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Capítulo 49 de 57
Eloista — parte 18 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
Dentro dele se encontra alimento para todos os paladares. Se se trata de um cientista, ele se embrenhará satisfeito no estudo de sua vasta fenomenologia; o filósofo irá, por certo, guiado pelos sublimes postulados que são os nossos, perquerir sobre a nossa origem e destino, e os menos cultivados, aqueles. que sentem o sopro intuitivo da Ciência e da Filosofia e não encontram necessidade ou não podem investigá-las, têm o lenitivo para as suas torturas, no intercâmbio constante que mantêm com entes queridos, que partiram para o outro lado da vida, e com os luminares que lhes sabem incutir resignação, bom proceder, incentivando-os à luta por uma existência futura menos dolorosa. O Espiritismo é, também, uma doutrina filosófica revelada. Não uma revelação direta de Deus, que não alimentamos pretensões impossíveis, mas de entes, ainda bem distantes da perfeição, porque a verdadeira perfeição é atingida através de uma cadeia interminável e sucessiva de encamações, que se estendem pelo infinito a fora.
É, pois, uma revelação diferente da católica, porque ao Catolicismo repugna a Ciência Experimental, ela foge dos princípios elementares da razão, e o Espiritismo comprova, dentro desta mesma Ciência, abraçando-se com o raciocínio mais exigente, tudo aquilo que nos vêm dizer e ensinar aqueles que já não pertencem a este mundo de provas. * * * Passemos, agora, ao estudo da vasta fenomenologia espírita.
Charles Richet, em seu "Traité de Métapsychique", resume em três palavras os fenômenos fundamentais que constituem esta Ciência nova: A Criptestesia - isto é, uma faculdade de conhecimentos, diferente das faculdades de conhecimentos sensoriais normais. A Telecinesia - isto é, uma ação diferente das forças mecânicas conhecidas, que se exerce sem contacto, à distância, em condições determinadas, sobre os objetos ou as pessoas. A Ectoplasmia - isto é, a formação de objetos diversos que as mais das vezes parecem sair do corpo humano e tomam a aparência do uma realidade material.
[ ] Eis toda a Metapsíquica, diz Richet. Parece-me que ir até lá já é ir muito longe. Mais longe, já não será mais Ciência. Resumamos, porém, sem sair da concepção de Richet, a vasta gama de fenômenos, sintetizando-a ainda mais, para depois então, enumerá-los, tanto quanto nos for possível. Dividiriamos as três espécies de fenômenos citados pelo sábio francês, apenas, em duas categorias: os físicos e os intelectuais. E o fazemos certo de que não iremos contrair o método de Richet, pois, a Criptestesia trata de fenômenos intelectuais, a Telecinesia e a Ectoplasmia, fazem parte dos fenômenos físicos. No número dos últimos, podemos citar e o faremos somente considerando o que a Ciência já observou, pois, se fazemos uma crítica ao judaismo, isto é, a uma religião anti-científica, para que esta mesma crítica não seja, apenas, destrutiva, devemos dar uma demonstração de que as nossas concepções são, ao contrário, de fundo profundamente científico e que persistirão, portanto, ao tempo e à crítica negativista.
Temos assim: 1. Os golpes dados em móveis, em paredes, ou nos experimentadores; é o que os ingleses conhecem sob o nome de raps. 2. Ruidos de outra espécie que podem ser muito variados. 3. Movimentos de objetos sem contacto suficiente para explicar o movimento produzido; tem-se nesta classe de fatos, uma divisão a fazer entre a) os movimentos produzidos sem contacto algum, de telecinesia, por exemplo, o deslizar ou o levantar de uma mesa, de uma cadeira, sem que estes objetos sejam tocados e b) os movimentos produzidos por um contacto, insuficiente para explicá-los; por exemplo, a levitação de uma mesa sobre a qual os experimentadores apoiam suas mãos; 4. Os transportes, isto é, a aparição de objetos, pedras, etc., que não foram trazidos pelos experimentadores. 5. Passagem da matéria pela matéria; penetrabilidade - Este fenômeno se enquadra no anterior. 6. Visões de eflúvio ódico, de luzes amorfas, formas luminosas ou obscuras e a materialização de uma forma humana ou outra qualquer, luminosa ou não. 7. Sinais, moldagens, desenhos mais ou menos acabados. 8. Mudança de pesos de objetos materiais ou de certas pessoas, por exemplo, a levitação do médium. 9. A mudança perceptível de temperatura; sensação de frio ou de calor, combustão espontânea. 10. Os sopros, geralmente frios.
