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Capítulo 4 de 57

Parte 3 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Introdução A análise que nos propomos fazer não encerra uma crítica desfavorável aos conhecimentos antigos. Não podemos subestimar o valor intelectual dos gênios que nos antecederam, porque sabemos que o progresso é resultante do esforço humano e que tudo envolve. Assim, não estamos a exigir dos gigantes daqueles tempos os nossos conhecimentos atuais. Sabemos que a ignorância campeia desenfreada e para os que vivem nela mergulhados admitimos a aceitação de postulados antigos, hoje completamente destruidos pela ciência oficial. O que, porém, nos causa admiração, é que homens de grande valor na atualidade, desprezem a sua própria razão, em nome de uma fé cega, para darem guarida a heresias científicas do tamanho da gênesis bíblica e, ainda, aceitem essas revelações sem nexo como se elas verdadeiramente partissem de Deus. É para esses que escrevemos este livro. Sabemos que não será bem aceito pelos fanáticos do dogmatismo.

Estamos, desde já, como que a ouvir o anátema de certas filosofias religiosas, inimigas do progresso, e a maldição dos que se enraivecem quando alguém pretende acender uma luzinha na cegueira de uma fé que traz prisioneiro o espírito entre quatro paredes. Pouco importa. Quando o Cristo, com uma clareza meridiana, pôs por terra toda a moral bíblica, é porque ele queria que nos afastássemos desse caminho sulcado de ódios e vinganças, para seguir um outro de amor e de perdão ao semelhante. O Velho Testamento, diz Léon Denis, é o livro sagrado de um povo - o povo hebreu; o Evangelho é o livro sagrado da humanidade. Também, não é pretensão nossa destruir tudo o que se encontra na Bíblia. Há filosofia e da boa em algumas de suas lendas. Há, incontestàvelmente, uma farta fenomenologia experimental, que pode ser tida como verdadeira em face das mais modernas pesquisas da Ciência. Há alegorias notáveis como as que pretenderam tecer os autores do "Pentateuco", em torno da lenda de Adão e Eva.

Há, não resta dúvida, um sentido figurado nesta história que Kardec situa de maneira muito feliz no "Gênesis Segundo o Espiritismo". Infelizmente a lenda a que nos referimos e muitas outras mais, têm raízes profundas em um passado distante, mais longe do que o assinala a Bíblia. Em Hesíodo, fala-se do homem formado do limo da terra, do caos primitivo e da luz que sucede às trevas. A Pérsia, por sua vez, conserva a mesma lenda, aquela de um só homem e de uma só mulher colocados em um jardim de delícias e expulsos dele por se terem deixado seduzir por Arihman, o mistificador e mentiroso. A mitologia hindu fala de Adima e Heva, que significa o primeiro, nome primordial e o segundo, o que completa a vida. A mitologia do Velho Testamento baseia-se nesses conceitos fundamentais: Deus, a Criação, a Queda dos Anjos, o Eden, Adão e Eva, a Serpente, a Torre de Babel, o Dilúvio, os Anjos e os Demônios, o Paraíso, o Inferno, os Patriarcas, um Legislador que conversa com Deus e os Profetas.

Louis Jacolliot afirma com outros estudiosos dos costumes e religiões da India que é certo que os primeiros livros da Bíblia foram copiados dos Vedas. A India misteriosa, berço incontestável das religiões, percorreu o mundo desde a mais remota antiguidade, emprestando os seus conceitos filosóficos onde quer que se falasse em espírito. Segundo Emílio Bossi, as origens filológicas do Deus hebreu são comuns às dos outros deuses semíticos: Javeh, Jahouh, Jehovah, nascem de Eloha, Ilou, Jahouh, Jahoh, que são os nomes de Deus tirados dos diversos povos semíticos. Sobre o Deus hebraico tiveram incontestável influência os outros deuses alheios ao grupo semítico, como Ahoura Mazda, persa, e Jehovah hebraico, que significa "o que é". A criação se encontra no Gênesis, como em todos os livros sagrados de todos os povos mais antigos. No Zend-Avesta, dos persas, o Ser Eterno cria o Céu e a Terra, o Sol, a Lua e as Estrelas, em seis períodos, e o homem como no Gênesis, aparece por último.

