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Capítulo 44 de 57
Eloista — parte 13 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
[ ] Damos, agora, a palavra a Will Durant: No tempo em que os historiadores admitiam que a História começava com a Grécia, a Europa alegramente supunha ter sido a India um canteiro de barbárie, antes que os "arianos" das costas do mar Cáspio lhes levassem Arte e Ciência. Recentes investigações, porém, modificaram esta ingênua suposição como futuras investigações modificarão muita coisa dita nesta obra. Na India, como em qualquer outra parte, os começos da civilização acham-se soterrados, e nem todas as pás da Arqueologia jamais os desenterrarão. Remanescentes da velha Idade da Pedra encontram-se no museu de Calcutá, Madrasta e Bombaim; e objetos neolíticos vêm sendo desenterrados em todo o território indiano. Isso, entretanto, revela cultura, não civilização. Em 1924 o mundo sábio agitou-se com as novas descobertas da India. Sir John Marshall anunciou que seus colaboradores indianos, sobretudo R. D. Babertji, haviam achado em Mohenjo-daro, na margem ocidental do baixo Indo, restos do que parecia uma civilização mais velha que todas, dadas a conhecer até agora aos historiadores.
Lá e em Harapa, uns centos de milhas ao norte, quatro ou cinco cidades superpostas foram descobertas, com centenas de casas solidamente construidas de tijolos, algumas de vários andares, dispostas em avenidas largas e ruas estreitas. Deixemos que Sir John fale desses restos: “Esses achados estabelecem a existência, em Sind (extremo norte da Presidência de Bombaim) e no Punjab, durante o quarto e o terceiro milênio a. C. de uma cidade altamente desenvolvida, e a presença em muitas casas, de paredes, poços e banheiros, como de um cuidadoso sistema de drenagem, sugere uma condição social pelo menos igual à encontrada na Sumeria e superior à que naquele tempo existia na Babilônia e no Egito... Mesmo em Ur as casas não se comparavam, na construção, às de Mohenjo-daron”.
Entre os achados aparecem utensílios de cozinha e de toalete; cerâmica pintada ou não, feita à mão ou no torno; terracota, dados e peças de xadres; moedas mais velhas que todas as conhecidas; mil selos, na maioria gravados e com inscrições em escrita pitográfica desconhecida; objetos de faiança de excelente qualidade; pedras esculpidas superiores às dos sumerianos; armas e instrumentos de cobre e um carro de duas rodas o mais velho conhecido; braceletes de ouro e prata, colares, brincos e outras jóias "tão bem acabadas, diz Marshall", “que antes parecem vir de Bond-Street do que de uma casa pré-histórica de cinco mil anos atrás". Parece estranho, mas as camadas mais profundas desses resíduos mostraram uma arte mais desenvolvida que as das camadas superiores - como se mesmo os mais velhos depósitos fossem de ume civilização já com séculos e séculos de idade. Alguns utensílios eram de pedra, outros de cobre, outros de bronze, fazendo ver que a cultura hindú provinha de uma idade cacolítica, isto é, de um período de transição da pedra para o bronze.
