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Capítulo 30 de 57

Parte 29 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Eis os mandamentos brahmânicos: [ ] 1º - Pecado do Corpo 2º - Pecado da Palavra 3º - Pecado da Vontade Os quais se desdobram nos dez mandamentos pela seguinte forma: Ora, Moisés afirma haver recebido as tábuas da lei no monte Sinai e das mãos do Senhor com quem falou cara a cara; e como é que se explica que esses dez mandamentos sejam encontrados nos livros védicos, muito anteriores à Bíblia? Allan Kardec, no "Evangelho Segundo o Espiritismo", diz que esta lei é de todos os tempos e de todos os países e tem, por isso mesmo, caráter divino. Todas as outras são leis que Moisés decretou para tolher a indisciplina adquirida pelo seu povo durante a escravidão do Egito. Jesus, pois, não veio destruir aquela lei, isto é, a que Kardec classifica de divina, ao contrário, não só veio cumprí-la como também desenvolvê-la, dar-lhe sentido e adaptá-la ao grau de adiantamento dos homens. Por isso é que, nessa lei, continua Kardec, se nos depara o princípio dos deveres para com Deus e para com o próximo, base de sua doutrina.

Quanto às leis de Moisés propriamente ditas, ele, ao contrário, as modificou profundamente, quer na substância, quer na forma. Combatendo constantemente o abuso das práticas exteriores e as falsas interpretações, por mais radical reforma não podia fazê-las passar do que reduzindo-as a esta única prescrição: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", e acrescentando: "aí estão a lei e os profetas". Por estas palavras diz o mestre: "O Céu e a Terra não passarão até que tudo esteja cumprido até o último ióta", quis dizer Jesus por necessário que a lei de Deus tivesse cumprimento integral, isto é, fosse praticada na Terra inteira, em toda a sua pureza, com todas as suas ampliações e conseqüências.

Efetivamente, de que serviria ser promulgada aquela lei, se ela devesse constituir privilégio de alguns homens quando todos, sem distinção nenhuma, são objetos da mesma solicitude. * * * Will Durant diz, em sua "História da Civilização", que quando penetraram no palco da História. os judeus não passavam de beduinos nômades, medrosos dos demônios do ar, adoradores das pedras, dos carneiros, dos bois. dos espíritos das cavernas e montanhas. O culto do boi e do carneiro era muito vivo; Moisés nunca pôde extirpar de sua gente a fé no bezerro de ouro, porque a adoração egípcia do touro ainda estava fresca em sua memória; por longo tempo. Jeová foi simbolizado por este herbívoro. Vemos no Êxodo como os judeus se regalavam em danças diante do bezerro, como Moisés e os levitas, ou a classe sacerdotal, mataram trezentos deles em punição à idolatria.

Da adoração da serpente existem inúmeros traços nos começos da história hebraica, desde as imagens de serpentes que encontramos nas ruinas mais recuadas, até a serpente de bronze feita por Moisés e adorada no templo até a época de Esequiel (720 a. C.). Como entre tantos outros povos, a serpente se lhe afigurava sagrada, parte como símbolo fálico da virilidade, parte como símbolo da sabedoria, da sutileza e da eternidade - ou, literalmente, pela faculdade de juntar cauda com cabeça. Baal, simbolizado em forma de pedra cônica, muito semelhante ao linga dos hindus, era venerado por muitos judeus como o princípio masculino da reprodução, o esposo da terra que ele fecundava. Assim como o primitivo politeístmo, diz Will Durant, sobreviveu na adoração de anjos e santos, e no teraphim, ou ídolos portáteis que serviam de deuses caseiros, assim, também, as nações mágicas, abundantes nos cultos primitivos, permaneceram até os últimos tempos, a despeito do protesto dos sacerdotes. O povo parece ter olhado para Moisés e Aarão como mágicos, e ter fomentado a profissão de mágicos e feiticeiros.