Hyde-Valney diz que a ordem da criação persa é a mesma do Gênesis e nos livros etruscos encontra-se a mesma tradição. Contando o dia de repouso, temos sete dias ou períodos, número tidos por sagrados nas nações antigas, porque provinha da antiga adoração do Sol, da Lua, dos cinco plenetas e das fases lunares, que tinham lugar de sete em sete dias. Na criação indiana, segundo as leis de Manu, o universo estava submerso nas trevas, da mesma forma que no Gênesis, quando o invisível Brahma as dispersou, e criou as águas, imprimindo-lhes o movimento. Criou logo uma série de divindades subalternas, chamadas anjos, presididas por Mohassura. Este insufla os anjos a uma revolta contra o Criador, de cujo trono foram arremessados por seu incontido desejo de reinar. Foi Siva o encarregado de os expulsar do Céu Superior, sendo precipitados nos globos inferiores. E nesta seqüência de coincidências poderiamos marchar indefinidamente. No século em que vivemos, em que a fé encara sobranceira a razão face a face, a moral e a ciência bíblicas não nos podem mais servir.

Mais de quatro mil anos nos separam daqueles velhos tempos. E por que se continua a ministrar nas escolas ensinamentos dessa natureza, fazendo acreditar a vítimas inocentes que tudo o que se encontra entre as páginas daquele palimpsesto carcomido pela traça do tempo, é verdadeiro, emana de Deus? Não será isso uma crueldade? Por que incutir na criança a idéia de um Deus vingativo, rancoroso, de um Deus que só sabe se sua obra é boa, depois de terminá-la? De um Deus que se arrepende? Por que fazer conhecer a nossos filhos a história hedionda de massacres, de roubos, de pilhagens e de fatos que ferem a moral? Progredimos muito e progrediremos sempre. Não podemos, por isso, aceitar, por uma questão de fé, as velhas teorias do passado. Respeitemo-las, apenas; elas servirão, ao menos, como história, para convencer os homens de que nada fica estacionário e tudo obedece à lei sábia da evolução.

E para uma demonstração decisiva de que os conhecimentos antigos não nos podem mais servir, passemos a palavra aos homens eminentes de um passado longínquo, que hoje contemplam do Alto, estarrecidos, as suas velhas concepções: A mitologia hindu ensinava que o astro do dia se despojava à tarde de sua luz e atravessava o céu, durante a noite, com uma face obscura. A mitologia grega representava o carro de Apoio, puxado por quatro cavalos. Anaximandro de Mileto sustentava, segundo Plutarco, que o Sol era um carro cheio de fogo vivíssimo, que se escapava por uma abertura circular. Epicuro, segundo uns, sustentava a opinião de que o Sol se acendia pela manhã e se apagava à tarde nas águas do oceano; outros pensavam que ele fazia desse astro uma pedrapomes aquecida até o estado incandescente. Anaxágoras considerava-o um carro quente do tamanho do Peloponeso. Coisa notável, os antigos eram tão invenclvelmente levados a considerar a grandeza aparente desse astro que perseguiram o temerário filósofo por ter atribuido tal volume ao astro do dia, e foi-lhe precisa a autoridade de Péricles pari salvá-lo de

uma condenação à morte, e comutá-la em sentença do exílio. [ ] Se na época mais florescente da Grécia, no século V antes da era cristã, emitiam-se idéias desta ordem, não nos devem causar admiração aquelas que foram aceitas e defendidas com ardor por homens que viveram em um passado muito mais distante. A primeira idéia que os homens fizeram da Terra, do movimento dos astros e da constituição do universo, deveria ter sido em sua origem, unicamente baseada no testemunho dos sentidos. Na ignorância das leis mais elementares da Física e das Forças da natureza, e só dispondo de vistas limitadas como meio de observação, eles não podiam julgar senão pelas aparencias. Vendo o Sol aparecer pela manhã, de um lado do horizonte o desaparecer à tarde do lado oposto, concluiram, naturalmente, que ele girava ao redor da Terra, enquanto que esta fica imóvel. Se nesse tempo se dissesse aos homens, que isso assim não era, mas o contrário, eles responderiam que tal não podia ser, porque

vemos o Sol mudar de lugar e não percebemos a Terra movimentar-se. [ ] A humanidade de hoje difere muito da humanidade de ontem. Os raciocínios passados não mais se ajustam às nossas necessidades presentes. Para nossos avós, era a Terra o único planeta existente. As estrelas, a Lua e o Sol eram luzes criadas para iluminar nossa Terra. Impregnadas da ignorância absoluta das coisas do universo, as religiões teriam que sucumbir, no dia em que a verdade fosse demonstrada. Segundo Louis Figuier, em "Le Lendemain de la Mort", as religiões antigas, pode-se dizer, morreram em 1610, quando pela primeira vez o telescópio, recentemente inventado, foi dirigido para a Lua por Galileu. E daí para cá, o impossível perante a Ciência nada significa. A Ciência não é definitiva e não fará nunca o seu ponto final. Ela vem sendo construida dia após dia. O amanhã corrigirá, por certo, os erros do passado. Como todas as coisas, ela está sujeita a uma perpétua evolução.

