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Capítulo 14 de 57
Parte 13 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
A serpente e outras críticas Não procuramos analisar com mais abundância de argumentos a gênesis bíblica, em sua parte mais importante, porque pretendíamos alicerçar os nossos pontos de vista na opinião de homens eminentes que, como nós, que não o somos, se dedicaram a este estudo. Quando lemos atentamente as primeiras páginas da Bíblia, sentimonos chocado por um fato estranho: é que o 2º e o 3º capítulos do Gênesis são a negação do 1º. No fim do 1º capítulo, a criação está acabada. A espécie humana coroou a obra, isto é, o homem e a mulher. Deus criou o homem à sua imagem e criou - fêmea. Esta é a tradição lógica e sensata dos velhos sacerdotes. Deus criou o homem macho e fêmea, como todas as espécies inferiores que haviam nascido antes dele. E tendo, assim, criado o gênero humano nesses dois tipos originais de homem e de mulher. Deus os abençoou e lhes disse: Crescei e multiplicai-vos!
Enchei a Terra e sujeitaia; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves do Céu, e sobre todo o animal que se move sobre a Terra. Deus, dizem os livros egípcios, concedeu ao homem o uso de sua obra inteira, Suprimi os dois capítulos seguintes; passai ao 4º, onde o homem começa, segundo a ordem de Deus e a lei da natureza, a reproduzir sua espécie para povoar a Terra e sujeitá-la! Não percebereis nem interrupção, nem lacuna. Os fatos se desenvolvem com a lógica breve, com a pura concisão que caracteriza a obra atribuida ao legislador judeu. Tudo nos leva a crer que estes dois capítulos (2º e 3º) foram intercalados de chofre, no Gênesis, sem nenhuma preocupação de lógica e de razão.
O embaraço do estilo, a confusão das idéias, as redundâncias que aí se encontram e, ainda, por cima, as contradições incríveis que estas narrações atravancadas de invencionices fabulosas e de detalhes pueris oferecem com a primeira reversão, tão grandiosa em sua simplicidade, nos induzem a supor que há lá um retoque que seu autor, ingênuo e desleixado, não teve o cuidado de dissimular. Ora, estes dois capítulos contém toda a legenda de Adão e Eva: o paraíso terrestre, a tentação da serpente, a maçã fatal, a condenação terrível, a história da queda, em uma palavra. Esta lenda tomada dos caldeus ou dos persas teria, na opinião de Eugene Nus, seduzido algum rabino cativo em Babilônia ou em Ecbatane, que a introduzira entre os dois versículos da velha tradição. Verdadeira ou não esta suposição, o fato é que a contradição é manifesta. Deus criou o homem macho e fêmea, havia dito o primeiro capítulo. Deus, no segundo, cria antes Adão. Adão somente.
É Adão que ele forma do limo da terra, Adão que ele coloca em um jardim de delícias, que lho dá a cultivar; é somente a ele que dá as suas ordens e a quem dirige as suas ameaças. Pouco tempo se passa e pela primeira vez, Jeová descobre que "a sua obra é imperfeita", e se apercebe que não é bom que o homem fique só. "Façamos, diz Ele, uma companheira à sua imagem". E depois de haver feito passar por diante de Adão todos os animais da criação, vendo que, entre esses seres, não havia um só que fosse semelhante ao homem, Deus o mergulha em sono profundo, lhe tira uma costela e desta forma a mulher. Por que este assistente dado a Adão é uma mulher? Não se trata mais da constituição da espécie, na sua dupla função de pai e mãe, não se trata para o casal primitivo de multiplicar-se e de povoar a Terra. Assim, o autor do 2º capítulo, esqueceu o 1º. A Teologia segue o seu exemplo.
Ela pretende que Adão e Eva criados imortais, e colocados no Eden para a eternidade, continham neles toda a humanidade e não deviam reproduzir-se. Mas, então, a que fica reduzida a primeira narração, tão clara, tão precisa, tão conforme com a lei da natureza? É esta que é a falsa ou é a segunda que é verdadeira? Tal é a confusão desta legenda, que é impossível descobrir-se, no pensamento do autor, se Adão e Eva eram realmente imortais. Não comais do fruto da árvore da ciência, disse Jeová ao homem, ao colocá-lo no jardim de delícias; pois, se o comerdes, certamente morrereis. Ao mesmo tempo em que comerdes não parece significar que o homem será ferido de morte no momento da desobediência? "Por que não comeis deste fruto? Perguntou a serpente a Eva". Deus nos recomendou de não tocá-lo, respondeu ela, com medo que ficássemos em perigo de morte. Nada afirma nesses versículos a imortalidade nativa do homem. Não será antes uma ameaça que lhe é feita, igual a que costumamos fazer a nossos filhos?