As indicações são de que o Mohenjo-daro estava no apogeu quando Queops construiu a sua primeira grande pirâmide; que tivera ligações comerciais, religiosas e artísticas com a Suméria e a Babilônia; e que sobreviveu três mil anos, até o século III° a. C. Não queremos dizer como Marshall que o Mohenjo-daro representa a mais velha das civilizações conhecidas. Mas a exumação da India pré-histórica está apenas começada; só em nossos tempos a Arqueologia se voltou do Egito e da Mesopotâmia para a India. Quando o solo indiano estiver revolvido como o daquelas zonas, talvez encontremos uma civilização mais velha do que a que
brotou da lama do Nilo. [ ] Como é evidente, deixamos mais um depoimento de valor, em defesa de nossa tese, isto é, da antiguidade da lndia. Pré-histórica é a religião dos Vedas; histórica é a religião fundada sobre a utilização dos textos Vedas - Esta se chama Brahmanismo e é estudável de modo positivo. “A religião vivida pelos aédos que compuseram os hinos mais antigos, fica, assim,
para nós um enigma”. [ ] Veit Valentin é uma das mais proeminentes figuras do mundo intelectual alemão, e sua obra projeta-se pelos principais centros de cultura de nosso tempo. Segundo a crônica, ele não é um mero vulgarizador de fatos importantes da humanidade; sobretudo, um intérprete arguto bem informado das ocorrências fundamentais processadas nos domínios do social. Vejamos o que nos diz da India, este homem eminente: "Gostariamos de saber quão antiga realmente é a civilização mais romota. O calendário egípcio começa a 19 de julho do ano 4.241 antes do nascimento de Cristo. Mas os estados tribais da região do Nilo deviam já se encontrar então em um estado de civilização que não era mais primitivo. Muitos investigadores estão certos de que os mais antigos túmulos de Ur na Caldéia são anteriores à primeira dlnestia do Egito. Uma civilização sumeriana peculiar, sem ligação com outra qualquer tinha-se formado aí. Só por este motivo o hábito até aqui seguido de começar a História Universal pela do Egito já não poderia prevalecer.
Mas novas descobertas poderão novamente cencelar a precedência dos sumerianos. Melhor nos parece ao invés de nos atermos à cronologia extrínseca tentar seguir uma ordem de sucessão conforme o valor e a essência das coisas. ... De conseqüências mais importantes do que quaisquer outras foram as migrações dos antigos povos indo-europeus, provaàvelmente estabelecidos nas regiões atuais da Ucrania. O extremo norte, dadas as suas condições climatéricas não pode ter sido a pátria de origem desses povos primitivos. Por isto, a denominação de nórdicos extensiva a grupos parciais desenvolvidos posteriormente, como os germanos, por exemplo, é errônea. Da atual Ucrania imigraram os mais tarde denominados germanos, celtas e eslavos, para o norte e leste, regressando depois, os mais tarde gregos e itálicos para o sudoeste, os posteriormente armênios, persas e hindús para o sul e oriente, e estes depois ainda mais para o sudoeste. Certamente, porém, isso não importa em unidade, nem em pureza de raça.
O conceito de hindo-germanos é, pois, inaplicável e é melhor ser evitado, porquanto, para o leigo medíocre exclui os celtas e eslavos, de fato equivalentes, e tacitamente a eles pertencentes. "Arianos", quer dizer "distintos”, "nobre senhores”, intitularam-se assim posteriormente os persas e os indianos enquanto estiveram juntos; só a estes deveria, por certo, ser aplicada a tão mal empregada designação; surgiu como termo estabelecendo a distinção entre o superior e o subordinado e só pode valer de fato como expressão da terminologia histórico-linguística. Quando os hindo-arianos em sucessivas ondas emigraram para a India, esta parte separada do resto do continente asiático, pela mais formidável muralha de montanhas da Terra, já era o cenário de uma variada cultura que, conforme as últimas descobertas pode ser traçada até o quarto milênio. As antigas cidades à margem do Indo revelam um luxo nas habitações, uma perfeição de técnica arquitetônica, de ferramentas e de jóias, como quase não se encontra ainda em outras partes. Lá foram também encontrados os primeiros restos de tecidos de algodão.
