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Capítulo 39 de 57

Eloista — parte 8 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Mas se te apartastes de teu marido, que o Senhor te faça descair a coxa e inchar o ventre. E ele lhe dará a beber... (v. 17 em diante) Vejamos, agora, o que se encontra no Guattama (Comentários sobre Manú): Era um costume antigo o de conduzir a mulher acusada de haver se desonrado, recebendo os braços de outro homem que não fosse seu marido à porta do pagode, e entregue a um brahma sacrificador. Este último punha em um vaso com água trazida por um homem de classe misturada (pária), um caule de cousa (erva sagrada) com um pouco de terra retirada do de um animal imundo, e dava esta água à mulher para bebê-la dizendo-lhe: se tua matriz não recebeu a semente estrangeira, esta água. Maldita será para ti doce como a ambrosía; se ao contrário recebeste a mancha impura, morrerás... E renascerás no ventre de um chacal; mas antes, teu corpo será atingido de elefantíasis e cairá em podridão.

"Hoje a lei foi modificada de acordo com a norma religiosa". Impureza dos que tocam os mortos, segundo a Bíblia (Números) Aquele que toca o corpo de um homem morto fica impuro durante sete dias; ele deve para purificar-se, receber a asperção de água da expiação. Todos aqueles que entram na tenda de um homem morto, e todos os vasos que aí se encontram, são impuros durante sete dias. Todo o homem impuro torna impuro a todo aquêle que o toca. (C. XX) Impureza dos que tocam os mortos, segundo Manú e as tradições brahmânicas A impureza ocasionada pelo contato do corpo de um morto é declarada pela lei, que deve durar dez dias. (Manú - liv. 5) Os brâhmanes são purificados em três dias.

Aqueles que entram na casa de um vaysias ou de um soudra morto ficam impuros durante dez dias. Aqueles que entram na casa de um rei após a sua morte, são impuros durante três dias. A impureza que ocasiona o corpo de um brahma não dura mais de um dia. Assim que morre um homem todos os vasos de sua casa se tornam impuros. Os vasos de metal se purificam com o fogo, os de barro devem ser quebrados e enterrados.

Os homens se purificam com abluções de água lustral. Manú, diz Jacolliot, que nos fala sobre modos de purificação em uso no seu tempo, saindo destas práticas supersticiosas, exclama, elevando-se a uma altura desconhecida da Bíblia: De todas as coisas que purificam, a purificação na aquisição das riquezas é a melhor; aquela que conserva sua pureza se tornando rico é realmente puro, e não aquele que é purificado com a terra e com a água. Os homens instruidos se purificam pelo perdão das ofensas, pela esmola e pela prece. O brahma se purifica pelo estudo da Santa Escritura. Assim como os membros são purificados pela água, é o espírito pela verdade.

As doutrinas sadias e as boas obras purificam a alma. A inteligência é purificada pelo saber. Não pode ser posta em dúvida que estas impurezas dos mortos a contaminarem todos aqueles que deles se aproximam, e a tudo o que entra ou se encontra em suas casas, mesmo os seres inanimados, tenha sido um legado da India. Moisés copiou palavra por palavra essas tradições antigas; mas o que ele não quis imitar, diz o historiador, reabilitando estes costumes, são estas visões largas e estes grandes pensamentos que se encontram a cada passo em Manú, que resumia e que se inspirava nos sublimes ensinamentos dos Vedas. A Bíblia nunca conseguiu ultrapassar o seu modelo.

Pálido reflexo desta civilização antiga, que inspirou o Velho Mundo, dir-se-ia que tinha como lei apenas imitar as ridículas superstições com as quais os brâhmanes envenenaram o povo, para ocupar-lhe a vida, fazer-lhe esquecer do jugo e da perda da liberdade. E o que verificamos em tudo o que se encontra escrito, até agora, é que a India tem sido copiada mais em seus detalhes do que no conjunto da elevação de seus extraordinários princípios. Impurezas e purificações entre os Hebreus, segundo o Levítico Falai aos filhos de Israel e dizei-lhes; qualquer homem que tiver fluxo de sua carne, será imundo, por causa de seu fluxo. Esta, pois será sua imundícia por causa de seu fluxo; se a sua carne estanca o seu fluxo, esta é a sua imundícia. Toda a cama em que se deitar o que tiver fluxo, será imunda; e toda a coisa sobre o que se assentrar, será imunda.