O tom infantil da narração torna esta interpretação verossímil. Enfim, depois da falta cometida, disse Deus ao homem: “Comereis o pão com o suor de vosso rosto, até que torneis à terra de onde vieste". Estas palavras não estabelecem que Adão não devia morrer se não houvesse desobedecido, ou, então, que a sua desobediência mudou em dias amargos e duros, sua vida que deveria ser doce e feliz? Um versículo dá a entender que a raça humana não devia se multiplicar, senão por haver falido; é depois da queda que Adão dá à sua companheira o nome de Eva que "significa a vida, porque ela não deve ser mãe de todos os homens". Mas, de outra forma, Deus não disse à mulher: terás filhos porque pecaste; Ele disse: "Eu vos afligirei de vários males durante a vossa gravidez, concebereis na dor". E estas palavras não implicam absolutamente que a mulher não devesse ser mãe; elas indicam, antes, que pela falta cometida, ela seria castigada com o parto doloroso.
Eis outro mistério: Como se conseguiu intercalar em um canto do Gênesis, a idéia tão odiosa a Moisés, da pluralidade dos deuses? Eis aí Adão tornado como um de nós, disse Jeová, depois que o homem comeu da árvore da ciência; ora, pois, para que não estenda sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente... Teria sido por ciúme que Jeová proibira a Adão de comer a fruta que tentou Eva? E teria sido por este mesmo motivo que os expulsou do Eden, a fim de que não pudessem eles aproximar-se da árvore da vida? E se o homem depois de seu crime, e malgrado o seu crime, houvesse comido do fruto dessa segunda árvore, todo o poder do Senhor e dos outros deuses deste Olimpo desconhecido, teria impedido que ele fosse imortal? O primeiro efeito da árvore da ciência, segundo o filósofo Eugene Nus, foi de fazer observar ao homem e à mulher a inconveniência da nudez. Reconhecem-se com isto, as preocupações favoritas da imaginação oriental.
Então forem abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E como eles ouviram a voz do Senhor que “passeiava no paraíso ao meio dia, enquanto soprava um vento ameno, eles se retiraram para o meio das árvores do paraíso para se esconderem de sua face”. Os espíritos elevados da Igreja romana se sentem mal, ainda, porque se ensinam aos filhos e as filhas, sob o título de história santa, a legenda das folhas de figueira, mas que significação tem esta impureza ingênua, comparada com o que se revela às almas jovens com a imprudência da confissão? Algumas palavras sobre a serpente tentadora. Um versículo vago, interpretado em sentido todo arbitrário, ligou esta fábula suspeita ao mistério da redenção. “E porei inimizade entre ti e a mulher, disse Deus à serpente, entre sua raça e a tua”. "Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. A Igreja viu nesta imagem, o anúncio e a promessa de um redentor.
Para justificar esta crença, ela personificou Satã na serpente. Isto é uma pura invenção da Teologia. Não se faz alusão a Satã, nem nesses dois capítulos, nem nos livros de Moisés. Os judeus dos primeiros séculos não conheceram este fantástico personagem. A legenda que discutimos não dá absolutamente a entender que a serpente fosse mais que serpente. Jeová disse simplesmente isto: Ora a serpente que era a mais astuta de todas as
alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. [ ] Eis na opinião de um filósofo ilustre a que fica reduzida a lenda da serpente tentadora, criada por uma teologia profundamente humana destituida de bom senso. Ouçamos, agora, a opinião de Cesar de Vesme, ainda em sua obra magistral "Histoire du Spiritualisme Experimental" a respeito dessa frivolidade teológica. Assim se inicia sobre a história do Diabo o eminente Acadêmico: Satã não aparece senão mais tarde nas Escrituras. Estando reservado ao Diabo um papel de suma importância, na “Experimentação espiritualista israelita e cristã”, pois, todos os fatos pretendidos sobrenaturais quando não podem ser atribuidos a Deus, são geralmente, atribuidos aos demônios, será útil que nos detenhamos um pouco na consideração da origem deste ser misterioso. Os cristãos, desde o tempo em que foi escrito o “Apocalipse” (XII-9), quiseram lobrigar Satã na serpente que tentou Eva, e isto se concebe. Mas o texto do Gênesis (III-1) parece não autorizar de forma alguma esta interpretação.
Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais feitos pelo Senhor; eis o que dizem as Escrituras. Que significaria esta palavra se não se cogitasse de Satã? Demais, Deus não se dirigiu a Satã; e sim à serpente: ‘ Por que fizeste isso, tu serás maldita entre todos os animais e todas as bestas da Terra; tu caminharás sobre o teu ventre e comerás a terra todos os dias de tua vida’. Estas frases revelam bem o pensamento do autor do Gênesis, que se trata pura e simplesmente de um animal; de outra maneira, parece injusto e desarrazoado punir a serpente que não podia ser
responsabilizada pelo procedimento de Satã. [ ] Acrescentando às considerações de Vesme, algumas palavras mais, teriamos que dizer que se a serpente tentadora, era na realidade Satã, e sendo todas as serpentes da Terra condenadas a andar de rastro pelo crime daquela que viveu no jardim de delícias, a conclusão é que todas as serpentes são demônios. Ora, isto, ultrapassa as raias da imbecilidade. E se, como afirma a Igreja, a serpente era Satã, como se justificar este castigo imposto a ela por Jeová? A missão de Satã seria tentar, e o seu castigo já está definido pela Igreja. Como se encontra na gênesis bíblica, a impressão que nos deixa é que a serpente (Satã) pecava pela primeira vez, e sofreu por isso a condenação de andar de rasto eternamente e comer a terra todos os dias de sua vida.
As tradições sobre a satânica serpente, diz Fr. Lenormant, em "Les Origines de l' Histoire", de que nos fala o Gênesis, estão de tal modo espalhadas pelo mundo e fazem tão proeminente parte das antigas crenças, que uma escola alemã, da qual o senhor Adalberto Kuhn é um dos ornamentos, afirma que ela é o "pivot" de uma explicação universal das religiões antigas. Entre os africanos, egípcios, persas, gregos, semitas, enfim, em todos os povos, encontramos a serpente como personificação do mal e causa da infelicidade humana; e outras vezes, adorada como divindade. Na tradição ariana, Yeina, o primeiro homem, levou a vida em estado de bem aventurança, até que cometeu o pecado cuja conseqüência passou para os seus descendentes, e foi, por isso, expulso do paraíso, depois de haver permanecido nele mil anos, por se ter submetido ao domínio da serpente que lhe trouxe a morte, mediante tormentos incríveis. Há uma ulterior, mais antiga narração desta tradição, que descreve o homem criado puro e fadado à eterna bem-aventurança, se permanecesse limpo em seus pensamentos, palavras e ações e manso de coração.
A princípio ee se manteve fiel para com Deus; mais tarde, porém, a falsidade tomou conta de seus pensamentos, porque a serpente, o espírito mau, seduziu primeiro a mulher, e logo após, o homem, a crerem que as bênçãos por eles desfrutadas eram devidas à serpente e não a Deus. Tendo, assim, desviado o primeiro casal, o sedutor, que os arrastara à desgraça, cresceu em ousadia; apresenta-se a segunda vez, trazendo-lhes frutos que eles comeram e por comerem perderam todas as cem bênçãos que havia possuido, com exceção, apenas, de uma; e se tornaram maus e infelizes. Após a descoberta do fogo por divina revelação, ofereceram com o seu primeiro sacrifício uma ovelha, começaram a comer carne e a vestir-se com as peles e as
lãs dos animais imolados. [ ] Vejamos o que nos diz José de Campos Novais, estudioso desses assuntos, em polêmica com Álvaro Reis: 0 Edda do Snarro Sturleson conta como o imortal Idhuma viveu pura e inocente com Bragi, o primeiro dos trovadores ou poetas, em Asgard, um paraíso no centro da Terra, os deuses haviam confiado a ele a guarda das maçãs que davam a imortalidade. Vejamos o que nos diz Voltaire, o gênio tão malquisto Igreja católica: A serpente passava, com efeito, no tempo do autor sagrado, por um animal muito inteligente e muito astuto. Ela era o símbolo da imortalidade entre os egípcios. Vários povos da África a adoravam. O imperador Juliano perguntava que língua falava ela. Os cavalos de Aquiles falavam grego; e a serpente de Eva devia falar a língua primitiva. A conversação da mulher e da serpente não nos é narrada como uma coisa sobrenatural e incrível, como um milagre, ou como uma alegoria. Veremos brevemente um asno que fala e não devemos surpreender-nos que a serpente que tinha mais espírito que os asnos, falassem ainda melhor. Em várias histórias orientais, os animais falavam. O peixe Oannés saía do Eufrates duas vezes por dia para pregar ao povo. Procuraram saber se a serpente de Eva era uma víbora, uma áspide, ou outra espécie; mas nenhuma luz se fez sobre esta
questão. [ ] É dificil saber, afirma o mesmo escritor, o que a serpente entendia por deuses; sábios comentadores afirmam que eram os anjos; responderam-lhe que uma serpente não seria capaz de conhecer os anjos, como pela mesma razão não poderia ela conhecer os deuses. Alguns acreditam que a malignidade da serpente queria, desta maneira, introduzir no mundo, a pluralidade dos deuses; mas, convém mais nos atermos à simplicidade dos textos do que perdemo-nos nestes sistemas. O Senhor passeia, o Senhor fala, o Senhor sopra; o Senhor age como se fosse um ser corporal. É que a antiguidade não possuia outra idéia da divindade. Platão passa por ser o primeiro a atribuir a Deus uma substância sutil, que não era propriamente um corpo. Os críticos perguntam sob que forma Deus se mostrava a Adão, à Eva, a Caim, a todos os patriarcas, a todos os profetas e a todos aqueles com quem Ele falava com a sua própria boca.
