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Capítulo 17 de 57

Parte 16 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

encarnações nos organismos cada vez mais aperfeiçoados. [ ] Gabriel Delanne, um dos luminares do Espiritismo no mundo, professa as mesmas idéias, e vai além, propaga-as. Quem quiser conhece-las não terá mais que folhear sua obra "A Evolução Anímica" e terá por inteiro o pensamento do grande escritor e espiritualista sobre o assunto. Louis Figuier, na introdução de seu livro "Le Lendermain de la Mort", diz com convicção que cada ser organizado é ligado a um outro que o precede e a um outro que o segue, na escala da criação vivente. A planta e o animal, o animal e o homem, se unem, se soldam um ao outro; a ordem física e a ordem moral se confundem. Resulta daí que aquele que crê haver encontrado a explicação de um fato qualquer, tomada na organização, é logo compelido a estender esta explicação a todo o conjunto dos seres viventes, a remontar anel por anel, a toda a cadeia da natureza. Camille Flammarion é da mesma opinião e muitos outros espíritos fulgurantes, pioneiros de nossa doutrina filosófica.

Seria, porém, fastidioso ao leitor, a enumeração daqueles que pensam de igual maneira e a transcrição integral ou mesmo parcial de seus pontos de vista. Ao que, porém, não nos podemos furtar é tomar conhecida a teoria do mestre sobre este magno assunto. Kardec, tem sido para nós sempre a última palavra, porque as concepções vindas do Alto e enfeixadas por ele nos livros básicos da doutrina espírita ainda não foram desmentidas pela Ciência. E se, dentro de suas ponderações pessoais, esta mesma Ciência, vier um dia provar o contrário delas não tenham dúvida que acompanharemos a Ciência, porque foi sempre este o seu conselho e nós sabemos que o homem recebe a verdade em doses homeopáticas e de acordo com a época em que vive. A verdade não conhece mistérios, nem dogmas, nem milagres. A necessidade de enganar, de iludir faz parte sempre dos mesmos mistérios, dogmas e milagres. Eles são, pois, filhos do erro e da impostura.

Estão sempre, como diria J. Dupuis, fora dos limites da razão e da verdade, e é lá que se lhes deve procurar a origem. A maior revelação divina de todos os tempos continua sendo, ainda, a Ciência, a desbravadora incansável das forças da natureza esta mesma Ciência que não contente em desvendar as coisas da Terra, estendeu suas vistas até as coisas do Céu e que hoje, sem prestar atenção a dogmas, a mistérios, a milagres, penetra fundo no terreno da espiritualidade. Porque o Espiritismo mais se impõe no conceito dos homens eminentes? Por que dia a dia ele ganha mais terreno e se apossa das consciências. Tem sido pela força bruta, pela força do dinheiro, pelo crê ou morre da intolerância católica? Não. O Espiritismo vai vencendo, porque superando as religiões, ele é também Ciência e Filosofia. O nosso ponto de referência do qual não afastamos os olhos um só instante, é Deus. Dois caminhos nos levam a Ele: a Moral e a Ciência.

Mas, deixemos de divagações e nos embrenhemos nas concepções de Kardec: No ponto de vista corporal e puramente anatômico, o homem pertence à classe dos mamíferos, da qual apenas difere pela forma exterior; no mais, tem a mesma composição química que todos os animais, os mesmos órgãos, as mesmas funções e modos de nutrição, respiração, secreção e reprodução; nasce, vive e morre nas mesmas condições, e pela morte o corpo decompõe-se como o de tudo quanto vive. Não há na sua carne, no seu sangue, nos seus ossos, um átomo diferente daqueles que se acham nos corpos dos animais; como estes, ao morrer, restitui à terra o oxigênio, o hidrogênio, o carbono, o azoto que se achavam combinados para o formar, e vão, por novas combinações constituir novos corpos minerais, vegetais e animais. A analogia é tão grande, que as suas funções orgânicas são estudadas em certos animais, quando as experiências não podem ser feitas nele próprio. Na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos blmanos.

Imediatamente abaixo, vem os quadrúmanos ou macacos, entre os quais alguns, como o orangotango, o chipanzé, o mono, afetam as maneiras do homem a tal ponto que, por muito tempo, foram conhecidos por homens dos bosques; como o homem, eles andam com os pés, servem-se de bastões, constróem cabanas, e levam os alimentos à boca com as mãos, sinais estes caracteristicos. Por pouco que se observe a escala dos seres sob o ponto de vista orgânico, reconhece-se que, desde o lichen até a árvore, desde o zoófito ao homem, existe uma cadeia que se eleva gradualmente, sem solução de continuidade e da qual todos os elos se ligam entre si; seguindo-se passo a passo a série de seres, poder-sela dizer que cada espécie é um aperfeiçoamento, uma transformação da espécie imediatamente inferior. Visto que o corpo do homem, além de estar em condições idênticas às dos outros corpos, química e constitucionalmente, nasce, vive e morre do mesmo modo, deve ter sido formado nas mesmas condições.

