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Capítulo 16 de 57

Parte 15 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

diferente conceito dos fatos geológicos. [ ] Eis a que ficou reduzida a geologia bíbliblica ou a sua história da formação da Terra. A Igreja romana formula seus dogmas, procura impô-los aos homens, com especialidade às massas ignorantes, grita alto que tudo é revelação divina. Chega a Ciência e zás, vai destruindo um a um esses mistérios, esses milagres inconcebíveis da criação. Milagre, mistério e dogma, tri-gêmeos nascidos na sombra. Se a luz lhes bate em cima, eles desaparecem que a mentira nunca prevaleceu ante a verdade. Spinoza, o mais célebre filósofo do XVIIº século, fez observar com muito espírito, que não será pelos milagres e pelos prodígios que se poderá chegar à conclusão da existência de Deus, mas ao contrário, pela ordem fixa e imutável da natureza, e que esta ordem permanente é um milagre imensamente maior do que a revogação passageira de uma das leis naturais. Um milagre, diz com muita razão Voltaire, é a violação das leis matemáticas, divinas, imutáveis, eternas. Por esta simples exposição, o milagre é uma contradição.

Uma lei não pode ser imutável e violada. O qualificativo imutável do latim in privação e mutabilis, inconstante, significa nenhuma mudança, não pode convir a Deus, se por um capricho estranho, Ele mesmo viola as leis que estabeleceu. Se justamente nos surpreendemos, diz C. Flammarion, pelo fato de ousarem os fisiologistas adoradores da matéria, proclamar no tom de autoridade e da certeza que o homem, assim como todo o côro da vida terrestre, não passa de um produto cego da matéria ainda mais nos devemos espantar de que haja em nossos dias espíritos cultos e até célebres que tenham permanecido tão completamente fora do movimento das Ciências físicas e químicas, que ignorem até as mais banais objeções que essas ciências opõem ao idealismo, não fazendo a menor idéia das modificações necessárias que esse movimento imprimiu a todas as concepções do pensamento humano.

Assim, nós, ainda, hoje, temos sábios, filósofos, teólogos, metafísicos, pensadores, que falam de Deus, da Providência, da oração, da alma, da vida presente e futura, das relações da Divindade com o mundo, das causas finais, da marcha dos acontecimentos, da independência do espírito, das entidades espirituais etc., nos mesmos termos e no mesmo sentido em que falava a escolástica do século XVI. Essa espécie de palradores imóveis é mais curiosa e mais inexplicável ainda que a precedente. Ao ouvi-los afirmar, num tom magistral, as proposições mais contestáveis, ao vê-los ignorar as dificuldades tão rudes que as almas mais clarividentes só com muito esforço logram vencer, ao observá-los expondo na sua facundia inexgotável e na sua ingênua segurança as suas pretensas verdades inatacáveis, julgar-se-á, na verdade, que eles adormeceram nesse memorável ano em que Copérnico, moribundo recebia o primeiro exemplar de seu livro "De Revolutionibus", e que somente acordaram hoje na inconsciência das revoluções operadas. * * * Todas as religiões dogmáticas têm a Ciência como a sua maior inimiga, porque ela vai impiedosamente destruindo dogmas, sem o intuito preconcebido de agradar ou desagradar.

Vai lentamente cumprindo o seu fado, ou seja, o de colocar o homem no verdadeiro caminho, fazendo com que este sempre marche para a frente sem impregnar-se nas velharias passadas, sem consistência, e cuja aceitação nos tempos que correm, vão se tomando ridículas. Eis o motivo pelo qual a Ciência foi sempre combatida pelo dogmatismo e de tal forma, que cérebros como o de J. J. Rousseau escritor de gênio se viu impregnado do mal das religiões, ousando, no século XIX, elevar sua voz contra ela: Povo, dizia ele, sabei de uma vez para sempre, que a natureza vos quis preservar da Ciência, como uma mãe arranca uma arma perigosa das mãos de seu filho; que todos os segredos que ela vos esconde, são outros tantos males de que ela vos preserva, e que o sacrifício que encontrais para vos instruir não é ainda o menor de seus benefícios. Os homens são perversos, e seriam piores, ainda, se tivessem a infelicidade de

