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Capítulo 43 de 57

Eloista — parte 12 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

terminará crêde-nos, senão com o desaparecimento do último hindú. [ ] Nada desejamos acrescentar a esta citação de Herder, que resume em duas páginas o caráter especial da civilização brahmânica. As doutrinas dos hindus se conservam imutáveis... Tudo neste povo é sua obra manifesta: seu caráter, sua maneira de viver, seus detalhes mais ínfimos, sua língua, seu gênio... Enquanto existir, este povo não será aliado de nenhum outro... Os brâhmanes exerceram, durante milhares de anos, uma imensa influência sobre o pensamento humano..., etc., etc.. Pergunta Jacolliot, o que concluir destas verdades afirmadas em todos os estudos orientais? Que a reprovação de haver imitado os povos antigos não pode atingir nunca ao hindu. Os que assim afirmam, agem, sempre, dentro de um interesse, seja de seita religiosa ou de casta científica. No último século, os Filehelenos (amigos dos helenos) e Egiptólogos se entregaram a discussões intermináveis para saber qual era a mais antiga das civilizações, a grega, a egípcia ou a assiriana.

Hoje, que a antiguidade dos egípcios e dos assírios não pode ser mais posta em dúvida, é a antiguidade da lndia que certos egiptólogos e assiriólogos retardados atacam, desejando que a Ciência se imobilizasse nas suas pretensas descobertas. Não está longe a hora desta revelação da velha mãe hindu, de que nos fala M. de Jancingny, senão completa, ao menos suficiente, para retirar todas as dúvidas e confundir todos os que têm agido de má fé. A lndia, diz o ilustrado Jacolliot, acumula provas bastantes em favor de sua extraordinária antiguidade. Ruinas, esculturas, inscrições, manuscritos, documentos de toda a espécie sobre Literatura, Artes, Ciências, Religiões e Filosofia, são cedidos em profusão por este nobre país.

Aqui não há sistemas engenhosos a apresentar, senão traduzir e expor as ciências dos brâhmanes; este papel é demasiado modesto para os nossos sábios oficiais, e depois o Céu da India está cheio de esplendores mortíferos, e por isso, é mais fácil debater um texto da Bíblia ou uma inscrição cuneiforme, em seu gabinete, do que os ir desbravar. É certo que se a pátria dos Vedas, apesar de haver conservado, segundo as expressões de Herder, sua Astronomia, sua Cronologia, sua Física, sua Jurisprudência e suas crenças da mais alta antiguidade, não podia ser reconstituida senão com o auxílio de alguns fragmentos de textos recolhidos sobre colunas quebradas, de capitéis caídos sobre a erva, há muito tempo que a Ciência titulada lhe teria restituido na história da humanidade o lugar ao qual ela tem direito.

Em seu discurso de instalação como Presidente da Sociedade de Etnografia, assim se expressava o eminente professor de japonês, M. de Rosny: Começam a tomar-nos emprestado nossas idéias, sem nos citar bem entendido; e eu aprendi anteriormente que a teoria que professais há dez anos da ciência etnográfica, acaba de nos chegar da Alemanha, com a grande satisfação dos admiradores da ciência germânica. Eu também admiro a erudição germânica, mas não creio, precisamente, que tenhamos a lucrar, trocando a nossa maneira de fazer a Ciência contra aquela de nossos vizinhos, os alemães. Em todo caso, protesto energicamente contra a atitude dos sábios franceses que não sabem acolher senão pela conspiração do silêncio as descobertas de seus compatriotas não titulados e que vêm em seguida rufar tambores para anunciar estas mesmas descobertas, quando elas chegam à França sob uma falsa etiqueta ou por um canal estrangeiro.

Esperemos que, malgrado esses sábios que bebem suas inspirações na Alemanha, e os que, por esterilidade de espírito, se cingem a fazer importação científica, a França ocupará um lugar importante na obra de reconstituição da primitiva civilização brahmânica. Diz mais o eminente professor que chegam mesmo a inventar civilizações que nunca existiram, para se fabricarem iniciadores imediatos, e não terem que remontar às margens do Ganges. Aconselhariamos ao leitor, em face da vastidão do assunto, a folhear pacientemente a extraordinária obra de L. Jacolliot "La Genese de l'Humanité", da qual estamos sendo quase que compilador. M. Hallevy formula uma das verdades de superfície. Os japoneses assimilaram os costumes exteriores principais, mas o fundo de sua religião, de suas leis, vêm da lndia. Está provado que o japonês pertence à grande família das linguas sânscritas.