Eis os principais fenômenos físicos apontados pelos sábios experimentadores e já fartamente observados pela Ciência. Vejamos agora fenômenos intelectuais, ou seja, aqueles que implicam a expressão de um pensamento: 1. Tiptologia; golpes dados pelo pé de uma mesa sobre a qual os assistentes apoiam as mãos; a mesa pende para um lado e retoma o equilíbrio batendo no chão, com um sentido ou significação. 2. A Gramatologia ou frases soletradas; diversos meios são empregados, os principais são: a) a enumeração em alta voz das letras do alfabeto até que um rap indique a letra a ser escrita; b) o apontamento das letras com o auxílio de um lápis ou de um estilete que passeia sobre um alfabeto escrito até que um rap pare o estilete; c) a designação, enfim, das letras procuradas por um index montado sobre pivot, no centro de um alfabeto escrito em círculo.
O index se move seja mediante contato ou sem ele. 3. Escrita Automática - Imediata quando o médium escreve sem intermédio de um instrumento, mediata, quando ele emprega um instrumento, plancheta, cesta, chapéu, mesinha, etc. Nesses casos várias pessoas podem combinar sua ação, apoiando por sua vez as mãos sobre o objeto no qual está fixado o lápis. 4. Escritura Direta, produzida nas ardósias, ou papel, etc., seja à vista dos assistentes seja fora. Se as letras parecem formar-se sem o auxílio de um lápis temse a escritura precipitada. 5. As incorporações: o médium adormecido fala em nome de uma entidade qualquer que deles se apossa. 6. As Vozes Diretas: são aquelas que partem de órgãos vocais que não sejam as dos assistentes e do médium, e que fizeram com que determinados experimentadores conversassem com formas materializadas. 7. A Telepatia, se o médium ou o paciente parece influenciado por agente distante; a Telestesia, quando o paciente parece sofrer ativamente impressões à distância; a Clarividência, videncia ou lucidez expressões que não se identificam entre si.
A lucidez designa mais especialmente a faculdade que certas pessoas têm, durante o sono magnético ou sonambúlico, de perceber de uma maneira supra normal impressões exatas; os clarividentes ou videntes são especialmente os que percebem formas invisíveis a outras pessoas. A Clariaudiência marca os fenômenos do mesmo gênero que se produzem na esfera auditiva. São estes os fenômenos observados e comprovados pela Ciência. A quase totalidade de seus observadores se tornou adepta da doutrinu dos Espíritos, porque foi dentro da interpretação espiritista que foram encontrar as explicações que lhe faltavam no domínio da Física. Uma minoria não rejeita a hipótese espirítica, e o que resta dessa plêiade de sábios pretendeu explicar os aludidos fenômenos à sombra de teorias por ele criadas, teorias estas sem consistência e que foram refutadas por eminentes homens de Ciência.
Richet dizia: Lemos e relemos, estudamos e analisamos as obras que foram escritas a este respeito, e declaramos enormemente inverossímil, e impossível, que homens ilustres e probos, como Sir William Crookes, Sir Oliver Lodge, Reichenbach, Russel Wallace, Lombroso, William James, Schiaparelli, Frederic Myers, Zollner, A. de Rochas, Ochorowcz, Morselli, Sir William Barrett, Ed. Gurney, C. Flammarion, e tantos outros, se deixassem todos em cem vezes diferentes, malgrado sua Ciência, malgrado sua vigilante atenção, enganar por fraudadores, e que fossem vítimas de uma impossível credulidade. Eles não podiam todos ser tão cegos para não se aperceberem das fraudes que são quase sempre grosseiros, bastante inábeis para nunca, uns e outros, fazerem uma só experiência irrepreensível. A priori, suas experiências merecem ser imitadas, e não rejeitadas
com desprezo. [ ] É um sábio a julgar com justiça outros sábios, que se dedicaram ao estudo da Metapsíquica, como assim denominava a gama de fenômenos mediúnicos o grande professor da Sorbonne. Estes fenômenos físicos e intelectuais, citados em linhas anteriores, foram todos comprovados pela Ciência; os que os ultrapassaram não são mais considerados pelo grande Richet como evidentes, uma vez que não passaram pela experimentação de homens autorizados. É isto o que o Espiritismo mais deseja, que as suas crenças sejam comprovadas pela Ciência oficial; que os fenômenos observados diariamente em suas reuniões sejam autenticados pela experimentação de vultos consagrados pelo consenso universal. Tudo isto que foi exposto e explicado em minúcia é o que se chama Ocultismo, o qual perdeu a sua significação, uma vez que estes conhecimentos deixaram o seu caráter oculto. Respondendo a críticas que W. Bormann havia formulado (Psicchische Studien, 1907, nº 6), contra a palavra "Metapsíquica", Charles Richet disse que as palavras "oculto" e "ocultismo" são detestáveis e "indefensáveis".
