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Capítulo 34 de 57
Eloista — parte 3 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
intermitente, ela medrou pelo contrário, cada vez mais fértil e vigorosa. [ ] Vejamos, ainda, o que nos diz mais uma vez o autor de "A Sabedoria de Israel" no capítulo "Notas sobre a Lei": “As escrituras judaicas iniciaram-se com a Tora ou ‘lei’ inscrita nos chamados cinco livros de Moisés"; é nela que se encontra o cerne da mais antiga sabedoria de Israel. Críticos doutos concordam em que essa lei não é realmente mosaica, mas antes um MOSAICO. Compõe-se de um certo número de elementos diversos que refletem as atividades morais e sociais muito divergentes de tantos e tão diversos períodos da história hebraica. Estudiosos modernos chegaram a distinguir pelo menos quatro elementos: 1° - O Javístico, advindo originariamente das tribos hebraicas estabelecidas no sul da Palestina é assim denominado porque, entre elas a divindade chamava-se Jahvé (Jeová). Este elemento acusa os vestígios mais evidentes da região primitiva, desenvolvidos por essas tribos, enquanto ainda viviam no deserto. 2° - O Elohístico, oriundo das tribos domiciliadas ao norte, tinham Elohim como divindade.
Nessa região, mais particularmente agrícola, do que pastoril, as tribos viram-se compelidas a abandonar o seu sistema de vida desértica e com ele muitas crenças e tabus. 3° - Deuteronômio, um código muito mais adiantado, COMPILADO ao que se presume (o grifo é nosso), sob a influência dos grandes profetas e adotado em 622 a. C. 4° - O Sacerdotal, código aparentemente mais moderno, reflexo da influência dos babilônios regidos pela casta sacerdotal e, em cujo país, os judeus foram conservados cativos pelo espaço de meio século, só lhes sendo permitido o regresso à pátria em 536 a. C. Isto que acabamos de citar é o pensamento judeu, interpretado por um homem de reconhecido valor. É ele mesmo quem diz que os cinco livros atribuidos a Moisés é antes um mosaico. É antes a história de um povo através de diversos períodos por que passou. Não sei por que tenha que se envergonhar o judeu de haver sido primitivamente atrasado, quando, principalmente, ele tem a certeza de sua imensa evolução e de se haver tornado como diz alguém, o fermento da humanidade.
Muito mais poderiamos acrescentar em defesa de nossa tese, pois, dificilmente na pesquisa paciente que envidamos, poderiamos encontrar um historiador de nome que afirmasse ser Moisés o autor do Pentateuco, a não serem os profissionais, ou aqueles que vivem pregando a fé. Seriam demasiadas maiores citações, o leitor, terá, porém, a mais plena liberdade de verificação e se for estudioso percorrerá as bibliotecas para evidenciar o que afirmamos. O único monumento sério, diz L. Jacolliot, da tradição semítica ou assim considerada que possuimos, é a Bíblia. Sem entrar, por enquanto, no estudo comparativo desta obra legendária, na qual os hebreus e cristãos devem beber toda a sua ciência genesíaca e cosmológica - uma vez que o livro é revelado; - que o leitor nos permita uma observação: Só os partidários encarniçados desta revelação ousam, ainda, atribuir a Moisés a redação do Pentateuco na forma atual que possuimos.