“Apesar do que possa custar a seu orgulho, o homem deve resignar-se a ver apenas em seu corpo material o último traço da animalidade sobre a Terra”. O inexorável argumento dos fatos aí está, e contra ele se protestaria em vão. Quanto mais o corpo diminui de valor a seus olhos, mais aumenta de importância o princípio espiritual; se o primeiro o põe ao nível do bruto, o segundo o eleva a incomensurável altura. Vemos o círculo onde pára o animal; não vemos, entretanto, o limite a que pode atingir o espírito do homem. O materialismo pode ver por aí que o Espiritismo, longe de temer as descobertas da Ciência e o seu positivismo, vai além e os provoca, por ter certeza de que o princípio espiritual, que possui existência própria, não pode sofrer dano algum. O Espiritismo marcha no mesmo plano com o materialismo; sobre o terreno da matéria admite tudo quanto este admite, mas do ponto aonde o último pára, ele vai além.

O Espiritismo e o materialismo são como dois viajores que caminham juntos partindo do mesmo ponto; chegados a certa distância, diz um: “Não posso ir mais longe"; o outro continua o seu caminho e descobre um mundo novo. Por que motivo diz o primeiro que o segundo é um louco, só porque este, entrevendo novos horizontes, quer franquear o limite onde convém ao outro parar? Cristovão Colombo não foi também tratado como louco porque acreditava num mundo além do oceano? Quantos loucos sublimes não conta a História, que fizeram avançar a humanidade, e aos quais se teceram coroas depois de se lhes ter lançado lama! Pois bem! O Espiritismo, esta loucura do século XIX, segundo aqueles que querem ficar na plaga terrestre, descobre-nos um mundo mais importante para o homem do que a América, porque nem todos os homens vão à América, entretanto, todos, sem exceção, vão para o mundo espiritual, fazendo incessantes travessias de um para o outro. Chegados ao ponto, em que nos achamos, o materialismo pára, enquanto que o

Espiritismo continua as suas investigações no domínio da gênesis espiritual. [ ] As leis que regulam os mundos criados por Deus são imutáveis. Não estão sujeitas a milagres. Elas não obedecem a fantasias humanas como as que foram tecidas pelos autores do Gênesis. Deus não as revoga nunca para dar demonstrações de seu poder a vermes como nós. À Ciência está confiada a tarefa de conhecê-las. A Religião, pois, para que não pereça, terá de andar de braços dados com ela. Do contrário, será fadada ao desaparecimento. De tudo o que ficou dito, podemos concluir que a imagem e semelhança com Deus, que a Bíblia, nos atribui, é tão verdadeira como a do macaco antropomorfo ou a mônada de Leibnitz. A gênesis mosaica pode ser para muitos um poema de rara beleza, um sonho bom, um conto de fadas, a poesia sinfônica que nos deleita o ouvido, uma lenda perfumada que nos embala a alma através de muitas encarnações e que, por isso, se encontra gravada nas profundezas de nosso subconciente.

Pode ser tudo isto e tudo o mais que quiserem; mas não é Ciência, não é a verdade. * * * Poderiamos encerrar aqui este capítulo. Provamos com ele aquilo que pretendiamos, isto é, que os grandes vultos do alto espiritualismo científico são partidários da evolução do espírito em marcha paralela com a evolução da espécie; o que vem confirmar que nada se perde no domínio da matéria como, também, no domínio do imaterial e podemos, assim, firmar este princípio, ainda novo, de filosofia moral ao lado do princípio de filosofia química, estabelecido pelo gênio de Lavoisier. Abramos, pois, mais um espaço para transcrever aquilo que nos conta Charles Trufy em seu livro "Causeries Spirites", editado em Paris, em 1897. São fragmentos da história do Espiritismo, desconhecidos por 99% dos que seguem esta doutrina luminosa. Fala Trufy de um capitão de cavalaria, residente em Paris, mestre incontestável da doutrina dos Espíritos, conhecido, apenas, por capitão Bourgés, amigo de A. Kardec, que publicou uma obra de grande repercussão naquela época.