E qualquer que tocar a sua cama, lavará os seus vestidos e se banhará em água, e será imundo até a tarde. Quando também o que tem fluxo cuspir sobre um limpo, então levará este os seus vestidos, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. Também toda a sela, em que cavalgar o que tem fluxo, será imunda. E qualquer que tocar em alguma que estiver em baixo dele, será imundo até a tarde; e aquele que a levar, lavará os seus vestidos, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. Também todo aquele em quem tocar aquele que tiver fluxo, sem haver lavado as mãos com água, lavará os seus vestidos e se banhará em água, e será imundo até a tarde.

E o vaso de barro, em que tocar o que tem fluxo, será quebrado, porém todo o vaso de madeira será lavado com água. Quando, pois, o que tem fluxo, estiver limpo de seu fluxo, contar-se-á sete dias para a sua purificação, e lavará os seus vestidos, e banhará sua carne em águas vivas, e será limpo. E ao dia oitavo tomará duas rolas ou dois pombinhos, e virá perante o Senhor, à porta da tenda da congregação, e os dará ao sacerdote. E o sacerdote oferecerá um para expiação do pecado, e outro para o holocausto; e assim o sacerdote fará por ele expiação de seu fluxo perante o Senhor. Também o homem, quando sair dele a semente da cópula, toda a sua carne banhará com água, e será imundo até a tarde.

Também todo o vestido, e toda a pele em que houver semente de cópula, se lavará com água, e será imundo até a tarde. Também a mulher, com quem o homem deitar-se com a semente da cópula, ambos se banharão com água e serão imundos até a tarde. (XV, 1 a 18) Ainda do Levítico: Impureza da mulher Mas a mulher quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer se banhará com água, e será imundo até a tarde. E tudo aquilo sobre que ela se deitar durante a sua separação, será imundo; e, tudo sobre o que se assentar, será imundo. E qualquer que tocar a sua cama, lavará os seus vestidos, e se banhará com água, e será imundo até a tarde. E qualquer que tocar alguma coisa, sobre o que ela se tiver assentado, lavará seus vestidos, e se banhará com água, e será imundo até a tarde.

Se também alguma coisa estiver sobre a cama, ou sobre o vaso em que ela se assentou, se alguém a tocar, será imundo até a tarde. E se, com efeito, qualquer homem se deitar com ela, e a sua imundícia estiver sobre ele, imundo será por sete dias; também toda cama, sobre que se deitar será imunda. E também a mulher, quando manar o fluxo de seu sangue, por muitos dias fora do tempo de sua separação, ou quando tiver fluxo de sangue, por mais tempo do que o de sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia será imunda, como nos dias de sua separação. Toda cama sobre que se deitar todos os dias de seu fluxo, ser-lhe-á como a cama de sua separação; e toda coisa, sobre que se assentar, será imunda, conforme a imundícia de sua separação. E qualquer que as tocar será imundo, portanto lavará os seus vestidos, e se banhará com água, e será imundo até a tarde.

Porém quando for limpa de seu fluxo, então se contarão sete dias, e depois será limpa. E ao oitavo dia tomará duas rolas, ou dois pombinhos, e os trará ao sacerdote, à porta da tenda da congregação. Então o sacerdote oferecerá um para expiação do pecado, e o outro para holocausto; e o sacerdote fará por ela a expiação do fluxo da sua imundícia perante o Senhor. Assim separareis os filhos de Israel das suas imundícias, para que não morram nas suas imundícias, contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles. Esta é a lei daquele que tem fluxo e daquele de quem sai a semente da cópula, e que fica por ela imundo.