Para todos os orientalistas sérios, este código civil e religioso dos hebreus foi redigido sob o reinado de Josias e sob o pontificado de Hilquias, com o auxílio das velhas tradições do Egito e das tradições mais recentes do cativeiro de Babilônia. Sabemos que nenhum partidário da religião dos hebreus honestamente nos negará: 1º - Que o volume do Gênesis é independente dos quatro outros livros que compõem o Pentateuco; que as lendas de que é composto não pertencem às tradições nacionais dos judeus, mas, antes, às egípcias, caldaicas e hindus. 2° - Que os quatro outros livros são redigidos com tanta negligência e encerram tais inexatidões históricas e cronológicas, que oferecem a cada passo as provas de sua pouca autenticidade. 3° - Que todas as leis e prescrições que eles contêm, que todas as instituições que estabelecem, existiam há milhares de anos no Egito e na India. 4° - Que até o reinado de Josias, os hebreus ofereciam as suas adorações a milhares de deuses, semi-deuses, demônios e espíritos maus da mitologia grosseira dos egípcios e dos caldeus. 5° - Que o monoteismo hebraico, data, apenas, de Josias e do pontífice Hilquias, que concluiram esta revolução religiosa, destruindo os templos, as estátuas dos deuses, os carros e os cavalos do Sol, queimando os padres e as sacerdotizas, guardas do fogo sagrado. 6° - Que os inovadores, para dar mais peso à sua obra, redigiram o Pentateuco, ou livro da lei, do qual não se havia ouvido falar até então, e o colocaram sob a autoridade legendária de Moisés, cujo nome era venerado como o do fundador da nacionalidade judia. 7° - Que a tradição bem podia ter conservado algumas leis e ordenanças de Moisés, como a do Talião, cuja dureza excessiva se explica pela necessidade de manter na obediência e na disciplina uma tropa de vagabundos e de escravos, mas que o
conjunto do Pentateuco não pode de maneira alguma ser atribuido a Moisés. [ ] Jacolliot, como todos sabem, é um estudioso dos costumes e religiões da lndia. A sua pena magistral, a sua competência, a honestidade e independência de suas atitudes, nos tocam a sensibilidade, principalmente, quando ele surge impávido e em tão boa oportunidade, para apoiar a tese que nos propomos defender, tal a de que o Pentateuco não pode ser considerado obra de Moisés. O Cristianismo se resume nas palavras imortais do Cristo. Talvez se ele se conservasse puro, indiferente a todo e qualquer dogmatismo, o ocidente fosse mais unido, se continuasse vivendo de pura tradição. A síntese de toda a moral, expressa nas palavras do Nazareno: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", com o acréscimo das palavras: "aí estão a lei toda e os profetas", cumprida, seriam o bastante para a máxima elevação da criatura humana.
Cristo, assim falando, parece que adivinhava que surgiria no caminho dos séculos um número infinito de interpretadores cada qual a presumir-se o verdadeiro dono de toda a verdade; por isso, ele matou em definitivo a questão. No entanto, Jesus resumia em uma frase minúscula a síntese de toda moral humana; tudo absolutamente tudo que neste sentido pudesse idealizar a humanidade. e uma verdade eterna que com outras palavras Deus pôs na boca e no coração de todos os instrutores, como que a provar à sociedade que Ele não tem filhos diletos, que todos os homens são seus filhos. E por que haveria de existir uma geração privilegiada, deixando no esquecimento outras que haviam desaparecido do cenário do mundo? "Sêde como o bálsamo da floresta que perfuma o machado que o corta" - dizia Buda. "Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam" pontificava Confúcius. Porventura, a essência desses ensinamentos não é a mesma que nos ministrou o Cristo, quando mandou que amássemos ao próximo como a nós mesmos?
Jesus pontificou e exemplificou com a sua vida cristalina, mas nunca escreveu uma só palavra. Se ele julgasse necessário deixar escrito a sua vida e as suas máximas, pregadas em pulpitos improvisados e em lugares incertos, te-lo-ia feito. Os homens desvirtuam tudo, mutilam, enxertam, interpolam, modificam, tendo em vista, não a sublimidade, a essência inestimável da Filosofia, mas, ao contrário, a mesquinhez de suas conveniências materiais. Se o Cristianismo tivesse que apoiar-se em alfarrábios, o Cristo nolos teria legado. Mas o Mestre, prudente e sábio, divisando a confusão que se estabeleceria através do nevoreiro das gerações futuras, contentou-se em aconselhar aos seus apóstolos que pregassem a boa nova, afirmando que aqueles que acreditassem em seus discípulos, no Mestre estariam crendo. O padre Leonel Franca S. J., em sua notável obra "A Igreja, a Reforma e a Civilização", pergunta: É possível só com a Bíblia, estabelecer com certeza todos os dogmas revelados? Evidentemente, não.
