[user_registration_my_account]
Capítulo 37 de 57
Eloista — parte 6 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
A Bíblia perante a História Há incontestavelmente, muito fato histórico no livro sagrado dos hebreus. Não desconhecemos que a Bíblia serviu algumas vezes de orientação à Arqueologia. Mas, perguntamos, o que tem as verdades históricas da Bíblia, históricas no sentido de apontar em seus textos, lugares que realmente existiram e reis que realmente reinaram em um passado distante, com o exagero de suas lendas, mesmo quando narra coisas históricas, com as imoralidades, as matanças, as injustiças e crueldades de Moisés e a mentalidade de um deus que não pode ser aceita por homens esclarecidos? Será este livro, porque aponte dados que orientaram a Arqueologia, somente, por isso, considerado sagrado? Então, os escritores da antiguidade não fizeram o mesmo? Com os seus livros repletos de lendas, tão aceitáveis quanto as de Moisés, não foram eles orientadores seguros nas pesquisas arqueológicas? E serão, por isso, sagrados esses livros? No tempo do grande Schliemann, Homero era o cantor de um antigo mundo submerso.
A dúvida sobre a existência de sua pessoa, diz C. W. Ceram implicava na dúvida do que fôra relatado, e muito distantes estavam os sábios daqueles dias das arrojadas sugestões de escritores posteriores que chamaram a Homero de primeiro reporter de guerra. O valor de seu relato sobre a luta em torno do castelo de Príamo era equiparado ao das antigas canções épicas ou mesmo relegado a condições de exclusivas histórias mitológicas. E não foi Homero um orientador primoroso nas escavações arqueológicas do extraordinário Schliemann? E porque ele fosse esse guia seguro e porque tivesse com suas narrativas, entremeada de lendas, feito ressuscitarem Tróia, Mycenas, Tirinto, ltaca, iremos, por isso, dar valor a seus contos fantásticos? Schliemann, erudito, inteligente, homem que conhecia a fértil imaginação dos homens do passado, desacreditando as lendas, embrenhou-se pelo que de objetivo continham as narrativas de Homero E, por isso, a sua obra proporcionou à Ciência, à História e à Arte, um conhecimento mais profundo das coisas do passado.
E Pausânias não foi, também, com as suas descrições tidas como míticas, outro orientador de sábios pesquisadores? Rerifo-me ao geógrafo e historiador grego do século II, autor de uma obra importante "Periésis", que foi a melhor fonte onde os arqueólogos puderam procurar os locais dos monumentos da antiguidade clássica. E o que diremos de Heródoto, que viajou há quase dois mil e quinhentos anos pelo velho Egito e que, como Homero e Pausânias, foi um grande orientador das escavações arqueológicas na terra dos Faraós? Não confundamos, assim, História com Religião. Religião é moral, é justiça, é caridade, é tolerância, é amor. E isso só iremos encontrar verdadeiramente na Bíblia, depois de séculos de constantes derrotas militares, de sujeição política, de desenvolvimento moral, quando os judeus, então, transforamaram Jeová no bondoso e amável pai de Hilel e de Cristo. Condenar a Bíblia no que concerne ao auxílio que ela prestou à Arqueologia, seria condenar Homero, Pausânias e Heródoto.
Não condenamos o Antigo Testamento por isso, o que sempre desejamos afirmar é que o que ele tem de bom não destrói, em absoluto, aquilo que consta de trágico, de imoral, de injusto, de contraditório, de exagerado entre as suas inumeráveis páginas. Somos viceralmente contra a idéia dos que têm o "Pentateuco" como obra de Moisés, quando sabemos pela História que o Patriarca dos judeus foi um padre de Osiris e que suas idéias religiosas não são as constantes da Bíblia. Não aceitamos o Deus que este livro, tido como sagrado, nos pinta; porque o nosso é um Deus diferente, é o Deus de Jesus e do Espiritismo. Creio, sim, em Moisés, mas destituido das lendas infantis que o cercam, e sem as fantasias que lhe emprestam seus poetas exaltadores.
Maneton, historiador egípcio do II século, citado por Josefo, diz que o Êxodo foi devido ao desejo dos egípcios de se protegerem de uma peste que atacara os judeus pobres e escravos, e que Moisés era um sacerdote egípcio que assistia aos "leprosos" judeus e lhes ensinava preceitos de higiene, modelados nos do clero egípcio. Temos em mãos o mais moderno livro sobre Arqueologia: "O Segredo dos Hititas", do mundialmente conhecido arqueólogo e escritor C. W. Ceram, o mesmo autor de "Deuses Túmulos e Sábios". Neste estão condensadas todas as descobertas orientadas pela Bíblia, naquele constam as últimas descobertas arqueológicas, desta vez, não orientadas pela Bíblia, ao contrário, atrapalhadas. Na apresentação deste livro diz o editor: Embora algumas ruínas misteriosas tivessem sido notadas na Turquia central em 1839, por longo tempo ninguém as ligara aos hititas, povo a que a Bíblia só dedica sete linhas, considerado como uma tribo síria da menor importância.
