca, e morreu sobre o monte Nebo, longe e ao oriente do Jordão, conforme nos diz a Escritura. É falso e impossível que ele pudesse estar em outro deserto de Pharan uma vez que está dito que ele ganhou uma batalha nesta mesma época, no deserto de Moabe, a mais de cento e cinqüenta léguas de Pharan (Parã). É falso e impossível que ele estivesse nesse deserto de Pharan (Parã), próximo do Mar Vermelho, uma vez que o Mar Vermelho dista mais de cinqüenta léguas de Pharan.
É falso que haja muito ouro em Hazeroth perto de Pharan. Este miserável país, longe de possuir ouro, não possui senão calhaus. Dom Calmet repete em vão as explicações de alguns comentadores, bastante impudentes por dizer que para lá do Jordão significa para cá. É necessário, então, dizer que o em cima significa em baixo, que dentro significa fora, e que os pés significam a cabeça. O autor, qualquer que ele seja, faz falar Moisés sobre as margens do Mar Vermelho no quadragésimo ano e onze meses depois da saída do Egito, para dar força à sua narrativa pelo cuidado de marcar as datas; mas este cuidado o traiu, e faz aparecer todas as mentiras. Moisés saiu do Egito com a idade de oitenta anos; e a Escritura diz que ele morreu com cento e vinte. Assim, ele já estava morto quando o Deuteronômio o fez falar; e ele o fez falar em um lugar onde ele não esteve, e onde ele não podia estar.
Uma multidão de escritores indignada com todas essas incoerências as combate ainda hoje; ela demonstra que não há uma única página da Bíblia que não tenha um erro ou contra a Geografia ou contra a Cronologia, ou contra as leis da natureza, ou contra a História, ou contra o senso comum, ou contra a honra, o pudor e a probidade. Não aprovamos, diz irônico o filósofo, semelhante zêlo, condenamos as invectivas atiradas a indivíduos que só nos devem merecer piedade e lágrimas. Mas somos forçados a convir que seus argumentos ou as suas razões merecem um exame dos mais acurados. Será possível que ante considerações desta natureza, onde a razão penetra forte e fàcilmente, destruindo todas as barreiras da mentira e da invencionice, ainda se aceite o "Pentateuco" como obra de Moisês? Frei Lenormant, católico confesso, diz não poder submeter-se aos velhos meios de defesa, como homem de ciência que se preza de ser.
Não será imaginando que a existência de tal ou qual mito babilônico, feníncio ou iraniano corresponda a tal ou qual narração dos primeiros capítulos do Gênesis, que se confirma a realidade histórica deste. É antes a idéia diametralmente oposta. Não é em conclusão o que resulta da conformidade das fontes politeicas com o Gênesis que ele seja rigorosamente histórico, ainda mais quando a Bíblia nos oferece a verdade obscurecida em toda a parte: porém, muito ao contrário, resulta dos confrontos, que ela é puramente mítica e que o mito bíblico não tem outro
caráter, nem maior autoridade que as tradições de outros povos. [ ] É um homem eminente que se manifesta e cuja opinião é das mais preciosas porque pertence a uma religião que não tolera ser contrariada. O que se chama agora de Palestina era, naquele tempo, a terra de Caná habitada por um povo semita, os cananitas, muito semelhantes aos fenícios que fundaram Tiro e Sidom, e aos amoritas que conquistaram a Babilônia e, sob Hamurabi, fundaram o primeiro império babilônico. Os cananitas eram um povo sedentário e civilizado nos dias contemporâneos, talvez, dos de Hamurabi. Diz a narrativa bíblica, que Jeová prometeu essa terra risonha de prósperas cidades a Abraão e seus filhos O leitor verá no Gênesis, como Abraão, não tendo filhos, duvidou da promessa, nascendo-lhe, então, Ismael e Isaque. E, ainda, no Gênesis, acompanhará as vidas de Isaque e Jacó, cujo nome foi mudado para Israel, e dos doze filhos de Israel; e verá como nos tempos de uma grande fome, emigraram eles para o Egito. E com isso, o Gênesis, o primeiro livro do "Pentateuco" se encerra.