Há, pelo menos, uma verdade, fundamental e pressuposta a todas as demais, que, sem manifesto circulo vicioso, não se pode apresentar com autoridade, com a autoridade exclusiva da Bíblia. É a existência da própria Bíblia como livro revelado, como palavra inspirada de Deus. Quais são os livros que fazem parte da coleção sagrada? Como se pode provar que foram eles escritos por inspiração e sob ditado do Espírito Santo? Por meio da mesma Bíblia? Mas a Bíblia não o diz, pelo menos, de todos os livros. Se um livro é divino só porque ele o assevera, a quantos livros humanos não se deveria estender essa prerrogativa? Toda a literatura religiosa da India, da China, da Caldéa, da Pérsia e do Egito entraria, assim, de roldão, na categoria das divinas escrituras. Os Vedas, o Y King, o Zend-Avesta e o Corão se imporiam à docilidade da nossa fé, com o mesmo direito que o Pentateuco ou os Evangelhos, Isaias ou São Paulo.
A Bíblia é uma coleção de 72 livros escritos originariamente em hebraico e grego por autores antiquíssimos, que viveram num espaço de quinze séculos. Nela, segundo o próprio Leonel Franca, à página 247 do livro citado, encontram-se todos os estilos e gêneros literários, desde a história até a poesia, épica ou dramática, lírica ou didática, desde a simplicidade dos preceitos práticos até às alturas sublimes da mais remontada teologia. Tal é o livro, diz ele, de que cada homem deve extrair o seu credo e os seus mandamentos. Antes, porém, de chegar a estas conclusões dogmáticas, continua o ilustre jesuíta, cumpre-lhe resolver um sem número de dificuldades preliminares. Dificuldades linguísticas; sabe grego? Sabe hebraico? Se não o sabe, quem lhe assegura a fidelidade da versão que tem entre as mãos? Quantas vezes a tradução não é, ainda, involuntàriamente, uma traição do original? Dificuldades críticas? Os livros atuais são íntegros? Não foram mutilados, interpolados, adulterados no curso de tantos séculos? Não cincaram os mil copistas que os transladaram?
Mão sacrílega não lhes profanou a pureza divina? Esta citação do eminente jesuíta, a maior celebração católica romana do Brasil, em todos os tempos, foi por ele empregada para rebater a veracidade da Bíblia protestante. E será que nós não poderemos servirnos dos mesmos argumentos para com os católicos romanos? A nossa Filosofia, se vive dentro da pureza dos mais nobres e elevados postulados cristãos, não surgiu, porque não poderia ter surgido, das maquinações do papado. Procuramos conservar a pureza, a essência daqueles ensinamentos, hoje tão adulterados pelas diversas seitas cristãs. E é preciso mais que se observe, porque sejamos cristãos, participantes da moral de uma doutrina, que em nenhum de seus pontos pode ser reprovada, nem, por isso, desdenhamos aquilo que de bom possa conter o pré-histórico livro sagrado dos hindus, dos sublimes conceitos de Confúcius, de Iesu-Kristna e de outros grandes missionários da humanidade. Não se pode conceber uma justiça infinita que tivesse uma geração como predestinada.
Se Cristo foi o instrutor de uma parte do mundo, outros instrutores magníficos surgiram em todos os pontos da Terra, pontificando as mesmas sublimidades pregadas pelo iluminado filho do carpinteiro de Nazaré. Eis o que afirma um historiador insuspeito, por ser católico, apostólico, romano: "Quase todos os povos antigos atribuiram a sua legislação, de ordinário elaborada em épocas diversas e derivada dos costumes, a algum grande homem memorável por seus feitos ou por um suposto Deus descido à Terra. O Egito teve o seu Hermés ou Thoth; a Caldéa o seu Oanes; a India, um Manu, os hebreus menos propensos que os povos destes países a fantasias míticas, contentaram-se com atribuir as leis e os regulamentos contidos no Pentateuco ao fundador da sua nacionalidade - Moisés - inspirado - diretamente por Jeová, que lhe falou no cume do Sinai, aureolado de relâmpagos. A Ciência não pode aceitar esta tradição, aliás, aceita durante muitos séculos, tanto pelos Israelitas como pelos cristãos.