Os conceitos emitidos por nossos antepassados não podem ser menosprezados, porque muitos deles foram o início de uma prolongada pesquisa, da qual a Ciência acumulou não só conhecimentos mais objetivos, como novas teorias assentadas em bases diferentes. A filosofia da Ciência não renega os postulados científicos de nossos ancestrais. Eles servirão, ao menos, como história e para permitir o estudo da evolução científica da humanidade. A distância que nos separa de Moisés é muito longa e à medida que mais nos afastamos, menor se torna para o viandante a luz dos conhecimentos atribuidos ao legislador judeu. Dizer isto não é infamar. Não pretendemos diminuir o seu valor porque ele não fosse dono de nossos conhecimentos em Física, Química e Astronomia. Moisés é o passado, e o presente - que somos nós - tem o dever de corrigir seus erros. Se assim não fosse, estaria desmentida por completo a teoria já tantas vezes comprovada da evolução. Acresce mais, que só indiretamente nos referimos a Moisés, pois estamos com os que não acreditam que o "Pentateuco" tenha sido obra sua.

Fugir dos tempos em que vivemos negar o progresso, apegar-se a fórmulas antigas, além de perigoso, é grandemente nefasto. A Igreja Romana, tão distante hoje e mais ainda no passado, do Cristianismo primitivo, porque assim procedesse, cobriu-se de nódoas indeléveis, no martírio a que submeteu homens dos mais notáveis. Quando não os levava à fogueira ou à prisão, condenava-os a uma vida de eterna inquietude, fazendo-os sofrer as agruras da mais tenaz perseguição. De outra forma, capacitada de que o Papa era o representante legítimo de São Pedro, não teve ela o cuidado de selecionar entre os seus mais virtuosos vigários, homens que dignificassem com o seu proceder o pontificado de Jesus e comandassem da cátedra pontifícia a comunidade dos fiéis. É uma lógica que não pode ser renegada por ninguém: Se Deus tivesse que eleger seus representantes na Terra, Ele iria escolher, certamente, os mais virtuosos e não entregaria, nas mãos de homens desclassificados, o destino de sua Igreja.

Assim, a História nos conta que homens da pior espécie existentes no mundo reinaram no Vaticano, dando pela sua cupidez, egoismo e perversidade, não só os mais nefastos exemplos, como, também, certa descrença na sua pseudo infalibilidade. Do século XI até o século XII, a história dos Papas é de causar vertigem. A loucura de Calígula, a ferocidade de Nero, a luxúria de Heliogábalo reaparecem. No século X, os condes de Tusculum entregam a Santa Sé às cortezãs e aos bandidos. João XII, Papa aos 17 anos, instala o seu harém em Latrão, e sagra um diácono em uma estrebaria. Bonifácio VII, destronado após 42 dias de pontificado, foge para Constantinopla com o tesouro da Igreja. Volta após a morte de Oton II, faz morrer de fome o seu sucessor João XIV nos poços de Santo Angelo e arranca os olhos aos seus cardeais. Bento IX leva uma vida tão horrfvel que tentam estrangulá-lo no altar.

Foge, vende a tiara; pede moça em casamento, regressa a Roma, onde encontra dois antipapas; é de novo expulso, faz envenenar Clemente II, ocupa pela terceira vez a cadeira de São Pedro, depois desaparece para sempre, encerrando-se como um animal selvagem nas florestas de Tusculum. Este papado demoníaco, ou profundamente miserável, essa Igreja manchada por todos os crimes, que se curva à brutalidade do século, tornou-se o horror e o tormento da cristandade. A consciência popular que via a mão de Deus em todas as crises da História, como em todos os fenômenos inquietantes, condenava silenciosamente a Igreja de Roma. Se Deus permitia tais catástrofes, era porque entregava à milicia de Satã os

pastores cristãos. [ ] No começo do século XIX, escreve Pompeyo Gener, grande número de bispos são casados. Só na Bretanha conta-se nada menos de quatro. Seus filhos herdam do episcopado. Todo o clero imita os bispos; os clérigos que não têm mulheres têm concubinas; à falta de mulheres próprias, tomam as dos outros. A mulher do diácono reveste-se do caráter de sacerdotiza e sobe como ele ao altar. A do bispo disputa o paço à do Barão; reina na Igreja, como a outra reina no