haver nascido sábios. [ ] Se nossas ciências são vãs dentro do objetivo a que se propõem, elas são, ainda, mais perigosas pelos efeitos que produzem. Nascidas do ócio, elas alimentam por sua vez a ociosidade. Respondei-me, pois, filósofos ilustres, vós por quem sabemos qual a razão por que os corpos se atraem no vácuo, quais são, nas revoluções dos planetas, as relações das áreas percorridas em tempos iguais; quais as curvas que têm os pontos conjugados, os pontos de inflexão ou de retrocesso; quais os astros que podem ser habitados; quais os insetos que se reproduzem de uma maneira extraordinária; respondei-me, disse, vós de quem recebemos sublimes conhecimentos; quando não tiverdes mais coisas a ensinar-nos, seriamos nós mais numerosos, melhor governados, menos perigosos, mais florescentes ou mais

perversos? [ ] Élie Metchnikoff, Professor do Instituto Pasteur, em sua obra "Études sur la Nature Humaine", à página 279, diz que estas palavras de Rousseau eram capazes de impressionar pelo seu tom sincero e eloqüente, mas nada podiam fazer para impedir a marcha contínua e triunfante da Ciência que, justamente, no fim do XVIIIº século, realizou os seus primeiros progressos duradouros. E cita como exemplos, o sistema do mundo de Laplace, os fundamentos da Química e as leis da conservação da matéria, de Lavoisier. As revelações da Ciência não são contra o princípio da grandeza infinita do Criador, antes, nos extasiam de admiração e de espanto pela sua onipotência. Por que, pois, dar guarida a fábulas sem consistência, que envergonham a razão humana? Um dos mais eminentes filósofos do século XVIII, Leibnitz, estudando o problema da origem da alma, julga que o princípio inteligente, sob a forma de mônada, pode desenvolver-se na seqüência animal.

Huxley (Thomas Henrique), o sábio naturalista inglês, um dos mais ardentes defensores do transformismo, acha que os argumentos que ele, os seus colegas e seguidores, empregam para provar a evolução da espécie, servem, por analogia, para demonstrar a evolução do espírito e considera superficial aquele que rejeitar, por absurda, a sua teoria Gustave Geley, discípulo de Darwin, convicto, portanto, da origem das espécies e conseqüentemente, adepto do Transformismo, assim se expressa: A filosofia palingenésica está de acordo com todos os conhecimentos científicos atuais. Já demonstrei a concordância desta filosofia com a Astronomia, a História Natural, a Geologia, a Paleontologia, a Anatomia e Fisiologia comparadas, etc. No conjunto de nossos conhecimentos, em vão se buscaria um argumento sério para lhe opor. Mas o que há de mais surpreendente nesta comprovação, é o acordo da palingenesia com o evolucionismo, acordo tão perfeito, que muitas dificuldades inerentes ao transformismo serão prestes resolvidas, de modo verossímil, pelo conhecimento da teoria reencarnacionista. Os naturalistas já se vêem forçados a admitir fatores desconhecidos mais poderosos na evolução anímica e orgânica, pelo conhecimento da verdadeira

natureza do ser, bem como de seus princípios constitutivos, ainda, ocultos. [ ] Não será muito mais racional admitir a evolução da espécie, marchando paralela com a evolução do espírito? Por que não aceitaremos a teoria de Leibnitz, seguidas das dos evolucionistas partidários do moderno espiritualismo, Wallace, Huxley, Geley, com a evolução da espécie de Darwin, Spencer, etc., do que por uma questão de fé irracional, curvarmo-nos ante as frivolidades de uma gênesis bíblica há muito condenada pela Ciência? Há uma lei incontestàvelmente sábia que não pode ser esclarecida pela fé. Esta última, quando muito, pode, dentro das possibilidades humanas, imaginar a grandeza incomensurável da Inteligência e do Poder que presidiu à criação do Universo; pode ter um senso moral que, sem dúvida alguma, engrandece a espécie, quando não se limita ao terreno das teorias vazias, mas não pode acorrentar a Ciência, a Ciência que dia a dia mais ilumina, mais evolui, como evoluem a forma e o espírito.