O nome da obra serve perfeitamente para enriquecer a defesa de nossa tese. O título que o diga: “Psychologie Transformiste-Evolution de l'Intelligence". Não excitemos por muito tempo a curiosidade do leitor, melhor será que deixemos pontificar o capitão Bourgés: Ao começar a publicação de nossos artigos sobre o transformismo, cremos dever explicar o seu objetivo e finalidade. Imaginamos que nosso trabalho pudesse completar os dados do transformismo moderno, com o auxílio dos clarões que a ciência psicológica lança sobre a questão, cuja primavera parece despontar em nossos dias. Consideramos também que devem não somente esclarecer-nos sobre os nossos destinos, mas, vir, ainda, em auxílio da ciência positiva externa. Esta Ciência não vendo senão o lado material, não pode conceber tudo e ficará incompleta, conseqüentemente inexata, se ela não for mantida pela ciência psicológica. Foi lendo as obras de Kardec que nos surgiu a idéia de fazer pesquisas sobre a origem da alma.

De acordo com o ensinamento de certos espíritos, a alma começa a sua evolução no baixo grau da criação e a continuaria sempre e progressivamente. Eis porque poderíamos dizer que, em todo o ser vivente, a alma está submetida a um desenvolvimento contínuo e que, para a felicidade do homem, ele possui já uma história individual de sua evolução. A Psicologia Comparada nos revela, aliás, que tanto no homem, como no animal, há uma longa escada de diversos degraus de desenvolvimento e, em cada homem como em cada animal, a alma é submetida a uma lenta transformação. Eis aí um fato psicológico de uma grande importância que nos pode colocar no caminho das modificações e das grandes variedades que Darwin assinala na estrutura animal. A inteligência e os órgãos se desenvolvem por degraus insensíveis em cada existência. Estes graus têm virtudes de adjunção, durante a vida, parcelas inteligentes se agregando pela lei da afinidade. É isto de qualquer sorte, como já o dissemos, a história da evolução do espírito.

Nosso sistema se apóia no próprio ensinamento dos espíritos, encarregados de estabelecer a doutrina espírita. Eis aqui algumas passagens do "Livro dos Espíritos", ns. 666 e seguintes, que submetemos à apreciação dos leitores, para lhes mostrar que nossa teoria não é, apenas, uma hipótese. Ela poderia parecer fantasia aos olhos dos positivistas, mas os espíritas que leram as obras do mestre reconhecem geralmente que o homem tem uma origem animal. Os animais tiram o princípio inteligente que constitui a espécie de alma de que são dotados, no elemento inteligente universal. A inteligência do homem e a dos animais emanaria, assim, do mesmo princípio. O espírito conclui suas primeiras fases em uma série de existências que precedem o período da humanidade. A alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, e é nestes seres, os quais estamos longe de conhecê-los a todos, que o principio inteligente se elabora, se individualiza e se ensaia para a vida.

É de qualquer forma um ensaio preparatório em seguimento do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e chega a se tornar espírito. É então que começa para ele o período de humanidade, e com ele, a conscíência de seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade de seus atos. Depois da morte, o animal conserva sua individualidade, seu espírito é classificado pelos espíritos encarregados desta missão e quase logo utilizado. Ele não dispõe de tempo para se pôr em relação com outras criaturas, nem para a escolha de reencarnar-se em um animal de preferência a um outro; ele deve seguir a lei do progresso. Eis aí em verdade, o transformismo. Antes mesmo que a obra de Darwin, sobre a origem das espécies, fosse traduzida em francês, nossos guias espirituais nos davam a marcha a seguir para descobrir na criação os segredos que se encontram escondidos.

Eles nos fazem antever todas as alegrias íntimas que se desfruta no estudo da natureza, admirar as riquezas fósseis de animais e de vegetais que se distinguem na superfície terrestre, e eles se sentem felizes quando nos vêem seguindo as suas boas inspirações. Portanto, as almas dos seres organizados que viveram nas diversas épocas geológicas, onde estão elas? Encontramos seus destroços materiais, mas o que é feito de seus espíritos? Estão, por certo, reencarnadas. A matéria animada não está unida à alma senão por algum tempo; com a morte ela se separa. O espírito sobe, assim, a escada do progresso por sucessivas encarnações, cumprindo sua evolução, passando por toda a série animal, e depois de milhões de séculos, vem fazer sua aparição na humanidade. Segundo estes dados, a alma se edifica gradualmente por adjunção progressiva de elementos espirituais através de suas diversas encarnações.