Como também da mulher, enfêrma na sua separação, e daquele que padece do seu fluxo, seja varão ou fêmea, e do homem que se deita com mulher imunda. (XV, 19- 33) Impurezas e purificações entre os Hindus, segundo os Vedas e o comentador Ramatsariar Ramatsariar é um sábio da mais alta antiguidade, grandemente venerado pelos teólogos brahmânicos do sul do Hindustão, e tido como autoridade em tudo o que diz respeito às purificações, às cerimônias e sacrifícios do culto. Os Vedas, ou Escritura Santa, têm como princípio sobre a purificação, que a do corpo deve ser feita pela água e a do espírito pela prece e as boas obras. É assim que Ramatsariar se exprime sobre o assunto de que tratamos: É um estado do homem e da mulher que os impede de tomar parte em festas de família e nas cerimonias do templo, pois, são impuros, e as abluções feitas com as águas sagradas do Ganges não os purifica antes da cessação deste estado. Impurezas do homem Todo o homem que houver contraido uma doença pelo uso ou abuso das mulheres, será impuro enquanto ela perdurar, até a sua cura, e dez dias e dez noites depois que isso se verifique. Seu hálito é impuro, sua saliva é impura, seu suor é impuro.

Ele não pode comer nem com sua mulher, nem com seus filhos, nem com nenhum outro de seus parentes ou de sua casta; os manjares se tornam impuros; impuros serão também durante três dias, todos os que comerem com eles. Seus vestidos são maculados e devem ser purificados com a água lustral e todos os que o tocarem se tornam imediatamente impuros durante três dias. Aquele que lhe fala, colocando-se contra o vento, é impuro e se purifica pela ablução da tarde quando o sol se deita. A esteira de seu leito é impura, e nada pode purificar; ela deve ser queimada. Seu leito é impuro e deve ser purificado pela água lustral.

Os vasos de que se serve para beber, os pratos de barro cosido sobre os quais ele coloca seu arroz são maculados; eles devem ser quebrados e enterrados. Se estes vasos ou estes pratos são de cobre ou de outro metal, eles podem ser purificados pela água lustral ou pelo fogo. Toda a mulher que consentir em juntar-se a ele, conhecendo o estado no qual ele se encontra, será impura durante dez dias e dez noites, e deverá oferecer o sacrifício da purificação depois de se haver banhado na piscina destinada às manchas vergonhosas. Este homem assim impuro não poderá terminar as cerimonias funerárias pelo aniversário da morte de seus parentes; o sacrifício seria impuro e repelido pelo Senhor de todas as criaturas. O cavalo, o camelo, o elefante, sobre os quais ele montar para as suas peregrinações, serão impuros e deverão ser lavados com água, na qual se deverá dissolver uma tigela de cousa.

Se ele conclui a sua peregrinação no Gange, suas faltas não serão remidas, porque ele o fez estando impuro. Se ele traz água do rio sagrado não poderá servir à preparação da água lustral, pois ela se tornará impura como ele. Se ele bate neste estado em um homem de sua casta, ele será condenado ao duplo da multa ordinária, e aquele que for batido será impuro até o deitar do sol. Quando ele estiver curado, ele se banhará na piscina das manchas vergonhosas, depois fará suas abluções com água lustral, e consagrará todo um dia à prece, pois ele o não pode fazer até este dia. Ele fará abundantes esmolas aos sauniassys.

Ele se encontrará, então, à porta do pagode, onde depositará oferendas de arroz, de mel e manteiga branca, com um cordeirinho que não foi ainda tosquiado. Se ele for pobre e não puder oferecer um cordeiro, ele oferecerá um casal de pombos, sem manchas, e que ainda não hajam entoado a canção do amor e tecido seu ninho. Ele então se tornará puro, e poderá se reunir a sua mulher e aos seus filhos. Ainda segundo os hindus: Impureza da mulher 0 divino Manú disse: Dezesseis dias completos, com quatro dias distintos, interditos por pessoas de bem, formam o que se chama a estação natural da mulher, durante a qual seu marido pode achegar-se a ela com amor, seduzido pela atração da volupia. Destes dezesseis dias, os quatro primeiros sendo já interditos, assim como o décimo primeiro e o décimo terceiro, os dez outros são aprovados.

O Veda diz: O marido deve respeitar sua mulher durante a estação natural, como se respeita a flor da bananeira, que anuncia a fecundidade da próxima colheita. O décimo primeiro e o décimo terceiro dias são atingidos de interdição por motivos de abstinência. Os quatro primeiros dias são olhados como engendrando a imundícia e a vergonha para todos aqueles que os não respeitam. Durante os quatro dias, a mulher é impura; que ela se refugie no fundo de sua casa e se esconda longe de seu marido, de seus filhos, de seus criados. Seu hálito é impuro, sua saliva é impura, seu suor é impuro.