O segundo livro, o Êxodo, narra a história de Moisés. A história do estabelecimento e a posterior escravidão dos filhos de Israel no Egito é de difícil comprovação. Há um documento egípcio referente ao estabelecimento de certos povos semíticos na terra de Goshen, pelo faraó Ramsés II, e em que se afirma que foram trazidos ao Egito, pela falta de alimentos. Mas da vida e carreira de Moisés, não há nenhum documento egípcio; como não há de quaisquer pragas do Egito ou de qualquer faraó que se afogasse no Mar Vermelho. Há muito na história de Moisés de perfume mítico; um de seus mais notáveis incidentes, a sua ocultação pela mãe em um cesto, encontra-se, também, entre as antigas lendas sumerianas. Sargão, o rei poderoso, o rei de Acadia, sou eu; minha mãe era pobre, e meu pai não o conheci; o irmão de meu pai vivia nas montanhas... Minha mãe que era pobre deu-me à luz, secretamente; colocou-me num cesto de vime, tapou-o com betume e abandonou-me no rio, que não me tragou.
O rio carregou-me para diante e me levou até Akki, irrigador. Akki, o irrigador, recebeume na doçura de seu coração. Akki, o irrigador, fez-me jardineiro. Meu serviço como jardineiro foi agradável a Istar e eu me tornei rei. Isto é embaraçante E ainda mais embaraçante é a descoberta de uma lâmina de barro, escrita pelos governadores egípcios de uma cidade, em Caná; ao faraó Amenophis IV, que pertenceu a XVIII dinastia, anterior, portanto, a Ramsés II. Esse documento menciona claramente os hebreus pelo nome e declara que eles se achavam conquistando Caná. Ora, se os hebreus estavam conquistando Caná, ao tempo da 18ª dinastia, não podiam tê-lo feito, antes de conquistarem Caná, os oprimidos e cativos de Ramsés II, da 19ª dinastia. Forçoso é, pois admitir que a história do Êxodo, escrita muito depois dos acontecimentos que narra, tenha resumido, simplificado e talvez, personificado e personalizado em Moisés uma história, que na realidade foi um longo e complexo processo de lutas e incursões tribais.
Uma tribo hebréia podia ter sido arrastada ao Egito, onde se tornou escrava, enquanto outras já se achavam atacando as cidades cananitas mais exteriores. É mesmo possível que a terra do cativeiro não tenha sido o Egito (Misraim, hebreu), mas Misrim, ao norte da Arábia, do outro lado do Mar Vermelho. Todas essas questões são amplamente discutidas na Enciclopédia Bíblica
(Arts. Moisés e Êxodo) a que se deve reportar o leitor. [ ] Como está evidenciado, eis aqui mais um historiador que é contra a tradição de que Moisés tenha sido o autor do "Pentateuco". Apresenta provas e mostra a impossibilidade daquela narração bíblica. A. M. Berthelot, em "La Grande Encyclopédie", diz que em nenhuma parte se encontra, como na Ásia, tão grande variedade de religiões; sem falar das concepções dos povos de civilização primitiva, que não chegaram aos grandes sistemas religiosos. Foi na Ásia, diz o eminente enciclopedista, que nasceram todas as religiões, Judaismo, Cristianismo, etc. O Tora, ou os cinco livros de Moisés - Estes foram declarados canônicos pela comunidade que a eles se submeteu, mediante a intervenção do autor judeu Esdras (444 a. C.). O escriba Esdras, a cujos esforços deve o caráter canônico esta coleção composta de obras de diversos autores, conheceu com exatidão a sua origem. Cita os mandamentos do Pentateuco como dados por Deus pela boca de seus profetas (Esdras 9.10.11); mas depois que o Tora, já canônico, se considerou como autêntica revelação, mosaico de Deus, teve de formar-se paulatinamente, de conformidade com as circunstâncias de que as partes isoladas da lei foram postas na boca de
Moisés e por ele mesmo consideradas já anteriormente readatadas por ele. [ ] Diz F. Vigouroux em seu "Dictionnaire de la Bible": Encontramos dúvidas sobre a origem do Pentateuco em Andréas Masins (1573), que sofreu réplica do pouco independente Jacques Bonfrere em (1643); em Hobbes, em seu livro de “Leviathan” (1651). Muito adiantado de seu tempo se mostra, também, em juízo desta questão, Baruch Spinoza, negando no ‘Tractatus Theologico-Político’ a origem de Moisés e procurando demonstrar a formação gradual do Pentateuco e a participação que nele teve Esdras. Spinoza estava incitado pelas dúvidas que rabinos como Aben-Ezra (1167) haviam já manifestado muito cautelosamente. No entanto, as tais dúvidas não resolviam o problema, era necessário encontrar indícios seguros que permitissem diferençar entre si as partes distintas. Tem mérito imortal por havê-lo conseguido, o médico da Câmara de Luiz XIV, Jéan Astruc (1684-1764), em sua obra “Conjectures sur les Mémoires Originaux, dont il parait que Moise est servi pour composer les livres de Gênese".
