[user_registration_my_account]
Capítulo 10 de 57
Parte 9 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
[ ] Há postulados da doutrina católica que caem pelas contradições que apresentam. Raciocinemos um pouco e estendamos os nossos argumentos um pouco além do que já tivemos ensejo de apresentar. Afirmam os teólogos que mesmo as crianças que não podem cometer nenhum pecado, necessitam do batismo para ficar livres da pecha original. Ora, esses espíritos pretensiosos que se inculcam o divino privilégio de conhecerem toda a verdade, fogem das palavras de Cristo como o demônio, conforme se diz, foge da cruz. São Paulo disse: "porque todos pecaram", o que exprime bem a idéia de uma regra geral, mas não de uma culpa constitucional resultante da geração. A Igreja grega que lê as Epístolas de Paulo na língua em que foram escritas, sempre o compreendeu assim. De outra forma, à condenação das crianças mortas sem haverem sido batizadas, os mesmos teólogos gregos opõem as palavras de Cristo, repreendendo os discípulos que as afastavam dele, dizendo-lhes: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino de Deus" (Mateus XIX; 14).
Ora, as crianças a que Ele se referia não eram batizadas, porque o batismo, ainda, não tinha sido instituido. Dizer que Deus castiga os filhos por erros cometidos pelos pais ou avoêngos é fazer d'Ele o pior juízo; é colocá-lo cem vezes abaixo dos juízes da Terra. Qual aquele que em nosso globo tivesse a missão de julgar e fosse capaz de condenar um homem porque um seu antepassado há muitos anos houvesse cometido um crime? E se um pecador é incapaz de uma falta de escrúpulo desta natureza, como admitir-se que o Criador de todas as coisas, infinito em todas as suas perfeições, seja capaz de tamanha crueldade e injustiça? Eis aqui o equívoco que condena todas as crianças. Deus proibe a Eva e a seu marido de comer do fruto da árvore da Ciência que Ele plantou no Eden e lhes disse: "No dia em que dele comerdes, certamente morrereis" (Gên. II, 17). Eles comeram e não morreram, pois Adão viveu ainda 930 anos. É necessário, assim, compreender que se trata de outra morte; é a morte da alma.
Mas Deus não disse que Adão estava condenado; são, assim, seus filhos os condenados; e como? Porque Deus condenou a serpente que fascinou Eva a marchar sobre o ventre (pois antes ela caminhava com os pés), e a raça de Adão foi condenada a ser mordida no calcanhar. Ora, a serpente é visivelmente o Diabo, e o calcanhar que ela morde é a nossa alma. "O homem esmagará a cabeça da serpente" (Gên. III, 5); é claro que é preciso entender por isto que o Messias venceu o Diabo. Mas ele esmagou a cabeça da serpente, libertando todas as crianças que não tinham sido batizadas? Eis o mistério. E as crianças são condenadas, porque seus "primeiros pais" comeram do fruto do jardim? Eis ainda um mistério. Paremos por aqui. Não é por Adão que somos condenados, não será por Caim? "Temos a dita de descendermos de Caim, uma vez que Abel morreu solteiro e é mais razoável ser-se condenado por um fratricida do que por certa maçã”.
Mas não pode ser por Caim; pois está escrito que Deus o protegeu e lhe pôs um sinal, com temor que o matassem; e está escrito, ainda, que ele fundou uma cidade, no tempo em que ele estava quase só na Terra, com seu pai, sua mãe e com seu filho chamado Enoque. Mas, diz Voltaire, qualquer que seja a nossa descendência, é indubitável que os judeus não tinham ainda ouvido falar do pecado original, nem da condenação eterna das crianças mortas sem a circuncisão. Os saduceus não acreditavam na imortalidade da alma, e os fariseus, que acreditavam na metempsicose, não podiam admitir a condenação eterna. De qualquer forma essa teoria seria contraditória para qualquer dos dois. Jesus foi circuncidado em criança e batizado como adulto, segundo o costume judeu. Mas este era um uso dos antigos povos hindús, dos brâmanes, que faziam crer que a água não só tirava as manchas do corpo, como também da alma. Jesus, em sua palavra, circunciso e batizado, não fala em nenhum dos Evangelhos do pecado original.
Nenhum apóstolo diz que as crianças não batizadas serão condenadas pelo pecado da maçã proibida. Nenhum dos primeiros Pais da Igreja adiantou essa cruel quimera; e todos sabem que Adão, Eva, Caim e Abel, só foram conhecidos do pequeno povo judeu, e por mais ninguém. Quem foi, pois, que falou disto em primeiro lugar? Pergunta Voltaire. E ele mesmo responde: foi o africano Agostinho. Homem assás respeitável, mas que torce algumas passagens de Paulo para inferir em suas cartas a Evódio e a Jerônimo, que Deus precipita do seio de suas mães, nos infernos, as crianças que morrem nos primeiros dias de vida. Lêde, aconselha o grande escritor, o segundo livro da revista de suas obras, cap. XLV. A fé católica ensina que os homens nascem tão culpados, que as crianças mesmas são certamente condenadas quando morrem sem se terem regenerado em Jesus.