E assim mesmo, a fé mal orientada, a fé sem raízes na inteligência, a fé dogmática, em vez de melhor interpretar o infinito Criador, restringe-o, torna-o incompreensível, apresenta-o como a suprema injustiça ante as disparidades da vida O ser Supremo não passaria de um símbolo. Para se fazer um juízo da natureza humana é necessário dar-se conta, em primeiro lugar, da origem do homem. Esta questão há muitos séculos vem preocupando a humanidade, que por muito tempo acreditou encontrar a solução deste problema nos dogmas religiosos. Aceitava-se o homem como obra divina, resultado de uma criação particular. Infelizmente, a Ciência fàcilmente demonstrou a impossibilidade de semelhante suposição. A descoberta da seleção natural e de seu papel na transformação das espécies foi aplicada ao homem por Darwin, há mais ou menos cem anos. Depois da aparição de sua obra fundamental sobre "A Origem das Espécies", pôs-

se ele a estudar, com especial cuidado, a questão da descendência do homem. [ ] Huxley, em 1863, isto é, poucos anos mais tarde, pôde dar sua exposição sumária da questão, em sua obra, o lugar do homem na Natureza. Apoiava ele seus argumentos de alto valor científico na tese de que o homem é de origem animal e que ele deve ser considerado um mamífero vizinho dos macacos e muito particularmente dos macacos antropomorfos. Entretanto apesar da exposição magistral de Huxley, se encontravam, ainda, pessoas de alta inteligência e de uma cultura elevada, que afirmam que a Ciência não deu a resposta à questão de saber

de onde viemos e que a teoria da evolução não no-lo dará jamais. [ ] Élie Metchnikoff diz que o estudo detalhado do organismo humano demonstra, de maneira definitiva, seu parentesco próximo com os macacos superiores ou antropóides. A descoberta do chipanzé e do orangotango permitiu compará-los com o homem e sugeriu a vários naturalistas eminentes, entre os quais o grande Lineu, a idéia de aproximar a espécie humana dos grandes macacos antropomorfos. Afirma o mesmo professor do Instituto Pasteur, que se comprovou com este estudo comparativo, uma analogia verdadeiramente surpreendente, que se estendia aos mínimos detalhes, entre esses organismos. Sabe-se que na história natural dos mamíferos, os dentes desempenham um papel importante, como meio de determinar as diferenças e as semelhanças. Ora, a dentição do homem se aproxima extraordinariariamente da dos antropóides. Todos conhecem os dentes de leite e os dentes permanentes do homem. Pois, bem, os macacos antropomorfos, neste sentido, apresentam uma semelhança admirável com o homem.

O número de 32 nos adultos, o gênero e a disposição geral da corôa são as mesmas no homem e no macaco antropomorfo. E por aí segue o sábio Professor em seu estudo comparativo para concluir com o mesmo argumento de Huxley: Qualquer que seja a diferença que possa oferecer a dentição do macaco mais elevado em comparação com o homem, estas diferenças são bem menores que

aquelas observadas entre a dentição dos macacos superiores e inferiores. [ ] A forma que concilia o evolucionismo com o idealismo, ou melhor, a concepção que vem completar o evolucionismo, diz G. Geley é a palingenesia, ou a doutrina que admite a pluralidade das existências da alma, ou as encarnações sucessivas e progressivas. De acordo com esta doutrina, a alma e o corpo evolvem simultânea e progressivamente. A alma ou individualidade consciente, em potencial no mineral, foi formada pouco a pouco nos reinos viventes inferiores para adquirir no homem o seu grande desenvolvimento atual. Ela cumpriu esta evolução dentro de um sem número de encarnações, nos organismos cada vez mais aperfeiçoados. A morte a que todos estamos sujeitos, é bem realmente "um episódio da vida e não a interrupção", é uma simples mudança de corpos; a alma deixa o seu invólucro como quem deixa uma roupa ímprestável, para tomar outra nova e melhorada.

Diz, ainda, o grande naturalista, que cada encarnação nova é acompanhada do esquecimento dos estados anteriores, pois o cérebro material do pensamento durante a duração da vida terrestre, é um cérebro novo e a alma que o dirige "lhe é rigorosamente solidária". Este esquecimento é momentâneo; a lembrança do passado fica toda inteira conservada, gravada na substância essencial da alma, para reaparecer depois da morte, tanto maior quanto maior for a evolução do espírito. A evolução progressiva da alma, nas suas encarnações sucessivas, se processa fora de toda a influência sobrenatural. É o resultado natural do jogo da vida: das sensações, das emoções, dos esforços cotidianos, do exercício de nossas diversas faculdades. Nada se perde; todo trabalho, todo esforço, toda alegria, toda dor, tem sua repercussão sobre a alma, se gravam indestrutivelmente, constituindo uma nova experiência, uma expansão no campo da consciência, isto é, um progresso. Assim, foram adquiridas pouco a pouco, toda a nossa sensibilidade, nossa

emotividade, nossa consciência. [ ]