Os Pais da Igreja respondem que Ele tinha uma forma humana, e que não podia fazer-se conhecer de outra maneira, tendo feito o homem à sua imagem; era esta a opinião dos antigos gregos, adotada pelos antigos romanos. É evidente que toda esta narração é feita num estilo de história verdadeira e não ao sabor de uma invenção alegórica. Pensa-se em ver um mestre poderoso a quem seu servidor desobedeceu; Ele o chama e o servo se esconde e em seguida se desculpa. Nada é mais simples e mais circunstanciado; tudo é histórico. Encontra-se no Zend-Avesta a história de uma cobra caída do Céu para fazer o mal na Terra. Na Mitologia, a serpente Ophioni fez a guerra aos deuses. Uma outra serpente reinou antes de Saturno. Júpiter se transformou em serpente para desfrutar de Proserpina a sua própria filha; supondo que todas sejam alegorias, todas são difíceis ao entendimento. Uma prova indubitável de que o Gênesis nos é apresentado como uma história real é o fato de dizer-nos porque a serpente anda de rasto.
Isto nos dá a entender que antes ela tinha pernas e pés para locomover-se. É verdade que as serpentes desobedecem ao Senhor, uma vez que elas não comem terra; mas a crença de que elas a comem deve ser o suficiente. Por causa da serpente a mulher sofreu o castigo de parir com dor. Disto falamos anteriormente. Os homens, por sua vez, foram condenados a comer o pão com o suor de seu rosto. Isto é verdade quanto ao operário, ao camponês, ao homem trabalhador. Quanto aos ricos desocupados, aos ociosos, aos vadios, aos ladrões, estes estão isentos de tal punição. E assim a história se desdobra num infinito de tolices e de desobediências às ordens do Senhor. Poderiamos, ainda, penetrar em um terreno em que a serpente desenvolveu um papel diferente nas tradições dos povos primitivos, não é, porém, este, o nosso escopo.
Queremos, apenas, salientar mais uma vez, que o que se encontra entre as páginas dos livros atribuidos a Moisés, em matéria de lenda, tudo é copiado, não é original, vem de tempos imemoriais e, não há negar que o nascimento dessas lendas origina-se da velha e misteriosa India. Incontestàvelmente os católicos tem o Gênesis como uma verdade histórica. Esta transformação da raça humana, originada da maldade da serpente foi sempre olhada pelos fundadores da Teologia romana como efeito da malícia do Diabo, embora o Diabo seja inteiramente desconhecido no Gênesis. Os sábios começaram a crer que a verdadeira origem de Satã se encontra em um antigo livro dos brâhmanes que há mais de cinco mil anos se denomina Shasta. M. Dow, coronel ao serviço da Companhia inglesa das Indias e H. Holwell, sub-governador de Calcutá, traduziram diversas passagens importantes desse livro que contém a antiga religião de todos os semideuses, não pela palavra, pelo logos, mas, como disse mais tarde Platão, por um único ato de sua vontade, como é mais condicente com a essência divina.
Entre esses semi-deues se encontra um rebelde Moisazur, condenado a um inferno de longa duração e que perverteu a Terra, depois de haver pervertido o Céu. É o Arihman dos persas, o Typhon dos egípcios, o Encelade dos gregos, é enfim, o Diabo dos fariseus, que o admiram desde o tempo do restabelecimento do sanhedrim pelo grande Pompeu. O Diabo foi olhado então como um anjo rebelde, expulso do Céu e de lá vindo tentar os homens na Terra. E aqui encerramos este capítulo, certo de que a humanidade amadureceu o bastante para não poder dar crédito a estas frivolidades teológicas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.