Mas, se por ventura, nos for concedido mais alguns instantes de atenção, prolongaremos nossa tese, servindo-nos de um personagem eminente que desafia os sábios do mundo a provarem a existência dos acadianos, sumerianos e turanianos, estes de descobrimento mais recente, mas que os estudiosos deixaram sem provas que evidenciassem a sua existência. Trata-se do eminente M. Helévy, apontado por Jacolliot do qual iremos transcrever o resumo da segunda pane da arenga que este sábio manteve com os seus colegas, sem que estes se dignassem de responder-lhe, de acordo com as suas arguições simples e de natureza etnográfica: Enquanto os mestres da ciência assiriológica discutem o nome da nação turaneana, que inventou a escrita cuneiforme, e iniciou os babilônios nos conhecimentos indispensáveis para uma vida civilizada, que me seja permitido perguntar se a existência mesma de uma nação turaneana sobre o baixo Eufrates não destrói as mais sadias noções que a Etnografia, ajudada pela História e pela Geografia, nos forneceu até o presente sobre a antiga população deste país?

Esta questão espantará sem dúvida os sábios aos quais eu me dirijo. Eles me lastimarão talvez de ignorar... Talvez me acusarão de fingir e ignorar as fortes e numerosas provas que os corifeus da assiriologia representaram durante vinte anos, para demonstrar o turanianismo da antiga civilização babilônica. A isto eu respondo: gosto mais de parecer ignorante que crédulo. As provas dadas pelos assiriólogos são de um caráter puramente lingüístico: diz-se que a língua que resulta de certas inscrições, descobertas em Babilônia e Assíria se assemelham e por seu capital lexicográfico e por seu mecanismo gramatical às línguas turanianas, sobretudo aos idiomas ougro-finlandês. Admitimos no momento, a exatidão desta inscrição... Que se poderá concluir disto? Seria necessário concluir, penso eu, que um povo turaniano, mais ou menos vizinho da Mesopotâmia, tinha chegado, em uma época muito recuada, a um alto grau de civilização e que esta civilização turiana foi adotada pelos semitas da Babilônia.

Colocai este povo turaniano na Armênia, e se quiserdes melhor, nas portas do Cáucaso, ou na Asia Menor, lá as raças aborígenes não eram nem semitas nem arianas e o vosso sistema não encontrará dificuldades intransponíveis. Fareis justiça aos escrúpulos de vossos adversários, citando a civilização japonesa, devida quase que inteiramente à China. Dir-lhes-eis: uma vez que se escrevem no Japão livros em chinês, por que os babilônios não podiam redigir as epígrafes na língua de seus civilizadores turanianos? Enfim, limitando-vos a observar a origem turaniana da civilização assírio-babilônica, ficareis nos limites de vossos estudos linguísticos e não encontrareis senão poucas contradições. Mas, permiti-me dizer que saireis destes limites naturais, assim que estiverdes seguros de que este povo turaniano habitava outrora a Babilônia, não importa em que parte, e formava um numeroso elemento da população primitiva. Com isto tendes passado ao domínio da Etnografia e deveis esperar que vos pedirão provas.

Tomo, pois, a liberdade de submeter-vos as duas questões seguintes: 1° - Como se faz que um autor antigo não mencione a existência de um povo não semítico em Babilônia, ainda mesmo, o autor do capítulo X do Gênesis, cuja antiguidade e conhecimento exatos da Mesopotâmia não podem ser postos em dúvida? 2° - Um povo que viveu milhares de anos em um país não desaparecia sem deixar traços de sua existência. Há mais ou menos dois mil anos depois que a nacionalidade judia desapareceu da Palestina e, no entanto, o viajor ouve a cada passo reminiscências hebraicas. Não falo nos nomes geográficos que se perpetuaram, embora com uma forma alterada. E a França não nos traz ela, em sua nomenclatura geográfica, a marca das correntes etnográficas que lhe invadiram o solo?

Como, pois, imaginar, continua Helévy, que o povo mais civilizado e mais original da Babilônia haja arrastado na sua perda os nomes geográficos dos lugares que habitava, e das cidades que tinha criado, enquanto que os nomes próprios de origem semítica ficaram até hoje? Citai, eu vos peço, um só nome de montanha, de rio ou de cidade que seja devida a esta língua singular que chamais turaneana. Contento-me, no momento, continua o sábio, em pedir uma explicação clara sobre êstes dois pontos muitos simples e de natureza etnográfica; não é aqui que o lado etnográfico da questão pode ser resolvido. Confesso que já tenho remorso de haver admitido por um instante a tese principal de nossos sábios colegas, ao ter conhecimento de que o turanianismo dos documentos é nomeado acadiano por uns, e sumerianos, por outros. Eu os considerei sempre como textos assírios, diz Helévy, escritos em um sistema particular de ideografismo. É fora de dúvida que as antigas civilizações assírias e babilônicas não nasceram no solo onde se desenvolveram. Toda a gente está de acordo sobre este ponto.