Morte oficial da criação do homem bíblico Há mais ou menos cem anos, Charles Robert Darwin dava o primeiro golpe de morte na narrativa bíblica da criação do homem. E o clero, que não dorme, principalmente quando se trata de defender os dogmas da Igreja, foi mobilizado pelo bispo de Oxford, Samuel Wilbeforce, que moveu a mais tenaz perseguição ao sábio eminente. Foi, assim, o grande Darwin, como todo o pioneiro de uma causa verdadeira, vítima das maiores injustiças. A ninguém o paciente homem de ciência respondeu. Aguardou em silêncio, a crítica dos grandes vultos, seus contemporâneos. E as cartas, as mais animadoras, começaram a chegar-lhe às mãos. Hooker, o grande botânico inglês, Professor da Universidade de Glasgow e Diretor do Jardim Real de Kiew, foi o primeiro a confessar publicamente a sua conversão às teorias do autor.

Lyell, Huxley, Gray, o fisiologista Carpenter, o zoologista Sir John Lubbock, o paleontologista Jenyns, o botânico Watson, todos esses vultos notáveis formaram no exército que haveria de consagrar a verdade sobre a origem do homem, tão magistralmente exposta, com exuberância de provas, pelo gênio inconfundível do grande Darwin. R. Wallace, que descobriu ao mesmo tempo que Darwin, a seleção natural, já era um partidário entusiasta do evolucionismo. O clero, como sempre, colocou a questão evolucionista sob o terreno religioso e dizia que se a Bíblia nos havia deixado a narrativa de Noé, esta questão das origens das espécies não tinha razão de ser debatida. Os tonsurados, quase que sem exceção, fulminavam Darwin. O aludido bispo de Oxford aproveitou a reunião da Associação Britânica para dirigir contra Darwin um ataque violento. Visando a Huxley, o interpela insolentemente se era por seu avô que ele descendia do macaco. A resposta do eminente botânico foi imediata e fulminante: "Prefiro ter tido por avô um macaco que um ignorante presumido que se envolve no tratamento de questões que não entende”.

Por um contra golpe, todos os adversários da religião católica se tornaram partidários da doutrina darwiniana e assim, o clero, mais uma vez, contra os seus propósitos, foi o maior propagandista da popularidade do grande sábio inglês. E assim surgiu no planeta aquele que haveria de jogar oficialmente por terra, a teoria bíblica da criação do homem. Ernest Trattner, em sua obra magistral "Arquitetos de Idéias", diz: Ansioso por escrever sobre a aplicação da seleção natural ao homem, iniciou um “capítulo” que logo começou a crescer desproporcionadamente. Depois de várias interrupções no trabalho, em 1781 apareceu “A Ascendência do Homem”. Este livro era a réplica de Darwin aos que, havia muito tempo, lhe vinham exprobando o receio de aplicar à origem do homem as mesmas leis de que fazia uso na origem das espécies. Esta obra despertou profundo interesse em todo o mundo. Dissipou os sonhos caros aos idealistas sentimentais, que entretinham a esperança de conservar a fé na independência e na criação especial do homem.

No fecho do livro dizia Darwin: “Devemos, contudo reconhecer, em minha opinião, que todo o homem com as suas nobres qualidades, com a simpatia pela qual se irmana aos mais aviltados, com a benevolência que se estende não só aos seus semelhantes como à mais humilde criatura vivente, com seu intelecto divino que penetrou os movimentos e a constituição do sistema solar - com todas essas altas faculdades, o homem ainda traz em seu invólucro corporal o sinete indelével de sua origem

ínfima”. [ ] Eis, pois a concepção do moderno espiritualismo: “O corpo e o espírito evolvem simultânea e progressivamente”. A alma ou individualidade consciente, em potencial no mineral foi formada pouco a pouco nos reinos viventes inferiores, para adquirir no homem o seu grande desenvolvimento atual. Ela cumpriu esta evolução dentro de um número de

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.