Só 40 anos depois, em 1880, um herói da Arqueologia arriscou a ousada teoria de que existira um Império Hitita que se estendera do mar Negro a Damasco. E só por volta de 1910 começamos a ter os primeiros e escassos conhecimentos sobre sua história. Foi preciso chegarmos a 1946 para haver esperanças de serem lidas as fabulosas inscrições hieroglíficas hititas. Isso só se conseguiu há poucos anos. Hoje porém, vinte séculos d. C., sabemos que vinte séculos a. C. os hititas indoeuropeus entraram na Asia Menor. Podemos agora colocar uma terceira grande potência ao lado da Babilônia de Hamurabi e do Egito de Tutankhamon. Podemos ler os primeiros fragmentos de uma grande literatura desconhecida, de que Ceram apresenta fascinantes excertos. Sabemos a verdade acerca de Kadesh, uma das poucas batalhas que realmente mudaram a face da história do mundo. Conhecemos afinal como se fez o primeiro grande tratado político da História da humanidade, entre os hititas e o Egito, etc... Vejamos, portanto, diz Ceram, o artigo sobre os hititas na edição de 1871, da "Neus Konversationslexicon", de Meyer, a clássica enciclopédia germânica.
Basta, apenas, um lance de olhos, pois o artigo diz: "Tribo cananita encontrada pelos israelitas na Palestina; habitava na vizinhança de Hebron, ao lado dos amoritas; posteriormente encontrada mais para o Norte, na região de Bethel, tempo em que foi feita tributária por Salomão. Ainda em época posterior, uma tribo hitita independente, sob governo monárquico, viveu mais para o norte, perto da Síria". Eis tudo. Aos hititas são dadas na Bíblia apenas "sete linhas". E o artigo não é só lastimavelmente breve; é também errado em todos os pontos essenciais. Estas sete linhas nada mais fazem do que sumarizar informações esparsas dadas pela mesma Bíblia. Assim, pela lógica dos antagonistas, porque a Bíblia desta feita, não nos pinta a realidade sobre o Império Hitita, desprezemo-la como fonte histórica. Não. Os povos antigos, antes e mesmo no tempo de Hilquias, conservaram tradicionalmente o nome de povos existentes em um passado longínquo. Tinham conhecimento de batalhas e lutas travadas em uma época em que a conquista estava em moda.
Não é de admirar, pois, que assim como Homero, Pausâmeas e Heródoto, eles tenham escrito para a posteridade os seus conhecimentos. Mas vamos ser coerentes e admitir que nem tudo eles sabiam. Eis o porque, desta vez, a Bíblia disse muito pouco e mal. * * * Falemos, agora, um pouco sobre as lendas. Deixemos que a História faça luz na mente dos que aceitam incondicionalmente as fantasias bíblicas. Que a "História da Civilização", de Will Durant, esclareça, em definitivo, os bíblicos que ainda se contam por milhares. Trata-se de um historiador independente, que dá à Bíblia aquilo que de fato ela possui, mas que tem, também a coragem de dizer a verdade, mesmo que esta contrarie os bíblicos de todo mundo. Estas deleitosas histórias da Criação, da Tentação e do Dilúvio foram tiradas das lendas da Mesopotâmia, velhas de 3.000 anos a. C.; já neste livro vimos várias de suas formas.
É muito possível que os judeus se apropriassem de alguns dos mitos da Babilônia durante o Cativeiro, e mais provável ainda que os tomassem das antigas fontes semíticas ou sumerianas, comuns a todo o Oriente Próximo. As formas persas e talmídicas no mito da Criação representam Deus fazendo um ser de sexo duplo - macho e fêmea reunidos pelas costas, como os irmãos siameses - depois dividindo-os por achar melhor. Lembramo-nos da estranha sentença do Gênesis (V. 2) Macho e fêmea criou-os ele, abençoou-os, e chamou-lhes Adão; isto é, nossos primeiros pais foram originariamente macho e fêmea - o que parece ter escapado a todos os teólogos, exceto a Aristófanes. A lenda do Eden aparece em quase todos os folclores - na India, no Egito, no Tibé, na Pérsia, na Grécia, na Polinésia, no México, etc. Muitos desses jardins do Eden possuem árvores proibidas e serpentes ou dragões que roubam a imortalidade do homem, ou envenenam o Paraíso.
Tanto a serpente como o figo foram provavelmente símbolos fálicos; atrás do mito está a opinião de que o sexo e a Ciência destroem a inocência e a felicidade, e são pois a origem do mal; encontramos esta mesma idéia no "Eclesiaste”. Na maior parte destas histórias a mulher era o gentil agente da cobra ou do diabo, seja Eva ou Pandora, ou a Poo- See da lenda chinesa. “Todas as coisas" diz o “Shi-ching”, “eram a princípio sujeitas ao homem, mas uma mulher nos lançou na escravidão”. Nossa miséria não vem do Céu, mas da mulher: ela perdeu a raça humana. Ah! Infeliz Poo-See. Tu acendeste o fogo que nos consome e que sempre aumenta... O mundo está perdido. O vício tudo domina. Ainda mais universal é a história do Dilúvio; dificilmente um povo antigo não o via em seu corpo de lendas, e poucas montanhas da Ásia não foram o ancoradouro de algum Noé ou Shamash-Napishtin.
Comumente essas histórias eram veículo ou alegoria de um pensamento filosófico ou ético de longa experiência racial - que o sexo e o conhecimento trazem mais sofrimento do que alegria, e que a vida humana está perpetuamente ameaçada pelas inundações, isto é, pelas calamitosas enchentes dos rios que flagelavam as velhas civilizações. Perguntar se tais histórias são verdadeiras ou falsas, se isto "realmente aconteceu”, será propor uma questão superficial e vulgar; na essência está claro, não são o que a História refere. E seria desacerto não gozarmos a sua encantadora simplicidade e o vívido da narração. (História da Civilização, pág. 341). Não há povo que se baste a si próprio. As nações atrasadas copiarão sempre das mais adiantadas. É uma léi natural que não pode ser desmentida, nem mesmo pelos bíblicos que querem abrir uma exceção para a nação judaica.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.