Como é precisamente a totalidade desses valores que, unindo-se em uma íntima harmonia, constitui o eu consciente, uma vez atingindo por fortuna a humanidade, pensamos ser a nossa hipótese legítima para chegar o espírito à perfeição. Quando os antropóides, o gibão, o orangotango, o gorila e o chipanzé houverem atingido o último grau da animal idade e que não tiverem em sua espécie nenhum progresso a atingir, estas almas rudimentares, deixando seus corpos, serão dirigidos para uma nova encarnação. Nascendo de novo entre nossos ancestrais, estes antropóides tomam uma forma aperfeiçoada, aproximando-se da do homem, dos quais foram os precursores. Eis aqui o homem primitivo da época dos quelónios, contemporâneos do mamute. Ele tem a fronte baixa, a dolicocéfala, e possui todos os caracteres simeanos. Esta época, base dos quaternários, se distingue pelos instrumentos grosseiros dos quais se serviam os primeiros homens. Atravessamos a longa época glacial do Musgo. Encontramos o homem em luta com o grande urso da caverna, para procurar um asilo e preservar-se do frio.

A época seguinte Solutreana, que foi aquela do Mamute e da Rena; aquela de Magdaleine foi, também, na sua quase totalidade a da Rena. Foi durante esse longo período de 200.000 anos, que o homem fez o seu progresso evolutivo. Seu organismo muda e se aperfeiçoa; seu cérebro se desenvolve, formando novas circonvoluçães e, em virtude da lei de afinidade, atrai para si um número de parcelas psíquicas proporcional a seu próximo grau de evolução. Quando Kardec fez sua viagem espírita em 1862, nos veio visitar em Provins, onde nos encontravamos acampados; tivemos a alegria de ter o mestre alguns dias conosco. Em sua palestra ele não nos escondeu nossa origem animal, e nos falou do progresso que devia fazer o espírito para chegar à perfeição. Ele nos recomendou, sobretudo, de aprofundar todos os ramos da Ciência, assegurando-nos que nos elevaríamos por ela, e que encontraríamos no "Livro dos Espíritos" os elementos para tudo conhecer e tudo abraçar. Também em 1868, davamo-lhes conta da marcha de nossos trabalhos e da descoberta que julgavamos haver feito no estudo das obras de Darwin.

Era a evolução do espírito tal qual nós o expomos hoje. Não foi senão em 1876 que conseguimos faze-lo em Paris, num estudo mais aprofundado do transformismo psicológico. Percebe-se, para os verdadeiros espíritas, para aqueles que leram as obras do mestre, que nosso sistema filosófico nada tem que deva surpreender e que seja contrário aos princípios da doutrina que os espíritos nos ensinam. A nós espíritas compete estendê-la cada vez mais e cada vez mais desenvolvê-la. O transformismo que não é senão uma reencarnação contínua é, pois, um ramo do Espiritismo, e a Ciência, que se desinteressa por enquanto de nossa doutrina, chegará à verdade pela explicação racional do fenômeno. De outro modo, entre os quinhentos ou seiscentos membros da Sociedade de Antropologia, um grande número admite nossa origem simiesca. Acham eles que não há nada neste parentesco que nos deva humilhar. Outros, isto é, a maior parte, descrendo da imortalidade da alma, pouco se importam com essa descendência.

Mas, no momento em que houverem reconhecido a evolução do espírito, serão menos recalcitrantes que certos espíritas que recusam, preconcebidamente, render-se evidência. Não esqueçamos, entretanto, que seremos obrigados a voltar à Terra e a aprender tudo o que negligenciamos estudar. O espírito, para a maior parte dos nossos, é como que envolto em um vidro opaco que a luz não pode atravessar; mas assim que a nossa inteligência haja adquirido o seu desenvolvimento, que esteja isenta de preconceitos, de orgulho e de ignorância, então ele poderá ver claramente na obra

de Deus. [ ] Eis, leitores, a gênesis que o Espiritismo aceita com referência ao homem. É um tanto diferente, convenhamos, daquela que os autores do "Pentateuco" descreveram em seu primeiro livro. Comparemos as duas. A primeira, saída da sombra do milagre e a segunda, das luzes de uma Ciência que tudo ilumina. Qual delas será maior, a mais condicente com a lógica? Em qual das duas vamos encontrar uma equidade infinita ou seja aquela de um Criador a dar destino igual a todas as suas criaturas? Deus, dentro da Ciência, apesar de ser impossível descrevê-lO, tornase imensamente maior do que quando aparece aureolado de lendas inverossímeis, a resplandecerem milagres que são a derrogação de suas próprias leis. Deus neste caso seria uma contradição. Se suas leis são imutáveis, elas logicamente não podem ser derrogadas. Que Deus tenha piedade da cegueira humana e mais piedade, ainda, daqueles que, intitulando-se seus representantes, conduzem tão mal o seu rebanho, pelo menos sob o ponto de vista intelectual.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.