Mas a primeira questão que decorre desta opinião é qual seria o país iniciador? Intermináveis discussões começam... Isto dura há vários anos sem que se esteja mais próxima de um entendimento, que nos primeiros dias. Um diz: chamo acadiano os povos de origem turaniana que inventaram os caracteres cuneiformes, e iniciaram os babilônios nos primeiros conhecimentos da vida civilizada; a língua que eles falavam, chamo-a de língua acadiana. Eu, diz outro, dou a esta língua o nome de sumeriana, e aos povos que a falam o de sumerianos. Mas, como um sábio que se respeita não pode adotar nomes imaginados por outros, a língua dos cuneiformes recebe sucessivamente os nomes de kasdo-acytica, kasdo-semítica, kardeen-caldaica e proto-caldaica. Discute-se gravemente sobre este povo desconhecido, bem e devidamente batizado uma meia dúzia de vezes; inventam-se argumentos que se dizem irrefutáveis, de fazer empalidecer a escolástica e Bizâncio... O público escuta seriamente, imaginando que estes sábios lutadores vão brevemente se por de acordo sobre um nome definitivo!...

Quando de repente um terceiro partido avança e dá em cheio sobre o castelo de cartas tão laboriosamente edificado. Nunca existiu a vossa nação turaniana, diz ele aos outros... Vossa opinião não é nem mesmo uma hipótese aceitável, pois ela é combatida pelas mais sadias noções que a Etnografia, ajudada pela História e pela Geografia, forneceu até o presente sobre a antiga população das margens do Eufrates. Ah! Se colocardes o vosso povo turaniano na Susiana ou na Armênia, no Cáucaso, em um país, enfim, sobre o qual a história do passado seria inteiramente muda, vossos adversários nada teriam a responder por falta de argumento, nadarieis na pura linguística e não vos poderiam acompanhar neste terreno perigoso cheio de velhos troncos e raízes... Mas eu quero admitir, por um instante, esta tese impossível, de meus sábios colegas... um povo que viveu milhares de anos em um lugar, não desapareceria sem deixar numerosos traços de sua existência!...

Todos os vossos documentos chamados por uns acadianos, sumerianos, por outros, são simplesmente textos assírios, escritos em um sistema particular de ideografismo... Assim, acadianos, sumerianos, kasdo-asyticos, proto-caldeus, etc... todos estes povos não existem senão na imaginação das pessoas que os inventaram. É um sábio, que põe outros sábios, seus colegas, em desafio de fazer prova da existência de tais povos. Deixai, pois, continua Helévy, todas essas torturas de imaginação que vos impondes para encontrar o povo iniciador da Babilônia, procurando criar um de acordo com a necessidade... Este lugar foi o grande caminho das imigrações hindus; foi por aí que os filhos dos brâhmanes foram à Asia Menor, à Arábia, ao Egito, à Grécia, ao Latium, e semearam com muita profusão por onde passaram, suas idéias, suas tradições, seus costumes, suas leis; e é bom que se reconheça que a lndia foi a "alma parens" das nações da antiguidade, como ela é de todos os povos da Europa moderna, se não se quer, como já dissemos, pretender que a civilização hindu haja gradualmente tomado de empréstimo todos os costumes, todas as leis, todas as crenças dos povos antigos e modernos.

Não poderia surgir no espírito de ninguém, sustentar uma hipótese, que estaria não somente em contradição flagrante com a História, a Geografia, a Filosofia e a Linguística, mais, ainda, com os mais vulgares dados do senso comum etnográficos. Como ousar-se, por exemplo, sustentar que o sânscristo, que formou as línguas indo-européias, e que é ancestral imediata de todos os idiomas do Oriente, não seja, mais do que um composto de todas essas línguas? O absurdo desta proposição seria tal, que ninguém tomou ainda sobre si a primazia de anunciá-lo. Em geral, a maternidade da lndia não é afastada pelos nossos sábios oficiais, mas, todos admitem a lndia como base; assim cada um em seguida quer subtrair à sua influência os motivos particulares de seus próprios estudos. (L. Jaccoliot - La Genese de l'Humanité) . Escutai Herder, segundo William Jones, falando da velha terra dos brâhmanes: Cada um sabe a que elevação chegou a poesia entre a maioria dos povos da Ásia Meridional, ou seja, entre os hindús.