A advinhação do futuro era obtida por meio de dados (Urim e Thumim) sacudidos numa caixa (ephod) - ritual também usado para conhecer a vontade dos deuses. Deve ser conhecido o seguinte trecho sintético sobre as ingenuidades da Bíblia: Aparentemente os judeus, depois da conquista, tomaram um dos deuses de Canaan-Iahu, e o recriaram à sua própria imagem. Severo, belicoso, rígido, com quase louváveis limitações. Porque esse Deus não pretende ser onisciente; pede aos judeus para marcarem com sangue de cordeiro suas casas, a fim de que ele inadvertidamente não lhes destrua as crianças, confundindo-as com as crianças egípcias; não está livre de cometer erros, dos quais a criação do homem foi o pior; lamenta já muito tarde, ter criado Adão, ou permitido a Saul tornar-se rei. Mostra-se aqui e alí insaciável, irrascível, sanguissedento, caprichoso, petulante: “Eu serei bom para aqueles a quem quero ser bom e serei misericordioso para aqueles a quem quero mostrar misericórdia". Aprova em Jacó o uso da mentira para enganar Labão; sua política é flexível como a de um bispo na política.

Fala demais e gosta de fazer longas prédicas; mas revela acanhamento; não permitirá que os homens o vejam de frente - só pelas costas. Nunca houve um deus mais completamente humano. Originariamente Jeová parece ter sido o deus do trovão, morando nas montanhas e adorado pelas mesmas razões que levaram o jovem Gorki à crença quando trovejava. Os autores do "Pentateuco" para os quais a religião era um instrumento de governo, transformaram esse Vulcano em Marte, e o enérgico Jeová se tornou predominantemente um imperialístico Deus dos Exércitos a lutar com tanta ferocidade pelo seu povo como os deuses da Ilíada. "O Senhor é homem de guerra, diz Moisés; e Daví repete: Ele instrui minhas mãos para a peleja". Jeová promete "destruir todo povo em cujas terras os judeus entrarem" e pouco a pouco expulsar os hivitas, os cananitas e os hititas; e declara ser todo seu o território conquistado pelos israelitas.

Nada de pacifismo; Jeová sabe que mesmo a Terra Prometida só pode ser conquistada e conservada por meio da força; ele é um deus de guerra, porque tem de ser; só depois de séculos de derrota militar, de sujeição política e de desenvolvimento moral é que os judeus o transformaram no bondoso e amável pai de Hilel e Cristo. Como soldado, Jeová se mostra vaidoso; regala-se com o nectar dos louvores e ansioso de exibir suas habilidades afoga os egípcios: "eles saberão que sou o Senhor quando houver dominado o Faraó". Para favorecer o seu povo comete ou ordena a perpretação de brutalidades tão repugnantes para o nosso gosto como eram aceitáveis para a moralidade da época; Jeová chacina povos inteiros com o ingênuo prazer de Guliver a lutar em pról de Liliput. Porque os judeus “fornicaram" com as filhas de Moabe, ele ordena a Moisés: "Toma todos os cabeças do povo e executa-os na presença do Senhor, diante do Sol; temos aqui a mesma moralidade de Assurbanipal e Assur.

Ele promete misericórdia para os que o amam e lhe seguem os mandamentos, mas pune os filhos pelos pecados dos pais, dos avós e dos tataravós. Mostra-se tão feroz, que pensou na destruição de "todos os judeus quando os viu adorarem o bezerro de ouro; Moisés teve de discutir com ele e chamá-lo à ordem." Arrefece a tua feroz ira, diz o homem ao deus, e então "o Senhor arrependeu-se do mal que pretendera fazer ao povo". Outra vez quando os judeus se rebelaram contra Moisés, Jeová quis exterminá-los, mas Moisés apela para os seus bons sentimentos e acena com o que diria o povo se ouvisse tal coisa. Jeová exige de Abraão um cruel sacrifício humano. Como Moisés, Abraão ensina a Jeová princípios de moral e persuade-o a não destruir Sodoma e Gomorra, se houvesse 50, 40, 30, 20, 10 homens justos nas suas cidades; pouco a pouco vai ele civilizando o seu Deus, e assim demonstra a maneira pela qual o desenvolvimento ético do homem leva a humanidade a uma periódica remodelação das divindades.

