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Capítulo 12 de 57

Parte 11 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

[ ] Está, assim, exposta, através das diversas considerações que se encontram neste capítulo, o pensamento do moderno espiritualismo, isto é, do Espiritismo. Em contraste com um Deus caprichoso e injusto que nos apresenta o Catolicismo romano, a doutrina dos Espíritos nos mostra um Criador sábio e justo, que dá igual destino a todas as suas criaturas. O mal existe sob um infinito de modalidades. A explicação de sua origem, dada pelas religiões dogmáticas, não pode ser aceita, nem levada a sério. Assim considerando, nos torna vítimas dos erros cometidos pelos nossos "primeiros pais". Deus, para os que assim pensam, fica reduzido a um ser caprichoso, que se diverte com o sofrimento de suas criaturas. Na concepção materialista, segundo o Dr. Gustave Geley, há injustiça clamorosa, por outra razão: porque existem milhares de indivíduos sacrificados ao progresso, sem qualquer compensação, enquanto milhares de seus semelhantes que usufruirão mais tarde do progresso devido aos esforços e aos sofrimentos de seus ancestrais nada fizeram para o merecer.

Se não encontramos uma explicação plausível a esta dupla verificação, é que a injustiça é a base do Universo. Como se nota, estas concepções são insuficientes. E o são porque qualquer que seja o progresso futuro, o mal existirá sempre. Menos freqüente, ele será mais doloroso, devido ao aumento de nossa sensibilidade física e moral. É, pois necessário sempre sofrer e chorar, sem esperanças e sem consolação, no caso de uma catástrofe irreparável, tal seja a morte de um ente querido. Os grandes filósofos pessimistas, não se deram ao trabalho de demonstrar com seus argumentos e outros análogos, a vantagem que o mal levará sempre sobre o bem. Mas, ponto essencial, isto é verdade, pois, se o mal é tal qual nós o consideramos atualmente, significa que é dotado da importância irreparável que se lhe atribui. Se, ao contrário, ao monismo clássico ajuntarmos a hipótese da imortalidade individual, então, tudo se aclara: O mal não sendo mais em todos os casos, senão um estado transitório e sempre reparável perde a maior parte de sua importância pretendida.

Acrescentemos a esta hipótese da imortalidade individual a noção da evolução da consciência individual, desde que ela se esboçou no vegetal e no animal inferior até o seu desabrochar no homem e nos estados super-humanos, e a injustiça aparente do Universo desaparece. Não há mais, com efeito, nesta idéia, nem privilegiados, nem sacrificados; todos evolvem da mesma forma, da base ao vértice; todos serão compensados de seus esforços depois de sofrerem uma soma sensivelmente igual de provas e de dores. Eis a forma que concilia o evolucionismo com o idealismo, ou melhor, tal é a concepção que vem completar o evolucionismo. É a doutrina chamada palingenesia, isto é, a doutrina que admite a pluralidade das existências da alma, ou as encarnações sucessivas e progressivas. De acordo com esta doutrina, a alma e o corpo progridem simultânea e progressivamente. A alma ou a individualidade consciente, em potencial no mineral, foi formada pouco a pouco nos reinos viventes inferiores, para adquirir no homem o seu grande desenvolvimento atual. Ela cumpriu esta evolução dentro de inumeráveis encarnações nos organismos cada vez mais aperfeiçoados.

A morte, da qual ninguém escapa, “é bem realmente um episódio da vida e não a sua interrupção”, é uma simples mudança de corpos; a alma deixa o seu invólucro como se deixa uma roupa imprestável para tomar outra nova e melhorada. Naturalmente, cada encarnação nova é acompanhada do esquecimento dos estados anteriores, pois, o cérebro, órgão material do pensamento durante a duração da vida terrestre, é um cérebro novo e a alma que o dirige "lhe é rigorosamente solidária". Este esquecimento é momentâneo; a lembrança do passado fica toda inteira conservada, gravada na substância essencial da alma, para reaparecer depois da morte, tanto maior quanto maior for a evolução do espírito. A alma, com efeito, não é mais este princípio imaterial e incompreensível do velho espiritualismo. A alma não está nunca isolada da força e da matéria. Ela "é uma parcela individualizada do princípio único", é pois força e matéria ao mesmo tempo que inteligência.

Seria dotada efetivamente de acordo com as teorias ocultistas de um veículo etérico, imponderável, inacessível aos sentidos materiais, escapando de certo modo às condições de espaço e de tempo. A evolução progressiva da alma, nas suas encarnações sucessivas, se processa "fora de toda influência sobrenatural". É o resultado do jogo natural da vida; das sensações, das emoções, dos esforços cotidianos, do exercício de nossas diversas faculdades. Nada se perde: todo o trabalho, todo o esforço, toda a alegria, toda a dor, tem sua repercussão sobre a alma, se gravam indestrutlvelmente, constituindo uma nova experiência, uma expansão no campo da consciência, isto é, um progresso. Assim, foi adquirida pouco a pouco toda nossa sensibilidade, nossa emotividade, nossa consciência. "Nous ne sommes donc jamais que ce que nous sommes fait nous mêmes! ". Daí uma sanção assegurada e perfeita para todos os nossos atos; desfrutamos os progressos adquiridos, mas sofremos pela nossa imperfeição persistente, por nossa sujeição às forças inferiores, por nossa ignorância, causa essencial de nossa escravidão vis-à-vis da natureza.

Sofremos, também, pelas más inclinações que deixamos que se instalassem em nós. O mal que nos atinge é, pois: Ou bem uma conseqüência de nossa inferioridade atual, que não nos permite o elevar-nos acima dela, como o mal físico, o sofrimento material; como a maior parte dos sofrimentos morais, o mal intelectual, a sensação de nossa fraqueza ou de nossa impotência, como, também, o mal geral inerente a nosso estado de civilização ainda tão inferior. Ou, ainda, o mal é a conseqüência de nossos atos anteriores, pois, nada se perdendo de nosso passado, cada uma de nossas ações, cada um de nossos pensamentos tem sua conseqüência fatal, sua reação inevitável “em uma ou outra de nossas existências. Nos dois casos o mal é útil: ele é o aguilhão que nos impede de imobilizar-nos em nosso estado atual, que nos adverte, assim que nos encontramos em má estrada e nos concede a força para seguir a boa. O mal é, assim, o principal fator de nossa elevação progressiva.

É, em uma palavra, a medida da inferioridade dos mundos e dos indivíduos, a condição necessária do progresso futuro e também, em certos casos, a sanção do passado. O mal assim compreendido, não tem mais que um caráter relativo, transitório e sempre reparável. De mais, ele é sentido, dentro de uma medida idêntica, por todos os individuos, porque as condições gerais do desenvolvimento, são no fundo as mesmas para todos; porque os acasos felizes e infelizes se compensam em uma série suflclentemente longa de encarnações. Pode-se dizer, em suma, que se as concepções são verdadeires, não há mais mal real, no sentido absoluto que damos a este termo; que não há mais injustiça no Universo; mas em toda parte realizado ou em via de realização, um ideal superior de bondade e de justiça; um ideal levando a todos a certeza da felicidade futura no "desenvolvimento indefinido da consciência e do triunfo espiritual”.

Com essas idéias, enfim, a grande lei da solidariedade tudo domina, solidariedade magnífica ligando, no passado, o presente e o futuro, não somente toda a humanidade, mas tudo o que pensa, tudo o que vive, tudo o que é; compensando em uma "igualdade geral e total" as desigualdades passageiras e parciais resultantes da lei do esforço e da

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.