É verdade, diz o filósofo, que a natureza nauseada no coração deste mestre de Retórica, o força a tremer desta sentença bárbara; entretanto, ele a pronuncia, ele não se retrata, ele que mudava constantemente de opinião. A Igreja faz prevalecer este sistema terrível, que torna o seu batismo mais necessário; o que não acontece com as comunidades reformadas que o repelem hoje. A maior parte dos teólogos não ousa mais admitílo; no entanto, continua a dizer que os nossos filhos pertencem ao inferno. Isto é tão verdadeiro, que o padre, batizando essas inocentes crianças, pergunta se elas renunciam ao demônio; é o padrinho que responde o sim por elas e isto é o bastante. Nós espíritas não pensamos como os católicos, que a natureza do homem seja diabólica. Mas, por que se afirma que o homem está sempre propenso ao mal? A nossa teoria é por demais conhecida. O mal, qualquer que seja a sua modalidade, tenha ele um sentido material ou moral, é o produto, ainda, de nossa inferioridade, inferioridade que pouco a pouco vai desaparecendo à medida de nossa evolução.
Não é igual a resposta do filósofo citado, mas, nos serve. Deus dá o amor próprio e a benevolência, útil a nós e ao próximo; a cólera que é perigosa, a compaixão que a desarma, a antipatia e a simpatia, muitas necessidades e muitos meios de superá-las, o instinto, a razão e as paixões - eis o homem. Quando fordes deuses, ensaiai fazer coisa melhor. * * * Nada mais absurdo que a proibição feita a Adão de comer do fruto da pretensa árvore da ciência do bem e do mal. O bom senso nos diz que o contrário é que deveria ter-se dado, isto é, que nossos pais deveriam ter recebido ordem de come-lo o mais possível para que pudessem distinguir o bem do mal. Como poderiam eles usar de prudência se não sabiam fazer a distinção entre o bom e o que não presta? Como conseguiriam ser virtuosos se ignoravam o que era a virtude e o crime?
Pela lógica seguida, não podemos considerar a serpente inimiga do gênero humano, uma vez que procurava ensinar ao primeiro casal o meio de torná-lo sábio, mas, Deus, ao que tudo indica, teve inveja, pois, quando pressentiu que o casal era capaz de distinguir a virtude do vício, o expulsou do paraíso terrestre, receioso de que ele comesse, também, da árvore da vida, dizendo-lhes: Eis aqui Adão tornado como um de nós, sabendo o bem e o mal, mas para que ele não coma da árvore da vida e não viva eternamente, Deus o pôs fora do jardim do Eden. Há, incontestavelmente, em toda essa lenga-lenga, uma série de blasfêmias contra a verdadeira essência e a verdadeira natureza de Deus, quando se dá a entender que o Criador ignorava que a mulher com que presenteou Adão para companheira, fosse ser a causa de seu crime e conseqüentemente de sua ruina; que interditava ao homem o conhecimento do bem e do mal, a única coisa que poderia regular seus costumes; e que temia que este homem, depois de haver comido da arvore da vida se tornasse imortal.
Tal receio e tal inveja convirão à natureza de Deus? Outra coisa que impressiona grandemente aos que não aceitam o dogma católico é esta sacrílega imputação, este indisfarçável ultrage à justiça de Deus, tal o de condenar todo o gênero humano pelo crime cometido pelos nossos "primeiros pais"; há aí falta de coerência, uma vez que não se encontra uma só palavra que toque nessa invenção do pecado original, nem no Pentateuco, nem nos Profetas, nem nos Evangelhos apócrifos ou canônicos, nem em nenhum dos escritores a quem denominamos os primeiros Pais da Igreja. Voltaire, por quem nutrimos profunda admiração, em seu "Dictionnaire Philosophique", comenta que Deus não condena Adão à morte por haver comido da maçã, afirmando, mesmo: "Tu morrerás certamente no dia em que a comeres", tanto que é o próprio Gênesis que nos diz haver Adão vivido, malgrado o repasto criminoso, novecentos e trinta anos. Os animais e as plantas que não haviam comido deste fruto, morrem dentro do prazo prescrito pela natureza. O homem, como tudo o mais, foi feito para morrer.
Enfim, diz o filósofo, a punição de Adão não entrava de forma alguma na lei judia. Adão era tão judeu como persa ou caldeu. Os primeiros capítulos do Gênesis (em qualquer tempo que fossem compostos) foram olhados por todos os sábios judeus como uma alegoria, e até como uma fábula muito perigosa, pois, a sua leitura era interdita ao israelita que não houvesse atingido os vinte e cinco anos de idade. Em uma palavra, os judeus conheceram tanto o pecado original, como as cerimonias chinesas; e embora os teólogos milagrosamente encontrem tudo, absolutamente tudo o que querem nas Escrituras, podemos assegurar que um teólogo razoável nunca achará nelas qualquer coisa que fale desse mistério incompreensível do pecado original. Confessemos, diz, ainda, o grande escritor francês, que foi Santo Agostinho quem primeiro levantou esta estranha idéia, própria da cabeça de um africano dissoluto, maniqueano, cristão, indulgente ou perseguidor, que passou toda a vida a se contradizer.
Que horror, gritam os unitários rígidos, caluniar o autor da natureza, a ponto de lhe imputar milagres contínuos para condenar os homens que ele fez nascer por tão pouco tempo. Ou Ele criou as almas de toda a eternidade, e neste caso eram elas infinitamente mais antigas que o pecado de Adão, sem relação, portanto, com ele; ou estas almas são formadas a cada momento que um homem se deita com uma mulher, e neste caso Deus está continuamente espreitando todos os " rendezvous" do Universo para criar espíritos que irá tornar eternamente infelizes; ou Deus é a alma de todos os homens, e dentro deste sistema Ele se condena a si próprio. Qual é a mais horrível e a mais louca destas três suposições? Não há uma quarta; pois a opinião de que Deus espera seis semanas para criar uma alma condenada em um feto, torna àquela que o faz criar no momento da cópula: que
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.