As maldições com que Jeová ameaça seu povo em caso de desobediência constituem modelo de vitupério, e inspiravam os que queimavam heréticos na Inquisição ou excomungaram Spinoza. Maldito serás na cidade e maldito serás no campo. Maldito será o fruto de teu corpo e o fruto de tua terra... Maldito serás quando entrares e maldito quando saíres... O Senhor te ferirá com a tísica, com a febre, com a inflamação... O Senhor te ferirá com a úlcera do Egito e com bubões, e com a sarna e com o prurigo de que não te poderás curar. O Senhor te ferirá com a loucura e a cegueira, o desnorteamento do espírito... Também te ferirá com todas as enfermidades e

pragas que não estão escritas no livro da lei; até que sejas destruido... [ ] Isto que aí se encontra seria suficiente para desmentir a invenção de que este Deus, com todos os defeitos humanos, fosse capaz de apresentar a Moisés no monte Sinai, as tábuas da lei. Um Deus perverso, assassino, destruidor, vingativo e vaidoso, que aprende preceitos de moral de suas criaturas, não estaria nunca à altura de ditar princípios, como os que se encontram no Decálogo. Este Jeová, como demonstrou a sábia explanação de Will Durant, passou pela domesticação mais característica, foi evoluindo não a sua própria custa, pelos seus próprios esforços, mas, pela mão do homem que chegou a torná-lo o bom e misericordioso deus de Hilel. "Eu sou um deus ciumento", confessa Jeová, e obriga os fiéis a derrubarem seus rivais e a quebrarem suas imagens. Para salientar a falta de unidade existente entre os judeus, em matéria de divindade, basta verificar que antes de Isaías os judeus não pensavam em Jeová como o Deus de todas as tribos, isto é, de todos os hebreus.

O deus dos moabitas era Chemosh, a quem, a conselho de Noemi, Rute deveria permanecer fiel. Belzebu era o deu de Ekron, e Milcolm era o de Amon; eram assim, teologicamente independentes. Em um famoso cântico de Moisés, lê-se: "Quem entre os deuses é semelhante a ti Jeová"? e Salomão diz: "Grande é o nosso deus acima de todos os deuses". Will Durant diz que não somente era Tammuz aceito por todos os judeus menos cultos como um deus real, como o seu culto se tornara popular na Judéia; Ezequiel lamentava-se de que o clamor feito lá fora, no rito da morte de Tammuz, fosse ouvido no interior do Templo. Continua, ainda, o historiador a afirmar que o separatismo das tribos judaicas levava-as a terem as suas próprias divindades; "os teus deuses são em número igual ao número das tuas cidades, ó Judá"; e o sombrio profeta Ezequiel revoltava-se contra a adoração de Baal e Moloch pelos judeus. Jeová trouxe à humanidade mais terror do que consolação.

É esta a história do povo hebreu numa síntese que já pode ser apreciada e de onde se pode deduzir a impossibilidade de haver sido o Decálogo recebido entre charangas e trovões, no monte Sinai, pelo patriarca dos judeus e das mãos de um deus sanguinário e perverso. Vemos no tempo de Josias e do sacerdote Hilquias, o verdadeiro fabricante do "Pentateuco", a idolatria que reinava em seus domínios. Os altos das montanhas e os bosques continuavam a abrigar deuses de fora e a testemunhar estranhos ritos; uma boa minoria do povo ainda se prostrava diante de pedras divinas ou adorava Baal e Astané, ou praticava a arte divinatória à maneira de Babilônia, ou queimava incenso diante das imagens, ou ajoelhava-se diante de serpente de bronze ou do bezerro de ouro, ou enchia o templo com o barulho de festins pagãos ou fazia suas crianças "passarem pelo fogo" em sacrifício.

Diz Will Durant, com a sua incontestável autoridade de historiador, que mesmo altuns dos reis, como Salomão e Acab, "prostituiam-se' diante de deuses estrangeiros, o que deu motivo a que homens santos como Elizeu se erguessem contra essas práticas e sem serem sacerdotes procurassem com o exemplo de suas vidas levar o povo ao caminho da retidão. Foram os apaixonados profetas que purificaram e elevaram a fé e a prepararam para a indireta conquista do Ocidente. *** Cyro de Morais Campos, em sua "Civilização Cristã", diz que nunca é demais salientar que aquilo que conhecemos como legislação sinaítica, não passou de uma seleção ou recompilação, após o exílio, de velhas coleções de usos e ritos, mutilados e adaptados de acordo com as conveniências de um culto servido por casta sacerdotal, sedento de exclusividade e poder; que o povo, súdito tanto do reino do norte, como de Judá, antes da conquista estrangeira, era simplesmente cananeu e nunca se deixara arrebanhar sob uma religião única, mas seguia os cultos antigos, tradicionais da terra, entre os quais se infiltrou o Javé do deserto; que os preceitos morais ditos da dupla Javé-Moisés eram correntes entre todos os semitas, que os atribuiam aos seus deuses nacionais; que os chamados patriarcas pertenciam ao corpo legendário dos povos de Caná e arredores, e o nome das doze tribos estilizadas, bem como Jacó e Israel, designavam desde épocas remotas, muito antes de Moisés, lugares e povos da mesma Caná, onde se haviam como epônimos, e ao redor dos quais se teciam lendas; que Javé foi um nume fetichista do deserto e evoluiu por imitação e assimilação.

