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Capítulo 50 de 57
Eloista — parte 19 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
leis. [ ] Deus constrói em favor dos homens e não em favor de alguns homens, apesar do nada que os homens representam em face do Universo. Somos menos que um pequeno formigueiro diante da vastidão dos mundos. Não será assim, um absurdo o imaginar-se que o Ser infinito vivesse a intervir em suas leis em favor de um pequeno número de formigas, contrariando, destarte, o jogo eterno dessas energias incalculáveis que fazem movimentar o Universo sem fim? Contentemo-nos com o maior dos milagres, com a ordem prodigiosa da natureza, com a rotação de bilhões de mundos em tômo de milhões de sóis, com a atividade da luz, com a vida dos animais, porque estes são milagres perpétuos. A idéia do milagre é, pois, contrária à sabedoria divina. O Ser Supremo age de maneira soberanamente inteligente sobre toda a criação. Ele não pode querer a desordem, nem cometer um ato absurdo para a satisfação pessoal de uma religião, qualquer que ela seja.
O caráter principal do milagre, diria Jésupret Fils, é, sobretudo, o de ser insólito; uma pedra que sua sangue; estátuas que derramam lágrimas dos olhos; eis os milagres para o vulgo. Mas, uma vez que o fenômeno se pode produzir espontaneamente ou seja por um ato de vontade, não é mais um milagre. A Ciência produz constantemente milagres aos olhos dos ignorantes; eis porque no passado, aqueles que sabiam mais que o povo comum, passavam por feiticeiros; e como se acreditava que toda a Ciência vinha do Diabo, os atiravam à fogueira, em nome de Deus. Para um selvagem tudo o que é novo é milagroso. Um brinquedo mecânico, um fogo de artifício, um imã, um fusil, um relógio são prodígios que eles só podem atribuir a um poder soberano. Quando um homem realmente morto for chamado à vida por uma intervenção divina, será um verdadeiro milagre, porque contraria as leis naturais.
Mas se este homem não tiver senão as aparências da morte, se há nele ainda um resto de vitalidade latente e a Ciência ou uma poderosa intervenção magnética consiga reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas será um simples fenômeno natural, mas aos olhos do vulgo ignorante, o fato passará por miraculoso. Quem poderia imaginar num passado longínquo as descobertas modernas da Ciência: o rádio, a televisão, os aviões supersônicos que cruzam os ares em todas as direções, percorrendo mais de mil quilômetros por hora e outras realizações contemporâneas? Quem poderia sequer imaginar que o virus de certas moléstias contagiosas, invisíveis a nossos olhos, fosse capaz de dizimar populações inteiras? Assim, aquilo que era julgado como só podendo pertencer a um poder sobrenatural, produz-se a nossos olhos e se explica logicamente, em virtude das leis que não cessam de reger os mundos. O que nos resta hoje dos milagres do Velho Testamento? Quase nada.
Aquilo que se considerava milagre e que a Bíblia narra à farta, como o êxtase, a vidência, a transfiguração, a catalepsia, as aparições, a vista psíquica e as curas instantâneas, passaram hoje ao rol das coisas comuns. O milagre da ressurreição da filha de Jairo de que trata o Evangelho de Mateus, é um simples caso de letargia. O Cristo a quem é atribuído o milagre, o declara formalmente quando diz: "Esta criatura não está morta, apenas dorme". Jesus por meio de uma poderosa ação magnética reanimou os sentidos embotados desta criatura. Há, pois, aí, apenas uma cura e não uma ressureição, como se pretende. Os católicos fazem igualmente uma grande celeuma em torno da ressurreição de Lázaro, que estava sepultado há quatro dias. Isto não é prova concludente. Sabemos que certos catalépticos ficam, não quatro dias, mas algumas semanas neste estado patológico, com todas as características da morte verdadeira. Diga-se, ainda, que o corpo de Lázaro cheirava mal.
Esta nova alegação não constitui ainda prova convincente, considerando que, em certos indivíduos, há a decomposição parcial do corpo, mesmo, antes da morte, e que exala um odor de podridão. A morte só chega quando os órgãos essenciais da vida são atingidos. E quem poderia saber se Lázaro cheirava mal? Sua irmã Marta? Mas como sabia ela se seu irmão estava enterrado havia quatro dias? Era uma simples suposição e não uma certeza. Quais foram as palavras de Jesus? - "Lázaro, o nosso amigo dorme, mas vou despertá-ia do sono". Depois, está consignado no Evangelho de João, novas palavras de Jesus: "Lázaro morreu". Jesus, espírito perfeito, não precisava encontrar-se no local onde Lázaro estava sepultado para saber o que havia acontecido com ele. Se o Cristo afirmou primeiro que seu amigo dormia, não se compreende que ele depois de tal afirmativa adiantasse outra dizendo: Lázaro morreu. O Nazareno não poderia ter afirmado duas coisas contraditórias, do contrário ele seria um farsante, um embusteiro, no que não podemos acreditar.