castelo. [ ] Segundo o erudito professor Dr. Joaquim Pimenta, em sua magistral obra "A Questão Social e o Catolicismo", as prerrogativas eclesiásticas são, como tudo o mais na Igreja, um meio de extorquir dinheiro ou de galgar uma posição rendosa; vende-se um bispado como se fosse uma propriedade, um feudo, a que se anexam direitos hereditários. Quando o Cristo, o sublime pregador do Cristianismo, se esmerava em dar o conforto moral aos infelizes, aos deserdados da sorte, aos leprosos, aos indigentes, destaca o papado confessores para as câmaras reais, mas nunca tiveram tempo os dignitários da Igreja para rezar uma missa por um pobretão infeliz que morresse na via pública. É comum, no entanto, verem-se estampadas nas colunas dos jornais, as missas destes príncipes em favor da alma de um Presidente de República ou de um senhor Ministro de Estado. Se, com efeito, alguma coisa de genial saiu do Catolicismo, foi certamente um sistema de tortura tão perfeito, tão requintado, que deixa a perder de vista as legislações mais bárbaras e os costumes mais selvagens.

A despeito das defesas capciosas que apologistas católicos têm arranjado visando irresponsabilizar a Igreja pelos crimes perpetrados por esse terrível tribunal, em nome de um Deus que se proclama infinitamente misericordioso, a História nos diz pela voz dos teólogos pelas bulas pontificais, pelos atos canônicos, que à Santa Sé cabe a autoria de um regime de crueldade como não há igual na crônica dos

povos que se não banharam na água lustral do Cristianismo. [ ] Foi para o ano de 1200, que o Papa Inocêncio III estabeleceu este tribunal (a Inquisição) para proceder contra os albingenses, herejes pérfidos que dissimulavam seus erros e profanavam os sacramentos em que não acreditavam absolutamente. "Mas o concílio de Verona, realizado em 1184, já havia ordenado aos bispos de Lombárdia que procurassem com cuidado e entregassem ao magistrado civil aqueles

obstinados, a fim de serem corporalmente punidos”. [ ] Segundo a bula "Ille humani generis", de 24 de abril de 1233, este tribunal foi adotado pelo conde de Tolosa em 1229, e confiado aos dominicanos pelo Papa Gregório IX, em 1233. Inocêncio III o estendeu a toda a Itália, exceto a Nápoles. A Espanha a ele se submeteu inteiramente em 1448, sob o reinado de Fernando e Izabel. Portugal adotou-o sob o reinado de João III, de acordo com a forma aceita em Espanha. Doze anos antes, em 1545, Paulo III tinha formado a congregação da Inquisição, sob o nome de Santo Ofício, e Xisto V, o confirmou em 1588. Tudo era motivo de condenação por parte desses juízes execráveis. Uma interpretação diferente daquela adotada pela Igreja, uma teoria mais avançada sobre a gênesis da Terra e do homem, era motivo bastante para que se atirasse impiedosamente à fogueira uma criatura humana. O direito de defesa era praticamente vedado, pois ninguém se atrevia a amparar um réu do Santo Ofício, uma vez que era sabido que o defensor cairia fatalmente nas iras desses juízes de conciência negra.

O delator era naquele tempo cercado das mais distinguidas considerações. O que vamos citar não são palavras de um irresponsável, é o abade Berlier que assim nos conta: Diz, ainda, o erudito professor Joaquim Pimenta, em sua obra já citada, que um eclesiástico, José de Olmo, descreve assim, com uma simplicidade "verdadeiramente cristã" um auto da fé que se celebrou em Madrid, em 1870: 21 indivíduos foram entregues ao braço secular e queimados vivos; 11 outros fizeram abjuração de Levi; 24 judazantes reconciliados e vestidos com o sambenito, foram submetidos a diversas penas; 34 efígies representavam os condenados que morreram nas prisões e pelos tormentos, ao todo, 270 culpados. O autor refere-se a indulgências extraordinárias concedidas a todos os que assistem a um auto da fé, “tão salutar para a conservação da crença." A Espanha via a sua população dizimada pelo nefasto tribunal. Naquele país, continua o ilustrado Professor, cuja decadência se atribui em grande parte à ação humanitária dos inquisidores sobre a vida nacional, foram queimados vivos, de 1481 a 1803, 34.658 pessoas (10.200 em 17 anos); queimados em efígie, 18.049 e condenados às galés e à prisão, 288.214. Quando se massacra um ímpio, a graça de Cristo se espalha sobre a Terra. Não julgamos que sejam homicidas aqueles que, ardendo de zelo por sua mãe, a

Igreja católica, contra os excomungados, massacrem alguns. [ ] Além da confiscação dos bens, da tortura e da morte a que eram condenados os livres pensadores, os seus descendentes, até a segunda geração, nada podiam possuir; eram excluidos das funções públicas e de todas as honras, salvo aqueles

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.