O código de Hamurabi, continua Morais Campos, além disso, recebido por este rei babilônico das mãos de seu deus Marduque, cerca de setecentos anos antes do Sinai convencional, e que não passou, então, de uma condensação, ordenação e reajustamento de velhos costumes e leis, contém em si quase toda a legislação bíblica. Van Loon, em sua obra "A Arte", 5ª. edição, páginas 63 e 64, diz que muito antes de Moisés, já Hamurabi trazia a lei das dez tábuas, sem os acréscimos infantís do Patriarca. A antiga civilização da Babilônia, depois da conquista e do domínio persa, assimilou novas idéias e concepções sobre sociedade e religião. Uma vida diferente se lhe descortinou depois que Alexandre trouxe com ele a superior cultura grega que certamente teve influência em todos os povos circunvizinhos.

O grande estadista efetuou naquele meio, uma verdadeira revolução econômica e social; mas, no terreno político não foi além da teocracia e isto se explica pela intransigencia de um clero monopolizador de riqueza e de poder, dono que era de um conceito de predestinação e de antiguidade, mas que, em realidade, não passava de uma simples congregação religiosa unida pelo mesmo caráter mercantil. Os costumes cananeus, nos quais se integravam os beduinos, aos poucos iam passando à alçada de Javé. O rito selvagem do sacrifício dos primogenitos e outras vítimas humanas passou a preocupar esse deus, tal qual acontecia a Moloque. Abraão, sem estranhar, obedeceu à ordem de imolar Isaque, só não cumprindo a determinação porque esta, à ultima hora, fôra suspensa. Vemos em "Números" - (XXXI, 28 e 40), dos despojos da vitória dos medianitas, 32 vidas humanas, dentre 16.000, foram escolhidas, certamente para serem queimadas em tributo ao Senhor. Essa triste cerimônia é mencionada de vez em quando nos livros sagrados.

Em Miquéias é referida com naturalidade: Miquéias - VI 7 - Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros? de dez mil ribeiros de azeite? darei o meu primogênito pela minha transgressão? O fruto do meu ventre pelo pecado de minhalma? Manassés (século VII), um dos últimos reis de Judá, predessessor de Josias, cumpriu o rito: Reis - XXI, 6 - E até fez passar o seu filho pelo fogo” Ezequiel consigna claramente que o triste preceito fôra estatuido por Javé sobre o "povo eleito", embora com a ressalva de que o fizera como punição, o que em vez de abrandar, marcou, no dizer de M. Campos, a barbárie com o selo da estudipez: Ezeq - XX - Pelo que também lhes dei estatutos que não eram bons e julgamentos pelos quais não haviam de viver; 26 - e os contaminei nos seus próprios dons, nos quais faziam passar pelo fogo tudo o que abre a madre; para os assolar.

Assim, se verifica que este povo de costumes tão primitivos, foi evoluindo através dos séculos, mesmo nos mandamentos que a imaginação tem como originários do Sinai, conservando, entretanto, o racismo religioso e os privilégios de oficiantes. Os mandamentos mais antigos, segundo o mesmo autor, se encontram no Cap. XXXIV do Êxodo. São da lavra do escritor Javista (século IX) e vemos alguns repetidos nos trechos do Eloista (século VIII) e onde mãos sacerdotais intercalaram, além do decálogo por nós conhecido tradicionalmente, uma circunstância da legislação de culto. Estava, pois, equiparada a série de preceitos divinos, embora os dez mandamentos modernos passassem a enumerar ordenanças mais aperfeiçoadas, o que significa que os mandamentos evoluiram, como se observará daqui por diante, até aquela forma brahmânica já por nós citada anteriormente. Vamos transcrever o texto javista com os seus dez mandamentos, de cunho antigo, e os versículos eloistas correspondentes:

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.