Os símbolos religiosos dessa civilização se mantiveram vivos na religião hindú e no budismo posteriores. Sob o ponto de vista racial, esta população indiana pré-ariana já apresenta uma complicada mestiçagem, em que entra a população aborígene da India, a chamada raça Veda, de que ainda hoje são vestígios, no interior, as tribos de pigmeus dravinianas e mundas. Este tronco de população aborígene se viu muito cedo invadido por povos do nordeste e do noroeste. Assim, chegaram à India tipos mongóis, da Ásia Menor, e do Mediterrâneo - elementos que se conservaram até hoje e que podem ser comprovados. Esta alta civilização da antiga India se baseava econômicamente numa pecuária largamente desenvolvida; só o cavalo era desconhecido. O comércio entre a India e o Mediterrâneo só se iniciou na primeira metade do terceiro milênio. A decadência dessa primeira civilização indiana, data, sem dúvida, das emigrações arianas, pois estas decidiram o destino da India; mas esta foi, por fim, mais forte do que os arianos. ... A Filosofia indiana foi menos desenvolvida pelos brâhmanes do que pelos leigos.
O espírito indiano aspirava e lutava por uma verdade real acima do estarrecente ritual dos sacriflcios, acima da mágica infantil. O que havia antes do “princípio?” - “Qual foi a origem da vida?”. Assim chegou o Rig-Veda ao “Amor” como a força criadora que tudo peneira, ao “Uno" em contraposição ao "Múltiplo" da realidade, a alma do mundo. A transmigração da alma, a antiga idéia religiosa dos povos, foi então mencionada no Ulpanichad; o indivíduo tem que viver sempre em novas encarnações enquanto não possuir o verdadeiro conhecimento do "atman", o princípio da vida; do renascimento de
cada ciclo doloroso de vida resultará como uma redenção. [ ] Como se verifica, são muitos os historiadores que afirmam a considerável antiguidade da Índia e corno vimos anteriormente, ela foi, sem contestação, a mãe das Religiões, das Ciências, das Artes, das Letras e da Filosofia. Voltando a urna anterior citação, diz, ainda, Will Durant, em sua "História da Civilização", que essas deleitosas histórias da Criação, da Tentação e do Dilúvio foram tiradas das lendas da Mesopotâmia, velha de 3.000 anos antes de Cristo. E que é muito possível que os judeus se aproximassem de alguns dos mitos da Babilônia durante o cativeiro; é mais provável ainda que os tomassem das antigas fontes semitas ou sumarianas (?), comuns a todo o Oriente Próximo. As formas pérsicas e talmúdicas no mito da Criação representam Deus fazendo um ser de sexo macho - e fêmea pelas costas, como os irmãos siameses - depois dividindo-os por achar melhor.
Lembra-nos a estranha sentença do Gênesis (v. 2): Macho e fêmea criou-os ele, abençoou-os, e chamou-lhes Adão; isto é, nossos primeiros pais foram originariamente macho e fêmea - o que parece haver escapado a todos os teólogos, exceto a Aristófanes. A lenda do Eden, continua Will Durant, aparece em quase todos os folclores, na índia, no Egito, no Tibet, na Babilônia, na Pérsia, na Grécia, na Polinésia, no México, etc. Muitos jardins do Eden possuem árvores e serpentes ou dragões que roubam a imortalidade do homem, ou envenenam o Paraíso. Ainda mais universal é a história do Dilúvio; dificilmente um povo antigo não o via em seu corpo de lendas, e poucas são as montanhas da Ásia que não foram o uncoradouro de algum Noé ou Shamas-Napisthin. Há quem tire dessas lendas suculentos conceitos filosóficos. Não nos revoltamos contra isso. Somos admirador da Filosofia, apreciamos a poesia que sentimos desprender-se dessas lendas tão cheias de simplicidade.
Que se explique ou que se ensine, então, a Bíblia, dentro da Filosofia que ela possa conter para que não se torne, aos olhos da humanidade que a lê, um amontoado de incoerências, uma babel de contradições, um manual de falsa ciência e um compêndio de imoralidades. Se a India é a mais antiga de todas as civilizações, se os livros que ela possui têm uma idade que se perde na noite dos tempos; se esses livros são possuidores de todas as lendas consignadas na Bíblia, é lógico que foi a Bíblia ou os escritores que a fizeram que foram beber naquela mesma India misteriosa as legendas de que tratamos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.