Bruxelles, 1753. Partindo de principios apologéticos e procurando explicar os muitos relatos duplos e contraditórios, não se contentou, como B. Simon, com o expediente de que Moisés houvesse composto suas narrações, compilando-as de diferentes escrituras mais antigas, senão, que se esforça, também para desentranhar estas várias fontes. Faz o descobrimento de que determinados trechos evitam o nome de Jahwe, e em seu lugar dizem constantemente Elohim. Disso se deduz que Moisés aproveitou principalmente duas memórias a jawhística e a elohista. O seguinte ensaio que se faz para a solução deste ponto foi de Karl David Ilgen (quando reitor de Aschulfortz - 1798). Este descobriu não só uma, mas duas fontes no Gênesis, que evitavam o nome de Jahwe e deram Elohim em seu lugar. Há, pois, que diferençar além do jahwista, um primeiro e segundo elohista.
Partindo da necessidade de explicar, ajustando a um plano, o progresso que se manifesta no estudo do Gênesis, supôs F. Blaek, a quem se uniram F. Fuch, J. J. Stahelin e F. Delitzsch, que a narração tinha por base o fundamento do livro do elohista, que por esta razão se chama o livro fundamental e que este foi ampliado pelo Jahwista. A este último se deu o nome de ampliador e a toda hipótese o de "hipótese de ampliação." Entretanto, isto foi destruido pela circunstância de que sobre o mesmo sucesso se encontram de dois a três relatos que se contradizem. Os atribuidos ao ampliador, manifestam marcadamente um plano próprio, completamente independente do que se vê no livro Elohista. H. Hupfeld - 1853 tem o mérito de haver colocado a crítica no seu verdadeiro caminho, e muitos pontos de seu trabalho, sendo precedido por P. Gramberg e H. Ewald.
Hupfeld demonstra que o chamado escrito fundamental da hipótese da ampliação não é obra que tenha uniformidade: desta tem que descartar-se, antes de tudo e por completo, o primeiro elohista, separando todo o texto que erroneamente o havia sido atribuido. O separado e as ampliações da hipótese do mesmo nome têm que ser divididos entre o elohista e Hilgen e o jawhista daquela, o qual não é ampliador de modo algum. Mas bem podem deduzir-se destes escritos que um redator fez um amálgama das fontes que considerou igualmente exatas, equivocando-se, daí as contradições ou interpretando-os à sua maneira, coisa, hoje, comum nestes casos,
pelos menos eruditos. [ ] Apesar da mixórdia e da confusão que entre os próprios teólogos se estabelece com relação à Bíblia, que nunca chegarão a pô-la em ordem, é o próprio F. Vigouroux, Prêtre de Saint Sulpice, que nos diz que desde 1573 já se duvidava da autencidade do Pentateuco como obra de Moisés. É necessário que fique bem acentuado que nesta época era muito arriscado tal dúvida, ou tal discordância, e que ela foi ganhando terreno como ficou patenteado acima, até os nossos dias. "Pentateuco” (ou os cinco livros de Moisés) - Sabe-se, porque o dissemos em diferentes lugares, que o trabalho da crítica distinguiu no Pentateuco uma série de fontes ou documentos, notadamente o documento Jeovista-profético, o documento Eloista-Sacerdotal e o documento Deuteronômico, cuja combinação e mistura teriam dado nascimento ao estado atual dos textos; mas, quando se lhes procurou restabelecer a forma primitiva, reconheceu-se que eles tinham sido truncados, retocados, deslocados, interpolados, em condições de lhes não permitir a reconstituição com certeza.