Portanto, a segunda afirmativa não pode ser mais que uma interpolação acrescentada ao texto, para a representação do milagre. Ou bem Cristo disse: Lázaro dorme ou, então, Lázaro morreu. As duas coisas é que não podiam convir a um espírito da estatura do grande missionário. A mudança de água em vinho nas núpcias de Caná nada tem que nos espante, pois não ignoramos que um magnetizador pode fàcilmente dar a um líquido qualquer uma propriedade, um sabor particular por meio de uma simples emissão fluídica. Eis o que nos diz Jésupret Fils: Os milagres mais em voga no Catolicismo são imitados perfeitamente pela prestidigitação moderna. Aquele da liquefação do sangue de S. Januário não apresenta nenhuma dificuldade para a sua reprodução. Todo o mundo sabe que no dia mesmo em que o milagre tinha sido operado com grande pompa pelo arcebisbo de Nápoles, o prestidigitador Bosco o repetia à tarde, no teatro, pondo-se nas mesmas condições.
O General republicano Championnet forçou, outrora, sob pena de morte, os padres da Igreja de S. Januário a operar o milagre diante do povo de Nápoles. A Teologia que admite seres extra-humanos entre Deus e os homens não imaginaram que forneciam uma arma contra eles mesmos. Não nos dizem eles que os anjos e os demônios podem fazer milagres? Se é assim, os fatos maravilhosos perdem por completo o caráter divino e não os poderemos invocar como prova de uma doutrina qualquer. Um mau espírito pode nos induzir ao erro, pois não possuimos nenhum meio de fiscalização sobre ele, escapando sua natureza à análise humana. De outro modo, quem nos diz que a intervenção de um anjo não é um ato livre e natural? Lá onde os católicos vêem um milagre, há muitas vezes, apenas, a manifestação de um bom espírito e não a derrogação de leis naturais, estabelecidas por Deus. Como pode o homem chegar a distinguir o verdadeiro do falso, o milagre divino do milagre diabólico? Esta dificuldade bastante embaraçosa é resolvida perfeitamente pelos católicos.
Eles atribuem os verdadeiros milagres a eles e os falsos prodígios aos outros. A Igreja católica reinvindicando o privilégio exclusivo dos milagres, não reconhece como bons senão aqueles a que ela preside e que marca com o seu sinete. Assim, as comunicações espíritas obtidas por meio de médiuns da Terra inteira são acolhidas como obras diabólicas pelos graves doutores do Catolicismo. Os espíritos do mundo invisível pregam a moral mais irreprovável, a doutrina mais pura; o clero, não obstante, crê-se no direito de relegar o Espiritismo entre as obras infernais. Os católicos nos dizem que Jesus e os santos não empregaram o seu poder miraculoso senão em obras de beneficência e não proclamaram senão excelentes máximas. Supondo que esta asserção seja verdadeira, não é para nós uma garantia bastante, pois, nos ensinam igualmente que Satã pode fazer o bem aos homens para melhor enganá-los e que ele pode transformar-se em anjo de luz.
Por conseguinte, a excelência da doutrina pregada por Jesus e os outros taumaturgos do Cristianismo não é um sinal infalível da legitimidade de sua missão. Para o pesquisador despido de prejuízos, muitos fatos parecendo antes anormais, encontram sua explicação pelo raciocínio e pela lógica. Longe de rejeitar os fenômenos do Espíritismo, ele os estuda ao contrário, para fazer jorrar a luz. Ao
XXº século pertencerá certamente as ciências ditas "ocultas". [ ] A experiência estabeleceu de uma maneira certa e irrecusável as relações que podiam existir e manifestar-se entre o mundo visível e o invisível. Este intercâmbio espiritual abre um novo caminho às investigações da Ciência e permite estudar os problemas até hoje insolúveis. Já tivemos a oportunidade de citar um bom número de homens eminentes que se dedicaram a estes estudos e a gama interminável de fenômenos que já obtiveram a sanção da Ciência. Não pensamos como os católicos que afirmam que Satã pode fazer milagres e dos bons, e tomar a forma de espírito iluminado para melhor iludir as suas vítimas. São Justino (Dial. com Tryphon, n. 7, pg. 105) diz que: Os falsos profetas e os falsos apóstolos faziam os mesmos milagres que os verdadeiros, não havendo diferença entre eles, senão que uns agem em nome de Deus Pai e de seu filho o Cristo. Isto dá a entender que tanto Deus como o Diabo tem o mesmo poder. O Espiritismo pensa de modo diferente.
As manifestações, para nós, são de duas naturezas, físicas e inteligentes. Elas podem ser boas, más, justas, falsas, ou levianas, segundo a natureza dos espíritos que se manifestam. Não inventamos, nem descobrimos os espíritos, nem tão pouco nos arrogamos a descoberta de um mundo espiritual, uma vez que ele constitui crença de todos os tempos e de todos os povos. O Espiritismo, apenas, chama em seu apoio esta verdade da existência de além-túmulo e a revela sob o verdadeiro aspecto, despindo-se dos preconceitos e das idéias supersticiosas engendradas pelas religiões. O Espiritismo dá liberdade de interpretação aos seus adeptos e, como não é dogmático, não usa do termo herético para com aqueles que, em alguns dos pontos de sua doutrina, apresentam divergências. A nossa doutrina é uma doutrina de liberdade. O homem atinge a sabedoria e se aproxima da verdade pelo seu próprio esforço. Todo o esforço humano no sentido do bem constitui um merecimento. Para nós o homem é o operário de si mesmo.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.