Tudo aquilo que ela toca se torna impuro no mesmo instante, e o leite se coalha no vaso que ela tem entre as mãos. A esteira de seu leito é manchada; deve ser queimada e o leito banhado com água lustral. Todas as coisas sobre as quais ela repousar serão impuras, todos aqueles que a tocarem se tornam impuros e deverão purificar-se com o banho à tarde. Que ela não pronuncie o nome de seu marido, nem de seu pai, nem de sua mãe, neste estado, pois ela é impura e os maculará. Que ela não se esfregue com açafrão.

Que ela não se enfeite com flores. Que ela não faça trançar seus cabelos pelas suas empregadas, neste estado, ela deve evitar os queixumes. Que ela deixe suas jóias, elas se tornarão impuras e precisariam ser purificadas pelo fogo. Ela não deve comer nem com seu marido, nem com seus filhos, nem com suas empregadas, mesmo que sejam mulheres da mesma casta que ela. Que ela se resguarde de fazer oferecimentos e de assistir a cerimônias fúnebres, suas oferendas seriam impuras e as cerimônias seriam maculadas.

Se esta impureza de quatro dias estabelecida pelo divino Manú, se prolonga por dois, por quatro ou dez dias, a purificação não poderá ter lugar durante este lapso de tempo; assim o prescreve a lei. Assim que todos os sinais exteriores cessarem, e depois de dois banhos, o da manhã e o da tarde, que são chamados banhos do sol levante e banhos do sol que dorme, que ela termine de purificar-se com água lustral. Que ela vá então à porta do pagode e aí deposite suas oferendas de arroz, de mel e de manteiga branca; que ela ofereça igualmente, um cordeirinho, sem mácula, que não tenha sido ainda tosquiado e se não puder, um casal de pombos que não hajam entoado a canção do amor, nem trançado seu ninho. E tendo feito isto, estará purificada e poderá retornar às suas ocupações no lar. E ela poderá chamar a si seu marido que havia fugido, em execução desta ordem da Escritura: "Aquela que, durante as noites interditas, se abstem do comércio conjuqal. se conserva tão pura como um dwidja ou um brahmatchar (discípulo da Santa Escritura, estudante de Teologia)".

É necessário muito fanatismo para negar as semelhanças flagrantes entre a Bíblia judaica, ou melhor, a sociedade judaica e a hindu. Ora, como ninguém ignora a ancianidade da India, nem os Vedas préhistóricos, convirão, por certo, que a lndia não poderia ter copiado Moisés. Moisés faz imolar um boi diante do altar, a exemplo dos brâhmanes, dos hierofantes egípcios, dos magos da Pérsia e dos padres da antiga Grécia; em vez de ver nisto uma imitação, diz Jacolliot, bem natural dos usos tão velhos quanto o mundo, os Jesuitas Menochius e de Carrières encontram o emblema, a figura da Eucaristia. Moisés aconselha os banhos exigidos pelo clima e se inspira nas regras editadas por Manés e Manú; em lugar de reconhecer que ele não fez senão seguir, o costume generalizado no Oriente, os mesmos jesuitas vêem nestes banhos impostos aos hebreus a imagem da pureza da nova fé, que deverá mais tarde regenerar o mundo cristão. Diz o eminente indianista, que é sempre o mesmo o sistema de comentário: não se quer admitir que o ato mais insignificante não tivesse nascido no Sinai e não seja de inspiração divina.

Mas, para sustentar esta opinião, a que tristes argumentos não são eles obrigados a descer! Por que espantar-nos? Não sabemos nós, desde muito, que não há para certas castas, nem verdades históricas, nem bom senso, nem razões fora das suas ou de seus adeptos? Será que os brâhmanes, os magos, os levitas, os hierofantes pretendendo-se os eleitos de Deus, os únicos dispensadores da verdade e do bem, consenteriam em deixar-se contrariar um só instante? Será que não fizeram tremer os reis que quiseram subtrair-se à sua influência?

Não teriam eles reinado pela tortura e pela fogueira?... Porque, ainda uma vez espantar-nos se a tradição continua, se a herança encontrou herdeiros, e se o levitismo moderno emprega toda as suas forças e dá todas as suas reservas por uma batalha suprema, com o objetivo confesso de proscrever a razão e a liberdade, e de restaurar o velho despotismo sacerdotal, que

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