Se chegaram até nossos dias algumas leis de Moisés, não chegaram pelo menos com a sua forma primitiva, bem autenticadas por qualquer modo, o que equivale dizer que não é possível distinguí-las das que pertencem a épocas posteriores e que as substituiram ou foram encorporadas com elas nos livros
sagrados de Israel. [ ] Em sua obra intitulada "Em torno de um Livrinho", respondendo às críticas suscitadas pelo seu trabalho sobre "O Evangelho e a Igreja", externa o abade Loisy a seguinte opinião a respeito do Velho Testamento: Nele se desconhece a exatidão bibliográfica e acrescenta: a preocupação do fato material e da história objetiva brilha pela ausência. Ora, Deus não poderia ter ditado a Moisés uma obra que desconhece a exatidão bibliográfica e que não se preocupa com o fato material e com a história objetiva. Swedenborg, segundo Léon Denis, afirma que o "Pentateuco" foi inspirado em revelações mais antigas. Essa obra não remonta a tão antiga data, como se tem de bom grado feito crer. Foi retocada, mais ou menos, depois da volta de Babilônia, porque nelas se encontram alusões ao cativeiro dos judeus nesse país (700 anos a. C.). É bem obra dos homens, o testemunho da sua fé, das suas aspirações, do seu saber, e também dos seus erros e superstições.
Foi com o intuito de dar a esses ensinos tão diversos, maior peso e mais autoridade, que foram eles apresentados como emanados da Soberana Potência que rege os mundos. É este o pensamento de Denis que, num rasgo de sensata indignação, assim se expressa adiante: Essa educação necessária, porém, em que se poderá firmar? Não será por certo em teorias negativas, pois, foram elas que, em parte, originaram os males do presente. Menos, ainda, o será em dogmas caducos, doutrinas mortas, crenças todas superficiais e aparentes, que já não têm raizes nas almas. Não! A humanidade não quer mais símbolos, nem lendas, nem mistérios, nem verdades veladas. Faz-se-lhe necessária a grande luz, a esplêndida irrupção do
verdadeiro, que só o novo espiritualismo lhe pode fornecer. [ ] *** Em 1840 apareceu em Bruxelas um livro "Oeuvres", de Victor Cousin, onde este estudioso enfeixava em um grosso volume o estudo de todas as idéias filosóficas dos principais vultos da humanidade que a ela se houvessem dedicado. Neste livro fomos encontrar as linhas que abaixo se seguem: Filósofos! - Foi o gênio da Grécia que pôs este nome no mundo. Que quer isto dizer? Filósofos são homens que não se crêem sábios, mas que gostariam de sê-lo; são homens que não se dizem possuidores de todas as luzes, mas que têm a honra de amá-las; homens que não pretendem haver descoberto a verdade, mas que têm como profissão o procurá-la dentro de suas forças; são livres pesquisadores da verdade e nada mais. Os pioneiros da Filosofia não tinham liberdade de ação. Na Grécia qual teria sido a sorte desses livres pesquisadores da verdade?
Para que não se possa alegar a barbárie do tempo, transportemo-nos à Atenas, à Atenas do tempo de sua maior liberdade democrática e de sua mais florescente civilização, entre Péricles e Alexandre. Qual era a sorte dos filósofos desse tempo? Vós o sabereis e eu serei curto. Para salvar Aspásia, suspeita de dedicar-se à Filosofia, foi necessário lágrimas e mais lágrimas de Péricles, que as derramou em público, desse mesmo vencedor de Eubéia que tantas vezes decidiu a paz e a guerra. Consegui-o, mas, não teve prestígio para salvar Anaxágoras, seu mestre, nem com a força de sua eloqüência, e foi o seu velho amigo condenado ao exílio perpétuo. E o que ensinava Anaxágoras? Apenas: ele descobriu e estabeleceu regularmente que acima dos fenômenos visíveis deste mundo, e acima das leis que presidem estes fenômenos, há uma causa primária, bem melhor, uma causa inteligente, uma inteligência toda poderosa que possui em si a virtude e a iniciativa do movimento. Conheceis o destino de Sócrates?
Eu não vos relembrarei, eu vos peço apenas não esquecer que o devotamento de Sócrates era tão sublime que ele não ignorava que marchava para a morte certa. Aristóteles, ele mesmo, o pai da História Natural, da Lógica e da Metafísica Regular, carregado de anos e de glórias, sofreu horrores para salvar sua cabeça. Diz Cícero que ele teve, apenas, tempo de evadir-se por uma porta secreta e refugiar-se em Chacis, para poupar a atenienses um novo crime contra a Filosofia. E como terminou ele? O sábio filósofo Tannemann crê que este grande homem, velho e farto das perseguições, envenenou-se em Chacis. Platão, o divino Platão, que não foi além das aventuras políticas, esteve preso duas vezes e em uma foi vendido como escravo. Foi por este preço que a Filosofia foi
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