O Pentateuco deve, pois, ser considerado, como um amálgama de peças de procedências diversas, às quais um redator de conjunto deu uma unidade mais exterior que real. A unidade é sobre o assunto tratado e em algumas proposições dogmáticas, como a eleição de Israel, o caráter espiritual da divindade, etc., há diversidade que vai até às contradições que se manifestam na sucessão dos fatos e na maneira de apresentá-los. Este resultado geral, contra o qual os representantes da tradição começaram por protestar, é hoje reconhecido pela maioria dos exegetas. Seu esforço se traduz hoje sobre a classificação dos principais documentos entrados na composição do Pentateuco. Se se coloca, por exemplo, o documento deuteronômico sob o rei Josias (620 aproximadamente a.C.), o documento jeovista-profético poderá ser transportado ao século XVIII, e o documento elohista-sacerdotal mais antigo, até a época do cativeiro ou da restauração.
O trabalho da redação, que deu nascimento ao Pentateuco tradicional, poderia, então, ser tido como contemporâneo da época de Esdras e Nehemias segunda metade do Vº século a. C. Tais são, salvo a variedade de detalhes, os pontos de vista que hoje prevalecem. Eles estão longe de ficar fora de objeções; temos da nossa parte insistido sobre o principal argumento invocado para manter a antiguidade do documento Jeovista-profético, isto é, que ele, autorizando a pluralidade dos santuários, repousava em verdadeiro engano, e levando o Deuteronômio à época de Josias esbarrava em grandes dificuldades; sustentava em conseqüência que a redação dos três documentos principais do Pentateuco devia ser colocada na época da restauração; a redação de conjunto seria, então deslocada ao IVº século, sem exclusão de adições e de retoques de datas, ainda, mais recentes.
O que complica esta questão de ordem, antes de tudo literária, é a ausência de uma cronologia da história judia para o período de mais de quatro séculos, que separa a destruição do reino de Judá da insurreição dos macabeus, e a falta de termos de comparação emprestados a documentos de uma incontestável autenticidade. Para a divisão do texto tradicional entre as fontes, torna-se indispensável consultar os tratados especiais. Algumas traduções modernas da Bíblia, notadamente, aquela
de Kautsch (na Alemanha), dão margem às indicações necessárias. [ ] É mais um estudioso do assunto, um homem de incontestável competência, que nos demonstra praticamente que o "Pentateuco" não pode ser obra de Moisés. E assim, vamos provando, que as confundem com as dos vultos eminentes nossas convicções, que se que temos citado, não são o produto de um espírito preconcebido, mas, sim, da elucidação da História através de um número considerável de autores. *** Eis o que nos diz Lewis Browne, querendo refutar os que afirmam que os conhecimentos e as tradições que nos foram legados pelo povo hebreu, eram exclusivamente seus: Digo surpreendente, porque é comum a idéia de ser a sabedoria de Israel de uma só espécie, como o feno na carroça de um fazendeiro. Na realidade, é ela mais variada que o sortimento de um mascate. Nem é de estranhar, se considerarmos a idade desse saber e os muitos países em que ele se acumulou. Nas suas peregrinações - não o esqueçamos - os judeus foram ao mesmo tempo mestres e discípulos.
Aprenderam com os egípcios, os cananeus, os babilônios, os gregos, os partos, os romanos, os árabes e todos os outros povos com que a boa ou má sorte os pôs em contato. A despeito de toda a exclusão a que estiveram perenamente sujeitos, apesar de todo o isolamento a que repentinamente se empenharam em submeter-se, nunca foram imunes da influência dos gentios. Do contrário, a sua sapiência sofreria necessariamente a sorte de todas as coisas nascidas do incesto persistente. Tornar-se-ia anêmica, depravada e estéril, fruto do adultério
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.