Ele tem razão, dizia J. Grasset, em seu livro "Ocultismo", à página 41, se se une a palavra oculto à palavra Ciência: "Ciência Oculta" nada significa. E, com efeito, Charles Richet dizia no mesmo artigo: "Este neologismo "Metapsíquica", significa claramente que ao lado de uma psicologia normal... há uma outra psicologia, obscura, ainda, muito incerta e mesmo, até o presente, bastante oculta, mas que pode ser, se analisarmos laboriosa e metodicamente os fatos, perca o seu triste caráter de Ciência oculta". Todos os fenômenos ocultos eram aqueles que fugiam dos conhecimentos do vulgo. Uma plêiade de homens eminentes, tais como Aksakoff, Crookes, Dariex, Durand, Lombroso, De Gros, Gibier, De Gramont, Pierre Janet, Oliver Lodge, Maxwell, Myers, Ochorovicz, Richet, De Rochas, Sabatier, Stainton Moses, R. Wallace, De Vaterville, Zõllner e muitos outros mais foram desbravadores do Ocultismo e trouxeram em suas experiências o espírito e o método positivos. Em 1893, diz, ainda, Grasset, em sua obra citada, era bem um sinal dos tempos e quase uma revolução universitária, o que estas idéias produziram.
Fui forçado a aceitar a Presidência, na Faculdade de Montepellier, de uma tese sobre os "os fenômenos psíquicos ocultos". Havia, estou certo, uma ousadia em patrocinar assim um "ensaio de oficialização do maravilhoso”. Neste trabalho, Albert Coste, com uma erudição muito segura, uma crítica muito viva e um espírito literário muito cultivado, punha as coisas em seu justo lugar, fazia "o processo verbal do estado atual da questão". Pouco antes deste trabalho (1891), querendo Dariex estabelecer e continuar na França a obra da "Sociedade de Pesquisas Psíquicas", fundada em Londres, criava os "Anais das Ciências Psíquicas", e onde se encontrava a mais rica documentação sobre todas essas questões. Em uma carta prefácio que abria o número de "L’Écho du Merveilleux", em 1906, sua primeira publicação, Charles Richet dizia: "É necessário fazer passar certos fenômenos misteriosos, inacessíveis, ao quadro das ciências positivas. Eis com efeito qual deve ser o objetivo da Ciência em sua relação com o Ocultismo". O Ocultismo e o Espiritismo se confundiam no conhecimento de fenômenos paranormais de toda a natureza.
O primeiro guardava um segredo as suas aquisições, que eram vedadas ao vulgo. O Espiritismo, pelo contrário, achando que nada deve ser oculto às criaturas, não querendo viver imerso nesta espécie de egoismo, tornou, com o seu nascimento, acessível a todos a sua interminável gama de fenômenos de toda a natureza, bem como os admiráveis princípios morais qlue o norteavam, tornando, assim, possível a verificação científica. Na doutrina dos Espíritos não há simbolismo, pois todos nós sabemos quais as necessidades humanas. Não se procura na imaginação malabarismos para explicar aquilo que a Bíblia, segundo dizem, traz em suas profundezas. Não. O Espiritismo só dá valor àquilo que realmente o tem. Falando sobre o Ocultismo, diz Maxwell: A analogia e as correspondências não têm na lógica ordinária, a mesma importância. De outro modo, não me parece prudente considerar como expressão
da verdade a interpretação exotérica dos livros hebraicos. [ ] O Ocultismo, diz Jules Bois, não pode resignar-se a não ser, como todo o mundo, um pesquisador modesto e simples, um fiel experimentador. Com efeito, acrescenta o mesmo autor, só creio na influência dos conhecimentos científicos de pequenas sociedades místicas, que datam todas da última metade do século XIX, malgrado a sua jactância de antiguidade legendária... Puxar as velhas espadas enferrujadas, ajustar-se às máscaras já sem uso e suadas do carnaval, repetir as fórmulas incompreensíveis e ritos sem vida, não pode elevar ninguém. Não podemos tão pouco preocupar-nos com a Teosofia. Este curioso movimento místico que os ensinamentos de madame Blavatsky, do Coronel Olcott e de Mme. Anie Besant fizeram nascer na Europa e na América, nada tem a ver com os processos da Ciência positiva. É uma espécie de religião de moral inatacável, cheia de postulados nobres, que se identificam muitas vezes com o Espiritismo, mas lhe falta caráter experimental, a prova que todos compreendam. E será o Espiritismo religião?