Mas ela é velha e tem caráter, nobreza e simplicidade, o que lhe trouxe o nome de divina. É ela um pensamento brilhante, irei, mesmo, mais longe, é ela somente uma hipótese engenhosa que veio ao pensamento de um ocidental moderno e onde se pudesse encontrar o traço ou o germe em alguma máxima ou ficção orientais? O comércio da Ásia é o mais velho da Terra, e é ao asiático que se é devedor das mais importantes descobertas comerciais: pode-se dizer outro tanto da Astronomia e da Cronologia. Poderiamos, sem sermos tocados de espanto, contemplar o espetáculo da rapidez com a qual se multiplicaram os princípios de observação e de processos astrônomicos que os povos mais antigos da Ásia podem reinvidicar sem contradita. Seus antigos filósofos eram os filósofos do Céu, os observadores da marcha progressiva e silenciosa do tempo, pois o espírito de cálculo se tinha desenvolvido entre eles tanto quanto em nossos dias.

Os brâhmanes fazem mentalmente operações matemáticas fabulosas; todas as divisões do tempo lhe são familiares, desde a medida mais ínfima, até as grandes revoluções do Céu; embora não estejam à sua disposição os meios de que se servem os europeus, é raro vê-los cometer um erro; a antguidade lhes negou as fórmulas que eles aplicam hoje; nossa divisão do ano é asiática; nossos caracteres aritméticos e astronômicos são de origem hindú. O eminente filósofo que citamos com tanto prazer e do qual estamos separados por uma nuance do fatalismo naturalista, no terreno das idéias, o que exclui toda alegação de parcialidade pela tese que sustentamos, conclui colocando o asilo dos primeiros homens "nas solidões sombrias que as montanhas da India circundam", este país rico em ouro e pedras preciosas, tão afamado em todos os tempos pelos seus tesouros. O rio que o circunda é o Ganges sagrado de toda a Ásia, olhado como o rio do Paraíso. Lá se encontra o Geon bíblico que não é outro senão o Indo.

Os árabes o nomeiam ainda assim, e o nome dos países que ele banha existe ainda entre os hindús... Segundo Willian Jones, Moisés que ele chama um compilador recente das tradições antigas, atirou-se de corpo e alma nas legendas da lndia. O naturalista Pallas, um dos sábios mais conscienciosos e mais eminentes do último século, havia chegado a esta convicção, de que o berço das raças humanas não podia ir além da lndia, por este motivo que... se encontravam nos platôs e nas planícies temperadas deste país, todos os animais dos países meridiondis e setentrionais, sejam domésticos, sejam em estado selvagem, assim como todas as árvores, plantas e flores que são encontradas em todos os lugares do globo. A natureza, ela mesma, vem em auxílio da Ciência para fixar o verdadeiro ponto de partida da tradição humana.

Se, pois, os primeiros vestígios da vida se encontram na India; se é em suas vastas e férteis planícies que as civilizações antidiluvianas se desenvolveram; se é de lá que partiram todos os povos, magos, padres, caldeus, hierofantes do Egito, e ourives polinesios são, eles, como demonstramos suficientemente nos diversos estudos indianistas que publicamos os herdeiros dos brâhmanes hindús; se o culto de Brahma-Swavambhouva, em sua unidade, sua simplicidade, sua grandeza primitiva, não foi, segundo a expressão do Ajudante de Campo do nababo de Aoude M. de Jacigny, senão uma vasta fórmula de onde sairam todos os cultos que se espalharam pelas nações; se todos os filósofos antigos foram pedir aos brâhmanes, pundits, sannvassis, nirvanys, vanaprasta, djeinas, dwijas, ensinarlhes a ciência da vida; se, no dizer de Moisés de Chorene, os 700.000 volumes da biblioteca de Alexandria não foram senão traduções de obras hindús; se o rei Hystasp aprendeu dos brâhmanes os ritos puros dos sacrifícios e os movimentos dos astros e do Universo que ele em seguida ensinou aos magos; se a Bíblia mosaica não é senão uma compilação

recente das tradições nascidas entre o Ganges e o Indo; se nós não ousamos negar, o que os inimigos mais encarniçados das tradições brahmânicas, das nações indo-europeas; se nossos hábitos, nossos usos, nosso costume, nossas leis, nossas crenças religiosas, nossas línguas trazem ainda o sinete inegável de nossa origem, que se torna esta acusação tão nova posta em voga pelos filósofos cristãos de diferentes seitas, sem outras provas além da afirmação: "que os hindús foram imitadores e não iniciadores dos povos antigos?". “Esta opinião não tem nenhuma oportunidade de ser levada a sério pela ciência indianista, malgrado o apoio que ela recebe tacitamente de certos sábios oficiais”.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.