Respondemos: o Espiritismo superou as religiões; está muito acima delas. As religiões são falidas, porque mantêm teimosamente postulados que a Ciência condena. As religiões passarão e o Espiritismo se eternizará porque é uma Filosofia religiosa amparada pela Ciência, que é eterna. Não precisamos de um largo raciocínio para que colhamos a prova de nossa afirmativa. Em uma reunião espírita apresentam-se espíritos de todas as religiões - católicos, protestantes, budistas e espíritasentidades que em sua última encarnação viveram integrados em suas religiões, e observamos que entre eles nem todos são esclarecidos. De vez em quando surge-nos um espírita precisando de luzes, um protestante iluminado, um católico sofredor. Isto significa que o rótulo religião não eleva a ninguém. Para o Alto só têm mérito aqueles que souberam viver dentro dos princípios de uma sadia moral, de justiça, de caridade e de amor ao próximo. E é o que o Espiritismo aconselha. Nenhum espírito será perfeito só porque haja progredido em bondade. A Ciência é necessária ao complemento da perfeição.
As religiões, em sua generalidade, vivem de graças e de privilégios. O homem pode salvarse porque Deus assim o quer e outros se perdem porque não obtiveram de Deus a graça que Ele dá a quem deseja. Na Filosofia espírita, a fé é raciocinada, é, pois, escudada na convicção; todos os que seguem seus postulados sabem que o homem só se pode elevar por seus próprios esforços e que Deus sendo soberanamente justo não tem filhos privilegiados. A moral espírita é a mesma moral de todas as religiões espalhadas no mundo pelos instrutores do Alto, sem os artifícios criados pelos homens e que tanto as tem degradado. A moral espírita está contida na máxima budista, confucionista e cristã etc., iguais, perfeitamente iguais em sua essência: "Sêde como o bálsamo da floresta que perfuma o machado que o corta" - "Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam" - "Amai ao próximo como a vós mesmos". Eis aí sintetizada toda a moral do mundo.
O homem, assim procedendo, está amando a Deus, porque está cumprindo aquilo que os seus missionários legaram à humanidade. *** A idéia de Deus implica a de uma ordem perfeita que rege o Universo com as suas leis eternas e imutáveis. Os filósofos e os livres pensadores, colocando-se em um terreno diverso daquele dos teólogos, rejeitam o milagre, considerando que tudo no Universo obedece a leis imutáveis e, por conseguinte, nada pode acontecer sem que seja o efeito de causas naturais. A Ciência não concebe hoje nenhum fato miraculoso, porque a experiência de todos os dias demonstra que os fenômenos, durante muito tempo inexplicáveis, encontram pouco a pouco explicações nas leis físicas, fisiológicas ou morais. Tais são os fenômenos do Espiritismo, do Magnetismo e do Hipnotismo. Uma derrogação na ordem é uma desordem, isto é, um vício, uma imperfeição, qualquer coisa de contrário aos atributos da divindade. O Criador, segundo a Filosofia espírita, combinou as leis da natureza para toda a eternidade, de maneira a faze-las concorrer à sua finalidade por um encadeiamento regular e invariável.
Teria dado Ele prova de impotente se, em alguns casos, estas leis fossem defeituosas e se fosse obrigado a interferir na marcha dos mundos. Teria feito obra de um curioso, uma vez que fosse obrigado a retocá-la, por imperfeita. Ora, admitir que o Grande Arquiteto do Universo não tenha sabido criar uma máquina perfeita, é concluir que Ele se enganou, e, por conseguinte, não pode ser Deus. Milagre é uma violação das leis divinas, imutáveis e eternas. Vários físicos sustentam que neste sentido não pode haver milagres, e eis aqui os argumentos. Um milagre é a violação das leis matemáticas, divinas, imutáveis e eternas. Por esta simples exposição, o milagre é uma contradição: uma lei não pode ao mesmo tempo ser imutável e violada. Mas uma lei, perguntarão, sendo estabelecida por Deus não pode ser suspensa pelo seu próprio autor?
Eles têm a ousadia de responder que não, que é impossível que o Ser infinitamente sábio faça suas leis para violá-las: Deus não poderia, dizem eles, desarranjar sua máquina a não ser para faze-la caminhar melhor; está claro que sendo Deus o autor da máquina, Ele a tenha construido a mais perfeita possível: se Ele houvesse observado, desde o começo, qualquer imperfeição em sua obra, resultante da natureza da matéria, Ele se teria precavido desde o início; assim sendo, Ele nunca violará as suas própria
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